TRAVESSIA

E foi então que, ao escutar que Branca de Neve é a mais linda, ela respirou aliviada. Poderia agora, pela primeira vez, deixar de ser a mais, a melhor, a tudo, para se entregar, aos pedaços, a menos, à vida. O que ela fez? Atravessou o espelho. Caiu na vida, faceira, querida, uma mulher. Viva, enfim.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h01
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SOPHIA LOREN

Sophia Loren batizou no domingo o transatlântico italiano “Msc Splendida” em Barcelona. Fonte: La Repubblica, 13/7/2009. Dizem que a Itália deu ao mundo Dante, Leonardo, Maquiavel, o Direito, a ópera, a melhor cozinha, Fellini, o humor, a língua, os Ferrari, é claro. Mas, a mim, ela deu também Sophia Loren. Cada vez que eu reencontro essa mulher, algo em mim desmorona, treme, entra em erupção, ferve. Quantas vezes revi “Matrimônio à Italiana”? Umas vinte. E cada vez choro, cada vez me emociono profundamente com aquele final inesquecível, maravilhoso. Quantas vezes vi “Os Girassóis da Rússia”? Umas dez. E cada vez choro, cada vez grito contra aquele final absurdo, não aceito, não pode. Quantas vezes vi “Um Dia Muito Especial”? Umas quinze. E cada vez choro, cada vez amo mais aquele encontro impossível em meio ao pior do mundo. Sophia Loren me batizou, me mergulhou nas águas quentes da vida, Sophia Loren fez de mim um homem. 
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h56
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AUX ARMES CITOYENS!

“O “Joana-D’Arc” entregue aos ingleses? “Triste”, “deplorável”, “inimaginável”: o porta-helicópteros emblemático da Marinha francesa poderá ser desmontado por um estaleiro britânico” – manchete do Le Monde, página 3, 14/7/2009. Como já dizia Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, a história se repete como farsa. Os enfants de la Patrie não são mais os mesmos. Gaëlle Dupont do Le Monde foi à Brest para investigar o incrível, o inimaginável, o improvável, o bizarro que é a ameaça que paira sobre a França neste momento. O navio porta-helicópteros “Joana-D’Arc” – registre-se aqui o bom gosto da Marinha francesa em homenagear as grandes mulheres da pátria em seus navios. Esses dias esteve próximo ao Brasil o submarino “Emeraude”, homenagem à Esmeralda, personagem de Victor Hugo no Corcunda de Notre Dame, uma cigana!! Como fazer a guerra nos braços de uma cigana? E pensar na triste Itália que, no atual desgoverno, certamente mandaria trocar o nome do submarino para “Pagliaccio”, mais condizente com seu sultão de opereta. Na França não. Porém, Gaëlle descobriu que, no interior profundo da França – ah esses interiores profundos...-, paira uma ameaça ainda pior. Le jour de gloire acabaram. Após muitos anos de serviços oferecidos à pátria – e quantos serviços essa intrigante donzela de Orléans fez, por exemplo, transformar seu corpo no l’étendard sanglant contra esses mesmos ingleses que agora são contratados pela França para, mais uma vez, destruir, profanar, estuprar, queimar, desmembrar a virgem. Como pode isso? Só mesmo o bandido do Villon para amá-la loucamente em sua balada das damas passadas, “et Jeanne, la bonne Lorraine, Vierge souvraine”, maravilhosa! Aux armes citoyens!! Como? Bernard foi ao shopping atrás do último Ipod e Richard está ocupado no DS? Eu apelo aqui à maior autoridade da França neste momento, minha querida conterrânea Carla Bruni, liberté, ma chérie, liberté Joana D’Arc das mãos desses insanos, desses ignorantes da história, desses traidores da pátria. Sim, sim, eu te recebo em Curitiba para conversarmos sobre isso. No mesmo lugar de sempre? Eu sei o que fazer de nos heures précieuses.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h04
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MAL-ENTENDIDO

