Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br
MARION
Marion Cotillard por Annie Leibovitz em anúncio da Dior in La Repubblica delle Donne, 26 de setembro de 2009.
No caminho de ida que é também de saída, ela não espera ninguém. Simplesmente ela escolheu aquilo que a empurra, aquilo que a leva até aí – ela escolheu-o. Se ele virá ou não, isso não importa mais. Ele já veio, e isso basta. Ele já vive nela, já pulsa misturado ao coração. É por isso que ela acolhe com serenidade em sua bolsa essas coisas da memória, fiapos, adereços, costuras que revelam o corte, deixam à mostra as cicatrizes que os encontros provocam, pontes da diferença entre o buscado e o encontrado, e com suas mãos, ela refaz a trajetória, a história de toda a sua vida em um único gesto, o de acolhida, como ela fez da última vez, segurar com delicadeza o fluxo da vida em sua carne feita de letras – dor, dio, rio, id, ir.
“A memória é como areia em minhas mãos”, Agnès Varda a Richard Williams in The Guardian, 25/9/2009.
Querida Agnès,
O que não escorre pelas mãos, o que não voa ao vento, o que a água não puxa, por mais que seja apenas um grão, sólido, é isso que me mantém, sem nada, exceto tudo.
Anish Kapoor é o que resta. Nascido na Índia de mãe judia de origem iraquiana e pai hindu, esse artista internacional até a raiz do cabelo, que não é de nenhuma nacionalidade, e por isso estranho, bizarro, deslocado, à margem, procura o não-objeto, dá forma ao informe, esculpe o ar, faz buracos para o limbo, foi ao majestoso Centro Cultural Banco do Brasil no Rio e no magnífico Viaduto do Chá em São Paulo recriar Deus em uma coluna de fumaça, aposta no descontrole total sobre a criação, desnormaliza qualquer medida e padrão, é pintado e é bordado em cada trabalho, desaparece agora na Royal Academy of Arts em Londres com uma retrospectiva e novos trabalhos, como esse “trem” de cera que atravessa, penetra, vai e volta, e goza pelas bordas dos arcos clássicos, arcos formosos, arcos bonitinhos, arcos virgens, agora devassados, percorridos, lambuzados, nunca mais os mesmos. É curiosa a comparação que o crítico Adrian Searle fez no The Guardian de 22/9 entre o “trem” de Kapoor e o trem de Magritte que sai de uma lareira em uma obra de 1938 chamada “Time Transfixed (La Durée poignardée)”. É uma forma elegante de permanecer em uma estação quando a proposta de Kapoor é o avesso, é o movimento que um corpo faz dentro de outro, o sexo masculino na vagina feminina, a tesão da diferença e o interior dos corpos, o que não se vê, a matéria fecal, restos, dejetos, minúcias, pedaços de pele, células vermelhas, o hímen de uma arte que se queria sublime, intocável, pura, posta de quatro, ordinária, humana criatura. Anish Kapoor não é.
O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, dorme em um divã na Embaixada brasileira em Tegucigalpa, enquanto a polícia cerca a casa e corta a água, luz e telefone – fotografia Reuters in El País, 23/9/2009.
Houve George Washington cruzando o rio Delaware. Houve Che Guevara endurecendo sem perder a ternura. Houve Simão Bolívar, o Libertador, de pé em Cartagena das Índias. Houve o Marechal Deodoro saindo da cama de manhã para saudar a República batendo à sua porta. Houve Pancho Villa, a cavalo, em Columbus. Houve Salvador Allende no Chile. Mudei eu ou mudou a história? Agora há Manuel Zelaya dormindo. Em um divã, ainda por cima! Deitado, estirado, roncando, dormindo! Vossa Excelência, um divã não foi feito para dormir. Foi feito para despertar!! De qualquer modo, graças ao presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, a partir de hoje todos os reservistas serão convocados para a guerra contra a ditadura de Honduras. Pelo ar, mar e terra, o Brasil reagirá. O Minas Gerais já recebeu a ordem do presidente e se encontra neste momento...onde mesmo? Vamos pular essa parte, nas próximas 720 horas a Marinha deixará claro a posição da belonave. A única certeza é que o norte dessa missão é a Bahia, Ivete Sangalo, Olodum, a praia da ilha do desejo – ai, ai, ai -, digo, as Islas de La Bahía. De minha parte, desembarco hoje em Cruz Alta com as obras completas de Érico para me apresentar na Artilharia Divisionária Brigadeiro Gurjão, da 3ª. Divisão do Exército – da divisão do sujeito à terceira é um passo! O plano de invasão começará em Manto, através do 1º. Batalhão de Infantaria de Selva – não se sabe o que há nesse mato - depois a Força de Ação Rápida Estratégica, nem tão rápida nem tão estratégica, por favor, seguirá para Santa Bárbara e só a partir daí Honduras conhecerá o braço forte para depois receber a mão amiga brasileira. Tegucigalpa amanhecerá com o Batalhão dos Caçadores Paraquedistas unidos à Brigada de Operações Especiais – sem duplo sentido, a hora é grave. Tudo terminará em Esperanza – inclusive é a melhor pizza de São Paulo, que saudade! E nossa aeronáutica, essas asas que protegem? Aguarda-se nos próximos 360 dias a chegada dos caças Rafaele da França. Até lá Dilma estará eleita e o PAC será lançado de Choluteca à Nacaome e de Yuscarán até Comayagua e a Petrobrás, o Banco do Brasil e a Receita Federal já estarão espalhados por todo o território hondurenho. O presidente Lula já comprou uma residência permanente em Yoro, para o dia seguinte à vitória. É por isso que eu luto – Lula lá!
Camilla Horn em cartão postal alemão Ross Verlag nº. 4845/1, 1929-1930. Fotografia: Atelier Binder, Berlim, Alemanha.
Foi assim que a shadow of your smile entrou, essa shadow de outra shadow, shadowiness, feito raios de sol, e então, when I remember spring, outono, verão e inverno, eu viro e reviro essa shadow, worn to a shadow, para me reencontrar com você, tão próxima, tão distante, como apreender o que não se pode tocar? Shadowy.
“Ária (Cantilena)”, primeira parte das Bachianas nº. 5 de Heitor Villa-Lobos, composta em 1938, interpretada por Jorge Aragão na abertura do DVD “Jorge Aragão ao vivo Convida”, da Indie Records Universal, 2002.
Na tarde lenta e transparente, tua nuvem, bela, grita o céu, a terra, toda a natureza, como uma brisa amolecendo o coração, que martela, dia e noite, a cruel saudade que ri e chora, anseios d’alma, esse samba, meu bem, é o resto de nós dois – infinito.
Fotografia de Stefania Paparelli para Elle Magazine Itália, editorial de Amelanna Loiacono intitulado “Niagara”, em homenagem a Marilyn Monroe e o filme “Niagara” [Torrente de Paixões] de Henry Hathaway, 1953, no qual interpreta Rose Loomis.
Uma mulher, no espelho, contempla sua descida, atada como um véu, de noiva, imóvel na correnteza, sem saber se isso é o nome desse movimento ou o retrato de si mesma, sete vezes, sete quedas, aquela que se precipita, aquela que se atira para baixo. Katarrháktés, teu nome é mulher.