Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br
É COM A DOR
Fotografia de Nicole Patricia Malina.
“- Matilde!
- Sim? – ela parara, também. Agora estavam em posições inversas, ela olhava-o de cima e ele levantava a cabeça para a ver.
- Nunca mais a vejo?
- A mim? Não sei. Quem sabe? Os que não morrem encontram-se, não é verdade?
“Desisto”, pensou ele para consigo. “Esta mulher é um bloco de gelo. Esta conversa é absurda, esta empreitada é uma loucura e só pode acabar no ridículo.”
- Não, não basta estar vivo. Depende de como se está vivo. Não se encontra só o que se encontra, mas também o que se procura. Nós não somos folhas levadas pelo vento, não somos animais à deriva. Somos seres humanos, com uma vontade própria.
- E a sua vontade, Luís Bernardo, é voltar a encontrar-me?
- É, Matilde. A minha vontade é voltar a encontrá-la.
- E para quê, posso perguntar?
- Nem eu sei bem para quê nem porquê. Talvez para retomar uma conversa inacabada, numa noite de luar.
- Há tantas conversas que ficam inacabadas! Será que a sabedoria é tentar retomá-las ou deixá-las para sempre no ponto em que ficaram?
- Você, Matilde, faz muitas perguntas, mas dá poucas respostas.
- Como se eu as tivesse, Luís! (...)”
Miguel Sousa Tavares in Equador. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, pp. 29-30.
“Futuro estudante ou terrorista suicida? – Qual escolha ele fará? – A batalha pelo nosso futuro”. Anúncio do documentário “Generation Islam” [A Geração Islã] de Christiane Amanpour levado ao ar ontem à noite na CNN in página A7 do The New York Times.
Foi ao ar ontem à noite, na CNN, um documentário da jornalista inglesa, nascida em Londres e criada no Irã, Christiane Amanpour, sobre o que os Estados Unidos devem fazer diante do terror. Uma questão fundamental e muito bem apresentada durante todo o documentário, exceto por um porém. Amanpour acredita que a guerra não resolve nada e que a educação é a chave de tudo. Não concordo. Há terroristas com diplomas das melhores universidades do mundo, ou seja, educação não é garantia contra o terror. O que isso quer dizer? Quer dizer que não se pode pensar em combater o terror apenas com idéias, apenas com boas aulas, é necessário também o fuzil, é necessário também o porta-aviões. Defender isso não é defender a invasão imbecil do Iraque e do Afeganistão que, além de um fiasco total, é também uma vergonha para qualquer ser humano que pensa. Em resumo, a guerra é essencial, a invasão militar de países não. Diante de um terrorista decidido, palavras não bastam. Isso quer dizer que a educação é inútil? Claro que não. O problema é pensar que tipo de educação está em jogo aí. Há educações piores que terrorismo, pois estão montadas para não educar, estão feitas para criar papagaios reprodutores de frases feitas e lugares comuns, o puro e pior senso comum, não o bom. Sobre isso, reler Cem Anos de Solidão de García Márquez é primordial. É muito educativo o contraste que Márquez faz entre os ciganos do início da história e sua maravilhosa contribuição à construção da civilização de Macondo, com o inesquecível Melquíades à frente, e, muito depois, a chegada triste dos norte-americanos, através do pior escroto do livro, “Mr.” Jack Brown, o mau empresário, o mau empreendedor, o mau praticante do “entrepreneurship”, dono da companhia bananeira. Ora, García Márquez não dá ponto sem nó. “Brown” é também o nome de uma cor, o marrom, metáfora para sujeira, para uma era das trevas de um capitalismo selvagem e horroroso que, muito estranhamente, sai dos Estados Unidos cheio de boas intenções, de gente formada nas melhores universidade, e, ao chegar à América Latina, se transforma na pior desgraça, causando no livro inclusive e literalmente a morte de mais de quinhentos trabalhadores após uma greve. Diga-se de passagem que esse sintoma não ocorre apenas com os americanos. Basta pensar nos empresários alemães, franceses, italianos, espanhóis que, ao chegarem ao Brasil, fazem aqui coisas que jamais fariam em suas pátrias. Ora, a ótima questão de García Márquez é o que fazer diante de um canalha desses? Ir para a “escolinha” da companhia bananeira para aprender a se “adaptar” ao mercado, para aprender a “ser” como Mr. Brown? Ou então tentar mudar essa face perversa do capitalismo através da resistência e força contrária – características aliás presentes em qualquer excelente universidade? Interessante pensar que, antes dos Estados Unidos serem independentes da Inglaterra, quem lutava contra a Inglaterra era considerado terrorista. Pensar isso não é defender o terror. Mas é sim colocar em questão que “escolha” é essa posta na mesa de debate. Se tudo o que os Estados Unidos tem a oferecer ao mundo é Mr. Brown, então o terror é uma escolha possível, pois deixa de ser terror para virar grito de liberdade, grito de vida humana. Porém, e nisso eu concordo com Amanpour, a resposta da América pode ser diferente, pode ser melhor, pode ser o avesso de Mr. Brown. Há bons empresários, há bons empreendedores, há o melhor dos Estados Unidos. A eleição de Barack Obama representa isso. Não é pouca coisa. Ir além da eleição é o nome agora deste desafio. A batalha pelo “nosso” futuro não está só no Islã. Está também entre o terror assassino de Mr. Brown ou as forças civilizadoras de Mr. Black.
