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UM

Fotografia de Elliott Erwitt, Magnum Photos, durante uma mostra de cachorros, 1973. Só haverá um sobrevivente. Ele não sabe. Ao ver o cachorro, desconhecido, desesperado e triste, levado pelas águas medonhas, em torvelinho, águas da morte, o menino se atirou nelas sem vacilar. O cachorro conseguiu sair, o menino não. Uma vida pela outra, a morte veio na correnteza molhada, ávida para ganhar a disputa, ela, essa invencível armada até os dentes, louca e desesperadora morte, não importava muito se fosse o cachorro, ela, que divide todos, que marca sempre, viu o menino na beira e não fez gesto algum, pois levava o cachorro, arrastava-o sem dó nem piedade, ela viu nos olhos do menino aquela centelha perdida de uma saudade vã, foi isso que ela viu, ela não pediu nada a ele, nenhum sentido ela quis ou exigiu, ela apenas levava o cachorro, era a vez dele. O menino não quis assim. Ele entrou nas águas frias, águas geladas, águas cortantes, para salvar um sem nome, ninguém, bicho perdido, ele quis sair junto, nomeá-lo agora, cuidá-lo, quis o que ela não deixou, gulosa que é, exigente e minuciosa – sua decisão: só um sai, só um vai. Hoje só haverá um.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h40
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CHEIROSA

Sylvie Vartan por Jeanloup Sieff, Paris, 1965. “Lo que ningún miembro de la familia supo nunca fue que los forasteros no tardaron en darse cuenta de que Remedios, la bella, soltaba un hálito de perturbación, una ráfaga de tormento, que seguía siendo perceptible varias horas después de que ella había pasado. Hombres expertos en trastornos de amor, probados en el mundo entero, afirmaban no haber padecido jamás una ansiedad semejante a la que producía el olor natural de Remedios, la bella. En el corredor de las begonias, en la sala de visitas, en cualquier lugar de la casa, podía señalarse el lugar exacto en que estuvo y el tiempo transcurrido desde que dejó de estar. Era un rastro definido, inconfundible, que nadie de la casa podía distinguir porque estaba incorporado desde hacía mucho tiempo a los olores cotidianos, pero que los forasteros identificaban de inmediato. Por eso eran ellos los únicos que entendían que el joven comandante de la guardia se hubiera muerto de amor, y que un caballero venido de otras tierras se hubiera echado a la desesperación. Inconsciente del ámbito inquietante en que se movía, del insoportable estado de íntima calamidad que provocaba a su paso, Remedios, la bella, trataba a los hombres sin la menor malicia y acababa de trastornarlos con sus inocentes complacencias.” Gabriel García Márquez in Cien Años de Soledad. Real Academia Española, Alfaguara, 2007, pp. 265-266. “O que nenhum membro da família jamais soube foi que os forasteiros não tardaram a perceber que Remedios, a bela, desprendia um hálito perturbador, uma brisa de tormento que continuava sendo perceptível várias horas depois de ela ter passado. Homens experimentados nos transtornos do amor, vividos no mundo inteiro, afirmavam não ter padecido nunca de uma ansiedade semelhante à que produzia o perfume natural de Remedios, a bela. Na varanda de begônias, na sala de visitas, em qualquer lugar da casa, se podia assinalar o lugar exato onde estivera e o tempo transcorrido desde que deixara de estar. Era um rastro definido, inconfundível, que ninguém da casa podia distinguir porque estava incorporado há muito tempo aos cheiros cotidianos, mas que os forasteiros identificavam imediatamente. Por isso eram eles os únicos que entendiam que o jovem comandante da guarda tivesse morrido de amor e que um cavaleiro vindo de outras terras tivesse caído em desespero. Inconsciente da aura inquietante em que se movimentava, do insuportável estado de íntima calamidade que provocava à sua passagem, Remedios, a bela, tratava os homens sem a menor malícia e acabava de transtorná-los com as suas inocentes complacências.” Gabriel García Márquez in Cem Anos de Solidão. São Paulo. Folha de São Paulo, 2003, p.214. Tradução de Eliane Zagury.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h57
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AURORA

Cena do magnífico vídeo “Toro” da maravilhosa Mariana Vassileva (Bulgária/Alemanha) na indispensável Bienal Vento Sul em Curitiba, no Memorial de Curitiba, até 11 de outubro. Agora é entre nós dois, filho da puta. Guerra aberta. Sou eu o pervertor? Não és tu o enganador? Onipotente de nada, altissonante miado, imortal de araque, não me iludes. Eu caído, eu coxo, eu derrotado, navegante ainda, vou te mostrar o que eu faço com ela, tua máxima criação, carne da tua carne, eterno vento, cheia de perfeições, um saco, esses rouxinóis a gralhar, não me faça rir, basta um dedo meu ou a língua, saborosa, delícia, bela juventude, até me esqueço do que vim fazer, nuazinha, obediente e seguidora, como aquele tapado de lá, a não sei o quê, só reza o bocó, incapaz de levantar, sou eu o maldito? Toma o que me resta, o ferro, em brasa, névoa negra, são os olhos dela a me guiar, de ressaca, rainha de coisa nenhuma, comeu? Que a terra estremeça, que o firmamento desabe, a partir de hoje tu não existe mais. Vem aurora, me dê a mão. Sós.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h19
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CARTÃO POSTAL

