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FOI SEM QUERER...
Fotografia de Cornelia Schrader in Oe24.at
Viena, Viena. Só podia ser lá. O ator Daniel Hövels, de 30 anos, cortou o próprio pescoço em cena durante uma apresentação no teatro Burgtheater. A manchete do jornal traz a estupenda "echtes-drama": "é de verdade, não é mentira, não é representação"!! Como já dizia aquele magnífico psicanalista mexicano, "foi sem querer...querendo". Vamos aos "fatos": o ator, durante a apresentação do drama "Maria Stuart" de Friedrich Von Schiller, interpretava o personagem Mortimer, que deveria se suicidar em cena no final do quinto ato, depois da tentativa fracassada de assassinar a rainha Elisabeth, cortando o pescoço com uma faca. Acontece que, ao fazer isso no palco, eis a surpresa: a faca utilizada não era cega, ou seja, ela era sim muito afiada. O público ao ver a cena começou a aplaudir, acreditando se tratar de um efeito especial muito bem realizado. Hövels foi levado imediatamente ao hospital, quase morreu mas teve alta e voltou ao palco já no dia seguinte, com uma bandagem em volta do pescoço. Elmar Burchia no Corriere della Sera declara ser este um mistério digno de Miss Marple, pois não se sabe se a falha foi de alguém que comprou a faca, de quem vendeu a faca, se foi um ato falho do ator ou então se não foi uma tentativa de assassinato por parte de alguém do teatro. Na hipótese do ato falho, Hövels parece ter se confundido com Mortimer, seu personagem. É claro que só suas associações poderiam elucidar as razões dessa confusão. Isso lembra o grande ator australiano Heath Ledger, que interpretou magnificamente Coringa no último Batman, e que foi encontrado morto rodeado de pílulas em seu apartamento em Nova Iorque. Me lembrou também Fernando Pessoa quando ele diz que o poeta é um fingidor que finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Ora, todo ator também é um fingidor. O problema é quando a dor que deveras sente irrompe inusitadamente e até mortalmente transformando o que deveria ser só drama em "echtes". Sem querer...querendo.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h25
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NAS ÁGUAS DO CHING

Fotografia de Alexander Vasilenko.
“Na Montanha – Wang Wei
nas águas do ching afloram pedras brancas
debaixo do céu frio raras folhas rubras
trilha da montanha sem gota de chuva
o azul do vazio molha nossas roupas”
Wang Wei, “Na Montanha” traduzido por Haroldo de Campos in “O Arco-Íris Branco”. Rio de Janeiro: Imago, 1997, p. 185.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h24
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À BEIRA-MAR
Marlon Brando no set do filme "On the Waterfront" ("À Beira-Mar", "transcriado" em português para "Sindicato dos Ladrões", de 1954), no qual ele interpreta Terry Malloy, o boxeador que poderia ter sido um campeão ("I could'a been a contender"). Fotografia Turner Networks in The New York Times, 9/12/2008.
"If you want something from an audience, you give blood to their fantasies. It's the ultimate hustle."
"Se você quer alguma coisa da audiência, você deve dar o sangue para suas fantasias. É o último empurrão."
Marlon Brando citado por Michiko Katutani na resenha sobre a nova biografia do ator, "Somebody", escrita por Stefan Kanfer (Alfred A. Knopf ed., 2008) in The New York Times, 9/12/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h49
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O MUNDO DAS ÁGUAS

Fotografia de Fabrice Rubin.
"Call me Ishmael. Some years ago--never mind how long precisely--having little or no money in my purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought I would sail about a little and see the watery part of the world. It is a way I have of driving off the spleen and regulating the circulation. Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of every funeral I meet; and especially whenever my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people's hats off--then, I account it high time to get to sea as soon as I can. This is my substitute for pistol and ball. With a philosophical flourish Cato throws himself upon his sword; I quietly take to the ship. There is nothing surprising in this. If they but knew it, almost all men in their degree, some time or other, cherish very nearly the same feelings towards the ocean with me."
Herman Melville in Moby Dick.
