Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


FOI SEM QUERER...

Primeira página do jornal “O Globo”, 19/6/2009.

 

         O inconsciente é assim. No dia em que saiu no The Washington Post a suposta farra de Bill Clinton no cabaré “Crocodilo” (isso já me fez associar com a mítica “Dragão Verde” de Porto Alegre, ai, ai, ai) de Buenos Aires, com a bailarina Andrea Rincón (Rincón? Ai, aquela argentina...ai, ai, ai), Hillary Clinton caiu e quebrou o cotovelo (no meu caso foi diferente, mas o pudor me impede de prosseguir...). Ato falho de uma evidência terrível. Mas, o óbvio ululante aqui requer paciência. Haverá quem culpe o “acaso”, haverá quem culpe “deus”, haverá quem culpe o “estresse”, haverá quem culpe a “desatenção dela”, haverá quem culpe o “desequilíbrio de serotonina no cérebro”, haverá quem culpe o “chão escorregadio”, haverá quem culpe a Rincón (não é o meu caso, não, não, não) enfim, esses não me interessam. Me interessa quem desconfia que um corpo não é apenas um conjunto de órgãos biológicos, me interessa quem percebe que um cotovelo partido também fala de uma outra dor, a do amor em pedaços, me interessa quem quer falar desse estranho descontrole que toma conta desse jeito tão avassalador,  e às vezes tão trágico, derrubando as certezas de uma consciência tão ingênua e, por isso mesmo, tão perigosa. Esses me interessam. Querida ministra, a senhora já sabe onde me procurar. Meu consultório continua na Avenida República Argentina. Como? Subitamente sua dor aumentou? Ai, ai, ai...



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h24
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AOS QUE ANDAM DE VIÉS

M’Panza M’tonbimke em Johanesburgo com suas ervas para “contato com ancestrais”, África do Sul, por Rodrigo Durão Coelho, BBC Brasil em 18/6/2009.

 

                Rodrigo Durão Coelho trouxe ontem da África do Sul uma história saborosa. Ele teve um encontro com M’Panza M’tonbimke, uma vendedora de produtos de medicina tradicional sul-africana, que diz ter a receita para o sucesso da seleção da África do Sul na Copa das Confederações: óleo de leão. “Basta o jogador espalhar, por exemplo, na testa, que fará o goleiro adversário tremer”. Maravilhoso isso. Em seguida ela esclarece a receita: “o ingrediente principal do óleo é leão, mas leva também outros animais ferozes e ervas. Depois, prensamos tudo, fervemos e engarrafamos”. Não é lindo isso? Essa mulher é mais honesta que a Coca-Cola! Rodrigo ainda ouviu o filho de M’tonbimke que foi epifânico como a mãe: “No entanto, seu filho aparece no local e rechaça a explicação da mãe, dizendo que “todos os jogadores do time usam algum “feitiço” diferente”, e que a equipe não deveria confiar exclusivamente no óleo de leão. “Uma combinação de feitiços tem um efeito mais forte” ” (fonte: Rodrigo Durão Coelho, BBC Brasil). Epifânico!

         Eu fiquei encantado com essa mulher. Não sei bem por que ela me levou para a versão que Chico Buarque fez da versão de Brecht sobre Mac The Knife. É aquela maravilhosa canção do malandro na praça outra vez, caminhando na ponta dos pés (é um bailarino!!), andando assim de viés (há verso mais lindo que esse?). Pois M’tonbimke anda de viés num salão apinhado de charlatões “energéticos”, de escroques coronéis farmacêuticos, de uma ralé canalha que anda de BMW e dá aula em MBA. M’tonbimke anda de viés, pois sabe os dentes dos tubarões da ciência, que não deixam traço de sangue, never, never. M’tonbimke anda de viés pelos corpos agonizantes, oozin life, dos pobres crentes da medicina tradicional, oficial, vendida a peso de ouro, ela se esquiva, não vai por ali, mas também não deixa a cena como o Louis Miller, ela prossegue de viés, como o velho Satchmo, o velho Darrin, a velha Ella, o velho blue eyes too. Ela can’t lose porque a big band do Outro, tocando atrás dela, lhe traz esses desesperados, esses angustiados, esses pedintes de força, esses suplicantes de coragem, esses que não confiam exclusivamente mais em nada. M’tonbimke os escuta, os acolhe, e, como diz meu querido amigo, irmão e sempre presente em todas as veredas de minha vida, Alduísio Moreira de Souza, lá do Recife, relembrando a feiticeira do seu coração, dona Engracia, M’tonbimke lhes diz: “meu filho, você não precisa acreditar no que te digo” (fonte: Alduísio Moreira de Souza in “A astúcia da razão que não consegue ser razoável ou Sobre a banalidês” in revista “Che Vuoi?”, Psicanálise e Cultura, ano 1, nº. 1. Porto Alegre: Cooperativa Cultural Jacques Lacan, inverno/1986, p. 121). Sublime!



