Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


A CORAGEM DE FREUD

“O Sonho da Mulher do Pescador ”, Katsushika Hokusai, circa 1820.

“A ciência e a maioria das pessoas cultas sorriem quando se lhes fala de uma interpretação dos sonhos. Somente a classe popular supersticiosa, que nessa questão parece constituir-se depositária das crenças antigas, permanece fiel à idéia de uma possível interpretação dos sonhos. E o autor destas linhas ousou, em uma de suas obras, colocar-se contra os rigorosos princípios científicos e ao lado da superstição e das antigas opiniões. Claro é que está muito longe de reconhecer nos sonhos aquela revelação do futuro para cujo descobrimento em vão tende a humanidade, desde seus inícios e por toda a sorte de meios, às vezes sobremodo ilícitos. Mas não pode rejeitar inteiramente certa relação dos sonhos com o futuro, pois, ao cabo de penoso trabalho de interpretação, o sonho se revelou a ele como um desejo do indivíduo, que o fenômeno onírico lhe apresentava realizado, e ninguém pode negar que os desejos humanos se orientam predominantemente para o futuro.”

                Sigmund Freud, O Delírio e os Sonhos na “Gradiva” de W. Jensen (1907) in Obras Completas de Sigmund Freud – v. V. Rio de Janeiro: Delta, 1958, p. 7. Tradução de Odilon Gallotti.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h16
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A CIÊNCIA E A PSICANÁLISE

Ernest Barrias (1841-1905), “La Nature se dévoilant devant la Science” [“A Natureza Desvelando-se diante da Ciência”], 1899 in Musée d'Orsay, Paris. Fotografia RMN, René-Gabriel Ojeda.

 

         “Queremos, pois, averiguar concretamente se a representação poética da gênese de um delírio pode resistir à prova da ciência.

         A resposta, talvez inesperada, a essa pergunta é a de que, infelizmente, sucede todo o contrário: a ciência é que não resiste à criação do escritor. Entre as condições preliminares, hereditárias e constitucionais, e as criações do delírio, que aparecem, já como alguma coisa totalmente acabada, deixa a ciência uma considerável lacuna, que não existe na concepção do escritor. A ciência não presume sequer o significado do recalque, não reconhece que o inconsciente lhe é indispensável para explicar o mundo dos fenômenos psicopatológicos e não procura o fundamento do delírio em um conflito psíquico, nem considera os sintomas dele como uma formação de compromisso. Assim, pois, se achará o escritor isolado diante de toda a ciência? Não, certamente; as coisas não chegam a tal ponto, sempre que se permita ao autor destas linhas contar os seus próprios trabalhos entre os de ordem científica, pois desde há muitos anos – e até os últimos tempos, quase sozinho – defende todas as teorias que aqui desenvolve no estudo da Gradiva de W. Jensen e que acaba de expor em termos técnicos. Com particular minúcia, assinalamos, como condição individual da perturbação psíquica nos estados conhecidos com os nomes de histeria e obsessão, o sufocamento de uma parte da vida pulsional e o recalque das representações correspondentes à pulsão sufocada, teoria que, depois, aplicamos, também, a algumas formas de delírio. O problema de se as pulsões que devem ser tidas em conta nessa causação, sempre são compontentes da pulsão sexual ou se podem também ser do gênero diferente, nada tem que ver com a análise de Gradiva, pois no caso escolhido pelo escritor, é certo que não se trata senão da sufocação do sentimento erótico. Os pontos de vista do conflito psíquico e da formação do sintoma por compromissos entre as duas correntes psíquicas em luta recíproca, o autor deduziu-os da observação direta e do tratamento médico de casos clínicos, observação a que também teríamos podido submeter a personagem criada por Jensen.”

         Sigmund Freud, El delirio y los sueños en la “Gradiva” de W. Jensen [O Delírio e os Sonhos na “Gradiva” de W. Jensen] (1907) in Obras Completas de Sigmund Freud – v. IX. Buenos Aires: Amorrortu, 1ª. reedição, 1986, pp. 44-45. Tradução para o espanhol de José Luis Etcheverry.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h16
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O TRIUNFO DO EROTISMO

“Ain’t Nothing But Them Summer Nights” por El Porte-Bonheur.

