Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


PELOS BAILES DA VIDA

 

Fotografia de Carlos Furman para o livro "Tango" in La Nación, 10/1/2009. 

                Debaixo do belíssimo título "A Cerimônia do Abraço", o La Nación presta sua homenagem ao maravilhoso tango. Nós brasileiros além de dançarmos tango, saboreamos também o magnífico samba de gafieira, patrimônio cultural da humanidade e das mais lindas das danças, o querido vanerão e também o espetacular forró, com aquela frase espirituosa demais que proclama que um forró bem dançado deixa a mulher grávida no final. Mas isso vale para todos os ritmos! Sensacional! 

                "Eu sempre trato de ensinar a meus alunos que, na dança, é muito importante cuidar da mulher, protegê-la. A mulher é um diamante que só você tem que acariciar."

                 El Flaco Dany, dançarino profissional e professor. 

                 "O bom do tango é que você olha para a mulher e a mulher olha para você. Só aí você já ganhou 50%. Claro que se a mulher gostar de você de verdade, então não é necessário absolutamente nada mais. Me aconteceu de dançar um tango como um louco - não digo de chegar ao orgasmo, mas quase, quase - e, ao terminá-lo, pensei que talvez eu nunca mais voltasse a ver essa mulher de novo."

                 Quique Usales, campeão de tango de salão em 2003. 

                 "Quem dança a tarantela? Os italianos e ninguém mais. Quem dança a jota? Os galegos e ninguém mais. Quem dança a mazurca? Os russos e ninguém mais. Quem dança o tango? Todo mundo! Porque o tango é a música mais linda...e somente ele permite que um homem e uma mulher se abracem."

                  Osvaldo Cartery. Todos os depoimentos foram recolhidos por Pablo Lettieri para o livro "Tango" de Carlos Furman, citado in La Nación, 10/1/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h18
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A RELIGIÃO DO GOZO

 

"O Vaticano desafia a arte contemporânea"

Fonte: Pierluigi Panza in Corriere della Sera, 8/1/2009. 

         Depois de uma Nossa Senhora que chora esperma (apresentada em uma mostra em Bolonha), de uma Última Ceia com apóstolos se masturbando (Alfred Hrdlicka em Viena), de Papas circundados por falos (grupo americano Gran Fury na Bienal de Veneza) ou só de cinta-ligas("Miss Kity", de Paolo Schmidlin na mostra não permitida "Vade Retro" em Milão), mulheres crucificadas (Maurizio Cattelan na igreja de Sankt Martin em Pulheim, Nord Reno - Westfalia) e de uma rã crucificada (Martin Kippenberger em Bolzano), o Vaticano decidiu participar com um pavilhão nacional na Bienal de Veneza de 2011. Inovadora decisão. Depois de milênios de repressão total a qualquer crítica e discordância, de censura e boicote a qualquer obra que ironize a fé, a Igreja Católica decidir dialogar com a arte através da arte merece aplausos. Aliás, em Barcelona aconteceu algo similar. Depois que uma campanha pró-ateísmo, vinda de Londres, chegou na cidade com um cartaz nos ônibus municipais com a frase pró-gozo: "Provavelmente Deus não existe - Deixe de se preocupar e aproveite a vida", veio de Madri - só podia - a resposta cristã também estampada nos ônibus municipais: "Deus existe sim. Aproveite a vida em Cristo". Faltou espirituosidade aos cristãos. Eu colocaria a seguinte frase de Dostoiévski em sua imortal "Os Irmãos Karamazov": "Se Deus não existe, então tudo é permitido".  Ora, na mesma edição do Corriere della Sera de ontem apareceu o cardeal Renato Martino, presidente do Conselho Pontifício da Justiça e da Paz para declarar que Gaza se assemelha a um campo de concentração (fonte: Gian Guido Vecchi in Corriere della Sera, 8/1/2009). Uma forma direta de lembrar que em nome de Deus se cometem as maiores barbaridades. Agora, daí a transformar essa frase cretina "deixe de se preocupar, aproveite a vida" em lema de vida demonstra que o gozo virou nova fé. Pobres crentes do gozo. Vida sem preocupação é o que define um idiota, um alienado, um imbecil, um perverso, um animal. Os bichos não se preocupam e aproveitam a vida. Vivem no mais absoluto gozo. O preço? Nenhum desejo. O campo de concentração do gozo exige dos prisioneiros a mais absoluta servidão. Daí o avassalador consumo de drogas em nossa época. O drogadido para gozar precisa morrer - um pouco mais a cada dia, pois só assim se transforma no animal ideal do "aproveite a vida, deixe de se preocupar". É o idiota completo - aquele que só repete amém ao êxtase, vermelhinho, azulzinho, verdinho. Sempre a mesma coisa.

