E QUE VENHA

Tanya Fourie por Serge Guerand. “Ela teria recomeçado a se mexer. Teria sido lenta e longa ao fazer isso diante daquele que olha. O azul dos olhos no corredor escuro que bebem a luz, ela sabe, verrumados nela. Vejo que agora ela levanta as pernas e as afasta do resto do corpo. Faz isso assim como as juntou, com um movimento consciencioso e sofrido, tão fortemente que o seu corpo, bem ao contrário do momento anterior, mutila-se no seu próprio comprimento, deforma-se até o ponto de uma possível feiúra. De novo ela se imobiliza assim aberta para ele. A cabeça continua apartada do corpo, reclinada no braço. De agora em diante ela fica nessa posição obscena, bestial. Tornou-se feia, tornou-se o que, feia, ela teria sido. Ela é feia. Ela fica ali, hoje, na feiúra. Vejo o enclave do sexo entre os lábios afastados, e que todo o corpo se paralisa ao seu redor numa queimação que aumenta. Não vejo o rosto. Vejo a beleza flutuar, indecisa, nas imediações do rosto, mas não posso fazer com que ela se assente nele até se lhe tornar particular. Vejo só a sua oval voltada para o outro lado, o perfil muito puro, tenso. Creio que os olhos fechados deveriam ser verdes. Mas me detenho nos olhos. E, mesmo que chegasse a fixá-los durante muito tempo nos meus, eles não me dariam o todo do rosto. O rosto continua desconhecido. Vejo o corpo. Vejo-o por inteiro com uma aproximação violenta. Está banhado de suor, sob um clarão solar de uma brancura assustadora. O homem ainda teria esperado. E então ela teria conseguido. Tamanha é a força do sol que para suportá-la ela grita. Morde a região do braço já rasgada do vestido e grita. Chama um nome. E que venha”. Marguerite Duras in O Homem Sentado no Corredor. O Homem Sentado no Corredor e A Doença da Morte. São Paulo: Cosac Nayfy, 2007, pp. 16-18. Tradução de Vadim Nikitin.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h44
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A MONTANHA

“A Montanha” de Aristide Maillol, um dos retratos de Dina Vierny. Cortesia de Dina Vierny in The New York Times, 27/1/2009. Dina Vierny morreu. Foi no dia 20 de janeiro, aos 89 anos, em Paris. William Grimes escreveu no The New York Times um belíssimo obituário dela. Vierny conheceu o escultor Aristide Maillol quando tinha 15 anos, através do arquiteto Jean-Claude Dondel, um amigo de seu pai, que decidiu que ela seria uma perfeita modelo para Maillol que, aos 73 anos, se encontrava em plena paralisia artística. Nos próximos 10 anos, até a morte de Maillol em um acidente de carro, ela se transformaria na musa do escultor, provocando, instigando e fazendo o escultor trilhar novos caminhos. Certa vez, ele a enviou a Matisse em Nice, para um retrato: “Estou te enviando a alma do meu trabalho, para que você a reduza a uma linha”, disse Maillol a Matisse. Como Matisse lhe pediu seis meses para concluir o trabalho, Maillol não aceitou e a chamou de volta imediatamente! Sobre sua relação com o escultor, Dina Vierny conta: “Um dia, eu estava subindo em uma amendoeira quando Maillol virou para meu pai e disse: ‘Você fez ela, mas fui eu quem a inventou’. E ele realmente acreditava que tinha me inventado. Ele costumava dizer que desenhou minhas formas por vinte anos antes do meu nascimento” (fonte: William Grimes in The New York Times, 27/1/2009).
Dina Vierny em janeiro de 1944 com o escultor Aristide Maillol. Fotografia de Louis Carré/Agence France-Presse/Getty Images in The New York Times, 27/1/2009.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h33
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O IMPOSSÍVEL

Fotografia de Kris Gebhardt. “...Et je comprenais l’impossibilité où se heurte l’amour. Nous nous imaginons qu’il a pour objet un être qui peut être couché devant nous, enfermé dans un corps. Hélas! Il est l’extension de cet être à tous les points de l’espace et du temps que cet être a occupés et occupera. Si nous ne possédons pas son contact avec tel lieu, avec telle heure, nous ne le possédons pas. Or nous ne pouvons toucher tous ces points. Si encore ils nous étaient désignés, peut-être pourrions-nous nous étendre jusqu’à eux. Mais nous tâtonnons sans les trouver. De là la défiance, la jalousie, les persécutions. Nous perdons un temps précieux sur une piste absurde et nous passons sans le soupçonner à côté du vrai”. Marcel Proust in La Prisonnière – A la Recherché du Temps Perdu. “…E eu compreendia a impossibilidade contra a qual o amor se choca. Imaginamos que ele tenha por objeto um ser que pode estar deitado à nossa frente, oculto num corpo. Mas ai! Ele é a extensão desse ser em todos os pontos do espaço e do tempo que esse ser ocupou ou vai ocupar. Se não possuímos seu contato com tal lugar, com tal hora, nós não o possuímos. Mas não podemos tocar todos esses pontos. Se ainda nos fossem indicados, talvez pudéssemos tentar alcançá-los. Mas tateamos às cegas sem encontrar. Daí a desconfiança, o ciúme, as perseguições. Perdemos um tempo precioso seguindo uma pista absurda e passamos ao lado da verdade sem suspeitá-la”. Marcel Proust citado por Ítalo Calvino in Seis Propostas para o Próximo Milênio. São Paulo: Cia. das Letras, 3ª. ed., 2005, p. 126.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h42
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A TERRA DO DESEJO