“A bela realidade triunfou, pois, sobre o delírio, mas ele ainda espreita para render sua última homenagem antes deles irem embora de Pompéia. Chegados à Porta de Hércules, onde no começo da Strada Consolare a rua é atravesada por uma fila de pedras de uma antiga calçada, Norberto Hanold para e pede à jovem que passe, indo adiante dele. Compreendendo seu pensamento, “e erguendo um pouco a saia com a mão esquerda, Zoé Bertgang, a Gradiva rediviva, envolta pelo olhar sonhador dele, cruza a rua com aquele seu passo suave e gracioso, sob o resplandecente brilho do sol”. Com o triunfo do erotismo reconhecemos e damos seu justo valor ao que no delírio era belo e digno de estima.

         Na última metáfora citada, “o amigo de infância desenterrado das cinzas que o sepultavam”, deu-nos o escritor a chave do simbolismo que o delírio do protagonista utilizou para disfarçar a lembrança recalcada. Não existe, em realidade, analogia melhor para o recalcamento do que o sepultamento [Verschüttung], pois torna inacessível alguma coisa psíquica, mas, ao mesmo tempo, a conserva, do mesmo modo que fizeram a Pompéia as cinzas que a sepultaram e das quais ressurgiu ela, nas escavações. Por isso, era forçoso que o jovem arqueólogo colocasse imaginariamente naquela cidade a figura primordial [Urbild, “a original”] do baixo-relevo que lhe recordava, ainda que inconscientemente, sua esquecida amada infantil. Mas o escritor procede muito justificadamente não penetrando nessa profunda casualidade interior e limitando-se a permanecer na valiosa semelhança, que na sua sutil sensibilidade o faz perceber entre um fragmento de vida psíquica individual e um acontecimento isolado da história da humanidade.”

         Sigmund Freud, El delirio y los sueños en la “Gradiva” de W. Jensen [O Delírio e os Sonhos na “Gradiva” de W. Jensen] (1907) in Obras Completas de Sigmund Freud – v. IX. Buenos Aires: Amorrortu, 1ª. reedição, 1986, pp. 33-34. Tradução para o espanhol de José Luis Etcheverry.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h33
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ECO

“Spicy” (picante), 1800 euros. Desenho de Marc Jacobs para Louis Vuitton . Fotografia L’Estrop in Elpaís.com, consultado em  8/4/2009.       

“E quando Gradiva pergunta ao antropólogo se não se recorda de que já dois mil anos antes, repartiram entre si, outras vezes, seu repasto, não se nos revela agora essa pergunta, que anteriormente nos pareceu incompreensível, como uma alusão, não a um remoto passado histórico, e sim a um pretérito estritamente pessoal, às épocas infantis de ambos, cuja lembrança se mantém viva na jovem, ao passo que em Hanold parece ter-se perdido inteiramente? Por fim, não surge em nós de repente a idéia de que as fantasias do jovem sobre a sua Gradiva poderiam muito bem ser um eco dessas lembranças infantis perdidas? Assim sendo, não seriam produções arbitrárias de sua fantasia, e achar-se-iam determinadas, sem que Norberto tivesse consciência disso, pelo acervo de impressões infantis, esquecidas, porém eficientes.”

         Sigmund Freud, O Delírio e os Sonhos na “Gradiva” de W. Jensen (1907) in Obras Completas de Sigmund Freud – v. V. Rio de Janeiro: Delta, 1958, pp. 32-33. Tradução de Odilon Gallotti.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h15
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FANTASIA

The Metropolitan Museum of Art por Sara Krulwich/The New York Times in Times Topics, consultado em 7/4/2009.

“Hanold havia transferido o seu interesse da mulher viva para a estátua, isto é, a mulher amada se convertera para ele na figura pétrea de um baixo-relevo.”

         Sigmund Freud, O Delírio e os Sonhos na “Gradiva” de W. Jensen (1907) in Obras Completas de Sigmund Freud – v. V. Rio de Janeiro: Delta, 1958, p. 63. Tradução de Odilon Gallotti.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h07
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SINTOMA

“L’inquietude” de Man Ray, 1920.

