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INNA

Inna por Alena Vladyko, Ucrânia, em 7 agosto de 2009. Cada letra do teu nome me transporta para bem longe daqui. O i vai para o norte, direção do amanhã, o que será, o primeiro n, para o sul, onde eu fui e trago no peito essa saudade louca, o outro n, arde, não cicatriza, parece que foi hoje, mas é o a que me parte, viagem através, viagem ao revés. Inna, amadas minhas.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h25
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PALAVRAS

“O Coronel e o Cangaceiro” - primeira página de O Globo, 7/8/2009 – arte de Alvim sobre fotografia de Ailton de Freitas. O Rio de Janeiro me puxa, eu resisto, eu tento, mas ela vence – sim, o Rio para mim é feminino. A primeira e a terceira páginas do jornal O Globo de hoje são aquelas para serem emolduradas ao lado da Mona Lisa no Louvre. Epifânicas páginas. Na primeira, o jornal fez uma montagem magnífica como se fosse literatura de cordel, pôs o título maravilhoso de “O Coronel e o Cangaceiro”, fez uma sequência de quadrinhos incrível e encomendou a moldura da fotografia a esse artista sensacional, o Alvim. Não é uma obra-prima? Que isso vire cartilha de alfabetização a todas as crianças do Brasil, mostrando que por detrás de Vossas Excelências habita o humano, demasiado humano. Ao contrário do que muita gente interpreta como “baixaria”, eu penso que esse é o momento mais alto de qualquer parlamento, ou seja, é quando as pessoas conseguem falar o não falado, conseguem dizer o que está engasgado, mal digerido, preso. Ontem mesmo, por exemplo, minha querida Hillary Clinton declarou na África ser uma vergonha seu país não fazer parte do Tribunal Penal Internacional contra crimes de guerra e contra a humanidade. Durante oito anos isso ficou preso na garganta das pessoas de bem dos Estados Unidos. Se aqui as palavras gritadas ontem foram “coronel” e “cangaceiro”, por lá a palavra é “torturador” – e é por isso que Barack Obama quer fechar o símbolo máximo dessa palavra, o campo de concentração dos Estados Unidos em Guantánamo, Cuba. As palavras ditas podem mudar um país. Mesmo quando pareçam baixas, mesmo quando pareçam feias, mesmo quando pareçam palavrões. Há vida nas palavras.  Terceira página do jornal O Globo, 7/8/2009.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h51
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LA LOCURA DEL CORAZÓN

Christopher Anderson (Magnum Photos) não sabia que, em um bar de Caracas, Venezuela, em 2007, havia fotografado Pilar Ternera. É ela. “Se llamaba Pilar Ternera. Había formado parte del éxodo que culminó con la fundación de Macondo, arrastrada por su familia para separarla del hombre que la violó a los catorce años y siguió amándola hasta los veintidós, pero que nunca se decidió a hacer pública la situación porque era un hombre ajeno. Le prometió seguirla hasta el fin del mundo, pero más tarde, cuando arreglara sus asuntos, y ella se había cansado de esperarlo identificándolo siempre con los hombres altos y bajos, rubios y morenos, que las barajas le prometían por los caminos de la tierra y los caminos del mar, para dentro de tres días, tres meses o tres años. Había perdido en la espera la fuerza de los muslos, la dureza de los senos, el hábito de la ternura, pero conservaba intacta la locura del corazón.” Gabriel García Márquez in Cien Años de Soledad. Real Academia Española, Alfaguara: 6 de março de 2007, “día en que Gabriel García Márquez cumple ochenta años y CXL aniversario de la ascensión de Remedios, la bella, al cielo”, pp. 38-39. “Chamava-se Pilar Ternera. Fizera parte do êxodo que culminou com a fundação de Macondo, arrastada pela sua família, para separá-la do homem que a tinha violado aos quatorze anos e que a continuara amando até os vinte e dois, mas que nunca se decidira a tornar pública a situação, porque tinha outro compromisso. Prometera segui-la até o fim do mundo, porém mais tarde, quando tivesse arrumado as coisas; e ela se cansou de esperar, identificando-o sempre com os homens altos e baixos, louros e morenos, que as cartas lhe prometiam pelos caminhos da terra e pelos caminhos do mar, para dentro de três dias, três meses ou três anos. Tinha perdido na espera a força das coxas, a dureza dos seios, o hábito da ternura; mas conservava intacta a loucura do coração.” Gabriel García Márquez in Cem Anos de Solidão. São Paulo. Folha de São Paulo, 2003, pp. 30-31. Tradução de Eliane Zagury.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h03
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O EXEMPLO NORTE-AMERICANO

Primeira página do The New York Times, 5/8/2009. A América do Norte mais uma vez deu o exemplo. O que fazer com os ex-presidentes da república? Não há questão mais incômoda em uma democracia. As respostas variam, desde enviá-los para Roma como embaixador, inventar o cargo de senador vitalício, matá-los, enfim, cada país tenta se virar como pode. Ora, Bill Clinton inovou. Foi até a Coréia do Norte se encontrar com Kim Jong-il em um sensacional cenário de flores e ondas do mar, libertou duas jornalistas presas por lá e ainda retomou o diálogo com este outrora miolo do eixo do mal. Bravo! Depois disso tudo, esse homem não merece uma noite livre em Buenos Aires? Mas, a lição de Clinton deve chegar logo ao Brasil. Se eu fosse o governo brasileiro, eu enviaria Fernando Henrique Cardoso para...onde mesmo? A China? A Indonésia? Teria que ser bem longe do Brasil. Ah, já sei. Enviaria Fernando Henrique Cardoso para Curitiba! Neste país, certamente nosso ex-presidente encontraria uma função à altura de suas qualidades. Há até um líder muito parecido com o colega da Coréia do Norte. Além do mais, fica pertinho de Buenos Aires...
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h46
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O FRACASSO DO ENGOLIDOR

