Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


UMA OUTRA POÉTICA

Il ritorno di Ulisse [O Retorno de Ulisses] de Giorgio De Chirico, 1968, na exposição “Giorgio De Chirico, la fabrique des rêves” [Giorgio De Chirico, a fábrica dos sonhos] no Musée d’art moderne de La Ville de Paris até 24 de maio.

“Desde 1910, De Chirico vinha opondo ao tumultuado precursionismo futurista a idéia de uma arte acima da história, metafísica, de uma classicidade absoluta, exterior ao tempo. Não há aí sequer uma sombra de nacionalismo, mas apenas o desejo de uma dimensão interior inalcançável no alarido das fábricas, dos negócios e das guerras. A arte, em suma, não quer manter qualquer relação com o mundo presente, não quer combater por causa alguma, não quer esposar nenhuma ideologia; quer ser apenas ela mesma, mesmo que sua ausência manifesta dê uma sensação de morte a um mundo até agora demasiado vivo.

         De Chirico se opõe ao Futurismo (desde suas primeiras atuações) não por receio à novidade, mas por uma outra poética, que se poderia dizer “da negatividade”. A arte é pura metafísica, não possui vínculos com qualquer realidade natural ou histórica, nem mesmo para transcendê-la. Não tem finalidades cognitivas nem práticas, não tem qualquer função. Sua presença é ambígua, inquietante, contraditória. Coloca formas sem substância vital num espaço vazio e inabitável, num tempo que é não eterno, mas imóvel. Como uma esfinge, coloca enigmas facílimos e insolúveis aos homens que crêem saber tudo. É um elemento perturbador, que desambienta e provoca estranhamento; sem um gesto, pode comprometer tudo. Cocteau di-lo-á “mistério laico”. Muito antes dos dadaístas, De Chirico sentiu e denunciou a incongruência da arte na civilização moderna; inútil procurar remédios impossíveis, sua razão de ser é o ser-em-contradição”.

         Giulio Carlo Argan in Arte Moderna. São Paulo: Cia. das Letras, 1995, p. 372.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h41
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MÁGICA

A maravilhosa Penélope Cruz ou Maria Elena do magnífico “Vicky Cristina Barcelona”(2008)  e Woody Allen por Annie Leibovitz in Vanity Fair, March 2009.

“Então, você me pergunta como eu durei – principalmente com todos os meus defeitos, as minhas limitações, tanto artísticas como pessoais, as minhas fobias, idiossincrasias, as minhas pretensões artísticas e exigências artísticas absolutas numa indústria venal, implacável – funcionando apenas com um talento menor? A resposta é a seguinte: quando era criança, eu adorava mágica, e poderia ter sido mágico se não tivesse tomado um desvio. E assim, usando toda a minha habilidade manual, dissimulação, meus sutis subterfúgios e talento cênico – isto é, tudo o que aprendi debruçado nos meus livros de mágica quando era menino -, consegui produzir uma brilhante ilusão que já dura cinqüenta anos, e que compreende uma porção de filmes. Houdini, Blackstone, Thurston, todos os prestidigitadores da minha juventude teriam se orgulhado. [Encolhe os ombros.] Quem me dera eu estivesse brincando.”

Woody Allen em entrevista a Eric Lax in “Conversas com Woody Allen”.  São Paulo: Cosac Naify, 2008, pp. 419-420.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h05
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EL MAESTRO DEL DESENFADO

Paris, 1983 por Marc Riboud.

         Eu vi a Maga nesta fotografia de Marc Riboud. É ela.

         “Pouco antes de morrer, há 25 anos, em Paris, Julio Cortázar fez uma viagem pela Espanha, possuído por uma melancolia desconcertante provocada pela morte de sua última mulher, Carol Dunlop. Esteve com seus amigos, Mario Muchnick entre outros, em Segóvia, onde foi abordado por guardas civis que queriam seu autógrafo. Logo depois passou por Madri e Barcelona. Em Barcelona, teve um encontro que ele logo contou em uma de suas últimas entrevistas, na The Paris Review. Nessa espirituosa história, cabemos todos nós que lemos Rayuela [O Jogo da Amarelinha]. Cortázar contou nessa entrevista que, no bairro gótico Ciudad Condal, ele havia parado para escutar um concerto de uma jovem que cantava como Joan Baez. Escondido na penumbra da rua, farto de que o abordassem para pedir autógrafos, esse homem, de quase dois metros de altura, foi surpreendido por um jovem que lhe ofereceu um pastel.

         - Julio, morda um pedaço, lhe disse o rapaz.

         Cortázar se afastou. Ele era, desde pequeno, um homem muito tímido. Não gostava de festas nem de saraus literários. Por não estar em lugar nenhum, foi capaz, junto de Aurora Bernárdez, sua primeira mulher, de renunciar inclusive a empregos fixos. É assim que ele se encontrava ali em Barcelona, tímido e doente, escutando uma mulher que cantava como Joan Baez, e desejando desaparecer do caminho daquele rapaz que lhe oferecia o pastel. Até que se convenceu de que devia experimentá-lo. E disse ao rapaz:

         - Muito obrigado por aproximar-se e convidar-me.

