Fonte: Tamar Lewin in The New York Times, 23/2/2009.
Prezado Mr. Lee C. Bollinger, presidente da Columbia University, Nova Iorque:
Eu aceito. I want to be a part of it! Sua oferta para que eu assuma a nova cadeira de “Psicanálise” nesta universidade me encantou. Me senti a number one, the king of the hill. O fato de eu só ter que ministrar uma aula por semana, para uma turma de 20 alunos, além de supervisioná-los na clínica da universidade, totalizando 10 horas de trabalho por semana por um salário e benefícios no total de $4.500.000,00 por ano, quatro e meio milhões, eu gostei disso, senhor presidente, milhões, quatro e meio milhões de dólares por ano, me encantou. A top of the list. Minha única condição é a seguinte: após receber o primeiro salário no final do mês, $375.000, eu preciso dar um pulo até o Brasil – é pouco tempo, senhor presidente, apenas seis meses por lá, depois eu volto. Como? Não é possível isso? Só depois de um ano eu posso ter direito a uma semana de férias? Essa é uma university that never sleeps? Mas, senhor presidente, eu adoro Nova Iorque, mas é que depois de três semanas por aí eu começo a ter saudades do meu pago querido – não há nada como wake up por lá. O senhor me pergunta se é do pagamento que eu estou falando? Não, senhor presidente, pago é uma coisa bem diferente de pagamento. Aliás, é algo que pagamento nenhum consegue comprar nem mandar trazer. Pago é aquilo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente. O senhor consegue reconhecer aqui as palavras daquele poeta? Não? Nunca ouviu falar? O senhor está com pressa e me pede objetividade, sim ou não? Meu contentamento descontente não cabe aí, senhor presidente. These vagabond shoes vão para outra direção. Agradeço-lhe pelo convite. Como? O senhor oferece mais quinhentos mil dólares para cobrir o pago? Obrigado, senhor presidente, mas start spreading the news, I’m leaving today. Bye, bye, New York.
Penélope Cruz fotografada em Madri em 1993 por Jordi Socías in El País, 24/2/2009.
A Espanha tem dessas coisas. Dentre todas as homenagens feitas à querida Penélope Cruz, quatro são sublimes. A primeira delas, de sua professora de interpretação, Cristina Rota, uma belíssima reflexão sobre o que significa atuar. Começa assim o artigo: “O que ela possui, sem que ninguém possa tirar isso dela, é uma paisagem interior cheia de vivências. É o que a acompanha quando ela caminha pela atuação, acompanhada ou na solidão compartilhada do ator”. Depois, Cristina adenda: “Ela sabe que a arte de atuar consiste em evocar e para isso há que pousar como pássaros sobre a memória e absorver até a última gota de prazer e de dor. Por isso, carregada da essência da vida, Penélope Cruz levanta vôo. Um vôo pessoal, específico, individual, intransferível (...) Ela nos lembra que nada do que é humano pode ser estranho e faz isso com simplicidade, verdade , beleza e facilidade” (fonte: Cristina Rota in “Una actriz que absorbe el placer y el dolor”, El País, 24/2/2009).
A segunda homenagem foi da marca de roupas Mango, que, aliás, em seu catálogo primavera/verão 2009 traz outras fotografias inesquecíveis de Penélope Cruz, dos imprescindíveis Mert Alas e Marcus Piggott. A frase-homenagem é freudiana por excelência: “Os sonhos também se realizam”. Linda! A terceira homenagem veio da prefeitura de Alcobendas em um pequeno anúncio que reproduz o trecho memorável do discurso de agradecimento do Oscar em que Penélope Cruz diz: “Venho de Alcobendas”. Magnífica! A quarta homenagem foi a fotografia de Jordi Socías que o El País escolheu, feita em 1993. Maravilhosa!
Anúncio publicado em El País, 24/2/2009. Fotografia de Mert Alas e Marcus Piggott.
A não-toda Luma de Oliveira e um pequeno detalhe de sua fantasia “Chica da Silva”. Fotografia de Pablo Jacob/Extra in O Globo Online, 24/2/2009.
E por falar em amor, imagem sideral, paixões mascaradas, essa lealdade, nossos feitiços, esses mistérios, tantas lágrimas, encontros e desencontros, é o amor que cruza o mar, meu coração, trovão vermelho, vapor e luxúria, filho desse chão, meu eterno amor, saudade é o som do meu tambor, vibração, palavras que tocam a alma, ritmo, muito ritmo, palavras que fascinam, furiosa bateria, palavras que tem o poder de curar, repique, tamborim, surdo, caixa e pandeiro, o dom de versar como será o amanhã, não vou me calar, ouço você, sereia, cantar, navegando não imaginava encontrar seu perfume pelo ar, a semente germinou, banho de felicidade, laço de união, sou brasileiro, sertanejo, caipira, matuto...e te amo.
