Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


DIFERENÇA

Ilustração de Yann Legendre in The New York Times, 21/12/2008. 

         Yann Legendre brinca de Kafka nesta magnífica ilustração para o The New York Times. É uma das melhores definições para a arte, aquilo que muda a vida do sujeito para sempre. Não ser mais o mesmo, eis o lema de uma obra de arte. Não ser mais igual. Isso me lembrou a fotografia de Diego Azubel, publicada na primeira página de ontem do Times e que mostra a igualdade absoluta, terrível e totalitária, sonho de todo fascismo - o avesso da arte. Assim como uma das obras de Alexéi Beláyev-Gintovt, "irmãos e irmãs", inspirada na melhor tradição fascista da arte soviética, patriótica e nacionalista ao extremo. Gitovt acaba de ganhar o prêmio Kadinsky na Rússia, fato que causou protesto de muitos artistas, tendo em vista a militância de Gintovt no reacionário partido russo Euroásia, bem como a grande influência da arte soviética em suas obras. Bom, o calafrio dessa fraternidade fascista que eu senti na fotografia de Azubel e o quadro de Gintovt, eu só me recuperei apreciando a belíssima ilustração de Legendre. São propostas muito diferentes.

 

Fotografia de Diego Azubel/European Pressphoto Agency in The New York Times, 19/12/2008 - "Soldados chineses escutam o presidente Hu Jintao na quinta-feira, em Beijing, no 30º. aniversário do início das reformas econômicas".

 

"Brothers and Sisters", 2008, quadro de Alexéi Beláyev-Gintovt  in El País, 21/12/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h41
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GARRAFA

Fotografia de Gianni Berengo Gardin, Grã-Bretanha, 1977.

 

         “Garrafa – Wally Salomão

         Vá dizer aos camaradas

         Que fui para o alto mar

         E que minha barca naufraga.

 

         Leme partido.

         Casco arrombado.

         Sem farol afunda

         Nas pedras dos arrecifes.

 

         Bandeira aos farrapos. Nenhuma estrela-guia

         Célere desce lá do céu para minha companhia.

         Destroços: proa, velame, quilha,

         prancha, rede-de-pescar, arpão,

         bússula, astrolábio, bóia, sonar...

 

         Que fui para o alto mar

         E que Medina e Meca já não significam mais nada

       [para mim.

 

         Entrevado

         Vista turva

         Porto nenhum avisto

         Nas trevas da cerração.

 

         Pelejo entre os vagalhões e as rocas,

         Não apuro os nós de lonjuras das seguras docas

         Tampouco os altos e baixos relevos das pedras

                                                        [que roncam ais

 

         No quebra-mar do cais

         Ou os tapetes de mijo e de restos de peixes

         E patas de caranguejos e frutos podres

         Tecidos pelas alpercatas e os pés nus sobre a rampa

                                                        [do Mercado-Modelo.

 

         Um marinheiro conserta sua embarcação

         - corpo de intempestiva casa –

         Em pleno alto mar aberto.

                   Vá dizer aos meus amigos.”

 

         Wally Salomão, “Garrafa” in A História mais Bela do Mundo. Rio de Janeiro: Dantes, 2000, pp. 2-3.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h16
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SUBLIME

 

Fonte: Charles M . Schulz in O Estado de São Paulo, 12/12/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h11
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TEMPERATURA

Pablo Picasso, Retrato de Ambroise Vollard. Paris, 1910. Óleo em tela (92x65 cm.) pertencente ao The Pushkin State Museum of Fine Arts, Moscou. 

                    "O consultório do Dr. Freud situa-se num antigo prédio da Bergasse, também em Viena. Para entrar no prédio, é preciso apertar a campainha e, ao mesmo tempo, empurrar a alta porta de madeira lavrada. Depois, vencer as escadas. Depois, tocar outra campainha. Atende o funcionário do museu Freud. Poucos passos, o consultório. Mais dois passos, o gabinete. O visitante vai à janela e o que vê é um espantoso espelho que lhe reflete o rosto. O Dr. Freud nos diz, numa nuvem de fumaça do charuto: "Antes de olhar para fora, meu caro senhor, olhe para si mesmo". Uma sessão de psicanálise grátis. Lá fora, 12 graus abaixo de zero. Lá dentro, a alma ardendo".

                     Luiz Antonio de Assis Brasil in Ensaios Íntimos e Imperfeitos. Porto Alegre, RS: L&PM, 2008, p. 72.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h45
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MATELDA

Obra-prima de Sarah Brewington. 