Fernando Collor de Mello falando a Pedro Simon, ontem, no Senado Federal em Brasília. Fotografia de Roberto Stuckert Filho in O Globo, 4/8/2009. Eu estava com saudades Delle. Havia um debate de Vossas Excelências, era um para cá, outro para lá, até chegar Elle. E aí Elle falou. Elle falou aquela frase antológica, aquela frase lapidar, aquela frase que abre as portas da Academia Brasileira de Letras. Elle disse. Elle, irado, falou o que lhe arde no peito há muitos anos, o que estava engasgado, elle vomitou. Elle triunfou. Começou dizendo que eram palavras que ele não aceitava. Isso é grave. Há palavras que caem bem, há palavras que acariciam, há palavras que fazem amor, há palavras que pacificam. Não as de ontem. Ontem Elle ouviu o inaceitável, subitamente Elle ouviu palavras pintadas, camuflagem, palavras escorregadias, palavras com gume, palavras obuses, palavras minas, palavras atordoantes. “Eu quero que o senhor as engula...”, Elle começou assim a frase síntese, a frase testamento, a frase guia, “Eu quero que o senhor as engula...”, Elle não parou assim a frase, poderia ter parado aí, já seria frase-prima, Elle poderia quem sabe ter repetido uma outra que começou assim: “Eu repilo...”, não é extraordinário esse “eu repilo”? Elle poderia ter repelido ontem na frase, poderia, mas Elle começou assim, “Eu quero que o senhor as engula...”, espetacular, e continuou: “Eu quero que o senhor as engula e as digira como achar conveniente”. Esse “as digira” é sensacional! Sim, porque Elle poderia ter sido truculento, mal-educado, autoritário e dizer: “as engula e se vire, e se dane, e se arrebente...”. Não, não é o caso aqui. Elle deixa a Vossa Excelência o modo como vai digerir – diferente do que aconteceu com Elle. Ninguém lhe deu essa chance de escolher o modo – só teve um, doloroso, indeglutível, indigirível e insaível. “Em nenhum momento me arrependo das minhas relações”, Elle continuou. Aqui entramos em um terreno movediço. Para quem Elle disse isso? “Minhas relações” vai muito além da política. Aqui a psicanálise pode se oferecer com uma escuta anti-digestiva: Pedro, o primeiro nome do interlocutor, é também o nome de seu irmão, já falecido! Ora, uma das principais propriedades do inconsciente é não reconhecer a morte, não aceitar “que já passou”, o que não passou. Por isso ele prega peças, por isso ele regurgita, por isso ele faz buracos no estômago, por isso ele arde, por isso ele dói. Ora, “não me arrependo das minhas relações” diz mais do que diz, é o engolido que agora engole o engolidor. Triunfo de quem? Elle, que tentou engolir uma relação, agora se vê às voltas com o retorno do engolido através do outro Pedro – Freud descobriu isso. Lacan acrescentou: eis que aqui Elle, que fala, acaba por receber sua própria mensagem, inconsciente, sob a forma invertida, ou seja, ouvindo ela na boca de um Pedro que não é o Pedro. A estratégia do triunfador se revelou um fracasso. Não adianta engolir aquilo que retorna. Não adianta querer digerir com a política aquilo que diz respeito ao mais íntimo de cada um. Freud inventou uma nova terapêutica para isso e a denominou de análise. Para as dores de estômago, do sexo, da cabeça, da alma humana.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h04
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É UM PÁSSARO? É UM AVIÃO?

Vladimir Putin dentro do Mir-1, mini-submarino, durante seu passeio de final de semana pelo fundo do Lago Baikal, Rússia. Fotografia AFP/Getty Images in El País, 3/8/2009. Enquanto o Brasil nada na pequena política das pequenas mesquinharias, a Rússia mergulha em águas profundas. Eis aqui seu Jacques Cousteau em ação, pesquisador insaciável, o Capitão Nemo redivivo, idealista incorrigível, o Ahab do Baikal, incansável à procura de sua Moby Dick para espetar seu arpão de mil ogivas – quem será essa Moby Dick? Dica: é bem grande e fica bem longe dali. Porém, esse além do humano, esse faixa preta do judô, esse piloto de caça bombardeiro, esse proprietário de uma cama exclusiva na Sardenha, esse desbravador do Ártico, essa faca Ginsu que não gasta, que não entorta, que não desbota, é esse o homem! Chega de superfícies, vamos à profundidade, grita esse novo Pedro! Habemus Papam! Stálin deve estar se contorcendo no inferno nesse instante. O que não daria para viver esse momento lindo?
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h30
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ALGUNS CONTINUAM

“Tomara que a sensatez retorne logo aos mercados para que possamos continuar com a loucura.” Fonte: El Roto in El País, 3 de outubro de 2008. “Vladimir – O certo é que o tempo custa a passar, nestas circunstâncias, e nos força a preenchê-lo com maquinações que, como dizer, que podem, à primeira vista, parecer razoáveis, mas às quais estamos habituados. Você dirá: talvez seja para impedir que nosso entendimento sucumba. Tem toda razão. Mas já não estaria ele perdido na noite eterna e sombria dos abismos sem fim? É o que me pergunto, às vezes. Está acompanhando o raciocínio? Estragon – Nascemos todos loucos. Alguns continuam.” Samuel Beckett in Esperando Godot. São Paulo: Cosac Naify, 2005, p. 161. Tradução de Fábio de Souza Andrade.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h17
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