Astor Piazzolla por Tony Valdez, junho de 1989 no Teatro Ópera de Buenos Aires in Página 12, 12/7/2009. Juan Pablo Bertazza foi entrevistar os biógrafos de Astor Piazzolla para o Página 12 de Buenos Aires. Trata-se de Diego Fischerman e Abel Gilbert e o livro se chama, magnificamente de “Piazzolla: o mal-entendido”, editora Edhasa, Buenos Aires, 2009. É uma beleza atrás da outra. Impressionante. As lágrimas me interromperam a leitura o tempo todo. Alguns trechos, a começar pela explicação do por quê da escolha da fotografia acima para ilustrar a capa do livro: “Essa fotografia foi a escolhida por Fischerman e Gilbert para a capa do livro. Ela foi tirada por Tony Valdez em junho de 1989, no teatro Ópera, durante um concerto de Piazzolla junto daquele que seria seu último grupo, o Sexteto Nuevo Tango, que estava composto por dois bandoneones, piano, guitarra elétrica, contrabaixo e violoncelo. Foi o último concerto de Piazzolla na Argentina pois, depois, e poucos anos antes de morrer, realizou um giro muito grande pelos Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Holanda. “Escolhemos essa foto como capa porque Piazzolla aparece de costas para o fotógrafo; ele está olhando para o público e o fotógrafo, por sua vez, o vê do outro lado. Não é a fotografia típica que se conhece dele, de frente e olhando para a câmera, e isso foi justamente o que tentamos fazer neste livro: já que os documentos seguem sendo os mesmos, entrevistas, discos, anotações e declarações de familiares e amigos, o que buscamos aqui foi olhá-lo à contraluz, olhá-lo de outro lado para ver se podíamos dizer algo diferente do que já foi dito, ou, melhor, algo diferente do que já se havia lido dele, que, para nós, se encontra em grande parte cheio de mal-entendidos”. Bertazza abre seu texto citando Borges: “Nenhuma pessoa segue sendo a mesma depois que alguém escreve sua biografia. E, de algum modo, nenhuma biografia pode permanecer ilesa depois da demolição que Borges fez com sua habitual ironia: “Que um indivíduo queira despertar em outro indivíduo recordações que pertencem a um terceiro, é um paradoxo evidente. Realizar com despreocupação esse paradoxo é a vontade inocente de toda biografia”.” Sobre os autores do livro, diz Bertazza: “Seus autores, Digo Fischerman e Abel Gilbert, quem sabe por sua combinação de escritores, jornalistas e músicos, contam esse desafio em uma conversa dinâmica, cheia de entradas e saídas, que tem muito do universo musical, com bastante harmonia mas também mais de um contraponto, com frases em uníssono e também frases polifônicas, onde deixam entrever suas próprias diferenças, com palavras a capella e palavras acompanhadas dos instrumentos por excelência deste livro, ou seja, a intersecção entre música e o discurso de Astor Piazzolla.” Sobre o nome de Piazzolla: “Ele foi batizado através de um erro. Vicente Piazzolla, que logo passaria à história como Nonino, pôs no filho um nome que não existia, um nome em que ele buscava homenagear um amigo italiano que, por mero capricho, usava uma abreviatura de seu próprio nome, Astor no lugar de Astorre. Como se isso fosse pouco, o instrumento associado inexoravelmente a Piazzolla, o bandoneon, um instrumento fatal não só em sua invenção mas também no modo como se transformou em signo por excelência do tango – foi comprado por seu pai quando ele tinha oito anos, em uma casa de penhor de Chinatown, em Nova Iorque, um lugar marginal dentro do centro, onde Astor viveu durante boa parte de sua infância. “Além de ser um personagem anfíbio entre o supostamente elevado e o popular [na música], além de estar sempre oscilando no movimento entre a margem e o centro, Piazzola encarnou durante toda a sua vida a contradição de querer ser imensamente vanguardista e, de outra parte, ser o mais aceito possível com esse vanguardismo; ele quer tudo e se aborrece com as pessoas quando não o escutam”, acrescenta Fischerman.” Fonte: Juan Pablo Bertazza in “Biografía no astorizada”, Página 12, Buenos Aires, 12/7/2009.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h01
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