         Foi então que o jovem lhe respondeu o que muitos de nós que lemos Rayuela, e os contos, os cronópios, Los premios, 62 modelo para armar, gostaríamos de lhe dizer nesse lugar ou no limbo, se existisse:

         - Olha, eu te dei muito pouco perto daquilo que tu me destes.

         Julio lhe disse: “Não digas isso, não é verdade”, e mais tarde comentou com Jason Weis, que lhe entrevistava: “Nos abraçamos e ele se afastou. Bom, coisas como essa são as melhores recompensas de meu trabalho como escritor. Que um rapaz ou uma moça se aproximem, falem comigo e me ofereçam comida, é maravilhoso. Assim vale a pena o trabalho de escrever.”

         Fonte: Juan Cruz in La plenitud intermitente de ‘Rayuela’, El País, 12/2/2009.

         “Além de que essa experiência [“Rayuela”, 1963] tão radical tenha ficado aderida ao “espírito da época” dos sessenta, nem por isso se deve esquecer que ainda hoje se diz “essa mulher é La Maga” ou “esse é um Oliveira [personagens de “O Jogo da Amarelinha”]. E, goste-se ou não, aceite-se ou rejeite-se, essa identificação significa algo. Quem sabe essa zona na obra de Cortazár, superados os escolhos dos compromissos redundantes, requeira uma exploração e releitura livres do peso da conjuntura em que o livro foi concebido e publicado. Mas não deixa de ser uma espécie de acerto literário o fato de que a obra que se erigiu como a porta de entrada do mundo cortazariano, hoje opere mais como uma porta de emergência, pela qual se foge um tanto quanto espavorido, ainda que isso venha de encontro a certos lugares-comuns como aquele de Morelli que dizia que um livro de Cortázar  pode ser lido do jeito que se quiser.

         Com sua própria pulsação interna, com uma estrutura rítmica como a do jazz, a musiquinha inconfundível de suas narrações, orquestradas nos contos do Bestiario (1951), Final del juego (1956), Las armas secretas (1959), Historia de cronopios y de famas (1962), Todos los fuegos el fuego (1966) e La vuelta al día en ochenta mundos (1967), sua obra é um bazar fantástico aberto 24 horas por dia, todos os dias do ano. Nesses textos extraordinários está o melhor de nosso afamado cronópio. Nem as mortes anunciadas nem o esporte nacional de “matar Cortázar”, praticados com uma má fé poucas vezes vista, puderam alcançar seus objetivos. Mestre da alegria [em espanhol, “Maestro del desenfado”, belíssima definição de Silvina Friera]  e do lúdico, Cortázar foi um equilibrista consciente de que a única maneira de perdurar era zombar de seus próprios fundamentos. Esse amigo da alma com o qual às vezes brigamos e discutimos segue nos acompanhando com sua obra tão bela como indestrutível.”

         Silvina Friera in El escritor que supo trascender el espíritu de una época, Página 12, 12/2/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h32
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NA BORDA

“Mind of the wonderful” por Stefan Beutler, Alemanha.

Em 1945, Isaiah Berlin, intelectual de origem russa, naturalizado inglês, foi nomeado para trabalhar junto à Embaixada britânica na União Soviética. E então, foi a Leningrado. E ali, um encontro com Anna Akhmátova.

         Em seu poema “Como se na Borda de uma Nuvem”, datado de 26 de novembro de 1945, ela descreve a sua emoção em conhecê-lo:

         “Tanto quanto ti talvez ele te seja fiel

         e constante até a morte”

         Baudelaire

Como se na borda de uma nuvem,

lembro-me de tuas palavras.

 

E com as minhas palavras para ti,

tornou-se a noite mais clara do que o dia.

 

Assim, arrancados da terra,

ao alto, nós dois, como estrelas, nos erguemos.

 

Não havia desespero nem vergonha

nem aqui, nem depois, nem em momento algum.

 

Mas na vida real, agora,

ouves como te chamo.

 

E essa porta que entreabriste,

de fechá-la eu não tenho forças.

         Anna Akhmátova in “Como se na Borda de uma Nuvem”.

         Tradução de Lauro Machado Coelho in “Anna, a voz da Rússia”. São Paulo: Algol,  2008, pp. 255-259.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h11
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AQUI

Tina Modotti por Edward Weston, 1923, México.

         Foi aqui, Mondini? Longe de Udine, sem mais Giuseppe, separada de Robo? Foi aqui, Assunta? Neste terraço, em terra estrangeira, terra mexicana? Foi aqui, Luigia? No tempo que você desejou parar, fixar, conter com as mãos? Foi aqui, Adelaide?  Seu olhar vagueia, retorna, revoluciona. Você nunca deixou de amar a vida, italiana querida. Mai.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h28
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DEPOIS DAQUELE GRITO

“O Beijo” de Edvard Munch, 1897.

         Quatro anos depois.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h55
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RETRATO

“Aquilon” de François Dubeau.

         Você me pediu o teu retrato. É esse o que te ofereço. Não há outro para representar tanto carinho, tanta leveza, tanta deriva, tanto tatear, tanto caminhar, tanto nós quatro.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h11
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