MATELDA

Obra-prima de Sarah Brewington.
Sarah Brewington é para mim a metonímia de Matelda, que por sua vez me leva adiante. Trata-se do canto XXVIII do Purgatório da Divina Comédia de Dante Alighieri. É o momento seguinte à magnífica despedida de Virgílio a Dante: "Não mais a minha voz irás ouvir:/dispões de livre e íntegra vontade,/e só com ela deves prosseguir./Imponho-te o laurel da liberdade!" ("Non aspettar mio dir più né mio cenno;/libero, dritto e sano è tuo arbitrio,/e fallo fora non fare a suo senno:/ per ch'io te sovra te corono e mitrio") - (Canto XXVII, versos 139-142, A Divina Comédia, v. II. Belo Horizonte: Itatiaia, 1979, p. 245. Tradução de Cristiano Martins).
E aí, lá vai Dante "na ânsia de me internar pela divina/floresta virginal, ampla e sombria,/que um pouco a luz quebrava matutina,/sem hesitar, tomei a aberta via,/começando a adentrar a passo lento/o campo, que de aromas recendia." (Canto XXVIII, versos 1-6, op.cit., p. 246). Lindo isso. "Sem hesitar" e, no entanto, "a passo lento".
Nesse passo lento,com o sopro leve do vento no rosto, sem mais noção de onde estava entrando, ele chega a um rio - maravilhoso isso, Dante vai nos preparando para a epifania que vem a seguir:
"Mas eis que vi surgir, em tal momento,
como algo repentino que desvia
o curso do ordenado pensamento,
uma jovem que o passo, além, movia,
e cantava, e colhia, ao canto, flores,
sozinha, em meio à recamada via.
"Bela dama, coroada de esplendores,
que refulgirem vejo em teu semblante
como expressão dos íntimos pendores,
dignas-te de chegares mais adiante",
roguei-lhe, "ao pé da fonte fugidia,
por que eu possa entender o teu descante.
Tu me fazes lembrar o sítio e o dia
em que a formosa e meiga Proserpina
deixou a mãe e as flores que colhia".
Qual a voltear esbelta dançarina,
à ponta de seus pés, sobre o tablado,
que corre à frente e, rápida, se inclina,
vi-a chegar, no piso matizado
de rubro e de amarelo, ao suave jeito
da virgem que o olhar mantém baixado:
e fez-me no meu rogo satisteito,
e tão de perto, que do canto o som
me vinha claramente em seu efeito.
Postada enfim aonde a relva com
a água se misturava da torrente,
alçou-me a vista, em generoso dom.
Não creio que o fulgor mais esplendente
a Vênus animasse, ao ser picada
pelo dardo do filho, casualmente;
e, pois, sorria, à margem, sobrealçada,
mais flores apertando junto ao seio
do que na terra havia incultivada."
Dante Alighieri in Canto XXVIII, Purgatório, versos 37-69. A Divina Comédia, v. II. Belo Horizonte: Itatiaia, 1979, pp.249-250. Tradução de Cristiano Martins.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h36
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