Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


PASSAGENS

         “Existiu uma Passage du Désir.”

         Walter Benjamin in Passagens. Belo Horizonte: UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006,p. 90.

         É passadouro, é de ferro, de vento, de névoa, é liga e mistura, tece o entre dois, três, é uma cerzideira de pontos miúdos e traços que formam uma borda, recorte, é a tessitura de um percurso, o desfile próprio dos passantes, passageiros onde o rumo é o passo a passo, no leito e na rua, rio. Existe.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h40
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DEPOIS DA CHUVA

 

“Rue Saint Honoré après-midi. Effet de plui” de Camille Pissarro, 1897, no Museu Thysen de Madri. Fotografia de Cristóbal Manuel in El País, 11/9/2009.

         Eu precisei ir a Madri para te encontrar vendo nossa rua, depois da chuva, à tarde. É por ela que caminhamos, é por ela que tropeçamos, é por ela que buscamos aquilo que nos atrai, nos puxa, nos abandona, nos retorna. Talvez fosse melhor de manhã, talvez devêssemos esperar a noite, talvez nunca mais na madrugada. Mas, estamos nesta tarde, bem aí, depois da chuva.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h28
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VANTAGENS EXTRAS

 

Fonte: O Globo, 10/9/2009.

                Vantagens extras? O pudor me impede de escrever a primeira coisa que me passou pela cabeça. Seguem as demais: a partir de hoje, os brasileiros terão o direito de passar seis meses por ano em Paris, com passagens aéreas – pode ser de executiva mesmo -, estadia no Hotel de Grandes Ecoles no Quartier Latin – como? O governo oferece o Welcome em Saint-Germain-des-Prés? Vai então – não vamos criar caso logo na chegada - e vale-alimentação no L’Ambroisie ou no L’Arpège – duas opções estão bem e sem “como?” neste item! - devolvidos pela República Francesa – claro, depois do que vamos pagar por esses caças! No bolsa-família, será incluída uma cesta básica da Fouchon – alguns queijinhos elementares, um pouquinho de caviar para acompanhar, aquele marronzinho glacê simples, poucos chocolates, um jambonzinho de dinde – não é tão gordo como os outros – enfim. No quesito transferência de tecnologia, os professores do Brasil poderão lecionar na Sorbonne e também terão bolsas de mestrado e de doutorado – todas Louis Vuitton – asseguradas – quando nesta condição, eles terão automaticamente ampliados sua estadia na França por até quatro anos – não mais prorrogáveis, sem abuso, por favor. Inclua-se, ademais, de troco, guarda-roupa completo na Chanel, Lacroix e Givenchy, por um lado, e Ferragamo, Prada, Valentino e Armani, por outro lado – sim há italianos aí, eu sei, mais italianos que franceses, eu sei, mas quem disse que a França é perfeita? Entrada livre no Louvre uma hora antes dele abrir para os turistas, todos os dias, passaportes para a EuroDisney – ir à Paris e não ver o Castelo da Branca de Neve? Vocês ficaram loucos? - nos finais de semana, um tour de três meses pelo Vale do Loire – muito tempo? Fica opcional aqui: quem quiser, pode dividir também com um mês e meio em Florença – eu sei, fica na Itália, vale a observação anterior. Na última semana da viagem, poderia estar marcado um concerto com a Carla Bruni, mas eu prometi nada falar sobre isso. Não insistam. Onde é que assinamos o contrato?



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h32
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SOPROS

 

“Tudo por Acaso” de Lenine in DVD “Acústico MTV Lenine”, gravado em 24 e 25 de junho de 2006 no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

À região do estranho Desconhecido, o imenso Remoto, o Selvagem, o Úmido, o Ilimitado – sopro da meia-noite, teu cheiro, minha respiração, sol da melo-dia - a partida em que os dois voltam. Nós sabemos.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h06
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MOBY DICK

Quatro ursos polares brigam sobre a carcaça de uma baleia em Svalbard – arquipélago remoto entre a Noruega e o Pólo Norte. Fotografia de Steven Kazlowski/Barcroft Media in The Guardian, 8/9/2009.