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h07
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ARTIGO DE FÉ

          “Quando falares com homem, olha-lhe para os olhos; quando falares com mulher, olha-lhe para a boca... e saberás como te haver...”.

 

         21º. artigo de “Artigos de Fé do Gaúcho”, Simões Lopes Neto in Contos Gauchescos. Porto Alegre: 2000, 2ª. ed., p. 181.

 



Escrito por Leonardo Ferrari às 10h05
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LA STRADA

“E, do trotar sobre tantíssimos rumos; das pousadas pelas estâncias, dos fogões a que se aqueceu; dos ranchos em que cantou, dos povoados que atravessou; das cousas que ele compreendia e das que lhe eram vedadas ao singelo entendimento; do pêlo-a-pêlo com os homens, das erosões da morte e das eclosões da vida, entre o Blau – moço, militar – e o Blau – velho, paisano -, ficou estendida uma longa estrada semeada de recordações – casos, dizia -, que de vez em quando o vaqueano recontava, como quem estende ao sol, para arejar, roupas guardadas ao fundo de uma arca.

         Querido digno velho!

         Saudoso Blau!

         Patrício, escuta-o”.

 

         Simões Lopes Neto in Contos Gauchescos. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2ª. ed., 2000, p. 35.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h23
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WIND

“Wind” de Ganzorig Alyeksandr, Ulan-Bator, Mongólia. Papel de arroz, tinta, pincel, 60 x 120 cm., 2008.

 

                Eu amo aquela história do Imperador que amava borboletas. Um dia ele chama o pintor mais falado do Império e ordena-lhe que pinte uma borboleta. O pintor então lhe diz que, para fazer isso, precisa de uma casa grande e confortável, no Rio de Janeiro, o salário correspondente ao cargo mais alto do organograma da corte e um prazo de dez anos. O Imperador concede os pedidos. Ao fim de dez anos, o Imperador manda chamar o pintor ao palácio e quis saber se ele já tinha pintado a borboleta. O pintor pediu ao Imperador que lhe fossem concedidos mais dez anos de prazo, duplicando o valor combinado e permanecendo no mesmo lugar. O Imperador voltou a conceder os pedidos. Ao fim de mais dez anos, o pintor voltou ao palácio e, na frente do Imperador, em alguns segundos, com traço firme e sem levantar o pincel, pintou uma borboleta, tão bonita, tão leve, tão solta que nunca o Império tinha visto nada igual. O Imperador, com lágrimas nos olhos, quis saber então por que vinte anos. O pintor, apontando para o norte, lhe diz: e por que não?



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h30
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NADJA

Fotografia de Alexey Poluyanenko (ekb), Iekaterimburgo, Rússia, em 2009.

 

         “Até que ela agarra os livros que eu trouxe (Os passos perdidos, Manifesto do surrealismo): “Os passos perdidos? Mas não existe passo perdido”.

 

         Nadja a André in “Nadja” de André Breton. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p. 71. Tradução de Ivo Barroso.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h39
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INOXIDÁVEL

“Mask IV, 2005” de John Stezaker, Londres.

 

                Autorretrato.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h39
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DESCOBERTA

Fotografia de Zoe Wiseman, Los Angeles, da série “Earth”, no Parque Nacional Joshua Tree, Califórnia, Estados Unidos, em 6 de outubro de 2004.

Ela é uma cientista. Diziam-lhe que, à temperatura ambiente, encontra-se no estado sólido. Ela percebeu que é uma meia-verdade. Ele é maleável, muitas vezes tenaz, mas muito refinado. Falavam-lhe que é de transição, com um pouco de carbono, vira aço. Viraço? Viração. Assim se tornaram ferreiros, forjador aquele lá, de martelo e bigorna. Ossos do ouvido? Escuta? Do ofício também. Aquecedor. Ela nunca acreditou no despeito daqueles que tentavam lhe convencer dele ser muito abundante. Não. É raríssimo, único, o centro, 26. Idade? Do ferro.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h34
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