 

 

Ônibus em Barcelona. Fonte: El País, 8/1/2009.

 Ônibus em Madri. Fotografia de S. Sánchez in El País, 8/1/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h53
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MUITA SORTE TERÁ

 

Luma de Oliveira por Marcos D'Paula/AE, 8/1/2009. 

         Vai dar Portela esse ano! Espetacular! Epifânica! Luminosa!!!!



Escrito por Leonardo Ferrari às 16h19
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MUITA SORTE TEM

 

Fonte: O Globo, 8/1/2009. 

À memória de Dorival Caymmi, gênio da humanidade.

         Você já foi à Bahia? Cuidado. Lá tem cobras criadas nas prefeituras... Mas é lá na Bahia que também tem aspones de primeira, aqueles que desmentiram para sempre a triste fama dos assessores de porra nenhuma! Foram eles que realizaram esse inesquecível "checar as condições do local" antes do prefeito eleito ali aterrissar! Vejam que eles não encontraram vatapá nem caruru nem munguzá na prefeitura de Almadina. Encontraram uma cobra-coral venenosa! Sibilante, ciciante, trilante, serpenteante! Bom fim? A Bahia tem um jeito...

         Depois dessa, lamento. É que a lembrança de uma donzela acabou me levando para o Rio de Janeiro. Luma de Oliveira em um microvestido de tecido, cravejado de pedras, ostentando a águia da Portela no pescoço? Ai, ai, ai. Sibilante, ciciante, trilante, serpenteante. Cobra mais Luma igual a Eva, nos tempos do imperador Adão,  o paraíso...perdido. Nenhuma outra terra tem. Eu não quero voltar mais. Fui.

Luma de Oliveira fotografada por Daniel Ramalho na coluna de Anna Ramalho in Jornal do Brasil, 8/1/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h40
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POBRE VENEZUELA

 

Primeira página de O Globo, Rio de Janeiro, 7/1/2009. 

            As bombas inteligentes estão caindo agora em escolas! Como? Mais de cem crianças mortas desde o início do bombardeio de Israel? Mas não estão utilizando o satélite mais moderno do mundo? E o GPS, e as bombas de precisão milimétrica, e toda a inteligência militar longamente preparada para a invasão? Deve ser para eliminar os futuros terroristas!! Já que os velhos viraram cadáveres, vamos atrás dos novos! E aí vem esse ignorante do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, estragar tudo isso com a expulsão do embaixador de Israel? Ele não entendeu nada. Pobre Venezuela. Não é um país sério. 



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h50
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A HUMANIDADE E A DESPROPORÇÃO EM DEBATE

 

"Eles estão retaliando com uma crise humanitária!"

Patrick Chappatte in International Herald Tribune, 5/1/2008. 

         É  da Ministra das Relações Exteriores de Israel e candidata a primeira-ministra, Tzipi Livni, a estarrecedora declaração de que não há crise humanitária em Gaza (declaração feita em Paris no primeiro dia de 2009 - fonte: Deutsche Welle, 1/1/2009).

         Patrick Chappatte deu ontem no International Herald Tribune uma resposta à altura.