Sou eu, Ishmael, o que escapou para te contar, o único sobrevivente do naufrágio, o único recolhido por Rachel que, em busca dos filhos perdidos, só este órfão encontrou. Daquele novembro úmido e chuvoso em minha alma até este setembro desolador, fui para o mar ao redor de cetus, whale, baleine, embarquei no Coffin, estalagem maldita, prenúncio do Pequod onde encontrei meu Virgílio-Queequeg, Libertador prisioneiro. Nas ondas iluminadas fomos, atravessamos uma a uma, brilho na água, hora terrível e magnífica do rosto dela, Morte viva, aos jatos. Como âncoras jogadas ao mar, fomos pelo Atlântico, pelo Pacífico, pelo Índico – desejo embarcar, desejo embarcar, meu grito ressoa ainda – nas mãos de um não doente que nunca esteve muito bem, Ahab, ermitão marinho, rei de nada, morador do mar – não ponte, não forte flutuante, mas Édipo, rengo, perna de osso, à procura da sua Esfinge, açougueiro como aquele Other, Outro, o caçador norueguês. Ahab, velho insone na imensidão sem praia nem porto, me fez ver o invisível daquela brancura horripilante, suavidade abominável, Baleia Branca, me fez ir atrás do jato do fantasma, sopro da meia-noite em latitudes e longitudes diversas, bem longe do Cabo da Boa Esperança – que ficasse o nome anterior, das Tormentas! Como alcançar o inalcançável? Como representar aquilo que faz movimento, cauda nadadeira, cauda clava, cauda de Moby Dick? Perseu foi o primeiro – e conseguiu salvar Andrômeda-Beatriz. Graças a quem? A um ferreiro, me diz Perth, o arruinado a bordo, ferreiro não louco – como aguentar sem enlouquecer? A pergunta de Ahab – ferreiro alisador de fendas e moças, e mossas, fazedor de arpões, martelo que foi a cantiga de ninar de seus filhos antes do pior – ali a bordo só um vagabundo sem luto – e por isso afiador, Trabalho árduo. Lá ela sopra, lá ela sopra, o grito do topo do mastro. Ainda hoje eu escuto esse grito. Sotavento, timoneiro, barlavento, fomos de encontro à região do estranho Desconhecido, o imenso Remoto, o Selvagem, o Úmido, o Ilimitado. Só eu voltei, marcado, fisgado, manco. Aí está Moby Dick vomitada, sem mais sopro, jogada carcaça – e não foram nossos arpões os autores.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h45
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CLÉO

Cléo de Mérode por Giovanni Boldini, pintura de 1901, em cartaz da mostra “Boldini na Paris dos Impressionistas”, em Ferrara, Itália, de setembro a janeiro de 2010 in primeira página do La Repubblica, 6/9/2009.

         O que é acordar de manhã com a pintura de Cléo de Mérode feita por Giovanni Boldini na primeira página do jornal? É uma pintura tão bela, tão delicada, frágil demais, que deve ser olhada com muito cuidado, com muito carinho. O anel em seu dedo é a síntese do retrato – Cléo está toda ali, toda a sua dança concentrada, este anel é ela, bela demais. Para onde se dirige seu olhar? Para a vida linda atrás, pelos lados, à frente, de viés! A primeira vez que encontrei Boldini foi no MASP – e quantos museus no mundo podem se orgulhar de ter uma obra de Boldini? Lá está a Senhora com Chapéu de Palha – só esta tela já vale a ida a São Paulo. É de uma beleza tão grande, tão estonteante, que saí cambaleando do museu. Se não fosse uma querida amiga a me amparar naquela hora derradeira, não sei o que teria acontecido. Saí trôpego, fascinado, alucinado, fiquei nove meses indo e voltando até esta senhora, encantadora senhora, por pouco não voltei mais. E agora, justo agora, a belíssima Ferrara, a inesquecível Ferrara que traz em seu nome o meu, traz em sua origem a minha, a maravilhosa Ferrara me anuncia uma mostra só das obras de Boldini! Desgraça! É demais para o meu coração. Não vou, não posso, não, ai, ela vai estar lá, aquele anel a brilhar, ai, ai, aqueles gestos dengosos, a graça, ai, não, não, aquele olhar me puxando, ai, dói tudo. Ferrara virou um dos nomes dela.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h15
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EM NOME DA LIBERDADE

