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ALGO
"Mas o coração de Philippa se desmanchava em seu peito. Parecia-lhe que uma noite inesquecível estava destinada a terminar com uma prova inesquecível de lealdade e auto-sacrifício de um ser humano.
"Querida Babette", disse, delicadamente, "não deveria ter gasto tudo que tinha por nossa causa."
Babette lançou um olhar penetrante a sua patroa, um olhar estranho. Não haveria compaixão, até mesmo desdém, no fundo dele?
"Por sua causa?", retrucou. "Não. Foi por minha causa."
Ergueu-se do toco e ficou de pé diante das duas irmãs.
"Sou uma grande artista!", disse.
Esperou um minuto e então repetiu: "Sou uma grande artista, madames".
Mais uma vez, por um longo tempo houve silêncio na cozinha.
Depois Martine disse: "Então vai ser pobre o resto da vida, Babette?".
"Pobre?" disse Babette. Sorriu para si mesma ao ouvir isso. "Não, nunca vou ser pobre. Já lhes disse que sou uma grande artista. Uma grande artista, madames, nunca é pobre. Temos algo, madames, a respeito da qual as outras pessoas não fazem a menor idéia."
Karen Blixen, A Festa de Babette in Anedotas do Destino. São Paulo: Cosac Naify, 2006, 2ª. ed., pp. 59-60.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h28
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DESLIZAR

Fotografia de Eugene Buzuk.
"Não se deixe abater pelos obstáculos
O amor é uma espécie de serviço militar. Para trás, homens covardes; não são os homens pusilânimes que devem levar os estandartes. A noite, o inverno, as longas estradas, os cruéis caminhos, todas as provas, eis o que suportamos no campo do prazer. Freqüentemente, você deverá suportar a chuva que, do céu, verte aos borbotões, e muitas vezes, gelado de frio, você deitará sobre a terra nua. O deus do Cinto guardou as vacas de Admeto, rei de Feres, e viveu pobremente numa humilde cabana. O que Febo não julgou indigno dele, quem julgará? Dispa todo orgulho, se você quiser ser amado por muito tempo. Se você não tem um caminho seguro e fácil para encontrar sua bem-amada, se encontra uma porta trancada, bem! Deixe-se deslizar, caminho perigoso, pela parte do teto aberta; uma janela aberta lhe oferece também um caminho furtivo. Sua amante ficará transbordante de alegria e saberá que ela é a causa do perigo que você correu. Esta será a prova segura de seu amor. Você poderia muitas vezes, Leandro, privar-se de ver aquela que amava; você atravessava o Helesponto a nado, para mostrar-lhe seus sentimentos."
Ovídio in A Arte de Amar. Porto Alegre: L&PM, 2001, p. 61.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h31
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IMENSIDÃO
"San Sebastián", 2008, óleo da artista peruana Sandra Gamarra.
É daqui que eu melhor te observo, cativo, mártir, que se faz de santo, e no entanto, olhe para mim, com os pés no chão, sem essa divindade de nome que você ostenta, e por isso levita, venerável, altíssimo aí espetacular, eu não, eu fico colada à essa terra dura, respiro melhor aqui, e ao mesmo tempo foram assim nossos melhores momentos, eu deitada, você também, comigo, e agora, que você virou santo, por que olhas de onde não me vês? Para o alto, diz você, para cima, e eu aqui embaixo, vencida, a seus pés, mas você ama essas flechas que eu retirei com cuidado, com carinho, e curei cada ferida sua, fechei cada buraco aberto com minha boca, e você, você voltou de novo para onde não devia, você me deixou plantada - é por isso que me chamas de flor? Adiantou eu te transformar em padroeiro daquele rio tão nosso, na correnteza daquela baía dengosa - sou eu, sou eu -, adiantou? Você atrasou, pensou que era deus e quando acordou, mortal, espancado, lançado, seguro, era tarde. Virou isso que está aí, estático, flechado...morto? Eu não. Eu vivo dessa nossa história, é ela que agora circula em mim, faz reviravolta, refaz o que de mim restou. Eu sou essa que agora vaga na imensidão de um amor impossível, o único que pode ser chamado de amor. Que elas fiquem com o santo. Quem está comigo todos os dias é o homem. Vivo e eu...
Irene.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h52
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O JEITINHO DELES

