É uma das questões mais sérias da mitologia grega. Uns dizem que foi na mesma noite em que fugiu com Páris que Helena se entregou a ele, no primeiro porto da escala, a ilha de Cranae. Outros dizem que não foi nada disso. Helena não fugiu, foi raptada. Helena não se entregou, foi tomada à força. Outros ainda dizem que Páris, ajudado pela ardilosa Afrodite, assumiu as feições de Menelau e aí sim Helena foi com Menelau...sem saber que era Páris. Essa última versão me agrada. Porque então Páris, sem perceber, procurou em Helena, Afrodite. Foram quatro na cama: Páris, Afrodite, Menelau e Helena. Quem disse que o amor é simples?
A L’espresso, na melhor tradição italiana do humor, brinca com o nome da belíssima minissérie norte-americana “Sex and the City”. Só que o “the City” vira “the Silvio”! Na melhor tradição italiana da boa reportagem, a revista traz o registro de algumas gravações feitas pela prostituta quando de seus encontros com “the Silvio” – as prostitutas do “the Silvio” são de outra “catiguria”, como já dizia aquela pobre brasileira, a Bebel. Na melhor tradição italiana da boa putaria, Patrizia D’Addario diz a “the Silvio” no leito que, com os “jovens”, teria durado apenas um segundo, mas com “the Silvio”, ela teve “the sexo”: “Sai da quanto tempo non faccio sesso come ho fatto con te stanotte? Da molti mesi, da quando ho lasciato il mio uomo... E´ normale?” [“Benzinho, você sabe há quanto tempo eu não faço sexo como nesta noite? Há muitos meses, desde que deixei meu homem...Isso é normal?”]. A resposta de “the Silvio”, na melhor tradição italiana dos profundos – e põe profundo nisso - conselheiros da alma feminina: “Mi posso permettere? Tu devi fare sesso da sola... Devi toccarti con una certa frequenza.” [“Você me permite te dizer o seguinte? Deveria fazer isso mais vezes sozinha...deve tocar-te com mais frequência...”]. Em outro trecho das gravações, revelado no começo da semana – na melhor tradição italiana da verdade a conta-gotas – “the Silvio” manda Patrizia esperá-lo “nel letto di Putin” [“na cama do Putin”], uma referência ao Gandhi da Rússia, ex-presidente e atual titereiro, Vladimir Putin. Há um outro trecho memorável da gravação em que “the Silvio” leva Patrizia para um passeio pela mansão de villa Certosa [na Sardenha] e demonstra seu amor pelos cisnes no lago e também revela a descoberta de 30 tumbas fenícias de 300 anos antes de Cristo, escavadas em sua propriedade. Ora, que “the Silvio” goze desse jeito, dessa forma [e fôrma], com cisnes passeando pelo lago, na cama do Putin e sobre 30 tumbas fenícias, não deveria causar perplexidade em ninguém. Como diz admiravelmente Caetano Veloso, de perto ninguém é normal. Aliás, é por isso que as fantasias escandalizam tanto e, socialmente, em geral, apenas uma vez por ano elas são “permitidas” em público, no carnaval. Ora, a questão é que “the Silvio” exige para seu gozo a participação monetária de cada cidadão italiano, ou seja, desde o avião que transportou a prostituta para seu harém, o pagamento dela, bem como a própria construção do palacete, a compra dos cisnes, a escavação das tumbas, em tudo isso há dinheiro público desviado, dinheiro público roubado. Eu sei que para um leitor brasileiro isso é difícil de acreditar, pois, ingenuamente, poderia perguntar: mas ele não é milionário, não é um businessman de sucesso, por que diabos ele precisaria do dinheiro do estado para gozar? Aqui a psicanálise pode responder: porque é assim que os perversos gozam. O perverso nunca goza sozinho! Ele precisa do Outro na posição de espoliado, de estuprado, de ferido, de sacaneado. Caso contrário, o perverso não goza. O problema do neurótico é não se dar conta disso – por exemplo, e isso Chiara Saraceno viu muito bem em seu artigo belíssimo no La Repubblica de hoje intitulado “La Sindrome del Maschio” [“A Síndrome do Macho”], basta pensar que justamente por causa disso é que os italianos reelegeram “the Silvio” para mais um governo na Itália. Ou seja, o neurótico-masoquista faz um estranho par aqui com o perverso-sádico. O neurótico-voyeur quer espiar pelo buraco da fechadura o que “the Silvio” está fazendo na cama do Putin com Patrizia, nem que para isso ele tenha que pagar um salgado ingresso – porém o “segredo” aqui é ele pagar sem se dar conta que está pagando (isso também se chama ideologia). “The Silvio” venceu. Aconteça o que acontecer a partir de agora, o sacana atingiu o gozo de ver um país inteiro de quatro babando por sua “competência”, por seu “desempenho” e por seu “sucesso”. Não são tumbas fenícias que estão agora desenterradas. São tumbas italianas.
