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AS COXAS EM REVOADA

“Adeus à magreza – a coxa abundante faz bem ao coração” Fonte: La Repubblica, 5/9/2009. A Itália é e será sempre revigorante, aconteça o que acontecer. Onde mais, por exemplo, encontrar uma página inteira do jornal diário dedicado às coxas das mulheres? Mais, às coxas abundantes das mulheres? Esse “abundante” é o detalhe fenomenal, é a cereja do bolo! Sensacional! Epifânico! Meu primeiro contato com a língua italiana foi nas coxas – me explico: quando eu ia visitar minha vó italiana em Carazinho, ela me deixava revirar velhas revistas italianas, marcas do desejo de meu avô, e lá pela primeira vez eu encontrei as letras italianas me falando de Sophia Loren, Claudia Cardinale, Gina Lollobrigida, Stefania Sandrelli, Laura Antonelli, Sabrina Ferilli, Monica Bellucci – a memória prega peças, essas coxas com certeza já são de outra época – e eu cresci no meio dessas coxas, as procurava como aquele louco do Fellini em Amarcord que sobe em uma árvore e começa a gritar: “Eu quero uma mulher”! Que cena mais linda! Eu gritava: mais coxas, mais coxas! E as revistas me davam, me presenteavam, me aturdiam com tantas coxas, lindas coxas, macias coxas, cheirosas coxas, coxas pretas e brancas, coxas coloridas, coxas veladas, coxas à flor da pele, coxas oferecidas, coxas resistentes, coxas famosas, coxas desconhecidas, coxas estrangeiras, coxas das gurias – e aí eu já estava em campo aberto, solto nas coxilhas! - e na escola, a querida professora Ina me pedia o poema As Pombas do Raimundo Correia, e só me vinham as coxas, ela que tomava banho de sol na casa vizinha, vai-se a primeira coxa despertada, Maria Luiza querida, vai-se outra mais - e vovó me perguntava depois, não é linda a língua italiana? Belíssima, vovó querida, belíssima!!
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h07
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ALVORECER

Fotografia de Igor Vorobey, Rússia, em 25 maio de 2007. Ontem, ao ouvir tua voz, eu estive de novo em Oreanda, eu fui Dmitri Dmitritch Gurov e você foi Ana Serguêievna von Dideritz, eu sentei ao seu lado no alvorecer e olhamos para baixo, para o mar, calados. Eu soube outra vez, e você também, que o mais complicado e difícil está apenas começando.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h47
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A ARTE DE PERDER

Fotografia de Sam Haskins em cartaz da exposição e lançamento do livro “Fashion Etcetera” na Milk Gallery de 17 de setembro a 26 de outubro, em Nova Iorque. Desenho do cartaz de Yuthi Meas, graphic designer da Tommy Hilfiger. A arte de perder, me disse Elizabeth em plena paulista, é como o Charme de Emily, vá que o encontro acabe com aquilo que a vista satisfaz, vá que o “charm” vire “harm”, dano, perda, o que não resisti e, com meu braço, “arm”, lhe fiz ver que, em português, pode terminar em “ame”. Ela, rápida, tirou meu casaco, ou “arme”.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h24
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NÓS

Foi aqui, em um dia de verão, que ela ficou de pé, ergueu os braços e se deixou levar. Havia um quê de dengo nela, havia uma pontinha de Solange, o sabor de Gabriela, a tesão de Capitu, não havia os cabelos de Helena, os seios de Silvia, o sexo de Cláudia. Ela era em movimento de translação. Fomos ao redor, poente, amantes dos nós, cegos ou alceados, de correr e de ficar – nós dois.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h28
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ZINAIDA

Zinaida Hippius, São Petersburgo, Rússia, talvez 1908. Ela é aquela que viu o céu mesmo quando ele não estava mais lá.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h15
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CARDO

“Desenho Habitado” de Helena Almeida, 1975 in Galeria Filomena Soares, Rua da Manutenção, 80, Lisboa, Portugal. Na rua da manutenção, permanente obra, te vi pela primeira vez. Tiravas daqui, punhas dali, desassossegada criatura em construção, andaimes à mostra, escombros acolá, eiras e beiras por todo lugar, não digo que sem nem com, digo que estavas como és, flor do deserto, cardo-caminho, e somos desde então esses fios soltos ao léu, que ora se tocam, ora paralelos, hora para sempre do sim.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h33
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NO MEIO DO CAMINHO

Fotografia de Constant Alexandre Famin, c. 1865. A selva escura, surpreendente, acolhedora, cálida abertura, selva sonhada, a luz do sol não penetra, onde a saída é também a entrada, selva salvadora, origem e destino, selva mais linda, amorosa selva, vale o grito, fugitivo, incerto passo, a hora do tempo que se inclina e colhe, recolhe, como folha no ar, assim me vi perdido no ganho, náufrago abraçado em cada gota dela, selva, orvalho teu.
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h15
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