Sessilee Lopez, magnífica, bela, querida por Solve Sundsbo para a i-D de dezembro, 2008. Me lembrou uma das personagens mais bonitas de Gabriel García Márquez, Petra Cotes.
“Se llamaba Petra Cotes. Había llegado a Macondo en plena guerra, con un marido ocasional que vivía de las rifas, y cuando el hombre murió, ella siguió con el negocio. Era una mulata limpia y joven, con unos ojos amarillos y almendrodados que le daban a su rostro la ferocidad de una pantera, pero tenía un corazón generoso y una magnífica vocación para el amor.”
Gabriel García Márquez in Cien Años de Soledad. Real Academia Española, Alfaguara: 2007, pp. 218-219.
“Chamava-se Petra Cotes. Chegada a Macondo em plena guerra, com um marido ocasional que vivia de rifas, e, quando o homem morreu, ela continuou com o negócio. Era uma mulata limpa e jovem, com uns olhos amarelos e amendoados que lhe davam ao rosto a ferocidade de uma pantera, mas tinha um coração generoso e uma magnífica vocação para o amor.”
Gabriel García Márquez in Cem Anos de Solidão. São Paulo. Folha de São Paulo, 2003, p. 175. Tradução de Eliane Zagury.
Uma das páginas inúteis, memoráveis, epifânicas, do diário de Eugenio Caballero sobre o filme “The Limits of Control” de Jim Jarmusch in El País, 12/8/2009.
Elsa Fernández-Santos traz no imprescindível El País de hoje – é um jornal para ser encartado dentro do The New York Times, do La Repubblica, do Globo, da Folha de São Paulo, distribuído junto com o Bolsa Família, enfim - os cadernos de nada com coisa nenhuma que Eugenio Caballero fez para Jim Jarmusch. Para todos aqueles que amam o cinema, que revejam “Dead Man” de 1995, absolutamente maravilhoso. Nobody está lá como um Ulisses às avessas diante de um Polifemo improvável, vivido magnificamente por Johnny Depp. É um filme para ser passado vinte e quatro horas por dias nas principais ruas e paredes daqueles horríveis shoppings, sem parar. Belíssimo. Recentemente revi “Flores Partidas” de 2005 e foi, novamente, uma epifania querida. Bill Murray merecia uma estátua em cada cidade do mundo. Que ator excepcional! O filme é uma poesia só que passeia sobre o corpo feminino, lambe-o em cada detalhe! Lindo, lindo, lindo. Este então é para ser transmitido em horário nobre na TV. Se eu fosse presidente de qualquer república, compraria com dinheiro público duas horas semanais deste horário e, em vez de qualquer outra “mensagem” do governo, mandaria ao ar “Flores Partidas”. Há não-mensagem melhor que essa? E “Down by Law”? Chorei. Este é para rever de joelhos! Espetacular! Esse seria teste em qualquer empresa de alguma inteligência, não muita, alguma – o que já reduz para bem poucas – “viu Down by Law?”. Olha, é melhor do que análise de currículo ou de famigerados “diplomas” “universitários”. Vai por mim. “Down by Law” como teste de seleção! Bom, Elsa Fernández-Santos, como eu ia dizendo antes de ser interrompido, o caderno foi idéia do mexicano Eugenio Caballero, ganhador de um Oscar pelo da produção de O Labirinto do Fauno – e tinha de ser de um mexicano uma idéia genial dessas! Ele decidiu fazer um registro visual das conversas que teve com Jim Jarmusch sobre o filme “The Limits of Control” – que nome, que nome!!