Primeira página do La Repubblica, 21/7/2009: “Berlusconi-D’Addario, eis as gravações: ‘Me espere na cama do Putin’”.
“Concorrência desleal”? Mas se acabar com isso acaba o capitalismo!! Só mais uma questão: se a AmBev deve pagar R$353 milhões, quanto terá que pagar a Coca-Cola, a Nestlé, a Unilever, a Pfizer e assim por diante? Existe alguém aí fazendo concorrência “leal”???
Maravilhoso poema em “Amarcord” (1973), de Federico Fellini. Música de Nino Rota. Epifânico, lindo, inesquecível.
“Não regresso com prazer a Rimini. Tenho de dizê-lo. É como uma paralisia. Minha família ainda mora ali, minha mãe, minha irmã. Tenho medo de certos sentimentos? O retorno me parece antes de tudo uma complacente e masoquista insistência da memória, algo teatral, literário. Claro que esse pode ser o seu encanto. Um encanto turvo, sonolento. Mas não consigo considerar Rimini como um fato objetivo. É antes apenas uma dimensão da memória. Na verdade, quando estou em Rimini sou agredido por fantasmas já arquivados.
Talvez esses inocentes fantasmas pudessem me fazer, se permanecesse, uma muda e embaraçosa pergunta a que não poderia contestar com piruetas, mentiras; antes, deveria extrair do próprio lugar o elemento originário, mas sem enganos. Que é Rimini? Uma dimensão da memória – uma memória, entre outras coisas, inventada, adulterada, violada -, sobre a qual tanto especulei que me deu uma espécie de vergonha.
Porém devo continuar falando disso.”
Federico Fellini in Fellini por Fellini. Porto Alegre: L&PM, 1983, pp. 11-12.
Fotografia de Nobuo Asada, Fukui, Japão, da série “A Place Where the Sea Is”, 1997.
“Em Amarcord reconstruí o mar. E na tela nada é mais verdadeiro do que esse mar. Era o mar que eu desejava e nunca teria conseguido com o mar real. Como se pode refazer o mar? São segredos profissionais que não pretendo revelar. Bastam duas folhas de plástico e dois maquinistas com boa vontade. Para isso eu trabalho, para cortar, pregar, envernizar, dispor as luzes. O cinema é uma ilusão, uma imagem que funciona pelo que é em si.”
Federico Fellini in Fellini por Fellini. Porto Alegre: L&PM, 1983, p. 144.
Ontem, Guilherme Barros, na Folha de São Paulo, entrevistou o empresário Paulo Cunha, presidente do conselho de administração do grupo Ultra. O empresário criticou que o Brasil perde muito tempo no “bafafá político”, pois há temas mais relevantes para serem discutidos no país e, avançou ele, “se uma empresa fizesse o recrutamento dos seus quadros da mesma maneira que os partidos, as empresas estaria fora do jogo” (fonte: Guilherme Barros in Folha, 20/7/2009). É uma visão tão pobre sobre a política, tão ingênua, tão boba – por exemplo, essa estúpida comparação entre uma fábrica e a política. Mas é ótimo que a política não seja igual a uma fábrica, caso contrário viveríamos permanentemente no fascismo. Há coisa mais fascista que uma fábrica japonesa de automóveis? Há coisa mais fascista que alguns empresários querendo “comandar” um país por meio de ordens e “objetivos”, “metas”, supostamente baseados em uma “racionalidade” de gabinete? Ridículo e perigoso. Basta ver o que o “empresário” Silvio Berlusconi fez com a Itália. Um horror. Viva o “bafafá”, pois é justamente por meio dele que se pode perceber, aprender e conviver com o fato mais escamoteado, mais mantido duramente à distância, mais reprimido da vida cotidiana: nós não somos o que pensamos ser. Sobre isso, recomendo o belíssimo artigo de Carlo Galli sobre o pensamento de Jacques Derrida, publicado hoje no indispensável La Repubblica. Alguns trechos traduzidos:
