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O DIA EM QUE SAMUEL BECKETT ENCONTROU UM PSICANALISTA

O ator Bert Lahr por Richard Avedon, em “Esperando Godot” de Samuel Beckett, em sua apresentação em Nova Iorque, 15 de maio de 1956. Em um belíssimo artigo para o The New York Review of Books e agora traduzido para o espanhol pelo Clarín, em sua imprescindível Revista Ñ de sábado, J.M. Coetzee fala sobre as cartas de Samuel Beckett. Em certo momento, vem à tona a análise que Beckett fez com Bion. É de chorar de tão lindo esse encontro: “ “Durante muitos anos fui infeliz, de forma consciente & deliberada”, diz Beckett a McGreevy [seu amigo Thomas McGreevy]. (...) A crise à qual alude Beckett, seus crescentes suores e tremores, tinham começado em 1933, quando, após a morte do pai, sua própria saúde física e mental se deteriorou a ponto da família se preocupar. Sofria palpitações cardíacas e tinha ataques de pânico noturnos tão agudos que seu irmão mais velho teve que dormir junto na mesma cama para acalmá-lo. Durante o dia ficava em seu quarto com o rosto voltado para a parede, negando-se a falar, negando-se a comer. Um médico, amigo, sugeriu a ele psicoterapia, e sua mãe se ofereceu para pagar o tratamento. Beckett aceitou. Dado que a prática da psicanálise ainda não era legalizada na Irlanda, ele teve que se mudar para Londres, onde se transformou em paciente de Wilfrid Bion, que era dez anos mais velho que ele e nesse momento fazia práticas terapêuticas no Instituto Tavistock. No período de 1934-1935, Beckett foi atendido por Bion centenas de vezes. Se bem que as cartas desse período não revelem muito sobre o conteúdo das sessões, elas indicam que Beckett o respeitava. Bion se concentrou na relação de Beckett com sua mãe, May Beckett, que lhe despertava ataques de ira, não obstante ser incapaz de se separar dela. Beckett dizia que não lhe tinham dado à luz bem. Com Bion como guia [nota do autor deste blog: como não pensar aqui em Dante guiado por Virgílio?], Beckett conseguiu fazer uma regressão ao que, em uma entrevista que deu nos últimos anos de sua vida, qualificou de “lembranças intrauterinas”, de “sentir-me numa armadilha, de estar numa prisão sem poder escapar, de gritar para que me deixassem sair, mas sem ninguém ouvir, sem que ninguém me escutasse”. Os dois anos de análise tiveram êxito na medida em que libertaram Beckett de seus sintomas, se bem que estes ameaçavam retornar quando ele visitava sua casa familiar. Em uma carta a McGreevy de 1937, ele sugere que ainda teria de alcançar a paz com sua mãe: “Não lhe desejo nada absolutamente, nem bom, nem mau”, escreve. “Sou o que seu amor selvagem fez de mim, e é bom que um de nós dois aceite isso finalmente. (...) Simplesmente não quero vê-la, escrever-lhe, nem saber dela. (...) Se agora me chegasse um telegrama dizendo que morreu, eu não daria às Fúrias o gostinho de considerar-me responsável por isso, nem sequer de modo indireto. Suponho que tudo se reduz, então, a me dizerem que mau filho eu sou. Amém, então.” O livro de Beckett “Murphy”, terminado em 1936, é seu primeiro