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TRÊS LETRAS

Silvina Ocampo por Fiora Bemporad in Babelia, El País, 7/2/2009. “Dizem que lhe bastaram três letras para resumir o encontro mais importante de sua vida: “ABC”, respondeu diante da pergunta feita, se referindo a Adolfo Bioy Casares, com quem estava casada há 11 anos desde 1940”. Raquel Garzón in Invitación de una noctámbula, Babelia in El País, 7/2/2009.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h35
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DAR

“Mary Ellen and Hand”, da série “Somnambulist”, 1970, de Ralph Gibson, Nova Iorque, Estados Unidos. Dar as mãos, ainda que elas não encaixem, ainda que elas se desencontrem, ainda que não seja agora, ainda que desapontem, ainda que desestabilizem, ainda que atrasem, ainda que causem dor, ainda que angustiem, ainda que haja alegria, ainda que não, ainda que isso, ainda que perdure, ainda que assim assim. Dar as mãos.
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h22
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DENGUICE

“The Body 01”, fotografia de Sutemmy Djunaedi, Bandung, Indonésia. Dizem que Eros, aquele filho de Afrodite com Ares, Hefesto só depois soube, aquele chamado de deus do amor, cupido, aquele que querendo atender o desejo da mãe, aquela desalmada, sem querer flechou-se a si mesmo, atrapalhado por Psique, apaixonador apaixonado, flechador flechado. Foi falar com Zéfiro e pediu que ele transportasse Psique para seu pago querido – fez mais. Endividou-se mais com Zéfiro e conseguiu uma de suas asas para refrescar sua amada enquanto dormia. Que calor é esse de Psique? Abrasamento, fogacho, arrebatamento, labareda, lume, quentura. Cupido presenteou-a, Cupido cuidou dela, Cupido a mimou. Refrescou-a. Mesmo quando ela o destratou, mesmo quando ela o desafiou, mesmo quando ela quase o perdeu. Erros, o deus do inconsciente.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h00
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SUAVEMENTE

“Softly” de Cristina Pascu, Bacau, Romênia. Há uma palavra, suave, que agora ressoa. Eu acho que ela sempre esteve aí, desde o começo. Suave, suavidade, doce, meiga, delicada. Softly.
Escrito por Leonardo Ferrari às 10h33
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FERRARI

Viktorya Sasonkina Vika por Steven Meisel in Vogue Itália, setembro 2008. Stylist: Andrew Richardson, make-up: Pat McGrath, hair: Guido Palau. Hefestos, o sexto dos Ferrari-ferreiros – filho de Zeus, que por sua vez aprendeu o ofício com seu pai, Cronos, filho de Uranos, filho de Gê (a Terra), nascida do Caos. Sim. Caos foi o primeiro Ferrari! Mas não é sobre isso meu pensamento de agora. É sobre Hefestos, esse deus grego do fogo e dos ofícios que empregam o fogo – ferreiro. É um deus mal falado – o fofoqueiro do Hesíodo chega a atribuir-lhe a ausência de paternidade, como se tivesse sido filho só de Hera – loucura total! Homero conta que Hefestos nasceu coxo – ora, quem não nasce assim, édipo, pés inchados, pés trôpegos, pés tropeçantes? Uma das versões da lenda diz que sua mãe, Hera, envergonhada com essa deformidade do filho, jogou-o fora do céu. Aquele insolente do Milton chegou a cantar que a queda durou da manhã até o meio-dia, e ainda do meio-dia até a aurora úmida do orvalho – uma estrela em queda. Pobre Hefestos. Rico Hefestos. Vingou-se da mãe com um presente – presente de grego! Uma cadeira de ouro-prisão. Apenas mais uma de suas obras-primas, como raios, o escudo de Aquiles, o colar de Harmonia – ferreiro, artesão, joalheiro! Com a esposa presa, Zeus promete a mão de Afrodite para quem conseguir libertar Hera dessa cadeira. Pobre Afrodite. Vê o amor de sua vida, Ares, fracassar. E vê o coxo, o renguento, o feio, o baixinho, o manco do Hefestos ser o único capaz de desfazer o feito por ele mesmo. E Afrodite se torna, a contragosto, a mulher de Hefestos. Hefestos exultante! Conseguiu a mais bela, conseguiu com sua arte de ferreiro aquela areia que diziam não caber em seu caminhãozinho. Coube! Os ferreiros têm manhas, têm artes, têm ganas. Mas Afrodite traiu. Desgraça. Afrodite não esqueceu Ares. Desgraçada. Uns dizem que Hefestos fabricou uma corrente invisível e a colocou ao redor do leito matrimonial em sua morada e ali prendeu os amantes, deixando-os imobilizados para em seguida chamar todos os demais deuses e deusas para verem a cena – estranho desejo de Hefestos. Tiziano e eu dizemos diferente: Hefestos condenou Afrodite ao destino de Narciso, para sempre prisioneira de sua imagem. Mulheres, cuidem bem de seus ferreiros. Eles são coxos, eles são deformados, eles são claudicantes, eles são humanos, demasiado humanos. Eles são sublimes.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h16
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AFRODITE

Fotografia de Ruslan Maximov. “Afrodite (Vênus), deusa do desejo, surgiu nua da espuma do mar e, cavalgando uma concha de vieira, onde primeiro pôs os pés foi na ilha de Citera. Porém, considerando-a apenas uma ilhota, cruzou o Peloponeso e, finalmente, passou a residir em Pafos, no Chipre, ainda hoje a principal sede de seu culto. Plantas e flores cresciam por onde ela pisasse. Em Pafos, as Estações, filhas de Têmis, apressaram-se em vesti-la e adorná-la”. Robert Graves in O Grande Livro dos Mitos Gregos. São Paulo: Ediouro, 2008, p.60. Apressaram-se em vesti-la? Botticelli não teve essa pressa. Maximov também não. A deusa do desejo! Epifânica!!
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h32
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AUSÊNCIA

Fotografia de Nikola Borissov. Ausência Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim. Carlos Drummond de Andrade.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h24
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