“Uma respeitável tradição que nasce com Aristóteles associa a política à humanidade: ser um homem significa, segundo esta definição, ser um animal particularíssimo; significa ser o único animal que é naturalmente social e dotado de razão. Pertence à tradição humanística ocidental identificar humanidade, razão e política, e, por causa disso, estabelecer um abismo intransponível entre a espécie humana e a animal. Porém, essa identificação e esta distinção são, na realidade, muito problemáticas, como lembra Jacques Derrida, o filósofo francês (na verdade, argelino), morto em 2004, que foi uma das mentes mais importantes da segunda metade do século XX, no primeiro dos volumes que compõem os seus Seminários dados na l’École des hautes études en Sciences sociales de Paris, “A Besta e o Soberano” – 2001-2002, no prelo pela Jaca Book [na Itália]. Se trata de textos que reconstituem plenamente o fascinante desenvolvimento argumentativo e expresivo, os desvios, o aprofundamento, as paradas, as escaramuças, as simulações, das lições de um pensador que nas pregas da linguagem, no corpo a corpo com os textos, procurava e continuamente produzia novas respostas mas, sobretudo, novas perguntas, inesperadas, não pensadas, provocantes. Fundamentalmente, questões filosóficas. Assim, não foi difícil para Derrida demonstrar que a política – o discurso político ocidental – está cheio de figuras, metáforas, de animais: dos mais frequentes, como os lobos e os cordeiros, da tradição clássica, ou os lobos e os leões de Maquiavel – o qual recorre também a um ser mitológico como o Centauro -, aos monstros bíblicos do Leviatã e Behemoth que Thomas Hobbes trouxe para o imaginário político. Uns não menos inquietantes que os outros, porque demonstram de modo evidente que longe de constituir-se como o reino e o domínio do humano, a política requer, para ser pensada e praticada, que a humanidade se misture à animalidade, que o recinto da razão inclua e exclua as feras, que a Besta é a ineliminável parte da política. Na política se torna manifesto – e este é o coração teórico dos seminários [de Derrida], que aquilo que é próprio do homem não é ser absolutamente diferente da besta, mas fazer parte com ela da imensa questão do Vivente.(...) É a política – a zoologia política – que revela que o Sujeito não tem uma essência autônoma e racional, e que seus contornos se esfumam naqueles da Besta; é a política que mostra no seu vértice, a soberania, quando o Quem está em inquietante vizinhança com o Que Coisa.(...) Não é totalmente nova esta genealogia que mostra, na política, não a pureza mas a hibridização, não a transparência e a unicidade do sujeito racional, mas a opacidade da Vida, com sua riqueza polimorfa e polissêmica. Para sustentar seu argumento, Derrida convoca uma vasta plêiade de autores, entre os quais não poderia faltar Lacan e Schmitt, Heidegger e Deleuze, Focault e Benveniste. Mas, o principal ponto de divergência e de diferença à respeito da tradição desconstrucionista ( e sobretudo a respeito de Agamben), é que a relação sugeito-besta há em Derrida uma conotação não trágica, mas ambígua, isto é, que ele não vê apenas o fim do humano no animal, ou a redução do humano à bestialidade, ou a desumanização do inimigo, ou a violência biopolítica do poder. Estas transformações são verdadeiras, obviamente, mas não devem ser interpretadas como a ruína de uma essência (a do homem com seu Logos) por uma outra totalmente diferente (a do animal), mas sim como variações, esfumaturas internas de uma indecifrável, originária e misteriosa Vida.”
Fonte: Carlo Galli in Nel Cuore del Potere – Quando il Sovrano è Simile alla Bestia [No Coração do Poder – Quando o Soberano é também uma Besta], La Repubblica, 21/7/2009.
Festa de comemoração da Revolução Sandinista em Manágua, junho de 2009. Fotografia de Esteban Felix/Associated Press in Los Angeles Times, 19/7/2009.
