“It's close to midnight and something evil's lurking in the dark Under the moonlight, you see a sight that almost stops your heart You try to scream but terror takes the sound before you make it You start to freeze as horror looks you right between the eyes You're paralyzed”
Michael Jackson, versos iniciais de “Thriller”, 1982.
Continua assim: e ninguém, mas ninguém mesmo, vai te salvar da besta que já atacou, continua atacando. Você pensa em ver a luz do sol? Não é imaginação. A criatura rasteja, é uma coisa de quarenta olhos acompanhada de criaturas da noite, disfarçadas, com presas. Você sente uma mão fria no seu bolso. Não adianta fechar os olhos. Não há para onde correr. É o fim...da picada. Elas estão lá para te pegar. Arrepiante, assustador. Thriller?
Foi em 1977. Ela estava lá, era seu aniversário. Eu não. Então, uma voz passa por mim, algo que repete e repete e repete “I’ll be there”. Eu sabia muito pouco de inglês, mas o suficiente para perceber que essa música falava da gente. E então fomos dançar. Para sempre.
Foi em 1985. Ela achava que eu tinha morrido. Eu também. Longe, em outra cidade, estranha, difícil, estrangeira. E foi desse jeito que eu vi, assustado, atordoado, ultrapassado, um balé de mortos-vivos, “Thriller”. Renasci. Para sempre.
Foi em 1993. Nada ia muito bem. E foi naquela praia, numa pequena boate, escuridão, névoa, fumaça, muita gente, que ressoou para mim aquela voz, de novo, a me intrigar, do you remember?
A palavra chave aqui é “confissão”. Em um país doente de tanta religião, é de praxe que políticos pegos no contrapé, venham a público chorar, muitas tears, se confessar, pedir perdão e, em seguida, sofrerem as chagas das ferozes punições – the end is near. Ontem foi o dia do governador da Carolina do Sul, Mark Sanford face the final curtain. E que cortina! Ele state his case com um upgrade sensacional em relação aos anteriores. Em primeiro lugar, Sanford não é um político qualquer. Se trata de um dos maiores líderes do fanático Partido Republicano dos Estados Unidos. Inclusive, por pouco, muito pouco, não foi ele o escolhido a concorrer com Barack Obama na última eleição – ótima aqui a glosa de Gail Collins no The New York Times, em sua coluna de hoje epifanicamente intitulada “The Love Party” [“O Partido do Amor”]: “é incrível, mas haviam opções piores do que Sarah Palin [escolhida como vice-presidente pela chapa John McCain]”. Em segundo lugar, o governador sumiu durante uma semana and more, much more than this, a princípio seus assessores, aqueles de doze mil (dólares) por mês, disseram que ele teria tirado uns dias para escrever. Não colou. Então, os mais graduados, vinte e quatro mil por mês, estabeleceram que ele teria ido escalar os Montes Apalaches. Ontem, voltando de Buenos Aires (ai, ai, ai), o governador confessou: “Fui infiel à minha mulher”. Os Apalaches eram Outra! “Tive uma relação com alguém que começou como uma querida amiga na Argentina”. Sensacional! Casado, pai de quatro filhos, ele did. E como did!! Regrets? Ele have a full. Inclusive mencionou que passou os últimos cinco dias chorando na Argentina – a impiedosa Gail Collins não perdoou e associou isso com Andrew Lloyd Webber, pai do maravilhoso Fantasma da Ópera e, no caso em questão, de “Don’t Cry for Me Argentina”. Ele cried, e como cried. A maldosa Gail Collins traz no final de seu artigo algumas “lessons” sobre o caso. Na segunda delas, ela diz que é tempo de repensar a idéia de se eleger homens de meia idade e heterossexuais para posições de grande importância. Que bobagem! Não existe imunidade contra o inconsciente – uma governadora mulher também vai meter os pés pelas mãos, não é mesmo governadora do Rio Grande do Sul? Um governador homossexual tampouco vai conseguir deixar de se atrapalhar no exercício do cargo. O problema não está no sexo nem tampouco nas escolhas sexuais de cada um. O problema aqui se chama pulsão, se chama inconsciente, se chama divisão do sujeito, se chama sintoma. Aí sim eu concordo com a quarta e última “lesson” de Gail Collins. Ela diz que está na hora do Partido Republicano pedir desculpas a Bill Clinton, recém vindo de Buenos Aires (ai, ai, ai), pelo péssimo papel que teve no julgamento de impeachment dele. Diz Collins: “está demonstrado fartamente que jogar pedras na vida sexual das pessoas é um perigosíssimo esporte” (fonte: Gail Collins in “The Love Party”, The New York Times, 25/6/2009). Para rimar com a confissão, atire a primeira pedra quem...
O QUE UNS OLHOS E UM SORRISO TÊM QUE OUTROS NÃO TÊM?
Epifania é rever “Todas as Mulheres do Mundo” de Domingos Oliveira. Com lágrimas de dor, de saudade e de felicidade vivi essa cena, gravada em um quarto do hotel Quitandinha, em Petrópolis, onde Paulo (Paulo José) recita para Maria Alice (Leila Diniz) “teu sexo é um rio”. É um Rio, ecoa, ressoa, murmulha, me embala, acalanta, teu sexo é. Despedida ou ponto de partida? Porto.