Anúncio do torneio de tênis “US Open” in The New York Times Magazine, 30/8/2009.

A liberdade, mito, é linda. Porta de entrada dos famintos e desesperados, dos perseguidos e humilhados, dos feridos e angustiados, ela também é a porta de saída. O problema acontece na entrada e na saída. Na entrada porque, ao contrário da lenda, nenhuma liberdade foi dada a ninguém. Ela teve que ser duramente conquistada, selvagemente disputada, e, pior, tem que ser renovada dia a dia, ela não é permanente – nenhum italiano, nenhum negro, nenhum asiático ganhou nada. Tiveram de se organizar, arrombar portas à força, abrir janelas, windows, à unha. Já na saída, o problema é outro. É quando o mito se transforma, se encarna em uma causa e decidem sair com ela para libertar os fracos, decidem levá-la a dar uma volta pela Europa para derrotar o fascismo, bravo, exceto pelos excessos em seu nome, como Hiroshima, Nagasaki e tantos bombardeios desnecessários, para os alvos, evidentemente, como Dresden. Mas, hoje, quando a levam para o Iraque e para  o Afeganistão, e ali ela é usada, abusada e estuprada, seu nome é apregoado em cada ação militar funesta, insensata, devastadora, aí dói demais. Nada foi aprendido com o Vietnã, a não ser novas técnicas para torturar, novas técnicas para dizimar melhor, novas técnicas para assassinar sem deixar pegadas. Técnicas, técnicas, técnicas. Nada de humanidades, zero. Contra quem joga a liberdade? Quem escolhe seus adversários? Há vitória quando se dizima toda uma população civil indefesa? Dá para vibrar quando um voleio destrói noventa civis através de uma única bomba jogada ontem no Afeganistão por um bombardeiro alemão – ironia das ironias? Dá para torcer quando um simples smash liquida vilarejos inteiros, a história de vidas humanas nunca registradas, nunca divulgadas?  Que open é esse que se abate pesadamente em cima de quem vive diferente, se veste diferente, pensa diferente, quer uma vida diferente? Sobre isso, convém lembrar o que diz John Le Carré sobre a guerra do Iraque em seu livro “Amigos Absolutos” (editora Record, 2005):

         “Cada guerra é pior do que a anterior, senhor Mundy. Mas esta é a pior que já se viu no que diz respeito às mentiras. Não importa que tenha terminado a guerra fria. Não importa que estejamos globalizados, que sejamos multinacionais ou o que for. Enquanto soam os tambores e os políticos soltam suas mentiras, ali teremos os arcos e as flechas e a bandeira, a televisão vinte e quatro horas por dia para todos os cidadãos leais. Três hurras pelas explosões, e o que me importam as baixas enquanto elas permanecerem do outro lado? E não me venha com essa palhaçada da Velha Europa. Aqui nos encontramos com a América mais velha da história: fanáticos puritanos que assassinam os selvagens em nome do Senhor. O que existe de mais velho do que isso? Foi genocídio antes e é genocídio agora”.

         John Le Carré in Amigos Absolutos, citado por Javier Valenzuela in La Aldea Global es una Novela Negra, El País, 31/7/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h58
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