Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br
POR ENTRE OS DEDOS
Fotografia de Erich Hartmann/Magnum Photos. Santa Monica, Califórnia, 1979.
Eu queria escrever sobre nossa sombra aí na areia, nós dois, mas aí lembrei do que não queria, eu, dessa melodia que fala do dia em que você foi embora, dessa cantoria que grita a morte do sol, espectros, a solidão, eu-espuma, o resto de nós-nossas lembranças, ossos, sós, S.O.S., misturadas com o vento, redemoinho, barulhentas marcas, ruínas vivas. Eu queria.
"Belly Landscape", 1980. Fotografia de Karin Rosenthal na exposição "First Doubt: Optical Confusion in Modern Photography", organizada por Joshua Chuang na Yale University Art Gallery. Fonte: The New York Times, 1/1/2009.
Belly, se desliza por essa paisagem que me atropela, e, ainda que às vezes não me importe, ainda que às vezes eu deixo ela ficar sozinha, eu sei que no dia em que a perder, voltarei a sofrer por ela, Belly, que aparece e que se esconde, que caminha e que não vai mais, que é pergunta e é resposta, Belly, minha escuridão, minha estrela, Belly, que acaricia e me enreda, vai comigo, ainda que eu não saiba para onde, Belly, que está tão dentro da minha vida, barriga, coração, às vezes tão fora, sei que voltará a perder-me e eu a encontrarei de novo, Belly, mas com outro rosto e outro nome diferente, e outro corpo, mas segue sendo ela, que outra vez me leva, nunca me responde sim, se faz fria e se faz eterna, Belly, um suspiro na tormenta, uma voz que nunca é a mesma, que geme, que vem, é sempre ela, que me mente, me desmente, belie, me soa, bell, que me esquece, que me lembra, mas, se a minha boca se equivoca, se meu sexo se equivoca, se meus olhos se equivocam, se minhas mãos se equivocam, o equívoco sou eu, e, ao chamá-la nomeio a outra, sem querer, então sinto compaixão por esse louco, esse cego, esse destrambelhado coração, pois meu delito é ignorar que sou vários, e isso queima, isso vai queimando e isso me queima, ainda que fosse ela, minha rival, minha companheira, e quando o adeus se aproxima, e a perderei de novo, outra vez me pergunto, embora saiba que não haverá resposta, e se essa que se afasta, e se essa que diz que vai embora, e se essa que estou perdendo, fosse ela? Bela.
Um soldado de Israel reza junto a um tanque na fronteira de Gaza - fotografia AFP in El País, 31/12/2008.
Esta guerra é também uma guerra religiosa. Enquanto este soldado israelense reza ao lado de um tanque de guerra ultra-sofisticado, o Merkava, a emissora de televisão dirigida pelo Hamas utiliza em seu programa infantil um ratinho idêntico ao Mickey Mouse para ensinar às crianças palestinas a supremacia islâmica e o ódio a Israel e aos Estados Unidos. O ratinho, chamado "Farfur" no tenebroso programa "Pioneiros do Amanhã" (que amanhã é esse?), ensina às crianças que elas precisar rezar na mesquita cinco vezes por dia até que o mundo esteja sob a liderança islâmica (fonte: BBC, 10/5/2007).
Gilles Lapouge resumia ontem a tragédia dessa história:
"Alguns dão razão a Israel. Outros justificam o Hamas. Mas a maior parte das pessoas desiste de escolher e deplora o "horror da história". O horror é que cada uma das partes tem razão, ou pelo menos, suas razões. Cada um tem razão: é disto que se constituem todas as grandes tragédias, de Ésquilo a Sófocles" (fonte: Gilles Lapouge in O Estado de São Paulo, 30/12/2008).
Farfur e o ensino da supremacia islâmica no canal Al-Aqsa.
"No Oriente Médio, nós acreditamos no "olho por olho"./Se eles nos tiram um olho, nós tiramos um olho deles./Se eles nos tiram um dente, nós vamos lá e tiramos um dente deles./Se eles continuam, nós continuaremos.../até que nós estejamos absolutamente certos de que.../eles aprenderam a lição."
Fonte: Clay Bennett in Chattanooga Free Times Press, 30/12/2008.
Roberto Godoy fez no Estado de São Paulo de ontem uma análise sobre as armas avançadas de Israel em seu ataque à Faixa de Gaza. Desde o satélite militar Ofek-7 até os supersônicos americanos F-16 Block 60, os mais novos da linha, passando pelas bombas "inteligentes" do tipo GBU-39, dotadas de guiagem a laser e navegação por satélite/GPS de alta definição, Godoy analisou tudo.
Alguns trechos de sua análise:
"A GBU-39 é uma arma leve, de apenas 113 kg e 1,75 m, com capacidade para transportar o explosivo HE² de alta potência: os 23 kg a bordo da GBU-39 destroem uma casa. A versão de penetração atravessa 90 centímetros de concreto antes da detonação. A Boeing Company, fabricante, iniciou em setembro a entrega de um lote de mil unidades, mais simuladores, documentação técnica e instrução. Dotada de asas, acionadas depois do lançamento, percorre de 20 km até 110 km em vôo planado para chegar ao alvo. O índice de erro é estimado em pouco mais de 50 centímetros. A capacidade permite que os caças disparem as bombas sem sair do espaço aéreo de Israel.Não é o único recurso. A Força Aérea emprega artefatos do mesmo tipo, embora uma geração tecnológica mais antiga, de 250 kg a 900 kg, da família Paveway, fornecidos pelos EUA. De acordo com o Ministério da Defesa israelense, no sábado foi bombardeado um "centro de atividades terroristas" na cidade palestina de Khan Yunis. A operação foi executada por um único F-16 usando um míssil Popeye-4, ar-terra, segundo o porta-voz Avi Benyahou. Desenvolvido conjuntamente pela israelense Rafael e a americana Lockheed-Martin, o Popeye integra dois sistemas de direção: satélite infra-vermelho, um navegador inercial e TV digital. É grande (4,82 m), pesado (1.360 kg), leva 340 kg de explosivos e tem alcance de 78 km. O prédio atingido, aparentemente uma mesquita, foi destruído."
