Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br
THE SHADE OF A SHADOW
Fotografia-obra-prima-epifania de Martin Zumuehle.
“The shade of a shadow . . .” Lindo isso. Maravilhoso isso. Trata-se de uma frase de um artigo do gigante George Steiner no recém lançado “George Steiner at the New Yorker”, New Directions, 2009, $17,95, e foi citada no ótimo artigo escrito por Lee Siegel no The New York Times Book Review, a revista de livros do jornal. Não é preciso traduzir, não é necessário explicar, basta “the shade of a shadow”. Magnífico!
“Uma linda mulher de dia – e uma lasciva rainha das vespas à noite – A MULHER VESPA”. Filme de Roger Corman, “The Wasp Woman” (1960).
O que é o Dr. Jeckyll perto da Mulher Vespa? Essa ardente, luxuriosa, lasciva, libidinosa, lúbrica, voluptuosa e devassa mulher, à espreita, de tocaia, à espera. Reparem na expressão do homem capturado nessas garras. De caçador virou caça! Mais: a surpresa de se deparar com uma mulher fálica, pois é ela quem detém o ferrão!Segundo o Houaiss, elas constroem seus ninhos em árvores ocas. Cuidado, homens! Quando ouvirem um zumbido suave, quando perceberem um leve sussurar próximo a uma árvore, quando o canto dessas sereias os atrair, cuidado! As mulheres vespas não perdoam, elas agarram!
Aconteceu na Polônia. Durante o “show de talentos” na televisão, chamado “So you think you can dance” [“Então você pensa que pode dançar”], a candidata Anna Kasprzak, após receber a nota 10 e passar para a próxima etapa do concurso, ficou tão contente, mas tão contente que, na comemoração, se jogou para fora do palco, caindo e se machucando. Eis aqui uma aula magistral sobre o conceito de divisão do sujeito – a grande descoberta de Freud. O que é a divisão do sujeito? É querermos fazer algo de um jeito e fazermos diferente do que pensamos, às vezes até ao contrário do que planejamos...sem querer. Em outras palavras, o sujeito que comemora a vitória não é o mesmo que cai. E, no entanto, ambos habitam o mesmo corpo. Logo, uma verdade se estabelece: há algo mais forte que a consciência, há algo que contraria a consciência, há algo que por mais que a consciência não queira, se impõe, predomina, derruba completamente a força de vontade. Sobre isso, Freud legou à humanidade uma das pesquisas mais belas de sua história. Se chama “Alguns Tipos de Caráter Elucidados pelo Trabalho Psicanalítico” (1916) e está publicado no volume 14 de suas Obras Completas. O segundo capítulo desse trabalho recebe o título de “Os que fracassam ao triunfar”. Magnífico! Se Freud só tivesse escrito isso, já seria gênio. Freud demonstra aí que não há nada mais perigoso para o ser humano do que o sucesso, do que a nota dez. Há no dez uma idéia de completude, uma idéia de nada mais faltar – ora, nada mais faltar é o que caracteriza justamente...a morte. Por outro lado, nessa pesquisa Freud começa a investigar o que mais tarde vai chamar de “supereu”, ou seja, uma instância psíquica, um lugar psíquico presente no discurso de cada um – repito, no discurso, na fala de cada um e não, como acreditam os neurologistas, em algum lugar do cérebro. Por exemplo, eu tenho certeza que irão submeter Anna a uma série de tomografias e exames de sangue e que os resultados darão...negativo. Brincando com a história da psicanálise, o resultado será Anna O...negativo! Uma das funções do supereu é medir constantemente o sujeito, é verificar o quanto ele se aproxima ou se distancia do “ideal”. O paradoxal é que mesmo quando o sujeito supostamente chega lá...no ideal, o “supereu” não se satisfaz e exige mais – tendo esse “mais”muitas vezes a característica de uma punição, de um castigo, como esse de Anna. É isso que levou Lacan a denominar essa característica de “face feroz e obscena do supereu”, ao exigir do sujeito o gozo. Gozo, não o prazer. A Anna que tem prazer com o resultado do teste não é a mesma Anna que goza se jogando no abismo. O gozo é aquilo que está além do prazer, o contraria, é mesmo o avesso do prazer.