trabalho em que o autor, prisioneiro de uma dúvida crônica sobre si mesmo, parece ter sentido um verdadeiro orgulho criativo, se bem que efêmero (pouco depois qualificaria o livro de “um trabalho muito torpe, minucioso, respeitável & torpe”); o livro se baseia nas experiências dele no meio terapêutico de Londres e em sua leitura da literatura psicanalítica do momento. O protagonista é um jovem irlandês que explora técnicas espirituais de retiro do mundo e alcança seu objetivo quando se mata sem querer. De tom leve, o livro é a resposta de Beckett à ortodoxia terapêutica sobre o fato do paciente dever aprender a relacionarse com o mundo nos termos do mundo. Em Murphy, e depois em suas obras maduras, as palpitações e os ataques de pânico, o medo e os tremores ou o esquecimento deliberado, são respostas totalmente apropriadas à nossa situação existencial. Wilfrid Bion logo deixou uma considerável marca na psicanálise. Durante a Segunda Guerra, foi o pioneiro na organização de grupos de terapia com soldados que voltavam do fronte de batalha (ele havia experimentado um trauma de guerra na Primeira Guerra: “Morri em 8 de agosto de 1918”, escreveu em suas memórias). Ao terminar a guerra, se analisou com Melanie Klein. Se bem que seus textos mais importantes versam sobre a epistemologia da transferência entre analista e analisante, para as quais criou uma notação algébrica que denominou “the Grid”, Bion seguiu trabalhando com pacientes psicóticos que experimentavam um pavor irracional, uma morte psíquica. Nos últimos anos, tanto os críticos literátios como os psicanalistas, prestaram mais atenção à relação entre Beckett e Bion, bem como sua influência recíproca. Não temos registro algum do que se passou entre ambos. Mas, é possível dizer que a psicanálise do tipo que fez Beckett com Bion – o que poderíamos chamar de análise proto-kleiniana – foi uma instância muito importante em sua vida, não tanto porque o aliviou (ou parece ter aliviado) de seus sintomas paralizantes, nem porque o ajudou (ou parece ter ajudado) a romper com sua mãe, mas sim porque o confrontou, na pessoa de um interlocutor, interrogador ou antagonista, o que em muitos sentidos foi seu par intelectual, com um novo modelo de pensamento e um modo de diálogo que não lhe era familiar. Em termos específicos, Bion desafiou Beckett – cuja devoção pelos cartesianos mostra quanto ele tinha investido na idéia de uma mente privada, inviolável, não física -, Bion lhe instigou a reavaliar a prioridade exclusiva dada ao pensamento. O Grid de Bion, que concede aos processos de fantasia um estatuto similar ao do resto da atividade psíquica, é, com efeito, uma desconstrução analítica do modelo de pensamento cartesiano. Na psicologia de Bion e Klein, Beckett também pode ter encontrado elementos para criar os organismos protohumanos, os vermes e as cabeças sem corpo que povoam seus diversos submundos.” Fonte: J.M. Coetzee in Las cartas íntimas de Beckett, El Clarín, Revista Ñ, 1/8/2009.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h35
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ATÉ O FIM

