Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br
MARE
“Mare clausum” de Vechy Logioio, bronze fundido, 2009, na exposição “Escritura Cifrada” in Galería Rubbers Internacional, Buenos Aires, até 30 de setembro.
Houve um dia sim em que ele decretou mare clausum, assinou mais de um tratado, se declarou rei d’aquém e d’além-mar e se achou senhor da conquista e da navegação, deu tiros de canhões, desenhou cartas geográficas, riscou mapas, cifrou sua marca de todas as maneiras possíveis, vivia inquieto, desconfiado, aprisionado em sua própria loucura. Hoje, ele vê que o mais bonito desse mar é sua absoluta inclausura, sua mais total incapacidade de caber numa medida, descabido, seu movimento de onda, que vai mas volta, ressaca de dons, ofertados sem obrigação para quem o merece, aquele que agora se chama súdito, amante liberum.
Fotografia de Damon Winter na primeira página do The New York Times, 17/9/2009.
A névoa cai agora como chuva molhada, gruda na pele, esfumaça, se mistura, encobre e esvanece, é a névoa, é a névoa, neblina branca como a neve, clarão do nada na passarela, o centro de toda essa gravidade.
Namorados apaixonados, encantados, maravilhados, loucos de tesão, no mirante da Bastilha, na Place de la Bastille, Paris, 1957. Fotografia-poema, manifesto, carta-testamento de Willy Ronis.
Em 1957, Willy Ronis subiu no mirante da Colonne de Juillet [Coluna de Julho] e tirou essa fotografia de um casal de namorados. Em 1988, durante uma exposição, um desconhecido se aproximou e lhe disse: “eu conheço os seus “amantes de Paris” [como a foto é conhecida], eles têm um bistrô próximo daquele lugar”. E aí então:
“Je suis allé les voir, ils s'appelaient Riton et Marinette, et j'ai vu qu'ils avaient le poster encadré dans le café, qui se trouvait à l'angle de la rue du Faubourg-Saint-Antoine et de la rue des Tournelles. Ils m'ont accueilli cordialement. Ils n'étaient montés qu'une seule fois sur la colonne, ils s'en souvenaient parfaitement. Ils venaient de l'Aveyron et, à l'époque, ils n'avaient pas encore le bistrot. Ils ne l'ont eu que deux ou trois ans plus tard, alors qu'ils étaient mariés. Et le plus étonnant, c'est que sur la photo, dans la direction où ils regardent, on voit le coin de l'immeuble où se trouve le bistrot !”
Willy Ronis à Virginie Chardin.
“Eu fui até eles, se chamavam Riton e Marinette, e eu vi o pôster [da foto] pendurado na parede do café, situado no ângulo das ruas do Faubourg-Saint-Antoine e da rua des Tournelles. Eles me atenderam cordialmente e lembraram que subiram uma única vez a coluna. Tinham vindo de Aveyron, mas, na época, ainda não tinham comprado o bistrô – o que fizeram depois do casamento, dois ou três anos mais tarde. O mais impressionante desta foto é que na direção em que eles olham se localiza o imóvel onde está o bistrô!”
Willy Ronis à Virginie Chardin in “Paris et la photographie. Cent histoires extraordinaires, de 1839 à nos jours”, Parigramme, 2003.
Giovanna Battaglia com bolsa Sara Battaglia e sapatos Alaia in New York Fashion Week por Jak & Jil blog, 15/9/2009.
As setas a querem ali, e ela, lá, a tinta lhe diz por onde deve ir, e ela, alheia, a linha reta exige assim, e ela, curva, a imaginam inteira, e ela, em camadas, o piso, duro, e ela, voa, a cidade, e ela, periférica, a moda, e ela, eterna, um perfume, e ela, o meu, o sucesso, e ela, labirinto, a relação, e ela, desproporção, o grito, e ela, o canto, a terra, e ela, desvio, una, e ela, várias.