Jean Cocteau, Journal d’un inconnu citado por Alberto Manguel in Lendo Imagens. São Paulo: Cia. das Letras, 2003, p. 312.
Inconnu, uma das mais belas palavras da língua francesa. Sinônimo de “mystériex”, “secret” mas também daqueles que “ignore l’identité”, os desconhecidos, os estranhos, os estrangeiros. O Le Robert ainda diz assim: “(Personnes) Dont on n’a jamais fait connaissance” e também “une personne qui n’est pas connue, notoire, célèbre”, o não célebre, o não notório, o não famoso. E aí está Cocteau em seu diário inconnu à procura de, depois do encontro com. Inconnu.
“Sete espectros à procura de um autor”,referência a Pirandello in La Repubblica, 10/3/2009.
No indispensável La Repubblica, uma entrevista sensacional do fracassado John Banville a Enrico Franceschini sobre seu último livro publicado na Itália, “Isola con Fantasmi” [“Ilha com Fantasmas”], ed. Guanda, 15 euros.
Em um determinado momento da entrevista, um raro instante, Franceschini pergunta a Banville se ele ficou satisfeito com o resultado. A resposta de Banville é primorosa:
“Me parece que foi um fracasso muito interessante. Todas as obras de arte, em um certo sentido, também o são”.
Belíssimo isso. Cada obra de arte como um fracasso! Aliás, é assim que inicia “O Mar”:
“Os deuses partiram no dia daquela maré estranha.”
John Banville in O Mar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007, p. 9.
Pode parar por aqui. Já fracassou. Já é obra-prima. Os deuses partiram no dia daquela maré estranha. Sensacional fracasso, epifânico fracasso! Me lembrou Homero que, no início da Ilíada, faz Aquiles pedir a sua mãe um favor dos deuses, quanto então sua mãe lhe explica candidamente que os deuses não estão, foram comer um churrasco na Etiópia e voltam semana que vem! Magnífico! Os deuses gregos e os deuses de Banville são deuses da falta, são deuses do fracasso. Eles partiraram. Os gregos ainda voltam, já os de Banville...cabe lembrar o final desse fracasso monumental chamado “O Mar”:
“Uma enfermeira veio procurar por mim. Me virei para acompanhá-la, e foi como se estivesse entrando no mar.”
O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov recebe o presente da secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton em Genebra, Suíça. Fotografia de Fabrice Coffrini/Pool, via Reuters in The New York Times, 6/3/2009.
É o ato falho do ano! Os melhores tradutores, da melhor e mais preparada burocracia do mundo não conseguiram evitar o inconsciente. O presente, um botão com a palavra inglesa “reset” [reiniciar], foi pensado com muito cuidado a partir da declaração do vice-presidente dos Estados Unidos, Joseph R. Biden Jr., em Munique, no mês de fevereiro, de que estava na hora dos dois países “recomeçarem” seu relacionamento. A tradução de “reset” para o russo demorou várias semanas, até se chegar em “peregruzka”. E aí, isso falou sem querer...querendo. “Peregruzka” em russo significa “sobrecarregar”, o avesso do pretendido “reiniciar”.Subitamente, as intenções do presenteador ficaram claras. Risos rápidos para tentar “reiniciar” o reinado do “eu” de novo. Que o importuno inconsciente retorne para onde não deveria ter saído. Skavruska?
Você é. De todas as minhas angústias e dessa palavra tão linda do espanhol, meus quebrantos, me recuso a traduzir, quebrantos, quebra, quebram, me recuso. Ah, essas doces inquietudes que você me traz, esses amargos desencantos, esses gritos, essas brincadeiras, essas esperanças, essas des-compreensões. Você é. Me desespera, me enlouquece, me faz falta. Você é.
Letra de Gabriel Ruiz Galindo, do México, é claro, e interpretação de Luis Miguel Gallego Basteri, é claro.