Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br
TRUE BLOOD
Anna Paquin por Emanuele Scorcelletti in La Repubblica delle Donne, 28/3/2009.
Anna Paquin é uma atriz maravilhosa. Sua Sookie da minissérie True Blood é a única coisa que se salva da história. A cena em que ela decide entregar sua virgindade ao vampiro é sublime. Porém, True Blood não é nada boboca, e aí está o seu principal problema. O garanhão da história, que não é vampiro, decide tomar sangue de vampiro para ficar mais garanhão. E dá-lhe apologia do sangue de vampiro, da balinha do vampiro, do pó do vampiro. Depois de horas fazendo isso, um minuto para mostrar os efeitos colaterais, os problemas que o sangue do vampiro pode causar. Mas peraí, e as quatro horas anteriores mostrando as maravilhas do sangue do vampiro? A série sem querer confirma o diagnóstico da querida Hillary Clinton que, no México, declarou que o grande problema dos Estados Unidos é o apetite insaciável por drogas. True Blood é uma delas. E da pesada. Na entrevista a Silvia Bizio, Paquin fala dos verdadeiros vampiros de Wall Street. Achei bonitinho isso, mas há vampiros piores na HBO. Que saudades da magnífica Em Tratamento ou então da sublime Família Soprano. True Blood não. Ela segue a tradição de Matrix, ou seja, o sujeito sai do cinema louco para tomar a pílula. Prefiro o caminho das índias.
“Silvia Bizio – Por que a figura do vampiro ainda seduz o público?
Anna Paquin – Porque ele é um produto de nossa fantasia, capaz de liberar as piores paranóias recalcadas no fundo de nosso inconsciente coletivo. Através do vampirismo, exploramos o perigo de uma sexualidade precoce, hiperativa, ou o medo do estrangeiro, do diferente, e as tendências classistas, para não dizer racistas presentes em cada um. Em True Blood, os vampiros causam menos medo do que os homens de família que fingem ser bons maridos e, ao contrário, são moralmente abjetos. Assim, o seriado é uma crítica à sociedade dos países avançados, não só dos Estados Unidos. É um teste sobre a nossa (in)capacidade de tolerância. E nesta crise econômica, percebemos subitamente que os verdadeiros vampiros agiam em Wall Street...(...)
- Você também se considera uma anticonformista?
- Acredito que sim. Não sigo a moda. Nâo me vendo. Como atriz, eu prefiro representar mulheres em crise, atormentadas diante de obstáculos intransponíveis. Não amo os olhos felizes sem problemas ou ausentes de pahtos [paixão].”
Entrevista de Anna Paquin a Silvia Bizio in La Repubblica delle Donne, 28/3/2009.
“Invidia vem de videre. A invidia mais exemplar, para nós analistas, é aquela que há muito tempo destaquei em Agostinho para lhe dar todo o seu desenvolvimento, isto é, a da criancinha olhando seu irmão pendurado ao seio de sua mãe, olhando-o amare conspectu com um olhar amargo, que o decompõe e faz nele mesmo o efeito de um veneno.
Para compreender o que é a indivia em sua função de olhar, não é preciso confundi-la com o ciúme. O que a criancinha, ou qualquer pessoa, inveja, não é de modo algum, necessariamente, algo que ela poderia ter vontade [avoir envie], como impropriamente se exprime. A criança que olha seu irmãozinho, quer dizer que ela ainda precisa da teta? Todo mundo sabe que a inveja é provocada pela possessão de bens que não seriam, para aquele que inveja, de nenhum uso, e dos quais ele nem mesmo suspeita a verdadeira natureza.
Esta é a verdadeira inveja. Ela faz empalidecer o sujeito diante do quê? – diante da imagem de uma completude que se refecha, e do fato de o a minúsculo, o a separado ao qual ele se suspende, pode ser para um outro a possessão com que este se satisfaz, a Befriedigung.”
Jacques Lacan in O Seminário, Livro 11, Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 3ª. ed., 1988, p. 112.
