Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br
TRANSFORMERS
Primeira página do The New York Times, 3/7/2009.
Ontem, véspera do 4 de julho, essa fotografia me confundiu. A legenda dela não explica, complica. Quem é o Optimus Prime aí e quem é o Megatron? Onde está o Cubo? Uma coisa é certa. Haverá a vingança dos derrotados. Fallen não cairá. Enquanto isso, vou atrás da Mikaela. Como?Ela foi procurar o Bumblebee? Mas que decepticon!
Como homenagear um bêbado genial? Juan Forn decidiu citá-lo. Trata-se do bebum-russo Serguei Dovlatov, escritor nas horas vagas de seu fígado. Em 1980, expulso a pontapés da União Soviética, aos 37 anos, sem nenhum livro publicado e sem nenhum dinheiro no bolso, mas com muitas garrafas entornadas em seu curriculum vitae, esse bebum-homem foi parar em Nova Iorque e ali vai morrer aos 49 anos, de coma alcoólico em uma ambulância a caminho do hospital. Nos seus doze anos novaiorquinos, esse bebum-nada vai publicar um livro por ano, doze no total, vai parar na The New Yorker e, como relata tão belamente Juan Forn:
“o assombroso disso é que esses doze livros escritos contra o relógio estão “talhados como poemas, linha por linha, com uma sintaxe espantosamente pura” (Joseph Brodsky), são “uma mistura perfeita de ácido sulfúrico e elegância no patíbulo” (Kurt Vonnegut) e, como diz seu tradutor para o espanhol, o colombiano estabelecido no México, Jorge Bustamante García, é assustador que das mãos trêmulas desse gigante que parecia um tratorista bêbado tenha saído uma prosa tão perfeitamente cristalina”
O artigo inteiro de Juan Forn é para ser emoldurado na sala, é para virar cartilha de alfabetização, e, no final, não termina assim:
“Seu sarcasmo, seu olho genial para retratar a estupidez (“Na televisão de Leningrado passa uma luta de box, um pugilista negro enfrenta um polaco ruivo, o locutar então anuncia: ‘O boxeador negro pode ser reconhecido pelo calção azul’”), se combinava com uma ácida sinceridade para consigo próprio, tanto para falar do alcoolismo (“Quando era criança, eu pensava que a pátria era a liberdade. Depois passei a pensar que a pátria era o lugar onde o homem encontra a si mesmo. Até que chegou o momento de ir para o estrangeiro e um amigo me falar, sem saber que dizia uma das grandes verdades da vida: ‘Recorda, velho, onde há vodka, ali está a pátria!’”), como para explicar porque escrevia (“Me atormentava minha incerteza, odeio minha disponibilidade para sofrer por pequenas coisas, eu desmaio de medo diante da vida, e, contudo, isso é a única coisa que me dá esperança, é a única coisa pela qual eu devo agradecer ao destino. Porque o resultado de tudo isso se chama literatura”).
Nabokov dizia que caminhava sempre à borda da paródia, mas necessitava do outro lado um abismo de seriedade. A frase poderia ser aplicada perfeitamente a Dovlatov. Quem o conheceu afirma que ele lia com uma intensidade assustadora. Era célebre sua confissão: “A maior desgraça da minha vida foi a morte de Ana Karenina”. Melhor ainda a sua definição sobre a arte de bem ler (“Qualquer tema literário apresenta três aspectos: tudo o que o autor quis expressar; tudo o que soube expressar, e tudo o que expressou sem querer – e esse é o aspecto mais interessante”). Mas, a minha frase favorita absoluta de Dovlatov é essa:
“Se pode venerar a inteligência de Tolstói, maravilhar-se com a elegância de Pushkin, admirar a coragem moral de Dostoiévski, o humor de Gogol e assim sucessivamente. De minha parte, eu só queria ser Tchekhov”.
Ainda que seja altamente improvável, eu adoro pensar que Dovlatov pronunciou essa frase quase desmaiado na maca da ambulância, olhando para os enfermeiros porto-riquenhos que tratavam de tentar mantê-lo com vida até chegar ao hospital.”
Fonte: Juan Forn in Confieso que he bebido, Página 12, Buenos Aires, 3/7/2009.
Dovlatov não chegou. Foi se encontrar com Ana Karenina.
“Meu método não é simples. Eu faço perguntas complexas aos meus bailarinos e muitas dessas perguntas ficam sem respostas. No entanto, a minha preocupação é saber o que a minha companhia está pensando”.
Pina Bausch citada por Beth Néspoli in O Estado de São Paulo, 1/7/2009.
Epifânica. Belíssima também a homenagem que o crítico de dança do The New York Times, o indispensável Alastair Macaulay, fez a Pina Bausch. Em um certo momento, muito emocionado, ele diz assim:
“But there were several kinds of dance in Ms. Bausch’s theater pieces. Several of her epics included arch little routines (sometimes with the cast coming into the auditorium, and usually performed with women wearing red lipstick) involving a small social-dance-like step pattern, smart upper-body gestures and — here the Bausch style was always at its most precise — sophisticated facial expressions. The dichotomy between this social ego and the incoherent flailings of the anguished id was central to much of her work.”
Traduzido, fica mais ou menos assim:
“Houveram muitos tipos de dança nos espetáculos de Pina Bausch. Muitos de seus épicos incluíam um arco de pequenas rotinas (algumas vezes com os artistas descendo até o auditório e fazendo performances com mulheres de batons vermelhos), envolvendo pequenos números de danças sociais-padrão, com rápidos movimentos do corpo e – no estilo mais preciso de Bausch – com sofisticadas expressões faciais. Essa dicotomia entre o Ego social e as incoerentes flagelações de um Id angustiado foi o centro de seu trabalho.”