"Trate-me por Ishmael. Há alguns anos - não importa quantos ao certo -, tendo pouco ou nenhum dinheiro no bolso, e nada em especial que me interessasse em terra firme, pensei em navegar um pouco e visitar o mundo das águas. É o meu jeito de afastar a melancolia e regular a circulação. Sempre que começo a ficar rabugento; sempre que há um novembro úmido e chuvoso em minha alma; sempre que, sem querer, me vejo parado diante de agências funerárias, ou acompanhando todos os funerais que encontro; e, em especial, quando minha tristeza é tão profunda que se faz necessário um princípio moral muito forte que me impeça de sair à rua e rigorosamente arrancar os chapéus de todas as pessoas - então percebo que é hora de ir o mais rápido possível para o mar. Esse é o meu substituto para a arma e para as balas. Com garbo filosófico, Catão corre à espada; eu embarco discreto num navio. Não há nada de surpreendente nisso. Sem saber, quase todos os homens nutrem, cada um a seu modo, uma vez ou outra, praticamente o mesmo sentimento que tenho pelo oceano."
Herman Melville in Moby Dick, ou, A baleia. São Paulo: Cosac Naify, 2008, pp. 26 e 27. Tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h23
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MANUAL DE MARINHEIRO
Pintura de Rob Hefferan.
"Após muitos dias de navegação
e por não ter nada para fazer
estando o mar em calmaria
as lembranças vigilantes
por não poder dormir,
por carregar-te na memória
por não poder esquecer a forma dos teus pés
o suave movimento de ancas a estibordo
teus sonhos iodados
peixes voadores
para não te perder na casa do mar
me pus a fazer
um manual de marinheiro,
para que todos soubessem como te amar, em caso de naufrágio,
para que todos soubessem como navegar
em caso de manobras
e quem sabe
fazer sinais
chamar com aquela que é vermelha e amarela
chamar-te com o i
que tem um círculo negro como um poço
chamar-te desde o retângulo azul do s
suplicar-te com o rombo do f
ou os triângulos do z,
tão ardentes como a folhagem do teu púbis.
Chamar-te com o i
fazer sinais
erguer a mão esquerda com a bandeira do l,
subir ambos os braços para desenhar
- no sereno da noite -
as doçuras lúgubres do u."
Cristina Peri Rossi in Descripción de un naufragio (1974), publicado in La Nación, 28/11/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h16
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A REVOLUÇÃO DO SUJEITO
Katie Holmes fotografada por Solve Sundsbo in The New York Times Style Magazine, 7/12/2008.
Na mesma edição que analisa a revolução cubana, a revista de domingo do The New York Times traz um encarte chamado "Style", que é um luxo só. Lá está, na capa, Katie Holmes, belíssima, espetacular, maravilhosa. Há uma entrevista dela a Lynn Hirschberg também muito bonita, em que ela fala de seu casamento com Tom Cruise. O bacana da revista é que, na sequência do ensaio com Katie Holmes, eles trazem Tom Cruise, também em um ensaio de moda e também em uma ótima entrevista para o mesmo Lynn Hirschberg. Lá pelas tantas, Hirschberg pergunta a Cruise se em algum momento de sua carreira ele teve medo de perder a audiência. A resposta magnífica de Tom Cruise merece virar cátedra universitária:
"Tudo o que eu sei é que esse medo esteve sempre presente em minha vida e que o que você tem de fazer é ignorá-lo. As pessoas sempre me disseram, "você é só isso". Depois de "Risky Business" ["Negócio Arriscado", 1983, maravilhoso filme], eles me disseram, "você é só isso". Depois de "Top Gun" ["Ases Indomáveis", 1986, excelente], eles continuaram me dizendo, "você é só isso". Esse tipo de papéis eram os únicos que eles me ofereciam. Depois de "Risky Business", tudo o que me ofereceram foram comédias sexuais e eu disse não. Eles me explicaram que, se eu dissesse não, eu iria perder minha audiência. E eu não perdi. Não importa o que aconteça em minha vida, não importa quanta pressão ou crítica eu sofra, eu sempre retorno para aquele cara [candidato a ator] no palco que só quer fazer filmes. Eu não quero ser aquilo que as pessoas querem que eu seja. Eu tenho meus próprios desafios, e, não importa o que aconteça, eu sempre penso, como é que eu quero viver a minha vida? Então, mesmo que as pessoas continuem a me dizer que eu vou perder minha audiência, esse pensamento está sempre comigo - eu ignorei eles anteriormente, e vou ignorá-los de novo."
Fonte: entrevista de Tom Cruise a Lynn Hirschbberg in The New York Times Style Magazine, 7/12/2008.
Eis aqui um homem avesso à moda de se adaptar ao mercado - só por isso, revolucionário. Tom Cruise é um homem que pensa, é um homem que arrisca, é um homem que casou com Katie Holmes. É um homem de respeito.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h15
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