         Mas foi a escritora Amudena Grandes quem, no El País de ontem, foi magnífica. Vale a pena traduzir na íntegra: 

         "Humanidade - Almudena Grandes, El País, 5/1/2009

         A ministra das Relações Exteriores de Israel disse, horas antes da invasão, que, em Gaza, não havia crise humanitária, e, portanto, não era necessária nenhuma trégua humanitária. Mesmo que o seu governo não fosse o responsável pelos mais de quinhentos cadáveres e pelas incontáveis vítimas que se projetam no horizonte, suas palavras já causariam calafrio. Em Gaza estão confinados, como em um campo de concentração, um milhão e meio de pessoas cuja subsistência depende da vontade de seus carcereiros. Israel consentiu que o Hamas se apresentasse às eleições de 2006 para decretar, após sua vitória, um bloqueio econômico tão brutal que, aplicado em qualquer outro lugar do planeta, consistiria por si mesmo em uma total crise humanitária.

         Caberia perguntar à senhora Livni o que é um ser humano para ela, porque não se trata só de conceitos como segurança, bem-estar ou garantias de vida. Antes que o exército de Israel arrasasse Gaza pela força, seus habitantes não tinham comida, nem água, nem luz elétrica, nem medicamentos, nem combustíveis, às vezes durante horas, às vezes durante dias inteiros. Caberia então responder, e atendo-se para isso exatamente às suas palavras, que, para a senhora Livni, os palestinos não são seres humanos. Que uma ministra de Israel, representante de um estado surgido do horror que estremeceu o mundo ao constatar que o povo judeu foi tratado como não humano pelo III Reich, diga coisas assim, é tão desolador que fala por si mesmo.

         E os demais problemas? O problema é o Hamas, dizem. E quando não existia o Hamas? Então o problema era Arafat. E de onde saiu Arafat? A violência não só engendra violência no Oriente Médio, mas somente ali ela priva as vítimas do pobre consolo da palavra "desproporção". Cabe pensar então que a culpa é dos próprios palestinos, dessa teimosa insistência deles em seguir sendo, apesar de tudo, seres humanos."

         Fonte: Almudena Grandes, El País, 5/1/2009. 

         Sobre o conceito de "desproporção", o filósofo André Gluscksmann escreve defendendo Israel no El País de hoje. Termina assim seu artigo:

         "No Oriente Médio, não se luta apenas para fazer respeitar as regras do jogo, mas para estabelecê-las. Tudo bem debater livremente sobre a oportunidade desta ou daquela iniciativa militar, mas sem considerar que o problema esteja resolvido de antemão pela boa consciência mundial. Querer sobreviver não é desproporcional."

         Fonte: André Glusckmann in El País, 6/1/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h26
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QUANDO AS PAREDES AMANHECEM

Por que ler os clássicos – Zbigniew Herbert

 

“1

no quarto livro da Guerra do Peloponeso

Tucídides nos conta entre outras coisas

a história de sua expedição fracassada

 

entre longos discursos de comandantes

pragas invasões batalhas

densas intrigas diplomáticas

o episódio é quase insignificante

 

a colônia grega Amfipolis

caiu nas mãos de Brasidos

porque Tucídides não chegou a tempo

 

por isso ele ofereceu à sua cidade natal

o autoexílio eterno

 

exilados de todos os tempos

conhecem esse preço

 

2

generais de guerras mais recentes

se algo parecido lhes acontece

imploram de joelhos diante da posteridade

exaltam a si próprios, juram inocência

 

acusam subordinados

colegas invejosos

ventos traiçoeiros

 

Tucídides diz apenas

que tinha sete navios

era inverno

e navegou depressa

 

3

se a arte, por seu objeto,

tiver um vaso quebrado

uma alma pequena despedaçada

com pena de si própria

 

o que restará depois de nós

será como o choro de amantes

num hotel vagabundo

quando as paredes amanhecem”

 

Fonte: Zbignew Herbert traduzido por Sylvio Fraga Neto e Danuta Haczynska da Nóbrega in Piauí 20, maio/2008, p. 57.