O nome do míssil me impressionou: "Popeye". Eis aqui a presença de uma fantasia infantil nesse canteiro de bombas. "Popeye"! Continua Godoy:
"A provável ação terrestre de Israel ficará por conta da Divisão Barak (Raio), denominação oficiosa de uma experimentada tropa de elite. O grupo, formado por 5 mil homens e mulheres, é o mesmo que esteve no sul do Líbano em 2006. Os times de assalto estão equipados com o tanque pesado Merkava IV, um gigante de 65 toneladas e quase 10 metros de comprimento. Redesenhado e com a couraça reforçada por blindagem cerâmica, o Merkava carrega um canhão de 120 mm preparado para disparar munição supersônica e cinética, feita de urânio exaurido. Extra-rígido, o projétil libera, no impacto, energia térmica acima de mil graus. A vanguarda da Barak usa blindados M-113, de 12 toneladas. A bordo, 2 tripulantes e 11 soldados equipados (fonte: Roberto Godoy in O Estado de São Paulo, 29/12/2008).
Impressionante. O casamento da ciência com a técnica desembestou nisso. Os melhores cientistas do mundo trabalhando vinte e quatro horas por dia sem nenhuma questão ética atrapalhando. Bombas "inteligentes"? Não existem. Há sempre alguém comandando para onde essas bombas devem ser enviadas, quem deve morrer, quem deve viver. E, no caso de Israel nesse momento, não se pode falar em inteligência, mas sim em esperteza política, o que é outra história. Às vésperas de uma eleição, eis aqui os candidatos se estapeando para ver quem aparece mais beligerante perante os eleitores. Tendo em consideração o que aconteceu nos Estados Unidos com a reeleição do presidente após a invasão do Iraque, quem sabe dá certo. Como já dizia aquele inglês que ninguém mais perde tempo lendo - quem trabalha na linha de produção dessa "inteligência" toda não tem tempo para mais nada na vida -, há método nessa loucura. Inteligência? Nenhuma.
Em meio ao caos de uma vitória de Pirro alardeada por Israel, ler Robert Fisk é respirar oxigênio:
"Estamos tão acostumados a ver carnificinas no Oriente Médio que não ligamos mais. Não está claro quantos dos mortos em Gaza são civis, mas a resposta do governo Bush, sem mencionar a pusilânime reação do premier britânico Gordon Brown, reafirma para aos árabes o que eles já sabem há décadas: o Ocidente está sempre do lado de Israel.
Como de costume, o banho de sangue foi culpa dos árabes que, como todos sabem, só entendem o uso da força.
Desde 1948, ouvimos dos israelenses e dos nacionalistas árabes e depois árabes muçulmanos a lengalenga de que Jerusalém será "libertada". E sempre Bush pai e depois o filho, Bill Clinton, Tony Blair ou Gordon Brown chamam os dois lados e pedem moderação, como se ambos tivessem caças F-18, tanques Merkava e artilharia pesada. Os foguetes caseiros do Hamas mataram apenas 20 israelenses em oito anos. Mas num único dia a Força Aérea de Israel matou quase 300 palestinos, e apenas como parte de uma operação.(...)
O general Yaakov Amidror, ex-diretor da "divisão de pesquisa e avaliação" do Exército, anunciou que "nenhum país do mundo permitiria que seus cidadãos fossem feitos de alvos para foguetes sem tomar medidas vigorosas para defendê-los". Exato. Mas quando o Exército Republicano Irlandês (IRA) lançava foguetes na Irlanda do Norte, quando suas guerrilhas vinham da Irlanda atacar delegacias de polícia e protestantes, o Reino Unido usou a Força Aérea para bombardear a república irlandesa? A Força Aérea britânica por acaso atacou igrejas e delegacias e matou de uma só vez 300 pessoas para ensinar à Irlanda uma lição? Não, o Reino Unido não fez isso. Não fez porque o mundo veria um ataque assim como uma ação criminosa. Não queríamos nos rebaixar ao nível do IRA.
Sim, Israel tem o direito à segurança. Mas esses banhos de sangue não lhe trarão segurança. Nem desde 1948 trouxeram algum tipo de proteção para Israel. Os israelenses bombardearam o Líbano milhares de vezes desde 1975 e isso não eliminou o terrorismo. Então o que foi o fim de semana? Os israelenses ameaçam fazer ataques por terra. O Hamas espera por outra batalha. Os políticos do Ocidente encolhem-se covardemente. E em algum lugar do Oriente, numa caverna? Num porão? Numa montanha? Bem, em algum lugar, um muito conhecido homem de turbante sorri."
Robert Fisk, colunista do "Independent" in Líderes Mentem e Civis Morrem, O Globo, 29/12/2008.