“A cena ficou meio escurecida, feita com a típica câmera na mão do cinema novo de 1966, e mostra uma mulher de biquíni branco caminhando no mar, de costas para o espectador. O dia está nublado, e a água atinge a altura de suas coixas. Ela dá três passos, pequenos pulinhos, ultrapassando as marolas da beira da praia. Quando se aproxima uma onda maior, a mulher de corpo bem recortado vira-se para que a água lhe bata nas costas, ficando assim de frente para a câmera. Só então revela o rosto. Nesse momento, a imagem congela, num dos mais felizes fotogramas do cinema brasileiro – e lá está ela.
É Leila Diniz sorrindo.
Trata-se de uma entrada em cena ao estilo clássico das grandes divas do cinema.
Audrey Hepburn também está de costas, chupando um sorvete de casquinha, enquanto a câmera vai aos poucos contornando seu corpo até mostrá-la, faceira, observando as jóias na vitrine da Tiffany’s, no início de Bonequinha de luxo.
Elizabeth Taylor surge em Cleópatra de dentro de um tapete que vai sendo desenrolado.
Ursula Andress irrompe simplesmente de debaixo d’água, primeiro a cabeça, em seguida os olhos enormes, o arpão de caça submarina, e só depois o biquíni n’Osatânico dr. No.
O sonho de qualquer diretor é que toda a platéia nesses momentos faça “oh!” e, fisgada, nas duas horas seguintes não desgrude mais daqueles rostos que são o imã onde ele pregará suas idéias.
O rosto sorridente de Leila fica congelado por alguns segundos, numa expressão moleca de quem sente o prazer da onda batendo com força no bumbum. Serve de fundo para que se projete por cima o letreiro do filme que começa: “Domingos Oliveira apresenta Todas as mulheres do mundo”.”
Joaquim Ferreira dos Santos in Leila Diniz. São Paulo: Cia. das Letras, 2008, pp. 67-68.
A farsa da “democracia” iraniana ganha sua mais completa tradução nesse genial cartum do imprescindível Clay Bennett. Eis aí o líder supremo, o aiatolá de plantão, às voltas com um inusitado problema. O fantoche não obedece mais como antigamente. Desgraça! Roger Cohen, no The New York Times (22/6), lembrou do fascista-mor Stálin, que sentia ânsias de vômito cada vez que ouvia falar em democracia, pontificando que “não é quem vota que conta, mas quem conta os votos”. Pois é. Mas quando os contadores de votos exageram, é hora de seguir a recomendação de Brecht: que se substitua imediatamente o povo!
Primeira página do caderno de esportes do jornal O Globo, 22/6/2009.
Deliciosa a brincadeira que o Globo fez com o nome da seleção italiana de não-futebol, a “Azzurra”. Substituiram os “zz” (de sono também!!) pelos brasileiros “ss”, transformando o sentido para essa surra histórica que o Brasil aplicou na Itália. Aliás, o indispensável José Geraldo Couto lembrou na Folha de São Paulo de sábado a manchete que a própria “La Gazzetta dello Sport” da Itália deu após a derrota da “Azurra” para o Egito nesta mesma Copa das Confederações: “As múmias somos nós”. Sensacional! Epifânico! Ontem isso teve um outro sabor também: ver um país que não persegue imigrantes com “rondas noturnas”, ver um país que não tem um presidente perverso, fascista e sacana (características do primeiro-ministro da Itália, não do presidente italiano), ver o Brasil ganhar dessa Itália irreconhecível, dessa Itália destroçada, dessa pseudo-Itália, foi bom demais. Por outro lado, a leitura de um italiano dessa brincadeira da “Assurra” faz também eco a um outro “ss” de triste memória. Para quem acha essa associação um exagero, basta lembrar a manchete do La Repubblica de Roma em sua edição domenical uma semana atrás: “As rondas negras [alusão aos fascistas “camisas negras”] com a divisa que evoca o nazi-fascismo”. “SS”? Triste Itália.
Primeira página do La Repubblica, de Roma, 14/6/2009.
Desenho de Christoph Niemann para o The New York Times Book Review, 21/6/2009.
“Não vamos nos iludir, a coisa mais importante para nós é o nosso corpo. Assim, sempre que sentimos o nosso corpo, o vemos ou julgamos, estejamos certos, forjamos dele uma imagem deformada, inteiramente afetiva e resolutamente falsa. Para resumir, nunca percebemos nosso corpo tal como é, mas tal como o imaginamos; o percebemos como fantasia, isto é, mergulhado nas brumas de nossos sentimentos, reavivado na memória, submetido ao julgamento do Outro interiorizado e percebido através da imagem familiar que já temos dele. (...)
Assim, entre nosso corpo e nós interpõem-se inevitavelmente as lentes deformantes de nossas fantasias. Vivemos e morremos sem saber que um véu enganador, embebido de amor e ódio, de lembranças e julgamentos, sempre falseou a percepção de nosso corpo.”
J.-D. Nasio in “Meu Corpo e suas Imagens”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2009, pp. 63-64.