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RESPLANDECENTE

Tamara Gregorieva por Annemarie Heinrich em 1946. “ ‘Não, não é isso – replica Norberto -; refiro-me ao teu nome. Bertgang significa exatamente o mesmo que Gradiva, isto é, “a do andar resplandecente” ‘. Para isso é que não nos achávamos preparados. O nosso herói começa agora a abandonar sua atitude humilde e a desempenhar um papel ativo. Acha-se, desde logo, inteiramente curado de seu delírio, superou-o e mostra-nos isso, rompendo os últimos fios da quimera delirante. Exatamente do mesmo modo se portam os enfermos que foram libertados da compulsão dos seus pensamentos delirantes mediante o descobrimento do recalcado que se ocultava por trás deles. No instante em que compreendem essa relação, chegam espontaneamente e por meio de ocorrências que surgem com grande rapidez neles, às soluções dos últimos e mais importantes segredos do seu singular estado. Já anteriormente tivemos de suspeitar que a origem grega da fabulosa Gradiva era um obscuro eco do nome grego Zoé, porém não ousamos tocar no nome de Gradiva, deixando-o passar como uma livre criação da fantasia de Norberto Hanold. É agora que precisamente esse nome se nos mostra como uma consequência e até, em realidade, como uma tradução do nome recalcado da amada infantil, aparentemente esquecida.” Sigmund Freud, El delirio y los sueños en la “Gradiva” de W. Jensen [O Delírio e os Sonhos na “Gradiva” de W. Jensen] (1907) in Obras Completas de Sigmund Freud – v. IX. Buenos Aires: Amorrortu, 1ª. reedição, 1986, pp. 31-32. Tradução de José Luis Etcheverry.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h30
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O RETORNO DO RECALCADO

“La tentation de Saint Antoine” (1878) de Félicien Rops (Namur, 1833-Essonnes, 1898). “Com notável regularidade, semelhante a de uma lei, tal retorno do recalcado deve esperar-se quando às impressões recalcadas se acha preso o sentimento erótico do indivíduo, isto é, quando o que caiu sob o jugo do recalcamento é sua vida amorosa. Esses casos dão razão ao velho provérbio latino “Naturam furca expellas, semper redibit”[nota de James Strachey: “A citação correta é: “Naturam expelles furca, tamen usque recurret”, “Expulsa a natureza com um forcado, e ela voltará” (Horácio, Epístolas I, 10, 24)], que talvez em sua origem se referisse somente à expulsão [Austreibung] por meio de influências exteriores e não a conflitos interiores. Mas esse provérbio não expressa tudo, pois se limita a expor o fato do retorno da parte da natureza expulsada, mas não descreve a forma muito singular, pela qual esse retorno se verifica, como se servindo de uma traição astuta. Precisamente o que é escolhido como instrumento do recalcamento – como a “furca”[forcado] do provérbio latino – se constitui, depois, no portador do que retorna. É dentro do recalcador, às suas costas, onde se impõe, afinal, vitorioso o recalcado. Uma conhecida água-forte de Félician Rops ilustra esse fato – pouco tido em conta e a que deveria conceder-se toda a sua verdadeira importância – mais impressionantemente do que poderia fazê-lo uma explicação minuciosa. O artista escolheu para sua obra o caso arquetípico do recalque na vida dos santos e penitentes. Um monge ascético – certamente fugindo das tentações do mundo – refugiou-se aos pés do Redentor crucificado. Mas a cruz vai-se submergindo em sombras, e, em lugar dela, aparece, radiante, a imagem de uma linda mulher nua, também em postura de crucificada. Outros pintores de menor agudeza psicológica representaram em tais alegorias da tentação o pecado erguendo-se, com a expresão de triunfo, junto à imagem do Crucificado. Únicamente Rops o fez ocupar na cruz o próprio posto do Redentor, parecendo saber que o recalcado surge, em seu retorno, do próprio elemento recalcador.” Sigmund Freud, El delirio y los sueños en la “Gradiva” de W. Jensen [O Delírio e os Sonhos na “Gradiva” de W. Jensen] (1907) in Obras Completas de Sigmund Freud – v. IX. Buenos Aires: Amorrortu, 1ª. reedição, 1986, pp. 29-30. Tradução de José Luis Etcheverry.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h03
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PENHOR