“Lifted” por Thomas Doering, Alemanha, em 30 de julho de 2009. “Iá – gólos vash, jar váshevo dykhânia, iá otrajiênie váshevo litsá, naprásnykh kryl naprásnyi tripietánia – vied vsiô ravnó iá s vámi do kontsá.” “Eu sou a vossa voz, o calor de vosso hálito, eu sou o reflexo de vosso rosto, o frágil tremor de vossas frágeis asas – e, em todo caso, estarei convosco até o fim.” Anna Akhmátova, do poema “Mnóguim” [“Para Muitos”], de setembro de 1922, publicado em Anno Domini MCMXXI, traduzido e citado por Lauro Machado Coelho in Anna, a Voz da Rússia, São Paulo, editora Algol, 2008, p. 9.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h23
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A VELHA LIÇÃO COMUNISTA

“A histeria pode atingir ao mesmo tempo 1.200 trabalhadores? O governo da China responde sim.” Fonte: Andrew Jacobs in The New York Times, 30/7/2009. No indispensável The New York Times, uma notícia surpreendente. Na cidade de Jilin City, próxima à fronteira com a Coréia do Norte, mil e duzentos trabalhadores de uma indústria têxtil sofreram na semana passada de um estranho conjunto de sintomas: náuseas, entorpecimento dos lábios, vertigens, dificuldades para respirar, vômitos, paralisias temporárias, convulsões e desmaios. Para os médicos do hospital, um evidente sinal de intoxicação por algum produto químico, suspeita facilmente comprovada pelo fato deles trabalharem em frente a uma fábrica de anilina. Ora, rapidamente os médicos foram silenciados pelas “autoridades” do governo comunista da China, que desmentiu qualquer possibilidade dessa causa existir e declarou oficialmente que os doentes sofrem de uma histeria de massa, uma histeria coletiva. Fantástico! Sem querer, querendo desvalorizar a causa em questão, querendo dizer que essas pessoas estão “inventando” o que não existe na realidade, os “comissários do povo” demonstram nunca, jamais terem lido Freud. Ora, se fosse verdade o que afirmam, ou seja, se é histeria o nome desse sintoma, uma causa psíquica é tão importante quanto uma causa orgânica. Em outras palavras, se intoxicar por uma fantasia é tão grave como se intoxicar por um gás venenoso. É claro que o Partido Comunista Chinês pretende, com este ato, se desresponsabilizar, como sempre faz em qualquer crise, mas, acima de tudo, pretende também “reeducar” os céticos através da boa educação comunista – na América Latina basta citar dois exemplos desse resquício: a seleção de livros “escolhida” por Hugo Chávez na Venezuela para “educar” os alunos das escolas públicas e, no Paraná, a stalinista “escolinha” do governador Roberto Requião toda terça-feira, transmitida na televisão “educativa”, é claro. Sobre isso, o grande poeta e escritor russo, Boris Pasternak, imortalizou a descoberta de Freud na boca do inesquecível médico, Iúri Andreevitch Jivago: “- Vou embora – dizia Iúri Andreevitch – Não se zangue comigo, Micha. Está abafado no quarto, faz calor lá fora. Sinto falta de ar. - Veja, a janela está aberta no chão. Desculpe, fumamos muito. Sempre esquecemos de que não devemos fumar em sua presença. Não sou culpado dessa instalação idiota aqui. Encontre-me outro quarto. - Vou mesmo embora, Gordocha. Já conversamos muito. Agradeço sua preocupação comigo, queridos companheiros. Isso não é capricho meu. É doença. Esclerose dos vasos cardíacos. As paredes dos músculos cardíacos esgarçam-se, afinam e, um belo dia, podem arrebentar. E não tenho nem quarenta anos. Não sou um bebedor inveterado, nem um farrista. - É muito cedo para celebrar os últimos sacramentos. Bobagem. Vai viver muito ainda. - Nos nossos tempos, tornaram-se mais freqüentes as formas microscópicas de derrames coronarianos. Nem todos são mortais. Em alguns casos as pessoas sobrevivem. É a doença do novo tempo. Acho que seu motivo é de caráter moral. De uma grande maioria de nós exigem uma hipocrisia permanente, constituída em sistema. Não é possível, sem prejuízo para a saúde, dia após dia, revelar-se de forma contrária ao que se sente; fazer reverências diante de coisas de que não se gosta, alegrar-se com aquilo que lhe traz desgraças. Nosso sistema nervoso não é um som vazio, não é uma invenção. Ele é um corpo físico composto de filamentos. Nossa alma ocupa um lugar no espaço e acomoda-se em nós, como os dentes na boca. Não podemos violentá-la eterna e impunemente.” Boris Pasternak in Doutor Jivago. Rio de Janeiro: BestBolso, 2008, pp. 659-660.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h50
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SEREIA

“A diva Gheorghiu: ‘Eu seduzo com a voz e escutando-me, qualquer pessoa é curada’” Fonte: La Repubblica, 29/7/2009. E foi então que ele jogou fora toda a cera do navio, atirou no mar todas as cordas, desfez um a um os nós, e foi ouvir Angela Gheorghiu. Ficou encantado, transtornado, iluminado, bobo, aéreo, aquático, possesso, lírico, apaixonado, vibrante, louco de tesão, nunca mais voltou. E vivem, e fazem, e gostam, e repetem, e é assim desde. O que Homero nunca se permitiu descobrir.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h49
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ALMA GÊMEA