Patrício, te falo de uma chama feita com o sangue de valentes, que deram a vida por uma causa, que fizeram o que fizeram porque não sabiam que era impossível. Te falo de gente de bem, têmpera de ferro, como aquele topetudo que perguntou, mui concho, ao imperador: “então vossa majestade tem gostado disto por aqui?”, “sim, muito”, respondeu o imperador todo feliz, ao que o guasca sapecou “então por quê não se muda pra cá, com a família?”. Te falo de uma chama feita dos ossos desses chirus madurázios desconhecidos, miseráveis, enterrados sem lápide nem sepultura, e que, mesmo assim, brigaram, choraram de saudade, correram eguada, homens. É uma chama de gente leal, várzea lisa, longe dos não me toques, ainda que vizinhos, gaúchos de alma. É uma chama de Carazinho, flor de tuna, rever meu bem querer, camoatim de mel campeiro, chama de Rosário do Sul, linda chama, chama de Cruz Alta, Érico chama, chama do Alegrete, pedra moura das quebradas do Inhanduy, chama de Rio Grande, Porto Alegre, Uruguaiana, chama de Santa Maria, chama do Passo Fundo, para decorar tua geografia. Essa é a chama crioula, que queima na cara dos fracos, que queima na cara dos covardes, que queima na cara de quem não tem mais cara nem coração, é uma chama contra os ratos do Dionélio, é a chama que iluminou Iberê, é a chama da vela do negrinho, para encontrar de volta o que se perdeu. A chama vive em cada Ana, em cada Bibiana, em cada Sílvia, em cada Ondina, oceano, a chama vive em cada Rodrigo, em cada Fandango, em cada Toríbio, em cada Roque, em cada Floriano. A chama crioula vive, a chama crioula queima, ela é chamamento e é chamamé, o nome desta chama é Rio Grande do Sul.
Taís Araújo em anúncio de “Viver a Vida”, novela de Manoel Carlos, Rede Globo de Televisão in O Estado de São Paulo, 14/9/2009.
Obrigado Manoel Carlos. Você escolheu uma negra e maravilhosa atriz para ser Helena. Obrigado. Foi no dia 7 de setembro ou 6 de setembro agora, na indispensável coluna de Ancelmo Gois no Globo, que apareceu uma fotografia de crianças brincando em um parquinho do Leblon no Rio de Janeiro e umas sete babás ao redor delas. As sete babás eram negras. Que uma negra apareça em uma telenovela não mais como mãe pobre, não mais como garçonete, não mais como empregada doméstica, não mais como babá, não mais como prostituta, essa, Manuel Carlos, é tua vitória, é tua página magistral na história deste Brasil racista, enrustido racista, explícito racista, pobre racista. Obrigado, Manoel Carlos. Ver hoje e nos próximos oito meses essa atriz excepcional, Taís Araújo, no papel principal, essa Helena como uma mulher não-anoréxica, não-branca, não-babaca, essa Helena querida, uma atriz de verdade, que sabe interpretar, sabe representar, sabe fazer a gente chorar, sabe fazer a gente gostar, sabe fazer a gente vibrar, é um presente inesquecível. Parabéns Taís Araújo, obrigado Manoel Carlos. A vida é mais bonita com vocês.
“Prelude à L’après-midi d’un faune” [Prelúdio à tarde de um fauno] de Claude Debussy (1894), regido por Leopold Stokowski à frente da London Symphony Orchestra in Royal Festival Hall, Londres, em 14 de junho de 1972 – parte 1.
Diante do entardecer, ele fingiu. Fingiu que não haveria interrupção, fingiu que não haveria a perda, fingiu que não haveria o adeus. É a única forma de amar de verdade: fazer de conta.
“Prelude à L’après-midi d’un faune” [Prelúdio à tarde de um fauno] de Claude Debussy (1894), regido por Leopold Stokowski à frente da London Symphony Orchestra in Royal Festival Hall, Londres, em 14 de junho de 1972 – parte 2.