Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


ACONTEÇA O QUE ACONTECER

 

Zelda e Scott em 1923. Fotografia Underwood & Underwood/CORBIS in El País, 17/1/2009.

              O indispensável Babelia vem com um artigo belíssimo de Guillermo Altares sobre o último livro do escritor francês Gilles Leroy chamado "Alabama Song", sobre a vida de Zelda Sayre (1900-1948) e seu amor por Francis Scott Fitzgerald (1896-1940). O livro acaba de ser traduzido para o espanhol (ed. RBA) e ainda não tem tradução no Brasil. O final do artigo de Altares é magnífico. Segue a tradução:

             "Em 1930, Zelda começou sua longa viagem noite adentro da loucura com sua primeira internação em um hospital psiquiátrico. O resto da vida se converteria numa repetida sucessão de entradas e saídas deles, ainda que seguisse escrevendo e pintando. Essa tragédia dos anos 30 acabou com a morte de Fitzgerald em 1940 de um ataque do coração no apartamento de sua amante, a jornalista Sheila Graham, em Hollywood. "Dizem que a loucura nos separou. É o contrário: nossa loucura nos unia. É a lucidez aquilo que nos separa", diz a personagem Zelda em Alabama Song. Em 1948, a última Beleza do Sul morreu em um incêndio do hospital psiquiátrico de Asheville (Carolina do Norte), onde estava internada. Até 1975 eles não seriam enterrados na mesma tumba, em Rockville (Maryland). O epitáfio deles é o final do Grande Gatsby: "E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado." Também poderia ter sido a primeira frase de Crack-Up: "Toda a vida é um processo de demolição" - ou, por que não, a última frase de Êxito Prematuro, outro artigo autobiográfico que ela publicou na Esquire em 1937: "Eu nunca voltei a ser aquilo que fui naquele período tão curto em que ele e eu fomos a mesma pessoa, em que o futuro realizado e o passado desejado se fundiam em um só momento esplendoroso, em que a vida foi literalmente um sonho".

            No final, restam as palavras de Scott e de Zelda, restam suas sombras e a triste esperança de que houve um momento, em alguma querência perdida dos anos vinte, em que a vida foi um sonho. "Pensa no quanto me queres. Não vou pedir que me queira sempre como agora, mas te peço que se lembre disso. Aconteça o que acontecer, ficará em mim algo do que sou esta noite", diz a personagem Nicole no mais triste dos livros de Scott, Suave é a Noite, numa certa definição do que representa um verdadeiro amor: algo que, aconteça o que acontecer, fica conosco para sempre. Podemos dizer algo semelhante sobre os grandes escritores e suas lendas. Após passar pela vida e obra de Scott e Zelda, sempre ficará algo deles em nós."

            Fonte: Guillermo Altares in "El 'crash' de Zelda y Scott", Babelia, El País, 17/1/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h55
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KANT DE JOELHOS

 

Fotografia AP in El País, 16/1/2009.

         Os crimes contra a humanidade que Israel está fazendo em Gaza desviaram minha atenção de um importante evento acontecido essa semana na Rússia. Veio ao mundo um novo gênio. Já conhecido internacionalmente como um Gandhi da paz, uma Madre Teresa da empatia, um Fernando Henrique Cardoso do pensamento, o ex-presidente Vladimir Putin revelou-se pintor. Minto. Apareceu para o mundo o novo Leonardo, o nupérrimo Van Gogh, o viçoso Rembrandt, o recém-chegado Matisse da pintura pós-moderna. Ecce-homo! Batizado a obra como "Uzor", que em russo significa arabesco, bordado, desenho, a sensibilidade desse artista me levou às lágrimas. Eu, tantas vezes reles, tantas vezes vil, que acusei esse homem de invadir a Geórgia, de aterrorizar a Ucrânia com o corte de gás, de matar jornalistas, opositores e ex-espiões em Londres e Viena, não percebi essa chispa criadora, essa tormenta de mansidão, esse vendaval de placidez.  Não vi a verdade do Criador. Parabéns Vladimir Putin! Agora sim temos um ano novo! Alvíssaras!



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h01
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DENTRO DA LUZ

 

Epifania de Gian Paolo Dessolis, Sassari (Sardenha), Itália. 

         "A alumiada surpresa.

         Alvava.

         Assim; mas era também o exato, grande, o repentino amor - o acima. Sionésio olhou mais, sem fechar o rosto, aplicou o coração, abriu bem os olhos. Sorriu para trás. Maria Exita. Socorria-a a linda claridade. Ela - ela! Ele veio para junto. Estendeu também as mãos para o polvilho - solar e estranho: o ato de quebrá-lo era gostoso, parecia um brinquedo de menino. Todos o vissem, nisso, ninguém na dúvida. E seu coração se levantou. - "Você, Maria, quererá, a gente, nós dois, nunca precisar de se separar? Você, comigo, vem e vai?" Disse, e viu. O polvilho, coisa sem fim. Ela tinha respondido: - "Vou, demais." Desatou um sorriso. Ele nem viu. Estavam lado a lado, olhavam para a frente. Nem viam a sombra da Nhatiaga, que quieta e calada, lá, no espaço do dia.