“Alma gêmea da semana – “Um rosto que reluz [sparkleface] – ‘Eu faço bolos muito bons. Eu também gosto de passear. Se você tiver sorte, eu posso trazer bolos para comermos enquanto passeamos, apesar disso poder ser um pouco esquisito. Talvez pudéssemos sentar um pouco também. De preferência em uma melancólica cidade à beira-mar, fora de estação...” in The Guardian, 25/7/2009. Uma das coisas mais lindas do mundo vem da Inglaterra. Se chama “soulmate”, a seção de namoros do jornal The Guardian, que sai aos sábados no caderno “Guide”, junto com a programação de cinema, lançamentos de dvd, cds, internet, games, teatro, dança, clubes, museus. São pequenos anúncios de homens procurando mulheres, mulheres procurando homens, homens procurando homens e mulheres procurando mulheres. Muitos dos textos são belíssimos, poéticos, alguns melancólicos, outros de uma esperança tocante, alguns inventados, pura ficção, outros de uma realidade desconcertante. Em todos encontra-se o fino humor britânico, uma graça muito rara, muito própria e muito bonita. Uma vez por semana o jornal escolhe o “soulmate” da semana – o que acaba sendo um incentivo para as pessoas bem escreverem para o jornal. Outros exemplos:
 Fonte: The Guardian, 25/7/2009. Este rapaz de 50 e poucos anos escreve o seguinte: “Eu tocaria sua mão de um jeito amoroso e receberia o dom da beleza com amor e gratidão”. Não é lindo isso? Shakespeare sorriu no túmulo! A fruta não caiu longe do pé!!
 Fonte: The Guardian, 25/7/2009. “Cavaleiro de Aragão: alto, olhos azuis, procura uma dama ousada e sensual, preferencialmente com dote, que deseja que seus sonhos se realizem”. Este “com dote” define o cavaleiro. Agora, que ela tenha um desejo de que seus sonhos se realizem demonstra que o cavaleiro de Aragão não é bobo. Não adiante dote quando não há desejo em jogo. Bravo, cavaleiro!
 “Dinamarquesa, loira atraente, 40 e tantos anos, elegante, viajada, com grau universitário, procura um cavalheiro abastado, preferencialmente dos Estados Unidos, para as coisas boas da vida. A idade não importa”. Eis uma mulher decidida: “Cavalheiro abastado”, “norte-americano”, “a idade não importa”. Humana, demasiado humana!
Fonte: The Guardian, 25/7/2009. “Uma noite fria Uma fila longa Um casaco compartilhado Alguns cocktails Dança Mais dança Nascer do sol.” Esse anúncio é de chorar de tão bonito. Parabéns ao The Guardian. Isso se chama sensibilidade, paixão, diferença, pulsão, deriva, amor à vida e nada mais.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h15
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MEU MUNDO CAIU

“Graziana Capone convidada por Tarantini: ‘Nem tudo está à venda e eu odeio drogas’. A ‘Angelina Jolie’ de Bari admite: ‘Eu fui às festas de Silvio, que mal há nisso?’” – fonte: Paolo Berizzi e Giuliano Foschini in La Repubblica, 26/7/2009. Ai, as notícias da Itália não chegam de mansinho, elas caem sobre mim como granizos congelantes, aos borbotões. A última é essa. Minha querida amiga Graziana Capone, de Bari, linda modelo que fez a última campanha publicitária da Campari, se viu envolvida no escândalo das festinhas daquele canalha escroto de lá. Esse era o último prego no caixão que faltava – essa metáfora também foi jogada sobre mim. Se até a Graziana, essa flor de pessoa, essa amante do Direito (ai, ai), foi pelo erro, aceitou um convite inaceitável, perambulou por onde não devia perambular, se até ela, querida, arqueóloga, pesquisadora, se meteu naquelas cloacas máximas, então meu mundo caiu, logo eu, que nada pedi, que não me explico bem com certeza, ai, eu que aprenda a levantar. Mas, nessas horas os amigos continuam amigos. Querida Graziana, estou indo no meu Citation Sovereign te buscar para você passar uns dias em Villa Izabel. Como? Se é próxima da Sardenha? Não, minha querida. Chega de Sardenha. Há Ilha do Mel por aqui, há Caiobá, há Morretes, há Boca Maldita. Dessa última você gostou? Eu sabia. Aterrisso às oito.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h39
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SINFONIA PAULISTA

Ao meu filho, Bernardo, com seu maravilhoso filme no Anima Mundi, em São Paulo. Dia 4. Ela, na Luz, cega, pensou que ele tinha chegado ao Paraíso. E por isso fechou o caixão. Bobinha. O infeliz estava mesmo era em Jabaquara. Desconsolado e vivo. Pronto para o dia 5.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h03
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