Fotografia de Andy Craddock.
Em uma resenha belíssima publicada ontem no Página 12, Guillermo Saccomanno se pergunta como traduzir Giuseppe Ungaretti. Ele dá o exemplo do poema "Mattina" que é apenas assim:
"M'illumino
d'immenso"
("Mattina" de Giuseppe Ungaretti, 1917)
"Seu poema "Mattina" ("Manhã") tem apenas dois versos. Mas, apesar de sua aparente simplicidade, em seu laconismo se pode traduzir "Me ilumino/do imenso" ou "Me ilumino/de imensidão" ou "Me ilumino/do infinito". Não é a mesma coisa imensidão e infinito." (fonte: Guillermo Saccomanno in Página 12, 25/1/2009).
Ora, nosso querido Haroldo de Campos fez um magnífico trabalho de tradução e comentários no indispensável "Daquela Estrela à Outra" (Ateliê editorial, 2004), indicando, sobre "Mattina", a luta estabelecida entre a sonoridade clara de "mattina" e a escura de "illumino", concluindo que, por serem eles sons fechados ("difusos"), correspondem então ao alvorecer, e não à luminosidade de um sol intenso. Haroldo de Campos relembra a bonita definição de Ungaretti para fragmento: "Por fragmento se define pois aquele pedaço de discurso que, para ser nos seus efeitos poesia acabada, começa por um interrompimento e termina por uma interrupção. A poesia indicava (...) que outra coisa não era senão angústia freada, inciso alarme entre duas catástrofes" (fonte: Luisa Destri).
Angústia freada, alarme entre duas catástrofes, "mattina", "illumino", "immenso". Belíssimo.
Em seu artigo, Saccomanno fala também da participação de Ungaretti como soldado na Primeira Guerra - fato que resultou no livro "El cuaderno del viejo" (editorial Pre-textos, Colección La Cruz del Sur, Madri, 2000, tradução de Luis Muñoz), do qual consta o seguinte poema:
"Sou uma criatura
Como essa pedra / do S. Michel / tão fria / tão dura / tão gasta / tão refratária / tão totalmente inanimada // Como essa pedra / é o meu choro / que não se vê // A morte / se paga / vivendo."
"A morte se paga vivendo". É por isso que em um de seus poemas mais lindos, "Veglia [Vigília]", mergulhado na morte, Ungaretti grita: "Non sono mai stato tanto attaccato alla vita" ["Nunca me senti tão preso à vida"]. Sublime!
Aliás, alguns desses poemas estão reunidos em "A Alegria" publicado recentemente pela Record em tradução magnífica de Geraldo Holanda Cavalcanti.
Saccomanno termina assim seu brilhante desabafo:
"'O Caderno do Velho' pode ser lido como uma boa conclusão para o percurso de sua obra: "assamos no deserto com os restos / de uma imagem antiga na cabeça, //os vivos não sabem mais / da Terra Prometida". Porém, considerando sua obra em perspectiva, esse livro que apresenta, conciso e austero, "as amargas surpresas da memória / em uma carne exausta", é uma porta introdutória que se abre com serenidade para a sua poesia de angústia, sem descartar, em sua metafísica, a esperança, ainda quando o milagre não aconteça. A condição de que nossa passagem por essa vida tenha um sentido não reside nem no patrimônio, nem no esforço. "A meta é partir", aponta Ungaretti. Para que essa terra tenha um sentido, para que não seja "terra baldia", deverá ser sempre terra do desejo, ou seja, para sempre terra prometida." (fonte: Guillermo Saccomannno in Página 12, 25/1/2009).
Terra do desejo, terra prometida. Partir à imensidão, como um náufrago sedento de vida!
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h16
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PERTO

Mark Arbeit in “Ateliers D’Artiste - Andre Barelier A”, 2001.
Foi aqui que eu fiquei perto do coração selvagem da vida. Foi aqui que eu me misturei com esse coração selvagem, obstinado, jovem, que me penetrou a alma para sempre – viver, errar, sucumbir, triunfar, recriar vida da vida! Foi aqui. Ela me apareceu, a beleza, mensageira, me dizendo sim - erro – sim – desconcerto – sim – mundo novo – sim – flor. Foi aqui.
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h53
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