Quitéria Chagas, rainha de bateria do Império Serrano. Fotografia de Guilherme Pinto in Globo online, 22/2/2009.
Não era ainda o desfile, não era ainda o samba-enredo, não era ainda o início, não era ainda o que depois viria. Quitéria Chagas apareceu. É isso uma epifania. É Quitéria Chagas de repente, num átimo, num relance. Só isso. Mas não foi só. É que o gigante Arlindo Cruz, gênio da humanidade, resolveu esquentar a escola cantando “Meu Lugar”. Aí eu chorei. O meu lugar é caminho, lindo demais, lá tem samba, uma ginga, esperança, mitos e seres de luz, maravilhoso isso, o seu nome é doce dizer – preciso dizer? – saudade, muita saudade, o amor que eu tenho, doce lugar – impossível esquecer, sequer tentar – eterno no meu coração, em cada esquina, aqueles dengos, pelos sete lados vou te cercar – ah, vou. A luz se fez. Clareou.
Monalisa Lúcia de Carvalho, a Mulata do Gois 2009. Fotografia de Fábio Rossi, feita na estação Oswaldo Cruz, bairro da Portela in Blog do Ancelmo Gois, 21/2/2009.
Monalisa tem uma pimenta tatuada bem abaixo do umbigo, próximo daquela, pertinho da, bom, logo ali, uma pimenta linda. Agora, não foi a pimenta que me chamou a atenção. Foram os cachinhos de Monalisa. E aí, vendo o vídeo de sua linda entrevista a Ancelmo Gois, eu pensei nas cariocas. Essa Monalisa é a alma das mulheres do Rio de Janeiro. Ela me levou para a Lapa, foi comigo de bondinho para Santa Teresa, me mostrou a quadra da Portela, me deixou na Tijuca, caminhamos pelo calçadão em Ipanema. O jeito de Monalisa contar as coisas, as pausas que ela faz, aquilo que ela não revela, é uma graça essa mulher. De repente, ela começa a dançar. Começa? Mas ela já estava dançando antes com os verbos, os adjetivos e os substantivos. Quanta substância. Como as cariocas. Monalisa é querida demais, fala do noivo, fala de seus projetos de vida e dança, como dança, e samba, como samba. E o sorriso dela? Nada a ver com o daquela, imortalizada, morta, embalsamada no Louvre. Ou melhor, tudo a ver com aquela que Leonardo fez viver em seu sfumato, em sua mistura, em seu desequilíbrio de linhas, embaçamento, névoa na tela – convite à imaginação de cada um – que descomplete o quadro de seu modo, a seu desjeito, com a sua confusão. Essa carioca de Realengo é vida que brota, é vida que exala, é vida que resplende – incompleta, confusa, ondeada como seus cachinhos. Essa carioca está grávida.
Um dia, Leonardo deixou de ser escravo da natureza, deixou de ser imitador. Lisa teve tudo a ver com isso. Quem mais teria podido despertar neste homem essas palavras?
“Movido por ardente desejo, ansioso por ver a abundância das formas variadas e singulares criadas pela hábil natureza, depois de vagar durante um bom tempo entre as rochas, cheguei à entrada de uma grande caverna. Detive-me ali por um instante, bastante surpreso porque não suspeitava de sua existência. Com as costas curvas e a mão esquerda apoiada no joelho, enquanto a direita fazia sombra a minhas caídas e franzidas sobrancelhas, inclinava-me continuamente de um lado para outro, para ver se ali dentro eu era capaz de distinguir alguma coisa, apesar da intensidade das trevas que reinavam no local. Depois de permanecer assim por algum tempo, duas emoções despertaram repentinamente em mim: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura gruta, desejo de ver se ela escondia alguma maravilha.” (fonte: Leonardo da Vinci in Códice Atlântico citado in Leonardo da Vinci - Coleção Folha Grandes Mestres da Pintura. Barueri, SP: editorial Sol 90, 2007, p. 23).
Abundância das formas? Grande caverna? Ver ali dentro? Gruta? Se estivesse no Rio, ele também teria escrito portela – pequena porta, passagem estreita, desfiladeiro, curvas. O desejo venceu. A maravilha se chama Monalisa.