Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br
PARA RECORDAÇÃO
Fotografia de Emily Graham/Millennium Images in The Guardian, 10/10/2009.
“Quando partia, Tchetchevítzin tinha o rosto taciturno, orgulhoso, e, despedindo-se das meninas, ele não disse nem uma palavra; apenas pegou o caderno de Kátia e escreveu, para recordação:
‘Montihomo, o Garra de Abutre’.”
Tchekov em “Meninos”. Tradução de Tatiana Belinky in “Lendo Tchekov” de Janet Malcolm. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 354.
“Parecia-lhe que, passado qualquer mês, Ana Serguêievna se envolveria numa névoa na sua memória, e só raramente apareceria em sonho com o seu sorriso comovente, como as outras mulheres. Mas passou mais de um mês, chegou o inverno profundo, e na sua memória tudo continuava claro, como se ele tivesse se despedido de Ana Serguêievna apenas ontem”.
Tchekov em A Senhora com o Cachorrinho. Tradução de Tatiana Belinky in “Lendo Tchekov” de Janet Malcolm. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 190.
“Passaria um mês, mais ou menos, e Ana Sierguéievna, tinha a impressão, cobrir-se-ia de bruma em sua memória, e somente de raro em raro ia aparecer-lhe em sonho, com seu tocante sorriso, tal como outras apareciam. No entanto, decorreu mais de um mês, chegaram os rigores do inverno, mas tudo permanecia nítido na memória, como se a separação de Ana Sierguéievna tivesse sido na véspera”.
Tchekovem A Dama do Cachorrinho in “A Dama do Cachorrinho e Outros Contos”. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: 34, 4ª. ed., 1999, p. 324.
Programa “Mosaicos – A Arte de João Pacífico”, produzido pela TV Cultura de São Paulo, com participações de Liu e Léo, Marisa e Osvaldinho Viana, Freddy e Maria Antonia, Otávio Augusto e Gabriel, Wilson Teixeira e Cláudio Lacerda.
Foi ontem. Estava eu distraído escutando a indispensável Rádio Educativa do Paraná, quando fui fulminado por um raio. Trata-se da maravilhosa “Tapera Caída” do poeta inesquecível João Pacífico. Foi a guerra. As defesas feitas para defender, atacaram. O que estava organizado, desandou. Meu nome, esqueci. Despertei muitas horas depois, caído, feito a tapera – para saber que esse é o meu estado permanente, nada momentâneo. E não é que tocaram ela de novo? Desgraçados. Tentei desligar o rádio, não consegui. Minhas mãos não obedeciam mais, minhas pernas correram para ela. Escutei de novo até o meu fim – tapera caída. Sem remédio.
“Tapera Caída” de João Pacífico.
Cabocla, se ocê soubesse Quanto meu peito padece Sofrendo tanta maldade Vancê, eu sei, num se ria, Mostrando tanta alegria, Vendo eu chorar de saudade. Essa saudade marvada, Que fez no peito morada, Depois que ocê me deixou, Como tapera caída Que foi p'os mato invadida Depois que os dono mudou. Vancê num sente saudade, Ri de felicidade, Tem outro amor, Tem prazer. Mas vancê, eu sei, De contente, Tem inveja dessa gente Que não sabe o que é sofrer. Cabocla se ocê soubesse Quanto meu peito padece, O que já passei na vida, Vancê roçava esse mato Que invadiu só de ingrato Essa tapera caída. Mas eu comparo a saudade Com essa grama tiririca, As foia verde se arranca, Mas a raiz sempre fica. E o coração é morada, Sem morador não tem vida. Vorte a reconstruir Esta tapera caída
Desenho de Rachel Kneebone para o cartaz do espetáculo “In The Spirit of Diaguilev”, no teatro/casa de dança Sadler’s Wells em Londres, de 13 a 17 de outubro de 2009 in The Guardian, 7/10/2009.
É uma das homenagens mais lindas a Diáguilev. O desenho de Rachel Kneebone recupera o que significou o trabalho desse russo genial quando, em 1909, criou a companhia de dança “Les Ballets Russes” ao encomendar a Igor Stravinski a composição de O Pássaro de Fogo. Neste desenho, o corpo impossível de Diáguilev, um eco de Platão, o corpo do desejo de Freud, o corpo sem querer de Lacan, real, simbólico e imaginário, o corpo próprio do modernismo – fusão, confusão, condensação, deslocamento, metáfora e metonímia. Como diz Peter Gay em seu monumental “Modernismo”:
“No entanto, o historiador que avalia o papel da dança no modernismo deve atribuir um lugar de destaque a Diáguilev. Nenhum dos balés que ele criou para o repertório jamais poderia ser apresentado na Rússia, fosse na era imperial ou, após 1917, na era comunista – eram modernos demais para ambos os regimes. Na época tsarista, ainda prevaleciam as convenções do balé oitocentista, e depois da Revolução a interferência crescente do Estado soviético na autonomia artística simplesmente impediu qualquer compromisso sólido dos Balés Russos com uma coreografia modernista. Isso, por si só, demonstra a devoção sistemática de Diáguilev aos prazeres da heresia. Seu quartel-general era a elegante Monte Carlo e, naturalmente mais decisiva para sua fama e influência, Paris.”