-, que vai estrear nos cinemas em 2 de outubro próximo, nos passeios que fizeram em Madri, Almeria e Sevilha, que são as locações do filme – que locações, que locações!! O filme vai seguindo os passos trôpegos de um fora da lei, solitário, perdido por uma Madri bizarra e estranha, por um museu Rainha Sofia torto, pelas ruas sinuosas de Malsaña, pela praça pecadora de San Ildefonso, pelo piano bar Tony 2, pela estação de metrô Atocha e pelo onipresente e curvo perfil do edifício Torres Blancas, que “como a árvore de Alice no País das Maravilhas abre suas portas para oferecer-nos seu mistério”, diz Elsa. “Jarmusch contou que sua fascinação pela obra do arquiteto navarrês [Francisco Javier Sáenz de Oiza] beirava o obsessivo e que sempre pensou em filmar ali (...) é que Jarmush gosta da história que lhe contaram sobre o dono do edifício que acabou ficando sem dinheiro e por isso o mármore branco que inicialmente ia recobrir toda a fachada do prédio, se transformou em cimento cinza. Ou como na última planta do edifício, onde está localizado a piscina e o ginásio, ia ter também um restaurante e por isso cada apartamento conta com uma linha direta para esse lugar que nunca foi terminado. Torres Blanca sempre teve um ar de genial fracasso (...) “Por que em nossa cultura tudo tem que ter ângulos retos? Por que tudo tem que ser razoável e tão cartesiano? Torres Blancas inteirinho está cheio de curvas”, assinalou Jarmusch em entrevista recente. “É um edifício sem ângulos retos para uma história que também carece deles”, explica Eugenio Caballero. “O filme fala desse fluidez, dessa liberdade das curvas, essas curvas que nos dão uma percepção estranha de nosso contexto, que nos atraem tanto mas que fazem tão complicada a simples idéia de ali colocar um móvel” (fonte: Elsa Fernández-Santos in En la azotea de Jim Jarmusch, El País, 12/8/2009). Essas explicações são todas tautológicas. O que pode sair de um encontro entre Jim Jarmusch e Eugenio Caballero? Só pode sair poesia, curva, a inutilidade, os fracassos, as torpezas, os tropeços, as quedas, o desejo em sua mais linda tradução, a vida em seu máximo esplendor – fracassar sempre, fracassar melhor, como já dizia aquele outro inútil, Samuel Beckett. É outro para teste de seleção. O que desejas na vida? Se a resposta for “o sucesso”, “melhorar sempre”, “nota dez”, “saber mais”, reprovado. Se for “fracassar”, “tropeçar”, “amar demais”, “amar errado”, “errar por aí”, aprovadíssimo!!
Outra página inútil e maravilhosa do diário de Eugenio Caballero sobre o filme “The Limits of Control” de Jim Jarmusch in El País, 12/8/2009.
Gabriel Missé e Guilhermina Wilson em “Desde el Alma”, no show “Una Noche de Tango”, em 1996, pela Tango x 2 Company. Criação e coreografia de Miguel Angel Zotto e Milena Plebs.