                Sarah Brewington é para mim a metonímia de Matelda, que por sua vez me leva adiante. Trata-se do canto XXVIII do Purgatório da Divina Comédia de Dante Alighieri. É o momento seguinte à magnífica despedida de Virgílio a Dante: "Não mais a minha voz irás ouvir:/dispões de livre e íntegra vontade,/e só com ela deves prosseguir./Imponho-te o laurel da liberdade!"  ("Non aspettar mio dir più né mio cenno;/libero, dritto e sano è tuo arbitrio,/e fallo fora non fare a suo senno:/ per ch'io te sovra te corono e mitrio") - (Canto XXVII, versos 139-142, A Divina Comédia, v. II. Belo Horizonte: Itatiaia, 1979, p. 245. Tradução de Cristiano Martins).

                E aí, lá vai Dante "na ânsia de me internar pela divina/floresta virginal, ampla e sombria,/que um pouco a luz quebrava matutina,/sem hesitar, tomei a aberta via,/começando a adentrar a passo lento/o campo, que de aromas recendia." (Canto XXVIII, versos 1-6, op.cit., p. 246). Lindo isso. "Sem hesitar" e, no entanto, "a passo lento".

                Nesse passo lento,com o sopro leve do vento no rosto, sem mais noção de onde estava entrando, ele chega a um rio - maravilhoso isso, Dante vai nos preparando para a epifania que vem a seguir:

                      "Mas eis que vi surgir, em tal momento,

                como algo repentino que desvia

                o curso do ordenado pensamento,

                      uma jovem que o passo, além, movia,

                e cantava, e colhia, ao canto, flores,

                sozinha, em meio à recamada via.

                       "Bela dama, coroada de esplendores,

                que refulgirem vejo em teu semblante

                como expressão dos íntimos pendores,

                        dignas-te de chegares mais adiante",

                roguei-lhe, "ao pé da fonte fugidia,

                por que eu possa entender o teu descante.

                        Tu me fazes lembrar o sítio e o dia

                em que a formosa e meiga Proserpina

                deixou a mãe e as flores que colhia".

                       Qual a voltear esbelta dançarina,

                à ponta de seus pés, sobre o tablado,

                que corre à frente e, rápida, se inclina,

                       vi-a chegar, no piso matizado

                de rubro e de amarelo, ao suave jeito

                da virgem que o olhar mantém baixado:

                       e fez-me no meu rogo satisteito,

                e tão de perto, que do canto o som

                me vinha claramente em seu efeito.

                      Postada enfim aonde a relva com

                a água se misturava da torrente,

                alçou-me a vista, em generoso dom.

                      Não creio que o fulgor mais esplendente

                a Vênus animasse, ao ser picada

                pelo dardo do filho, casualmente;

                      e, pois, sorria, à margem, sobrealçada,

                mais flores apertando junto ao seio

                do que na terra havia incultivada."

 

                Dante Alighieri in Canto XXVIII, Purgatório, versos 37-69. A Divina Comédia, v. II. Belo Horizonte: Itatiaia, 1979, pp.249-250. Tradução de Cristiano Martins.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h36
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SAPATADAS

Primeira página do jornal "O Globo", 15/12/2008. 

         O jornalista Muntadar al-Zeidi, correspondente da TV Al-Baghdadia de Bagdá,  acaba de entrar para a história.  Ontem, durante uma entrevista coletiva, parte da visita surpresa do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush ao Iraque, al-Zeidi tirou os dois sapatos e os atirou contra Bush, ao mesmo tempo que gritava "É o beijo da despedida, seu cachorro".

         Que esse fato seja manchete hoje nos principais jornais do mundo, inclusive com as sensacionais fotografias de al-Zeidi jogando os sapatos e Bush se abaixando, revela que al-Zeidi acertou no alvo. Só que, mirando no que viu, acertou o que não viu.

         Imaginemos a mesma cena se o presidente em questão fosse Saddam Hussein - cena difícil de imaginar, pois não haveria entrevista coletiva para começar. Em seguida, al-Zeidi provavelmente seria morto no ato. Sem falar que qualquer fotografia ou nota na imprensa árabe seria furiosamente censurada e jamais saberíamos do episódio. Conclusão: a notícia com a fotografia do que aconteceu revela um dos sucessos do governo Bush no Iraque. É possível jogar sapatos contra o presidente dos Estados Unidos sem ser morto por causa disso e é possível divulgar uma notícia dessas no Iraque de hoje. Excelente! Cabe aqui uma glosa: se o pior insulto árabe é jogar os sapatos em alguém e chamá-lo de cachorro, Saddam Hussein merecia receber o quê e ser chamado de quê?

