AS ONDAS DE EROS

“Femme à la vague” [A Mulher nas Ondas”] (1868) de Gustave Coubert. “As Lágrimas de Eros” é o nome da exposição. Iniciará dia 20 de outubro em Madri, até 31 de janeiro de 2010, no Museu Thyssen-Bornemisza. Não vou falar aqui de pulsão sexual, não vou falar da pulsão de morte, não vou falar da Eva de Avedon, a magnífica Nastassia Kinski enrolada pela serpente, ou, melhor, não será ela quem enrola a pobre bichana? Me recuso a falar da primeira parte da exposição chamada “O Beijo”, ai, ai, ai, já pensei não sei por que naquela cigana encantadora do Miguel Sousa Tavares que diz ao menino antes do sexo: “Niño, amor mío, dulzura mía, ¡cómo eres guapo! Vás a vivir dos vidas, no una sola. Te vas a casar, harás hijos...pero distintos. Vas a viajar...muy lejos. Vas a amar, muchísimo, vas a sufrir y harás sufrir. Al final, te perderás, te encontrarás, no sabría decirlo, pero la decisión será tuya. El camino lo haras tu” (fonte: Rio das Flores, ed. Cia. das Letras, 2008, p.18). Não é belíssimo isso? Que cigana querida! Me desviou, me desencaminhou e depois fugiu de Carazinho para nunca mais voltar, desgraçada, mas não vou falar de Santo Antônio, nem do Aparecida – o nome do colégio de onde ela saiu, tal Vênus - nem de êxtase amoroso – ai, ai, ai - muito menos nos preservativos que o Museu vai distribuir com a mulher nas ondas de Coubert impresso neles (fonte: Ángeles García in El País, 2/10/2009) – o leitor já pensou o que significa utilizar, digamos, esse “objeto” naquela, vamos ver a palavra, hora preciosa – ou melhor, precisa! -, ter uma mulher nas ondas envolvendo, protegendo, homenageando, como dizer, as lágrimas de Eros? Não é lindo isso? A propósito, o nome da exposição e seu projeto foi retirado do maravilhoso livro de Georges Bataille chamado “Les Larmes d’Éros” – infelizmente ainda não traduzido em português. Há uma ótima edição em espanhol pela editora Tusquets (1997). De qualquer modo, em português há os indispensáveis “O Erotismo” pela Arx (2004) e o magnífico “História do Olho” pela CosacNaify (2003). História do olho? Ai, ai, ai, o balançar daquela cigana...
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h02
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GOD SAVE ENGLAND

“Bem-vindo à Grã-Bretanha – Ministro de Israel enfrente ameaça de prisão por crimes de guerra durante visita ao Reino Unido” Fonte: Ian Black e Ian Cobain in The Guardian, 30/9/2009. A fotografia, simbólica, que ilustra a reportagem, é da Reuters. Sensacional! A Grã-Bretanha mais uma vez dá o exemplo. Durante a visita do ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, ao Reino Unido, um grupo de advogados que representam 16 palestinos, pediu ao tribunal de Londres a emissão de um mandato de prisão imediato contra Barak, devido à sua participação na Guerra de Gaza, em dezembro do ano passado, baseando a petição no Criminal Justice Act de 1988, que confere aos tribunais da Inglaterra e Gales jurisdição universal contra crimes de guerra. Furioso, o governo de Israel respondeu que seu ministro detém “imunidade diplomática”. Segundo a reportagem do The Guardian, o grupo de defesa dos direitos humanos de Israel, B’Tselem, calculou que 1.387 palestinos morreram durante os ataques de Israel, sendo que 773 deles não tomaram parte das hostilidades, ou seja, vítimas civis. Os advogados britânicos disseram acreditar que houve um precedente no mandato emitido em maio do ano passado para a prisão de Omar al-Bashir, presidente do Sudão, acusado de cometer crimes de guerra em Darfur. Quem diria que um dia Israel estaria no mesmo banco dos réus que uma reles ditadura sanguinária africana ou de um mega-genocida como Augusto Pinochet, também preso quando de visita médica à Inglaterra? É verdade que provavelmente o Sr. Barak vai voltar correndo para Israel. É verdade que obviamente o atual governo de Israel vai acusar os advogados ingleses de anti-semitismo. Agora, é verdade que esse homem não pisa mais na Grã-Bretanha. E, se for só por isso, valeu! Se for só por essa notícia do The Guardian, valeu! Que manchete magnífica! Um dia, existiu um grupo de advogados colocando um poderoso ministro para correr de volta para seu país. Um dia, existiu um jornal com a coragem de estampar isso no alto de suas páginas. E um dia, certamente, Israel conseguirá também levar para a cadeia seus criminosos de guerra. Um dia. Enquanto isso, nós nos entretemos com o amador do Roberto Micheletti em Honduras. Que bobagem. Quanto poderíamos aprender com os profissionais do atual desgoverno de Israel?
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h09
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ATRAVÉS DO ESPELHO

Not Myself Today (1992) de Russell Connor, sobre as obras Madame X (1884), de John Singer Sargent e Girl Before a Mirror (1932), de Pablo Picasso, na capa da The New Yorker de 23/11/1992, sob a editoria de Tina Brown. Ela era para ele como essa menina diante do espelho, que se vê outra, longe, enigma e possibilidade, a esperança de caber bem ali, e também essa mulher que se desencontra subitamente fora do quadro, a que poderia ter sido se, como ela teria gostado, as duas refletem o que dele ali se funde, interseção, a sua busca do que falta para, amar um reflexo, eco longínquo, antigo, vital.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h35
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SEM QUERER

Fotografia de Thomas Lagrange. Bolsa Fendi no lago Tam Giang em Hue, antiga capital imperial do Vietnã in The New York Times Style Magazine, Travel Fall 2009, 27/9/2009. Após a promessa de nunca mais, ela esqueceu sua bolsa, com endereço e telefone, mais o cartão de acesso ao quarto do hotel.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h31
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