Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br
TRÊS
Ursula Andress em 1962. Fotografia de David Hurn/Magnum Photos.
Era já madrugada quando ele conseguiu ordenar sua maior descoberta, a de que o amor de sua vida não era una nem uma. Eram três em um mesmo corpo. Correndo, sôfrego, publicou a tese, virou coluna de jornal, conselheiro da tv, homem rico. O tempo ajudou a corrigir o equívoco. Elas eram trigêmeas.
“Vuelvo al Sur” – música de Astor Piazzolla, letra de Fernando “Pino” Solanas. Interpretação de Roxana Umpierr e Alejandro “Lucho” Lucero in Tangoteca, Verona, Itália em 22 de novembro de 2008.
Você me pergunta o que procuro em ti. Eu busco o vuelvo, esse retorno, a volta àquilo que um dia me deixou, con mi deseo, Carazinho sempre será para mim un destino del corazón, sua praça, aquele horizonte como promessa do infinito, aires, o Rui Barbosa daquele amor tão imenso, depois o La Salle longe dela, tiempo abierto, passos fundos não me moveram, nem foi alegre o porto, como poderia o dragão verde vir onde era seu cuerpo? Inmensa luna, lunike, e a noite era al revés, a ironia de tocar o som daquele beijo que eu queria em mim – dancei en la intimidad, clube comercial, quantas máscaras no salão, buena gente, fui empurrado para longe, o exílio, mi temor. É por isso que te quiero. Sul.
Lizz Wright por Vincent Soyez in El País, 27/8/2009.
A beleza de Lizz Wright me desviou, desencaminhou, desnorteou, me tirou do pouco de linha reta que ainda tento seguir, desnormalizou o que restava, confundiu tudo, atrapalhou meus planos, abriu meu coração, acariciou suavemente meus ouvidos com seu canto que sai dessa fotografia mansamente, delicadamente, para quem quiser ouvir. Há tantas vozes dentro dessa mulher que eu chego a escutar ecos de algumas meigas, de algumas que me acompanham sempre, eu sou feito dessas vozes queridas, dessas vozes sereias que não são o perigo de Homero, mas o doce encontro de Dante, vozes estrelas, vozes do sul, que chegam como o minuano, nova estação.
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, durante seu discurso na Assembléia Geral das Nações Unidas em 20 de setembro de 2006. Fotografia de Julie Jacobson/AP.
Quando seu maior garoto-propaganda, autor da façanha de torná-lo milionário só com as vendas na América Latina, o recebe calorosamente na porta do palácio presidencial, o abraça efusivamente, diz em público e na frente da televisão que leva consigo vários de seus livros, lhe deseja longa vida, o que você faz? Se você se chama Noam Chomsky, você faz marketing, você faz as vendas triplicarem, você multiplica o patrimônio, você aproveita a oportunidade, você amplia o market share, você realiza as opções, você enriquece mais, você se vende e responde assim:
“Eu acho emocionante que na Venezuela esteja sendo construído esse outro mundo possível e ver um dos homens que inspirou essa situação (...) Falar de paz é, de alguma maneira, fácil (...) o difícil é criar um novo mundo, um mundo diferente”
Noam Chomsky ontem, na Venezuela. Fonte: EFE na ianque e vendida Yahoo Notícias Brasil.
O amor pelo dinheiro não é lindo? Eis aí um homem que entende de negócios, eis aí um homem que sabe como ganhar dinheiro. Por exemplo, e eu admiro esse empreendedor, por que ele não se muda para a Venezuela, pode perguntar um ingênuo leitor. Ora, porque esse homem é um gênio das finanças! O mercado dos Estados Unidos e dos países de língua inglesa é muito maior e mais rico que o mercado venezuelano e de língua espanhola! Há que vender bem em todos os mercados! É verdade que vomitei quando li “novo mundo” e “mundo diferente” em referência à pobre Venezuela. Lembrei de um maravilhoso livro que, em seu capítulo quatro, narra de forma contundente essa paixão doentia da esquerda pelos fascismos. Trata-se de “Pós-Guerra” de Tony Judt, publicado em português no ano passado pela editora Objetiva. É um autor tolinho que não sabe ganhar dinheiro, pois critica tanto a esquerda como a direita. Porém, tirando esse defeito grave, deveria ser leitura obrigatória em todos os jardins de infância e teste para entrada em doutorados de qualquer universidade séria. Mas, alerto já, não é para estômagos sensíveis. Este capítulo narra a paixão dos intelectuais e políticos “de esquerda” ocidentais pela União Soviética de Stálin. É de vomitar o tempo todo. Saí desidratado da leitura. Até ontem. Ontem fui parar no hospital. “Outro mundo possível”, “um dos homens que inspirou essa situação”, “criar um novo mundo”, “um mundo diferente”...desculpem, e, ao contrário de Goethe – estamos em outra época – eu suplico, mais soro, mais soro...
Atenas, 23 de agosto de 2009. Fotografia de Helena Smith, Athens Photograph e Milos Bicanski, Getty in The Guardian, 24/8/2009.
Toma, Prometeu de curvo pensar. Não precisas nada roubar, é teu agora o que antes era meu. Quer dá-lo aos homens? Pegue. Meu imperecível desígnio atesta que não saberás o que fazer com isso, mas, sem rancor, leve multissábio, que piada, filho do teu pai, aquele que desposou a de belos tornozelos. É teu, faz parte do teu nome, ó açougueiro de meia-tigela. Sem mais vinganças, premeditador indisciplinado, insolente, titânic-o, jeitoso irmão, meu espelho mortal, agarre o que te dou. Que cessem as hostilidades entre nós, tapeador tapado. Uma vez me destes os ossos pensando ser a pior parte, burro. Ficaste com a carne que putrefa, que decompõe, que perece – e o que acontece com os ossos, percebes agora, cego que não é Tirésias querendo ser? Apanhe, Prometeu do funcho, conquistador conquistado, o fogo.
Anna Pavlova por Joseph Rous Paget-Fredericks, Paris, maio de 1928.
Joseph Rous Paget-Frederick foi o homem que amou Anna Pavlova. Amou-a incondicionalmente, amou-a de manhã cedinho, amou-a na hora do almoço, amou-a à tarde, amou-a no jantar, amou-a de madrugada, amou-a.