         Por outro lado, há um outro sapato jogado contra o governo Bush e que não aparece nestas fotografias. Trata-se de um relatório federal de 513 páginas sobre a reconstrução do Iraque e que demonstra as mentiras e as terríveis falhas de planejamento perpetradas pelo governo Bush na reconstrução do Iraque pós-invasão dos Estados Unidos. Em um dos trechos do relatório, o ex-secretário de Estado Colin Powell diz que nos meses que se seguiram à invasão em 2003, o Departamento de Defesa "insistia em inventar números relativos às forças de segurança iraquianas ­ o número de integrantes chegava a saltar 20 mil por semana! 'Agora há 80 mil, agora há 100 mil, agora há 120 mil'" (fonte: James Glanz e T. Chistian Miller in The New York Times, 13/12/2008).

         Esse tipo de fiasco pode ser melhor apreciado nos cinemas através da obra-prima dos irmãos Coen chamada "Queime Depois de Ler". O diálogo final entre dois diretores da CIA é antológico. É a melhor sátira já produzida sobre o governo Bush - mesmo que os Coen tenham tido a sabedoria de não caracterizar particularmente governo nenhum, o que torna a sátira intemporal. É genial! O filme todo é um primor, é uma das análises mais impressionantes sobre a sociedade norte-americana com todas as suas abissais imperfeições, mas, no que se refere à "inteligência" governamental, merece o Oscar! Magnífico!!

         Novamente, que os irmãos Coen consigam fazer isso, do jeito que fizeram, que o The New York Times consiga se arrepender e aí fazer a melhor cobertura dos desastres da administração Bush e que al-Zeidi consiga virar notícia no mundo inteiro com seu ato, revelam o que os Estados Unidos têm de melhor: uma democracia que funciona. À prova de sapatadas!



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h28
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O ERRADO NO CERTO E O CERTO NO ERRADO

 

              Estava eu distraído, escutando Lenine, quando, de repente, sou levado a outra epifania. Trata-se do imprescindível José Castello e a conclusão de seu magnífico ensaio sobre o escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil: 

             "Daí outra idéia, que Assis Brasil defende com insistência: a de que escrever é "dar limites". Mas dar limites a que? Sob a crosta da escrita se abre um abismo. Ele nos leva à vertigem, nem os limites a atenuam. É o horror do vazio que nos leva, por exemplo, em pura exibição de desamparo, ao recurso dos adjetivos. "Na linguagem, os adjetivos representam o medo que o substantivo, sozinho, leve-nos ao Nada", diz. Os ensaios em fragmentos de Assis Brasil são, eles mesmos, com suas fendas e irregularidades, metáforas das privações que sustentam a literatura. Podemos compará-las ao que se passa no espaço cósmico, em que astros e estrelas (palavras) são apenas diminutos acidentes. Jovens escritores, ansiosos, crêem que a maturidade está em sua superação. Esquecem-se do exemplo da música, que não existiria não fosse a pausa - o silêncio. Recorda Assis Brasil: "Ali, na pausa, é que está a música". Não houvesse pausas, não poderíamos ouvir. Houve uma pausa primordial, anterior à Criação dos místicos, ou ao Big Bang dos cientistas, que, ao descerrar (limitar) uma fenda entre a sombra e a luz, separou o caos do cosmos. Teólogos e cientistas, cada um a seu modo, tentam reconstituí-la. Ela está perdida para sempre.

               Em um intervalo de minha leitura, recebo o e-mail de um amigo, M., ainda abalado com a morte recente, no Rio, do psicanalista Wilson Chebabi, que foi um mestre para toda uma geração. Escreve esse amigo, repetindo uma frase que ouviu na missa fúnebre: "Com ele aprendi a perceber que há o errado no certo e o certo no errado". De novo, as interrupções bruscas, a ação radical do silêncio, os furos que reviram as idéias. Limites que meu amigo soube ler, não em um livro, mas em sua tristeza. Volto a Assis Brasil, quando nos lembra que o sábio é aquele que "não desconhece que suas palavras são relativas, que seus dentes caem, que sua lógica é frágil". Nenhuma dessas restrições o leva a desistir de saber, ao contrário elas o levam a desejar saber."

               José Castello in Ensaios da Ignorância, O Globo, 13/12/2008. 



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h25
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