Fotografia de Andrey Izosimov. “Ao desaparecer Gradiva depois deste último encontro, ouve-se, à distância, alguma coisa como um riso agudo, talvez o grito de um pássaro que voa sobre as ruínas. Norberto vê no chão um objeto branco que Gradiva esqueceu, o mesmo que crera ser um papiro e que, na realidade, não é senão um livro de notas com alguns desenhos a lápis, de diversos lugares de Pompéia. Nós, psicanalistas, diríamos que esse esquecimento de Gradiva constitui um penhor de seu retorno, pois sabemos que nada se esquece sem uma razão secreta ou um motivo oculto.” Sigmund Freud, O Delírio e os Sonhos na “Gradiva” de W. Jensen (1907) in Obras Completas de Sigmund Freud – v. V. Rio de Janeiro: Delta, 1958, p. 23. Tradução de Odilon Gallotti.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h28
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AQUELES QUE AVANÇAM

Baixo-relevo in Museo Chiaramonti, Vaticano. “O baixo-relevo a que Jansen atribui uma origem romana e no qual se encontra a figura à qual ele dá o nome de “Gradiva”, pertence, na realidade, à época do florescimento da arte grega e se encontra no Museo Chiaramonti, do Vaticano [um dos mais de mil quartos e galerias que compõem o conjunto chamado Museus do Vaticano, cuja estrela maior é a Capela Sistina com a pintura epifânica de Michelangelo. O Museo Chiaramonti foi fundado pelo Papa Pio VII (1800-1823), membro da família Chiaramonti, através do trabalho do escultor neoclássico Antonio Canova em 1807. Está composto de mais de mil esculturas, retratos de imperadores e simulacros de divindade, entre outras – nota do autor deste blog], catalogado sob o número 644, e foi restaurado e analisado por Hauser [1903]. Da união de “Gradiva” com outros fragmentos, conservados em Florença e em Munique, foram obtidos dois baixo-relevos, cada qual representando três figuras em que se pode discernir as Horas, as deusas da vegetação e as divindades do orvalho fecundante aliadas a ela [nota de James Strachey: “Hauser considera-os cópias romanas de originais gregos que datam da segunda metade do século IV a.C. O relevo de Gradiva está agora (1959) na seção VII/2 do Museo Chiaramonti, com o número 1284”.]” Sigmund Freud, pós-escrito à segunda edição [1912] em El delirio y los sueños en la “Gradiva” de W. Jensen [O Delírio e os Sonhos na “Gradiva” de W. Jensen] (1907) in Obras Completas de Sigmund Freud – v. IX. Buenos Aires: Amorrortu, 1ª. reedição, 1986, p. 79. Tradução de José Luis Etcheverry. “Ela é capaz de condensar todo o destino de um homem em uma estrofe de quatro versos” Nina Shúlguina sobre Anna Akhmátova nas notas biográficas da antologia Vó viez Gólos [“A plena voz”, ed. Progresso, Moscou], citada por Lauro Machado Coelho na apresentação de Anna Akhmátova, Antologia Poética. Porto Alegre: L&PM, 2009, p. 25. “Eu visitei o poeta. Ao meio-dia em ponto. Domingo. Quietude no amplo quarto e, fora das janelas, o frio (...)” Anna Akhmátova após seu primeiro encontro com o poeta Aleksandr Blók em janeiro de 1914 in Anna, a Voz da Rússia de Lauro Machado Coelho. São Paulo: Algol, 2008, p. 63.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h01
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UMA SOMBRA

“A Grande Sombra” (circa 1805) de Johan Heinrich Wilhem Tischbein (1751-1829), aquarela de 36x23 cm. in Landesmuseum für Kunst und Kulturgeschichte, Oldenburg, Alemanha. “Eu não era para ti senão uma sombra (...)” Zoé Bertgang a Norberto Hanold, Gradiva de W. Jensen citado por Sigmund Freud em O Delírio e os Sonhos na “Gradiva” de W. Jensen (1907) in Obras Completas de Sigmund Freud – v. V. Rio de Janeiro: Delta, 1958, p. 34. Tradução de Odilon Gallotti.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h02
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GRADIVA

