FODIDOS

O navio de Robert Falcon Scott, Terra Nova, visto de uma gruta na Antártica, em 1911. Fotografia de Herbert Ponting, Popperfoto/Getty in 100 Years of Great Press Photographs, The Guardian, 7/11/2009. O diário de Scott, encontrado junto ao seu cadáver, continha a seguinte introdução: “Se acaso sobreviver terei uma lenda para contar sobre a bravura, força e coragem de meus companheiros, que irá engrandecer o coração de todos os Britânicos”. Todos losers, sem vocação, fracassados, perdidos, cacos do que deveriam ser, farrapos, maus partidos, divididos todos, nenhum milhão à vista, esses quebrados, desossados, odisseus sem coroa, sem manto, sem Helena, aquela. Não há para onde retornar – mas isso só se sabe durante. A terra nova é estrangeira e familiar, uma diversa próxima, polimorfa sim, e na névoa, a velha sereia vencedora vai ter a última palavra, derradeira dadeira, o não. “A EMIGRAÇÃO DOS POETAS Homero não tinha morada E Dante teve que deixar a sua. Li-Po e Tu-Fu andaram por guerras civis Que tragaram 30 milhões de pessoas Eurípedes foi ameaçado com processos E Shakespeare, moribundo, foi impedido de falar. Não apenas a Musa, também a polícia Visitou François Villon. Conhecido como “o Amado” Lucrécio foi para o exílio Também Heine, e assim também Brecht, que buscou refúgio Sob o teto de palha dinamarquês.” Bertolt Brecht, poema de 1933-1938 in Poemas 1913-1956. São Paulo: editora 34, 6ª. ed., 2001, p. 121. Tradução de Paulo César de Souza.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h53
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NAVEGAÇÃO

Uma visitante olha uma escultura de Anish Kapoor na Royal Academy em Londres. Fotografia de Johnny Green/PA in The Guardian, 10/11/2009. “Os homens, ao elegerem o sol como símbolo da força que esclarece a mente, idealizam energias que não possuem. Odisseu navega entre o reino da luz e a escuridão dos calabouços profundos. Na mescla desses dois extremos transcorre a vida. Atacar o rebanho de Hélio foi ato tão arriscado quanto roubar o fogo dos deuses. Em ambos os casos as divindades lesadas punem os infratores. Se os homens respeitassem os limites a que estão confinados nunca deixariam de ser crianças. Rebeldia sem riscos não há. Ousar é lutar pela vida.” Donaldo Schüler no posfácio “Odisséia, a epopéia das Auroras – parte 2” em sua tradução da Odisséia in Odisséia II – Regresso. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 277.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h56
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RETORNO

Autorretrato, fotografia e desenho de Cynthia Karin Cortes. Mario Serenellini foi se desencontrar com Theo Angelopoulos em Montreal, que lhe disse, de viés: «Heidegger dice che la nostra identità è la lingua di nostra madre. Ma anche l´aroma dell´infanzia, i suoni, i visi, i profumi, contribuiscono a creare un´identità, che non è, si voglia o no, quella dichiarata. Siamo sempre alla storia di Omero, all´Odissea: si decide di partire e si finisce per tornare. Anche se non si sa, alla fine, se si è tornati davvero». «Heidegger diz que a nossa identidade é a língua de nossa mãe. Mas o aroma da infância, os sonhos, os olhares, os perfumes contribuem também para criar uma identidade, que não é, queira-se ou não, somente aquela declarada. Estamos sempre na história de Homero, na Odisséia: decidir partir ou concluir o retorno. Ainda que não se saiba, no final, se de fato o retorno aconteceu.” Theo Angelopoulos a Mario Serenellini in La Repubblica, 8/11/2009.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h42
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A MORTE DE UMA UNIVERSIDADE

Anúncio da Universidade Bandeirante, UNIBAN, publicado na primeira página do caderno Metrópole do Estado de São Paulo, 8/11/2009. A peça publicitária acima é para se ler, guardar e colocar a partir de agora em todas as cartilhas de alfabetização e provas de doutorado país afora. Ela vem com um título estranho chamado “responsabilidade educacional”, se apresenta com um slogan bonitinho e ordinário, “a educação se faz com atitude e não com complacência” e tem como único objetivo dizer que considera a aluna Geyse Villa Nova Arruda uma puta, uma provocadora, uma inadequada, uma desequilibrada, uma não-cidadã, uma desrespeitadora dos “princípios éticos”, “dignidade acadêmica” e “moralidade” da “universidade bandeirante”. Ainda mais: há um “conselho superior” que, depois de analisar os “fatos apurados”, decidiu então queimar a bruxa, livrar-se de todo o mal e, no final, a cereja no topo do bolo, convida seus “alunos” e “alunas”, “professores”, “funcionários”, “a comunidade” e “a mídia” para um “ciclo de seminários” em “data a ser oportunamente informada”. Nenhuma palavra sobre os agressores, nenhum nome de ao menos um deles para ser punido, nada disso, ao contrário, a defesa explícita do fascismo, a “reação coletiva de defesa do ambiente escolar”. Em resumo, a vítima foi autora do crime! É hora do Ministério da Educação fechar esta farsa intitulada “universidade bandeirante”. Essa é uma das páginas mais sórdidas já escritas em nome da violência, da prepotência e da canalhice. Esse anúncio demonstra que os agressores de Geyse representam também os ideais da instituição que freqüentam, ou seja, o ódio à diferença, a perseguição implacável a quem ousar fazer qualquer coisa fora do padrão e a expulsão exemplar e rápida contra a complacência de quem aí se enquadrar. A Universidade Bandeirante morreu. Sem querer, seu “reitor”, que sequer assina o próprio nome, seu “conselho superior” (o que será isso?), assinaram o obituário da instituição que representam. Falta de coragem ou “princípio ético” número um do lugar, o anonimato? Vida longa para Geyse Villa Nova Arruda, uma mulher. Com nome e sobrenome.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h24
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