“Assim, a debilidade dos membros infantis é inocente, mas não a alma das crianças. Vi e observei uma, cheia de inveja, que ainda não falava e já olhava, pálida, de rosto colérico, para o irmãozinho colaço. Quem não é testemunha do que eu afirmo? Diz-se até que as mães e as amas procuram esconjurar este defeito, não sei com que práticas supersticiosas. Mas, enfim, será inocente a criança quando não tolera junto de si, na mesma fonte fecunda do leite, o companheiro destituído de auxílio e só com esse alimento para sustentar a vida? Indugentemente se permitem estas más inclinações, não porque sejam ninharias sem importância, mas porque hão de desaparecer com o andar dos anos. É este o único motivo, pois essas paixões não se podem de boa mente sofrer, quando se encontram numa pessoa mais idosa.”
Santo Agostinho in Confissões, livro I, 7 in Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1987, pp. 14-15.
A DIFERENÇA ENTRE O OLHO E O OLHAR É A DIFERENÇA ENTRE A PSICANÁLISE E A MEDICINA
Sophia Loren e Jayne Mansfield por Joe Shere, 1958.
Eis aqui toda a diferença entre a psicanálise e a medicina. Enquanto a medicina trata do olho biológico, o olho fisiológico da oftalmologia, a psicanálise trata do olhar, o olhar do desejo, o olhar da inveja, o olhar da pulsão, o olhar que não para quieto, o olhar que circula, o olhar que encanta, o olhar que descobre o desencanto, o olhar que mede, o olhar que se sente olhado, o olhar desmedido, o olhar que cobra, o olhar que entrega, o olhar desanimado, o olhar vivo, o olhar que vai e volta, o olhar desamparado, o olhar que recorta, o olhar que dói, o olhar que sara, o olhar cego, o olhar miúdo, o olhar acostumado, o olhar presente, o olhar da falta, o olhar da perda, o olhar sozinho, o olhar do encontro, o olhar do sentido, o olhar inusitado, o olhar sem ver, o olhar brilhante, o olhar do sem sentido, o olhar que dá, o olhar que diz não, o olhar à distância, o olhar sem esperança, o olhar da morte, o olhar de um amanhecer, o olhar.
Hervé Morin no Le Monde anuncia que o vírus Bernard Madoff se espalhou. O maior escroque das finanças chegou agora à indústria farmacêutica. Ou não terá sido o contrário?
“Era tudo falso. Os pacientes, que supostamente teriam testado medicamentos que deveriam acelerar sua recuperação pós-operatório, nunca existiram. Os 21 artigos científicos onde estavam descritos os benefícios dessas fórmulas milagrosas não passavam de um emaranhado de estatísticas sem fundamento. Mas, acreditando nesses resultados fraudulentos, milhões de pessoas ingeriram fórmulas bem reais, que renderam quantias gigantescas às empresas que as comercializam: Pfizer, Merck ou Wyeth. Scott Reuben inventou tudo. O anestesista americano, autor respeitado de dezenas de artigos médicos, confessou a fraude. Não por remorso. Mas porque ele foi desmascarado: dois dos resumos de estudos que ele havia produzido em maio de 2008 intrigaram os serviços de saúde do Baystate Medical Center (Massachusetts), onde ele chefiava o setor de analgesia. O dr. Reuben não tinha autorização para conduzir esses testes. A extensão da farsa não demorou a ser descoberta. A fraude vinha acontecendo desde 1996. É uma das maiores do gênero. O sul-coreano Hwang Woo-suk, que em 2004 fingiu ter conseguido a primeira clonagem humana a partir de resultados falsificados, ou ainda o físico Hendrik Schön, da Bell Labs, autor de pelo menos 16 artigos "forjados" entre 1998 e 2001, são fichinha perto de Scott Reuben, às vezes chamado pela imprensa anglo-saxônica de "Dr. Madoff", em referência ao vigarista das finanças. A corrida pelas glórias, e pelos créditos que as acompanham, é o que move esse tipo de comportamento. Os "trabalhos" do dr. Reuben eram em parte financiados pela Pfizer, que havia feito dele um de seus porta-vozes durante conferências científicas nas quais suas intervenções eram remuneradas. Um representante da firma se disse "desapontado ao saber das acusações contra o sr. Reuben". Este último não hesitava em defender junto às agências reguladoras de medicamentos o uso de fórmulas testadas em pacientes fictícios...(...)” (fonte: Hervé Morin in O Dr. Madoff da Indústria Farmacêutica, Le Monde, 21/3/2009 e UOL, 21/3/2009, tradução de Lana Lim)
Paulo Mateus Simião, 15 anos, fotografado por Ivan Cruz in Jornal do Brasil, 22/3/2009. Título e reportagem de Leandro Souto Maior.