Anúncio de Giorgio Armani in The New York Times, caderno Sunday Styles, 29/3/2009. De tudo que eu li, de tudo o que eu vi ontem, nada chegou perto dessa mulher que passa, passo a passo, faz do andar um caminhar. Gradiva. Minha Gradiva vai de Armani. Graciosa, dengosa, num doce balanço, na leveza desse movimento, por aí. “Um jovem arqueólogo, Norberto Hanold, descobre em um museu de Roma uma figura em baixo-relevo que desde o primeiro momento exerce nele especial atração. Desejoso de a contemplar e estudar com todo o vagar, faz tirar uma cópia em escaiola, leva-a para sua casa, em uma cidade universitária alemã, e coloca-a em lugar predileto de seu gabinete de estudo. A figura representada no baixo-relevo é a de uma jovem, já plenamente desenvolvida, que, em atitude de andar, suspende suas amplas vestes, deixando ver os pés, calçados de sandálias, um dos quais repousa todo no solo, enquanto o outro só se apóia nas pontas dos dedos, estando a planta e o calcanhar quase perpendiculares ao chão. Esse passo, pouco vulgar, cuja especial atração o artista quis fixar em sua obra escultural, é também o que, séculos depois, prende a atenção do nosso arqueólogo.” Sigmund Freud, O Delírio e os Sonhos na “Gradiva” de W. Jensen (1907) in Obras Completas de Sigmund Freud – v. V. Rio de Janeiro: Delta, 1958, p. 11. Tradução de Odilon Gallotti e Moysés Gikovate. 
Giorgio Armani, collezione Primavera/Estate 2009.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h01
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DUKE

Dois trechos do livro de memórias “A Música é a minha Amante”[“La música es mi amante”] de Duke Ellington, editora Global Rhytm, que acaba de aparecer na Espanha e que o El País trouxe em sua edição de hoje: “[sobre Frank Sinatra] Eu tenho que repetir e sublinhar minha admiração por sua natureza inconformista. Ele desfrutou seu primeiro grande contrato quando atuou na Paramount de Nova Iorque por 15.000 dólares por semana. As garotas não paravam de gritar, mas ele não se comportava de forma alguma como um famoso objeto de desejo. Não conheci ninguém como ele capaz de arriscar sua posição tão pouco tempo depois de chegar ao ápice do êxito, mas Francis Sinatra nessa hora decidiu, e estou certo de que contra todos os conselhos de seus assessores e puxa-sacos, em fazer algo considerado muito perigoso e ruim para a carreira profissional em seu início. Sinatra resolveu fazer uma turnê por vários colégios de Nova Iorque que tinham problemas raciais, e, ao final de cada concerto, ele predicou a tolerância entre raças. Ele é um individualista, nunca segue o rebanho. Ninguém lhe diz o que tem que fazer ou dizer. (...) Nos anos 50, quando estávamos tocando em Las Vegas e alguns de meus colegas foram detidos arbitrariamente pela polícia em uma noite, os jornais fizeram um carnaval disso. O que fez Sinatra quando soube disso na noite seguinte? Veio pessoalmente nos ver e escutar nossa música, e fez isso acompanhado por mais de quarenta pessoas que não pararam de aplaudir-nos. Depois disso, os bons cidadãos de Las Vegas se esqueceram da prisão e continuaram a nos ver.(....) [sobre seu encontro com a primeira dama, Pat Nixon] - Senhora Nixon, a senhora já ouviu falar das normas internas da Casa Branca? - As normas da Casa Branca? – ela repetiu, olhando-me surpresa. - Sim, senhora Nixon, há uma norma que estabelece que nenhuma primeira dama está autorizada a superar certo grau de beleza, e a senhora está ultrapassando esse limite – será multada! Para minha surpresa, a primeira dama me olhou diretamente e disse em tom reprovador: - Já tinham me contado que você é impossível!” Fonte: “La música es mi amante” de Duke Ellington, editorial Global Rhytm, 2009, 25,50 euros citado in El País, 29/3/2009.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h50
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