“Desse modo, achamos já nas primeiras operações das fantasias delirantes e dos atos de Hanold, uma dupla determinação [Determinierung], pois podemos derivá-los de duas fontes diversas. Uma dessas determinações é a que Hanold supõe e da qual tem perfeita consciência. A outra, inconsciente nele, é a que se nos revela, quando examinamos seus processos psíquicos. A primeira, em sua totalidade, deriva do círculo de representações da ciência arqueológica, e, a segunda, ao contrário, procede das lembranças infantis recalcadas e postas em atividade em Hanold e das pulsões sentimentais, unidas a elas. Por fim, a determinação consciente é, por assim dizer, superficial e encobre completamente a outra, que se esconde atrás dela. Poderia dizer-se que a motivação científica serve de pretexto à erótica inconsciente e que a ciência se pôs inteiramente a serviço do delírio. Mas não deve esquecer-se que a determinação inconsciente não pode realizar mais do que aquilo que a científica, simultaneamente, consinta. Os sintomas de delírio – fantasias e atos – outra coisa não são do que o resultado de um compromisso entre as duas correntes psíquicas opostas, e num compromisso se levam em conta sempre as exigências de cada uma das partes, ao preço de cada uma delas ter que renunciar a um pedaço do que queria conseguir. Toda vez que se produz um compromisso, houve luta, que nesse caso é o conflito que já descobrimos entre o erotismo sufocado  e os poderes que o mantém recalcado. Uma vez formado o delírio, esse conflito pode muito bem não terminar nunca. Ataque e resistência renovar-se-ão depois de cada formação de compromisso e nenhuma delas chegará a ser considerada suficiente. Disso sabe também o nosso escritor, e, por esse motivo, deixa que em seu herói domine sempre durante esse estádio da perturbação um sentimento de insatisfação e um singular desassossego, que são garantias e antecipações de novos desenvolvimentos do delírio.”

         Sigmund Freud, El delirio y los sueños en la “Gradiva” de W. Jensen [O Delírio e os Sonhos na “Gradiva” de W. Jensen] (1907) in Obras Completas de Sigmund Freud – v. IX. Buenos Aires: Amorrortu, 1ª. reedição, 1986, pp. 43-44. Tradução para o espanhol de José Luis Etcheverry.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h33
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INCONSCIENTE

Ann Zubareva, bailarina, por Dmitry Savchenko.

“Zoé já mostrava, certamente, quando menina, aquele passo especial em que o pé que estava atrás, aparecia perpendicularmente ao solo e apoiado apenas nas pontas dos dedos, e precisamente pela representação plástica desse andar é que um antigo baixo-relevo adquire para Norberto Hanold a imensa importância que conhecemos. (...)

Norberto Hanold, ao contemplar a figura do baixo-relevo, não se recorda de já ter visto em sua amiga infantil aquele andar gracioso, de nada disso se recorda, e, não obstante, o efeito todo que o baixo-relevo exerce sobre ele, repousa em sua relação com aquela impressão infantil. Assim, pois, essa impressão se torna ativa e começa, mesmo, a causar efeitos, porém não chega à consciência, isto é, permanece “inconsciente”, como costumamos dizer, usando um termo já imprescindível na psicopatologia. Esse termo e o conceito a que corresponde, quiséramos vê-los livres das habituais discussões que todos os neologismos e seu significado suscitam, tanto entre os filósofos como entre os filósofos da natureza, e que não soem ter com frequência significação outra que a puramente etimológica. Diremos, pois, que com esse qualificativo de “inconsciente” nos referimos exclusivamente aos processos psíquicos que, portando-se ativamente, não chegam, contudo, à consciência do indivíduo. Se alguns pensadores quisessem negar como paradoxal a existência de tal inconsciente, teríamos de supor que, nunca se havendo ocupado dos fenômenos psíquicos desse gênero, continuavam eles aferrados à crença errônea de que todo psíquico que se torna ativo e intenso, ao mesmo tempo se torna consciente. Teriam, pois, de aprender o que nosso novelista já sabe admiravelmente, isto é, que existem fenômenos psíquicos que, apesar de serem muito intensos e provocarem efeitos enérgicos, permanecem afastados da consciência.”

Sigmund Freud, O Delírio e os Sonhos na “Gradiva” de W. Jensen (1907) in Obras Completas de Sigmund Freud – v. V. Rio de Janeiro: Delta, 1958, pp. 49-50. Tradução de Odilon Gallotti.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h38
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