“O que há em um nome?”, perguntou certa vez Shakespeare nos lábios de Julieta. Tracy Wilkinson, do Los Angeles Times, foi até a Nicarágua e lá encontrou Marx Lenin Martinez, 30 anos, um aspirante a técnico de computação, filho de Mario Martinez, 50 anos. “Eu já admirei os objetivos originais da revolução, mas hoje os sandinistas são como todos os outros políticos”, declarou ele. Seu pai, por sua vez, responde diferente: “A alternativa, de a direita continuar (no poder), teria sido pior” (fonte: Tracy Wilkinson in Traídos pela Revolução, Los Angeles Times, traduzido em O Globo, 20/7/2009). Há um bonito conflito aqui entre pai e filho que, inclusive, contraria a manchete do Globo. Quem se sente traído é o filho, não o pai. Ora, o título em inglês da reportagem é diferente: “Many Nicaraguarevolutionaries feel betrayed by the revolution”. Muitos se sentem traídos, não todos. De qualquer forma, o que está em debate aqui é uma questão fundamental: o sonho acabou? O pesadelo voltou? Ou então, pensando no poeta, sacerdote e revolucionário Ernesto Cardenal, chegou ao fim o dia mais feliz de sua vida, a data do triunfo da revolução sandinista, 19 de julho de 1979 (fonte: Javier Lafuente, El País, 1/3/2009)? A resposta de Mario aqui me parece essencial: escolher um nome para seu filho, nomear esse bebê no alvorecer de um novo tempo, de uma nova época. E ele escolheu os nomes “Marx Lenin” juntos, um novo nome. Ao fazer essa junção, esse homem responde a Shakespeare: há pai num nome, há o desejo de que seu filho seja alguém diferente, único, especial. Não há partido político que mude isso, não há corrupção que destrua isso, não há desilusão que consiga tirar de um pai esse gesto fundador, esse ato fundamental, o de fazer de seu filho uma vida. Não importa que renga, não importa que falha, não importa que severina. “Marx Lenin” é a resposta que Mario dá contra a morte. Explicar? Não é essa a função de um pai. Seu trabalho é transformar a realidade. “Marx Lenin” é o nome disso. Mesmo que os trinta anos sejam comemorados esta noite.
Alessandra Negrini por Rafael Moraes in Revista Domingo, Jornal do Brasil, 19/7/2009.
Chorei. E lembrei do maravilhoso Cauby cantando Bastidores do Chico. E me tranquei neste blog para cantar Alessandra Negrini que eu vi pelo salão do Jornal do Brasil de hoje. Que coisa mais linda! Já me pediram diversas vezes que definisse epifania. Pois bem, epifania é Alessandra Negrini. Só isso. Um pequeno trecho de sua entrevista a Luiz Felipe Reis:
“Desde que interpretou a jovem e sedutora Engraçadinha, protagonista da minissérie homônima, dirigida por Denise Saraceni em 1995, Alessandra tornou-se atriz. De verdade. Pelo menos para ela: “Me deu um lastro, como se fosse um diploma. Faço teatro desde pequena na escola, quando morava em Santos. Já havia feito TV, mas com Engraçadinha ganhei reconhecimento. A partir daí, talvez, eu tenha fincado pé e dito para mim mesmo ‘pode ser que eu esteja na profissão certa’. Pode ser, porque eu sou muito crítica. Eu sempre coloco uma dúvida”, conta a ex-estudante de jornalismo e ciências sociais da USP.
Questionamentos que alimenta há 10 anos em sessões de análise. Não sobre a profissão. Mas sobre os personagens que veste sobre a pele - ou se despe, como no longa de Bressane. “Se você tem um filme forte o suficiente em termos de linguagem para te vestir você não está nua. Estar nua é uma coisa linda, uma forma de expor a alma. E um recurso muito importante para o ator. No filme eu estou nua, mas tenho ao meu lado um fotógrafo como o Walter Carvalho. A luz é minha roupa e a dramaturgia, meu figurino completo”.
Fonte: Alessandra Negrini a Luiz Felipe Reis in Revista Domingo, Jornal do Brasil, 19/7/2009.
Que magnífica! Essa mulher faz análise, se veste de luz e de letras, não caçoa de mim e sempre volta! Essa Engraçadinha dela eu já revi umas quarenta vezes – é a melhor interpretação de uma personagem de Nelson Rodrigues! E a Playboy dela em abril de 2000? Ali começou o novo século para mim. Não antes, não depois. Guardo essa revista como uma relíquia preciosa – por que a alma dessa mulher não está no Louvre ao lado da Mona Lisa? Como é bonita a Alessandra Negrini! E sua Taís de Paraíso Tropical? Essa eu gravava todos os capítulos e depois passava prá frente até chegar nela – o que faço hoje com a porcaria do grão de areia True Blood, à procura da pérola da Anna Paquin. Espetacular! E não vou terminar elogiando de novo o Rio de Janeiro. Chega. Agora, acordar de manhã com a Alessandra Negrini, onde mais neste mundo? Onde???? Chorei.
Fonte: Alessandra Negrini a Luiz Felipe Reis in Revista Domingo, Jornal do Brasil, 19/7/2009.