Alastair Macaulay in A Stage for Social Ego to Battle Anguished Id [Um palco para o Ego Social combater o Id Angustiado], The New York Times, 1/7/2009.
Le Sacre du printemps [em russo, Весна священная] de Igor Stranvinski, coreografado por Pina Bausch em 1975, hoje no repertório do Ópera de Paris.
Palavras que definem uma vida. “Essa menina é muito elástica” – lhe disse o Outro quando criança, no restaurante da família em Solingen, Alemanha (fonte: Roger Salas in El País, 1/7/2009). “Bewegung” – lhe disse o Outro desde que nasceu. “Bewegung”, palavra que significa “movimento” na língua alemã e também “emoção” (fonte: Win Wenders in La Repubblica, 1/7/2009) – bela língua! Banhada pelo Outro, no movimento do elástico, o que fez ela quando em terra estrangeira, em Outra língua, diversa da sua? Ela, sem muito querer por aí, levada, movida, mexida, salta do “motion” a “emotion” – só podia fazer isso. Da Principessa Lherimia de Fellini no maravilhoso E La Nave Va ao Café Müeller que Pedro Almodóvar pôs um pedaço no inesquecível Fale com Ela, Pina Bausch dançou, errou, tropeçou, foi dançada, foi vivida, foi habitada pelo desejo. Isso fala, isso dança, isso vive. Linda mulher!
Eliska por Petr Kleiner, República Tcheca, em 29 de junho de 2009.
Ciel brouillé
On dirait ton regard d'une vapeur couvert; Ton oeil mystérieux (est-il bleu, gris ou vert?) Alternativement tendre, rêveur, cruel, Réfléchit l'indolence et la pâleur du ciel.
Tu rappelles ces jours blancs, tièdes et voilés, Qui font se fondre en pleurs les coeurs ensorcelés, Quand, agités d'un mal inconnu qui les tord, Les nerfs trop éveillés raillent l'esprit qui dort.
Tu ressembles parfois à ces beaux horizons Qu'allument les soleils des brumeuses saisons... Comme tu resplendis, paysage mouillé Qu'enflamment les rayons tombant d'un ciel brouillé!
Ô femme dangereuse, ô séduisants climats! Adorerai-je aussi ta neige et vos frimas, Et saurai-je tirer de l'implacable hiver Des plaisirs plus aigus que la glace et le fer?
Charles Baudelaire
Céu nublado
Dir-se-ia teu olhar coberto de uma bruma;
Teu olhar misterioso (é azul, verde ou se esfuma?)
Às vezes terno e sonhador, às vezes cruel,
Reflete a palidez e a indolência do céu.
Lembras os dias brancos, mornos e velados,
Que em prantos põem os corações enfeitiçados,
Quando, despertos por torção desconhecida,
Os nervos tensos zombam da alma adormecida.
Não raro imitas essas cores vaporosas
Que fulguram aos sóis das estações brumosas...
Como resplendes, horizonte assim molhado
Quando a flama do sol aquece o céu nublado!
Ó mulher perigosa, ó climas sedutores!
Hei de adorar a tua neve e os teus rigores?
E como arrancarei do inverno em que me enterro
Mais agudo prazer que os do gelo e do ferro?
Charles Baudelaire in As Flores do Mal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, pp. 216-217. Tradução de Ivan Junqueira.
Não é um país sério. O que são esses soldados rastejando por debaixo da cerca? Será que ninguém aprendeu nada com os Estados Unidos? Bombardeiem, arrasem, liquidem com tudo! Não, a América Central continua fazendo tudo errado. Pablo Ordaz, correspondente do El País, relata que o presidente de Honduras, Manuel Zelaya Rosales, acreditou que os militares golpistas tivessem ficado comovidos com as declarações de solidariedade internacional que ele recebeu na semana passada – entre elas, as de Hugo Chávez, Daniel Ortega, Raúl Castro, mas também da Organização dos Estados Americanos (quem?), bem como do ministro espanhol Miguel Ángel Moratinos (será que ofereceu asilo? Improvável em um país que trata os imigrantes hondurenhos a pontapés). Na noite de sábado, foi para casa dormir tranquilo, crente que os apoiantes lhe dariam algo mais do que palavras. Acordou no domingo com um fuzil apontado para ele – não leu Maquiavel: um poder sem armas não é poder. E assim, de pijama, um grupo de militares o retirou da cama e o conduziu para uma base aérea, onde foi transportado em avião militar para San José da Costa Rica. Ali, ainda de pijama, ao lado do presidente Óscar Arias, Zelaya declarou, de pijama: “Só o povo pode me retirar do poder, não um grupo de gorilas” (fonte: Pablo Ordaz in El País, 29/6/2009). Agora acompanhem comigo: um presidente de pijama? Gorilas? Bananas de pijamas? Não é um país sério. Corro as páginas do jornal para o noticiário local. Aí sim, as coisas como devem ser. No Kentucky, um pastor da igreja New Bethel, em Louisville, convocou os frequentadores do lugar para trazerem seus revólveres ao culto de sábado, para celebrar o direito de portar armas! Ah, o que são os ares de uma civilização! Isso é um país sério! Se não for atingido por uma bala, God bless America!
Sábado à noite em Louisville, Estados Unidos. Pronto para sacar! Fotografia de Ed Reinke in The New York Times, 29/6/2009.
Você me pergunta se mesmo assim eu vou? É claro que não. Sem você, como? Eu não troco nossas tórridas segundas, imperfeitas terças, inconstantes quartas, fulgurantes quintas, extasiantes sextas e atordoados sábados por um plácido domingo. Além disso, não gosto dessa cidade. É aí que aquele maledetto matou Romeu e matou Julieta. Disgraziato, farabutto, bugiardo. Como? Você me espera então na península de sempre? Beijos, Ferrari.