Leandro Souto Maior foi a Juazeiro, na Bahia, terra de João Gilberto, encontrar sem querer Paulo Mateus Simião. Desse encontro saiu essa capa do Caderno B do Jornal do Brasil de domingo. O título remete à linda “Último Pau-de-Arara” que Fagner tão belamente canta, escrita por Venâncio, Corumbá e J. Guimarães, que diz mais ou menos assim, que a vida aqui só é ruim quando não chove, mas se chover, dá de tudo, e que tomara que chova, pois “só deixo o meu Cariri no último pau-de-arara”. É tão bonito isso. O Cariri é uma região que fica no extremo sul do estado do Ceará e tem algumas das cidades mais encantadoras do estado, como a magnífica Crato, Juazeiro do Norte, a linda Jardim e essa incrível Porteiras – que nome mais lindo! E agora, vem esse “não deixo meu Cariri” a respeito desse menino cego de nascença, vindo de Baturipé, a 90km. de Fortaleza, Paulo Simião, de 15 anos e sanfoneiro. Acontece que foi só lembrar do Cariri que pensei em Dorival Caymmi, fui invadido pela maravilhosa “Peguei um Ita no Norte”, que é o avesso do “Último Pau-de-Arara”, pois o homem pega um Ita no norte e vai para o Rio morar. Ele dá adeus a papai, dá adeus a mamãe, ele vende os troços que tinha, o resto fica no aguardo-guarda, talvez ele volte, talvez ele fique por lá. É de chorar de tão linda essa música. E não é que o Salgueiro, através dos inesquecíveis Demá Chagas, Arizão, Celso Trindade, Bala, Guaracy e Quinho, acrescentou mais beleza aí? Eles dizem que, no balanço das ondas se pode jogar a saudade, que o tempo traz esperança e ansiedade e que se navega, sempre, em busca da felicidade, em cada porto que se passa, ver retratos, as fantasias, refazer a alegria, como é bonito isso, refazer a alegria, como é difícil isso, refazer a alegria, é sobre isso não deixar o Cariri ou então pegar o Ita no norte, refazer a alegria. É isso que decide um ficar ou um partir, é a vida mesma, mesmo quando é a explosão de uma vida severina. Cariri do nordeste? Não. Cariri do meu peito, querência, pago, voltar ou partir, é sempre o movimento desse ai, ai, ai, ai, a dor, o apreço, andar – meu cariri, meu ita, meu rio. Ai, ai, ai, ai.
No Canecão, Rio de Janeiro, Nana, Dori e Danilo Caymmi homenageiam os 90 anos de seu pai em 2004. “Peguei um Ita no Norte” veio logo depois de “Marina”. O dvd do show é uma das coisas mais lindas do mundo. Chorei da primeira à última música. Epifânico.
Anna Netrebko por Kasskara/Deutsche Grammophon in Babelia, El País, 21/3/2009.
“Ma solo amor tal mi rendè.”
“Mas só o amor me fez assim.”
La Traviata de Giuseppe Verdi, libreto de Francesco Maria Piave, atto terzo [terceiro ato]. Estreou em 6 de março de 1853, no Teatro La Fenice, em Veneza.