Anúncio publicado in The New York Times, 23/12/2008, página A19.
Eles já tinham ganho na semana passada o prêmio "Nadadores Pelados" , referência à frase do genial Warren Buffett de que "você só sabe quem estava nadando pelado quando a maré baixa", da imprescindível The Economist, na categoria "Imagem Excepcional", por terem ido, cada um em seu jato corporativo, pedir ajuda financeira ao Congresso Americano. Mas ontem, foi a cereja no topo do bolo - no Natal essa imagem me persegue, não consigo fugir dela! A cartinha de página inteira do presidente e "CEO" da Chrysler, Bob Nardelli, ilustrada por essa fotografia de "família" feliz no dia 23 de dezembro, foi demais. Nunca antes nesse país, os Estados Unidos da América, uma empresa teve uma cara de pau tão grande de vir a público e rasgar todas as vestes da ideologia que recobre o que por aqui se chama de capitalismo. Há um cinismo aqui tão grande, tão ofensivo, tão ridículo - aliás, na categoria ridículo a vencedora foi aquela Igreja pentecostal de Detroit, a Greater Grace Temple, que colocou três veículos em pleno altar e solicitou ajuda divina para a Ford, a Chrysler e a General Motors - já ganhou!
Nessa hora, só com ajuda do auditório. Chamo agora o genial Marshall Ramsey, que desenha para o jornal Clarion-Ledger em Jackson, no Mississipi. O pudor me impede de continuar esta análise. Só uma última questão: este "case" será estudado nas business schools brasileiras?

Fotografia de Fabrizio Costantini in The New York Times, 7/12/2008.

Marshall Ramsey in The Clarion-Ledger. O pobre cidadão, reduzido a reles consumidor e a mero pagador de impostos, foi chamado para recarregar a bateria! Genial!

Marshal Ramsey in The Clarion-Ledger. Enquanto Bush se esquivou, o atormentado cidadão, perplexo, pateta, atônito, percebe subitamente o que significa a expressão "rasgar o véu da ideologia"!
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h47
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FRAÇÃO
Mariana Fração Sanchez fotografada por Eduardo Lima in coluna RSVIP de Mariana Bertolucci, Zero Hora, 23/12/2008.
Foi ver Mariana e lembrar daquela desgraçada da gauchinha bem querer que o Tito Madi inventou. O sujeito vai embora do Rio Grande, sem amor, só com a dor e a lembrança dela. E um dia, diz ele, ele vai voltar, para rever o Guaíba, para rever seu bem querer. E no final, é a cereja no topo do caixão, lá vem, e se ela quiser, é uma pá atrás da outra, se ela quiser, é o fim isso, até no final o sujeito está pendente nela, dependente, submisso, ajoelhado, então, se ela quiser, esse se é de matar, é um se insuportável, é um se difícil demais, duro, seco, contundente feito um epitáfio, então, se ela quiser, só nós dois a sonhar e a sorrir, gostei disso, só nós dois, amei essa parte, só nós dois, mas Tito Madi não dá trégua. O último verso ainda fala em choro e em partida - ela não quis! Mas é uma desgraça atrás da outra. Ela não quis! O se virou certeza, a certeza de que esta gauchinha perdida está de mim, ela não quis, desapiedada, pérfida, tirana, ela não quis, ela escolheu o outro, aquele não-eu. Gauchinha bem querer? Pois é, desde então é ela que eu procuro em cada encontro - e acho metades, e acho partes, e acho cacos, e acho pedaços - bem querer. Ora é o vermelho, ora é o branco, nunca chega nesse azul - bem querer. Às vezes é só uma fração do que poderia ter sido - bem querer. Gauchinha bem querer.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h48
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EPIFANIAS MÚLTIPLAS
Saul Steinberg, "Techniques at a Party", 1953. ©The Saul Steinberg Foundation/Artist Rights Society (ARS) New York/DACS, London.
Pode uma revista ter a cara de alguém? Pode. A cara da melhor revista do mundo, a The New Yorker, se chama Saul Steinberg (1914-1999). Esse genial judeu romeno costumava dizer que ele tinha quatro pagos queridos: a Romênia, a Itália, Nova Iorque e a The New Yorker. Sensacional!! Nascido na Romênia, onde estudou filosofia na universidade local, logo mudou para Milão, onde foi estudar arquitetura. Foi lá que começou a desenhar cartuns para a revista Bertoldo, até que a Itália parisse o monstro fascista, o que o obrigou a pensar em voltar para casa, porém, como a Romênia tinha se tornado uma aliada de Hitler, Steinberg decidiu partir para Nova Iorque, onde acabou encontrando mais do que uma casa na revista The New Yorker - essas informações constam do catálogo escrito por Ian Dejardin, diretor da magífica galeria de arte Dulwich Picture de Londres, que está com a maravilhosa exposição "Saul Steinberg: Illuminations" até 15 de fevereiro. Reparem no título da exposição. Haveria melhor?
Encontrar a obra de Saul Steinberg é respirar ar puro, é ir de encontro ao inusitado, ao diferente, ao novo, ao sublime. Eis aqui um artista que, mesmo lidando com a mediocridade e com os clichês do dia-a-dia, com gostava de dizer, fez pela arte aquilo que só os grandes mestres conseguem: imortalizá-la. Saul Steinberg é para sempre!
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h16
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FOGO
Obra-prima de Jean-Jacques Sempé in The New Yorker, 14/4/2008.
É esse o fogo que arde sem se ver? É essa a ferida que dói e não se sente? É esse o contentamento descontente? É essa a dor que desatina sem doer? É esse o não querer mais que bem querer? É esse o andar solitário entre a gente? É esse o nunca contentar-se de contente? É esse o cuidar que ganha em se perder?
É.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h32
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