Escrito por Leonardo Ferrari às 10h01
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A NEGAÇÃO E SUAS CONSEQUÊNCIAS

"A Morte Prometida" - manchete do Página 12 de Buenos Aires, 4/1/2009. 

         A triste manchete do Página 12, alusão trágica à Terra Prometida, é desoladora. Para mim, é muito difícil criticar Israel. Eu poderia viver e trabalhar em Israel e, no entanto, não poderia viver e trabalhar na Palestina, no Irã, na Síria, na Arábia Saudita ou no Egito, por exemplo.

         É difícil criticar a posição de alguém que tem de negociar com quem quer eliminá-lo da face da terra. Como entrar em um acordo com que só pensa em matá-lo, em trucidá-lo, em traí-lo, em apunhalá-lo pelas costas na primeira oportunidade?

         É difícil. Eu sei que a resposta de Israel não é só para o Hamas. Nunca uma ação de Israel é contra um único alvo. Não pode ser. Não é só o Hamas que atacou Israel nos últimos meses. A hidra tem várias cabeças. Porém, o problema com as hidras é que cortada uma cabeça, outra nasce no lugar. Então, aqui surge o grande problema: como responder a um terrorista sem plantar sementes de novos terroristas? Seja qual for a resposta, a única certeza é que não é fazendo isso que Israel está fazendo agora.

         Sobre isso, há um artigo excelente de Demétrio Magnoli escrito no Estado de São Paulo em agosto de 2007. Ele conclui assim sua análise: 

         "Israel nasceu em estado de negação - e o reproduz, sem cessar, até hoje. No início do século 20, os sionistas prometeram "uma terra sem povo a um povo sem terra". Quando, nas revoltas dos anos 30 e, novamente, na guerra de 1948-49, os árabes da Palestina se revelaram uma realidade incontornável, Israel decidiu que havia um povo, mas não uma nação, na Terra Santa. Os livros didáticos israelenses elaboraram o mito dos "beduínos do deserto", figuras efêmeras que se deslocam sem imprimir sua existência à paisagem, enquanto os líderes do Estado rotularam como "jordanianos" aqueles árabes que insistiam em existir. A presença da nação palestina se tornou inegável depois da Guerra dos Seis Dias, de 1967. Sob a ocupação israelense de Jerusalém Leste, da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, os palestinos deflagraram as intifadas, oferecendo a prova política irrefutável de sua existência. Nos Acordos de Oslo, de 1993, finalmente o governo de Israel reconheceu os direitos nacionais palestinos e avançou até o estabelecimento de um governo autônomo palestino nos territórios ocupados. Mas a negação nunca terminou. Ao longo dos muitos anos do "processo de Oslo", incansavelmente, o governo e a burocracia de Israel continuaram a autorizar a implantação de novas colônias e a expansão das colônias existentes nos territórios palestinos. Mais tarde, o governo de Yasser Arafat foi declarado ilegítimo sob o argumento de que estimulava e protegia o terrorismo. Depois, o governo do Hamas, oriundo da vitória eleitoral sobre o Fatah, foi declarado ilegítimo, sob o argumento de que não admite reconhecer o Estado de Israel sem a conclusão de um tratado de paz. Hoje, Israel negocia com um governo que considera legítimo, mas que só existe por meio da negação da vontade dos palestinos, expressa nas urnas. O Hamas certamente não é um parceiro ideal para a paz. Seus "mártires" explodiram inocentes em cafés de Jerusalém e pontos de ônibus de Tel-Aviv e seu programa acalenta até hoje a utopia sanguinária da destruição do Estado de Israel. Mas esse partido fundamentalista é um componente da nação palestina - tanto quanto os partidos religiosos extremistas são componentes da nação israelense. Enquanto essa realidade não for reconhecida, o nome do jogo não será paz, mas negação."

             Fonte: Demétrio Magnoli in O Jogo da Negação, O Estado de São Paulo, 9/8/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h20
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