Eu estava quieto lendo o jornal. De repente, me aparece Gabriel Missé e Natalia Hills pela frente – graças ao indispensável Alastair Macaulay. Só essa aparição já foi desestabilizadora, já me fez levantar da cadeira. Mas, desgraça, aí veio o nome do tango que eles dançaram no festival de Vail, no Colorado: “Reliquias Porteñas”. É de chorar. Relíquias portenhas fala de uma dor tão delicada, de uma dor pungente, desse encontrodesencontro que não pára, vai e volta, são passos trôpegos, tateantes, implorantes, desesperados, e no entanto, aquela esperança brilha ainda, clareia as portas, bons ares, já lembro de Borges e um poema muito lindo, em que ele diz que o pampa ele traz dentro do peito, é um que fala de dessangrar, do barulho do vento, esse poema é uma relíquia em mim, o horizonte do pampa ilumina, me levou embora um dia sem que eu quisesse partir, aí o sangue que se deixa em cada lugar amado, relíquias, migalhas, ossos do ofício de ferreiro, portenho, porto alegre, portão. Desde el alma.
Elefante desembarca do trem do circo Ringling Brothers and Barnum & Bailey Circus, em Anaheim, Califórnia. Fotografia de Bruce Chambers/Zuma Press in The Guardian, 10/8/2009.
Um elefante nunca é só um elefante. Pode ser o primeiro, Dumbo, pode ser a visão daquele circo estranho, pode ser o símbolo de um partido político, pode ser Tarzan beijando Jane, pode ser o eco da mais querida biblioteca, a de Carazinho e sua coleção de Júlio Verne, pode ser aquela Playboy na África. Um elefante assim, desse jeito, aturde, sulca a alma, revigora, faz ressonância de uma voz, meiga, amada, um cheiro doce, tua presença, dengosa e real.
“Descobri que sou tal qual o elefante, uma parte de mim aprende, a outra ignora o que a outra parte aprendeu, e tanto mais vai ignorando quanto mais tempo vai vivendo, Não sou capaz de te seguir nesses jogos de palavras, Não sou eu quem joga com as palavras, são elas que jogam comigo”.
Palavras do comandante ao cornaca no instante em que o elefante Salomão vira Solimão, Subhro vira Fritz e ele, comandante, volta a Lisboa sem o elefante, entregue aos austríacos.
José Saramago in A Viagem do Elefante. São Paulo: Cia. das Letras, 2008, p. 153.
“Golpe extraordinário em Porto Cervo – roubaram a princesa. Desaparece o cofre da suíte com jóias e dinheiro avaliados em 11 milhões de euros. Chegam os 007 árabes.”
Fonte: Pier Giorgio Pinna in La Repubblica, 9/8/2009.
A Sardenha não sai mais das primeiras páginas. Suas praias magníficas, aquelas mulheres espetaculares, os Ferrari sempre atenciosos, uma vida de sonho...até que os ladrões estrangeiros resolveram aparecer. Vindos de todas as partes do mundo, ladrões franceses, ladrões alemães, ladrões belgas, ladrões russos invadiram ontem o hotel Porto Cervo, uma jóia de lugar, onde inclusive passo as férias de inverno, e sem ninguém perceber, entraram na suíte principal e levaram o cofre de uma princesa, filha do vice-rei e príncipe herdeiro da Arábia Saudita. Dentro do cofre estavam jóias e dinheiro vivo, e ponha vivo nisso, de mais de 11 milhões de euros – o que dá em português a estonteante cifra de 33 milhões de reais – num pequeno cofre!! O leitor sabe o que isso significa, além de que vai subir a gasolina amanhã no posto mais próximo? Isso significa que a Itália está sendo invadida por ladrões estrangeiros, perigosos meliantes, elementos infiltrados no seio – ai, ai, ai, eu penso na Sardenha, as palavras é que me levam, não sou em quem as navega – da boa sociedade italiana. É por isso que pela primeira vez eu aprovo a nova lei contra os imigrantes aprovada ontem no parlamento italiano. Cadeia neles! A Itália não merece esses ladrões! Onze milhões de euros? Em um único cofre? De uma única princesa saudita? Filha do vice-rei? Espere um pouco. Quem é o ladrão nessa história? Já não estou entendendo bem a notícia, começo a passar mal. Como? Dois reais e noventa e cinco centavos o litro de gasolina? Polícia! Ãh? A Petrobrás é nossa? O que me interessa a Petrobrás? Eu quero é a princesa, a fonte, o leito, ai o leito – pré-sal? – nada, eu quero o doce, a bela, o açúcar dessa mulher, alô? É do hotel? A mesma suíte do mês passado, por favor. Sim, essa mesma, ao lado da princesa. Chego amanhã!