“Barca”, cadeira desenhada pelo estudante de design do Copenhagen Designskole, Jakob Joergensen. Ganhador da “Gold Leaf” do International Furniture Design Awards in Asahikawa, Japão, 2008.
Desgraçado. Eu buscava uma cadeira para sentar e de repente naufraguei numa palavra: “barca”. Ela me jogou da Dinamarca para o México, sem escalas. Caí na trama da outra barca, a daquele desgraçado do Roberto Cantoral, que diz que dicen que la distancia es el olvido, pobres, ingênuos, tapados. A distância não faz esquecer, yo no concibo esa razón, de jeito nenhum. Por que? Porque yo seguiré siendo el cautivo, o prisioneiro, o náufrago, de los caprichos, das manhas, das denguices de tu corazón, aquele único, aquele lindo, aquele descompassado. Passo? Eu danço. Supiste, você sabe, esclarecer o que estava escuro, me diste la verdad que yo soñé, desgraçado desse mexicano, existe verso mais lindo que este? Arrancastes de mim o sofrimento en la primera noche que te amé, em que te beijei, en la primera noche. E hoje? Desgraça. Hoy mi playa se viste de amargura, porque tu barca se foi, essa barca não para, não sossega, é força constante, mas isso já é Freud, ela partiu, se partiu, me partiu, a cruzar otros mares de locura, lindo demais isso, otros, Outros, mares de desvario, mares de fantasia, eu sei, tudo por acaso, pela madrugada, mas isso já é Lenine. Só uma coisa, cuida que no naufrague en tu vivir. Desgraçada.
“La Barca” de Roberto Cantoral, cantada por Luis Miguel.
O DIA EM QUE A PROPRIEDADE PRIVADA DERRUBOU A CORTINA DE FERRO
Fotografia de Wally McNamee, 1973. Jill St. John, Leonid Brezhnev e Richard Nixon.
Em 19 de junho de 1973, o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, recebeu o Primeiro Secretário do Partido Comunista da União Soviética, Leonid Brezhnev em Washington para um encontro sobre a limitação da proliferação de armas nucleares. Alguns dias depois, na Califórnia, houve uma festa com a presença da atriz Jill St. John. Para aqueles que não estão ligando a atriz com o filme, é ela quem contracena com Sean Connery no maravilhoso 007 – Os Diamantes são Eternos, de 1971, um dos filmes de James Bond onde os vilões não são comunistas, mas sim um casal gay – ao contrário, por exemplo, do melhor 007 já feito, “From Russia With Love” [“Moscou contra 007”], de 1963, com a mais linda bond-girl da série, a inesquecível italiana Daniela Bianchi, no papel da encantadora Tatiana Romanova e a mitológica camarada coronel Rosa Klebb, interpretada magnificamente pela grande atriz e cantora Lotta Lenya. Aliás, Moscou contra 007 é também o melhor livro de Ian Fleming. Inclusive o final, magnífico, que não pode ser contado.
Cy Twombly (1928-), The Italians, 1961 in Museum of Modern Art, Nova Iorque.
“Há pinturas nervosas, possessivas, dogmáticas; impõem o produto, emprestam-lhe a tirania de um conceito ou da violência de uma cobiça. A arte de TW [Cy Twombly] – e nisto está sua moralidade – bem como sua extrema singularidade histórica – não quer captar nada; equilibra-se, flutua, oscila entre o desejo – que, sutilmente, anima a mão – e a delicadeza, que a libera; se fosse necessário referir essa obra a algo, esse algo teria que vir de muito longe, de fora do domínio da pintura, de fora do Ocidente, de fora dos séculos históricos, quase no limite do sentido, e dizer com Tao Tö King:
Produz sem apropriar-se,
Trabalha sem nada esperar,
A obra terminada, esquece-a,
e porque a esquece,
a obra permanecerá.”
Roland Barthes, Cy Twombly ou Non multa sed multum in O Óbvio e o Obtuso: Ensaios Críticos III. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, pp. 159-160.
Fonte: Giuseppe Videtti in La Repubblica, 1/3/2009.
Há trezentos anos, na Alemanha, um imigrante italiano do Piemonte, Giovanni Maria Farina (1685-1766), inventou a Água de Colônia. Giuseppe Videtti contou essa bonita história no La Repubblica de domingo. Se “colônia” hoje é sinônimo de água perfumada, menos lembrada é a cidade alemã onde Giovanni Maria Farina, em 1709, colocou a primeira garrafa de sua “aqua mirabilis [água milagrosa]” à venda e que mais tarde ficou famosa com o nome francês de “Eau de Cologne”. Giovanni trabalhou muitos meses para chegar na “fórmula” milagrosa. Em uma carta de 1708 ao seu irmão Giovanni Battista, ele escreve:
«Il mio profumo è come un mattino italiano di primavera dopo la pioggia: ricorda le arance, i limoni, i pompelmi, i bergamotti, i cedri, i fiori e le erbe aromatiche della mia terra. Mi rinfresca e stimola sensi e fantasia».
“O meu perfume é como um amanhecer italiano na primavera, após a chuva: ele recorda as laranjeiras, os limões, as toranjas, as bergamotas, os cedros, as flores e as ervas aromáticas da minha terra. Me refresca e estimula os sentidos e a fantasia.”
Lágrimas saltaram de meus olhos quando li isso. Quanta beleza aqui. Epifânica. Um amanhecer na primavera, após a chuva (choveu?), mirabilis, que recorda, amarcord, amar. Mia terra. Meu amor. Para sempre. Mio profumo. Minha aqua mirabilis.
“Wind From the Sea” de Andrew Wyeth (1917-2009), 1947. A obra se encontra no Mead Art Museum do Amherst College Campus em Amherst, Massachusetts, Estados Unidos.
Amherst me fez pensar em New Bedford, ali pertinho. Foi esta cidade que Herman Melville escolheu para iniciar Moby Dick. Ali está Ishmael, ali está o Pequod. “Desejo embarcar”, diz Ishmael-Melville. Só ele escapa. Só ele retorna para contar. É isso um escritor: aquele que retorna da perda, dá voltas nela, a circula, faz da dor letra. Trabalho de luto. Assim foi com Andrew Wyeth. Dois anos após a morte do pai, ele pinta “Wind From the Sea”. Está tudo aí: a falta desgraçada, a dor da ausência, a saudade infinita. Estar separado do que se ama. Nesse vento do tempo que grita memento mori, isso faz sulcos, isso marca sem dó nem piedade essa viagem. A repórter me pergunta: por que um blog? Eu respondo: porque dói.