Peter Gay in Modernismo. São Paulo: Cia das Letras, 2009, p. 264.
Que síntese formidável! O que havia na fantasia de Diáguilev de tão desestabilizador para não caber nem na Rússia imperial nem na Rússia revolucionária? A resposta se chama o inconsciente. Ele é esse insuportável – daí minha discordância de Peter Gay. Não se trata só dos “prazeres” da heresia, mas também das dores, muitas dores, aliás, distinção essencial entre os conceitos psicanalíticos de prazer e de gozo - que às vezes ganha um nome bonitinho como “modernismo”, outras vezes “les ballets russes”, algumas vezes dá público, outras vezes exige a saída de um país, certos dias dá para se virar, outros dias não, uns o imaginam sob controle, fingem ser seu organizador, outros o matam diariamente e alguns fazem análise com ele. O insuportável exige.
Desde 1952 eu combato o NO. Desde chineses monstruosos, russos infames, negros zumbis do Harlem, gays bizarros da África do Sul e até aqueles sul-americanos desgraçados, brasileiros tontos, colombianos drogados e imbecis bolivianos. Tudo pela Inglaterra, Senhor, esse IN tão bonito que sempre me levou para dentro das Pussys, ao redor das Honeys, através das Octopussys – uma variante melhorada das Pussys -, na direção das Jinxies, até chegar onde não consegui, Senhor, o território das Olgas – pulemos esta parte. Agora, diante de seu último pedido, eu digo NO. Supositórios-bomba? Nada me preparou para isso, Senhor. Não há Q, não há A nem B nem C que me faça entrar nessa – desculpe a expressão, Senhor, saiu sem querer. Por quê? Perdoe a crueza, mas vai dar merda. Desculpe.
Da obra-prima “Mulholland Drive” [“Cidade dos Sonhos”] (2001) de David Lynch.
O inconsciente a céu aberto – difícil, caótico, repetitivo, insistente, força constante. Em outras palavras, é o olhar de Justin Theroux (Adam Kesher) para Naomi Watts (Betty Elms) exatamente da 13ª. para a 16ª. razão – no intervalo delas, no caminho – the way – do beijo – your kiss -, da voz – your voice – desses laughing eyes que são secret sighs desse complete tentado com o nose, com as clothes, com esses whispering on the phone, contorno, desvio, o nome da nossa via, vida.
Written by Bill and Doree Post Performed by Connie Stevens
(Sixteen Reasons) Why I love you.
(1)...The way you hold my hand (2)...Your laughing eyes (3)...The way you understand (4)...Your secret sighs
They're all part of sixteen reasons Why I love you
(5)...The way you comb your hair (6)...Your freckled nose (7)...The way you say you care (8)...Your crazy clothes
That's just half of sixteen reasons Why I love you
(9)...Snuggling in the car (10)...Your wish upon a star (11)...Whispering on the phone (12)...Your kiss when we're alone (13)...The way you thrill my heart (14)...Your voice so neat (15)...You say we'll never part (16)...Our loves complete
Foi muito divertido acompanhar a dor de cotovelo de São Paulo na véspera da decisão sobre a sede das Olimpíadas de 2016. Desde Janio de Freitas na Folha de São Paulo, vaticinando o pior, com um mau humor da peste, até o Estadão com manchetes sobre pregos super faturados no último Pan-americano, houve de tudo...do contra. Acontece que o dia seguinte chegou e, não bastasse a vitória do Rio de Janeiro, outra notícia preocupante cai agora sobre a cabeça dos habitantes da grande metrópole: Ciro Gomes quer “aprofundar” as suas “relações” com São Paulo. Olha, não sei não. O que será esse “aprofundar relações”? Não é preocupante isso? Eu, se fosse morador de São Paulo, depois dessas, olha, numa boa, eu decidia ir morar definitivamente na província de Curitiba. Eu sei, não é a capital, não é São Paulo, mas por aqui não haverá a Olimpíada de 2016, não haverá Ciro Gomes, não haverá Rio de Janeiro. Em compensação, haverá, digamos, espere um pouco, como é mesmo o nome daquele grande evento, não, aquele outro, como? Foi cancelado? Ai, ai, ai...mas fica pertinho de Florianópolis, viu?