         Sionésio e Maria Exita - a meios-olhos, perante o refulgir, o todo branco. Acontecia o não-fato, o não-tempo, silêncio em sua imaginação. Só o um-e-outra, um em-si-juntos, o viver em ponto sem parar, coraçãomente: pensamento, pensamôr. Alvor. Avançavam, parados, dentro da luz, como se fosse no dia de Todos os Pássaros." 

         João Guimarães Rosa in Substância. Primeiras Estórias in Ficção Completa v. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 499.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h45
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POR QUEM OS SINOS DOBRAM

 

"Mulher palestina inspeciona as ruínas de sua casa atingida por um bombardeiro israelense na guerra contra o Hamas".Fotografia de Mohammed Salem/Reuters in The New York Times, 9/1/2009.

          O que resta em meio a essas ruínas? O que resta em meio a esses mortos-vivos? Se após 18 dias de ataque, mais da metade dos mortos são mulheres, crianças e idosos, o Hamas venceu. O Hamas conseguiu transformar Israel em um reles criminoso de guerra, em um vagabundo assassino de civis. O Hamas conseguiu transformar Israel nele próprio. Todo o patrimônio cultural de Israel, toda sua democracia lentamente construída, todo o senso crítico do povo de Israel, tudo isso se transformou em ruínas. Essa casa destruída não é só da mulher palestina. Essa casa destruída é o estado de Israel. O Hamas venceu. E venceu fazendo com que seu adversário perdesse a cabeça. Israel em nome do direito de fazer alguma coisa contra o terrorismo, fez qualquer coisa (a frase é de Nicholas D. Kristof, no artigo "The Gaza boomerang" in The New York Times, 8/1/2009). Fazer qualquer coisa é o que faz um terrorista. O Hamas venceu. Sem satélite de última geração, sem tanque revestido de cerâmica, sem mísseis guiados por GPS, sem bombardeiros F-16 dos Estados Unidos, sem tropas de elite treinadas por mais de 10 anos, sem a enorme máquina de propaganda despejando falsas notícias 24 horas por dia, o Hamas venceu. Israel está em ruínas. 

          "Mortos em Gaza são sobretudo crianças, idosos e mulheres

           DA REDAÇÃO, Folha de São Paulo, 14/1/2009

           Após 18 dias de ofensiva israelense, mais da metade dos mortos na faixa de Gaza é de mulheres, crianças e idosos.
É o que aponta o balanço das vítimas divulgado ontem pelo chefe dos serviços de emergência em Gaza, Muawiya Hassanein. O número de mortos chegou ao menos a 935 -com 280 crianças, 92 idosos (de ambos os sexos) e outras 97 mulheres. Segundo os dados, a soma de crianças, mulheres e idosos mortos atingiu 469, o que corresponde a 50,16% das mortes computadas. Hassanein disse haver também 4.200 feridos. A situação foi qualificada ontem pela UNWRA (agência da ONU para refugiados palestinos) como "cada vez mais frustrante". John Ging, diretor de operações da entidade em Gaza, disse que a "chave do problema" é a imediata suspensão dos combates e apelou: "Pouco importa se for um cessar-fogo formal ou informal". (...)"



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h23
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PONTE

 

Fotografia de Ковалёв Алексей, Ucrânia.

         Da série pontes inesquecíveis.

         Há pontes e há pontes. Eis aqui uma formidável. Observem todo esse trabalho feito por um ferreiro, um Ferrari! Dá orgulho isso! Há um anteparo aqui, há uma proteção aqui, há uma segurança aqui, há uma beleza, uma singeleza, uma raridade nela que faz suspirar, faz desejar, faz querer passear por aqui, amar por ali. Essa ponte une, essa ponte ata, essa ponte leva, essa ponte traz, essa ponte é o meio do caminho da vida de Dante, essa ponte é o licor que Mefistófeles dá a Fausto para ele ver Helena em cada mulher, essa ponte é a Diadorim de Riobaldo. Essa ponte são veredas - várias, múltiplas, plurais. Travessia.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h39
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TERRA BOA E GOSTOSA

Primeira página de O Estado de São Paulo, 11/1/2009.        

              Adido. Eu aceito. Trinta e sete mil reais por mês? Eu aceito. Só um pedido: eu quero ser adido no Rio de Janeiro. Como? É só para o exterior? Suíça, França, Bélgica ou Itália? Eu quero o Rio de Janeiro!! Como? Vou poder viajar para o Rio quantas vezes quiser desde que uma vez por mês eu bata o ponto na embaixada do Brasil? Então que seja Roma. E já me reserve para o dia seguinte a passagem para o Rio. Onde assino o contrato?



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h37
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PULSÃO

 

Gao Xingjian, "Recueillement" ["Recolhimento"] (1997), tinta sobre papel. Cortesia do artista e de Goedhuis Contemporary in El País, 9/1/2009.

                  "Gao Xingjian, o que você nunca fez, mas gostaria de ter feito?"

                  "Música. Há um ritmo dentro de mim. Mas torná-lo real é muito complicado." 

                  Gao Xingjian na seção "Minha pergunta para mim", seleção de William Boyd in Granta 3. Rio de Janeiro: Objetiva (Alfaguara), 2008, p. 318.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h59
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