Minha senhora, às portas da ressurreição, nessa praça vermelha, a vida vai, passa por mim, me joga de volta, mortal, moscou, e então, gaúcho, procuro o horizonte, sinais, estrelas vermelhas, sigo adentro, é a revolução – nunca mais o que fui. Desapoderei.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h20
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MATILDE

“Freta 1287” de Mopas (Peter), Varsóvia, Polônia, em 9 de julho de 2008. “- Então, faça, Luís. Faça tudo o que eu quero, tudo o que nós dois queremos. A partir daqui, para mim pelo menos, já tudo é irremediável.” Matilde a Luís Bernardo por Miguel Sousa Tavares in Equador. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, p. 91.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h41
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HELENA

Eartha Kitt, em algum lugar, a Helena negra de Orson Wells, que lhe capturou, lhe raptou, com sua voz, sua terra, seu sangue índio, gata no cio, Hellen, como escrevia Marlowe, com dois eles, de “Hell”, o inferno, encantadora de homens, suave seta que vulnera os olhos ou a flor de amor que fere os corações, como queria Ésquilo. Earthquake.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h34
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QUANDO A ÁGUA BATE NA BUNDA

Anúncio da 3ª. temporada da minissérie “Mad Men” in The New York Times Magazine, 16/8/2009. Sensacional anúncio! Epifânico! A água já está batendo na bunda e Don Draper, magnificamente interpretado por Jon Hamm, fuma seu Lucky Strike. Não há imagem melhor para ilustrar o que é um sintoma. Ficção? 1963? Em um artigo belíssimo, o indispensável Frank Rich compara o aniversário de 40 anos de Woodstock, acontecido em 1969, com a minissérie e com 2009. Entre outras coisas absolutamente instigantes, Rich diz que Woodstock não foi o apocalipse pregado pelos raivosos conservadores de então, nem o nirvana na política, o “turning point” capaz de mudar tudo – basta lembrar, como faz Rich, que Nixon foi reeleito presidente em 1972. Ainda sobre Woodstok, Rich comenta que hoje ele não poderia existir sem patrocínio de grandes empresas – e que, de fato, tentaram fazer um evento esses dias para comemorar a efeméride, porém tiveram que cancelar devido à ausência deles. Ironicamente, Rich diz que qualquer manifestação hoje “comunitária” só pode ser encontrada virtualmente, por exemplo, no Facebook, Twitter e congêneres. E aí Rich costura seu raciocínio, ““Mad Men” is about the dawn of a new era, and we, too, are at such a dawn. And we are uncertain and worried about what comes next.” [“’Mad Men’ é sobre o surgimento de uma nova era, e nós também nos encontramos nisso. Nós também estamos inseguros e preocupados sobre o que virá em seguida”] – em outras palavras, “the dawn” pode ser essa inundação, essa água subindo do anúncio, daí a angústia, aliás muito bem trabalhada na minissérie. Rich termina seu artigo lembrando que Adlai Stevenson, embaixador das Nações Unidas, esteve em Dallas no mês de outubro de 1963 e encontrou muito ódio em manifestações e cartazes ameaçadores. Ele advertiu o presidente Kennedy para que não viajasse a Dallas no mês seguinte. Rich conclui: “We need not watch “Mad Men” to learn how that turned out. Oh, to be back in the idyllic summer of 1969, when the biggest sin committed by the rebellious mobs at Woodstock was getting stoned. Something else is happening here in our anxious summer of 2009, when instead of flower-power and free love there are reports of death threats and fanatics packing guns.” [“nós não precisamos assistir “Mad Men” para saber como isso terminou. Ai, que bom seria poder voltar para o idílico verão de 69, quando o maior pecado cometido pela multidão rebelde de Woodstock era ficar drogada. Algo pior acontece hoje em nosso angustiado verão de 2009, quando em vez do poder das flores e do amor livre, “paz e amor”, existem relatos de ameaças de morte [referência também aos cartazes contra Barack Obama representado-o como o Coringa do Batman e acusando-o de “socialista”] e de fanáticos portando armas pelas ruas.”] (fonte: Frank Rich in ‘Mad Men’ Crashes Woodstock’s Birthday [“Mad Men arrebenta o aniversário de Woodstock”] in The New York Times, 16/8/2009).
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h31
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