Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


PARA QUÊ?

"Las Alegrías, bar na rua Lealtad em Havana. Seu nome significa "Alegrias", mas está mais para uma pintura de Edward Hopper". Texto de Roger Cohen e fotografia de Ambroise Tézenas in The New York Times Magazine, 7/12/2008.

                 A revista de domingo do The New York Times veio mui caliente. Traz uma reportagem sensacional de Roger Cohen, colunista do The International Herald Tribune e autor do livro "Hearts Grown Brutal: Sagas of Sarajevo",  sobre Cuba e o que a vitória de Barack Obama nos Estados Unidos poderá fazer pela ilha. Em certo momento, Cohen repassa as ótimas estatísticas sobre a expectativa de vida em Cuba e o impressionante índice de 93,7% de crianças que completam o primeiro grau - muito maior, por exemplo, do que os Estados Unidos, conforme declara Cohen. Mas, em seguida, ele levanta uma grande questão sobre isso: por que educar as pessoas tão bem para depois negar a elas o acesso à internet, à viagens internacionais e à oportunidades para aplicar seus conhecimentos? Educar então para quê?

         Cohen termina sua viagem em Guantánamo, o campo de concentração dos Estados Unidos. É como se ele desse agora uma volta a mais na pergunta anterior: e nós, nos Estados Unidos, que permitimos o acesso à internet, permitimos viagens internacionais e permitimos oportunidades para a aplicação dos conhecimentos, por que permitimos esse campo de concentração em um país estrangeiro? Educar para quê nos Estados Unidos? Para Guantánamo?

         Parabéns a Roger Cohen, ao fotógrafo Ambroise Tézenas e ao The New York Times. Isso se chama jornalismo.

Fonte: The New York Times Magazine, 7/12/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h05
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RIO DE JANEIRO

 

"Nu Feminino" (1950) de Alberto da Veiga Guignard. Lápis de cor e pastel sobre pastel, 35,3 x 27,2 cm.  

             "Foi no cruzamento de São José com a avenida, depois na Cinelândia, depois em Copacabana. Elas atravessavam a rua, entravam em lojas, saíam de automóveis, paravam para admirar vitrinas e aí seguiam num novo impulso, quais jovens barcos, os braços a se agitarem como remos de incerta palamenta, ganhando devagar e sempre os mares azuis da tarde carioca fresca e fagueira. Saias pretas, batinas brancas, sapatinhos de balé, os cabelos graciosamente curtos ou atacados no alto, lá iam elas bamboleando a sua doce carga, com os veludosos olhos atentos aos mostruários. Surgiam às dezenas, de todos os lados, como obedecendo a um sinal convencionado e ao se cruzarem miravam-se de soslaio, a se medirem como embarcações rivais. Às vezes, numa esquina, paravam por um momento, ligeiramente resfolegantes, para descansar um pouco do esforço feito dentro do mar picado da multidão. Mas nada que denunciasse nelas uma grande estafa ou um sentimento de derrota. As barriguinhas pandas, os corpos equilibrados à nova distribuição de peso, a pele esticada, a nuca fresca, súbito punham elas de novo a funcionar o motorzinho de popa e saíam empinadinhas em frente, um enxame de mulherzinhas grávidas a penetrar a vida urbana de uma nova vida, uma nova graça e uma certa gravidade.

             Como explicar a emoção que senti? Talvez essa que provocaria a vista de um quadrinho de regata feito por Guignard, com os ioles e esquifes distendidos na puxada e por ali tudo, em meio ao esvoaçar multicor de bandeirinhas, um mundo de serenas baleeiras a se balançarem suaves ao sabor das ondas. Sei que fiquei lírico, possuído do sentimento da fecundidade da vida, sentindo a brisa farfalhar em meus cabelos e arder em minha pele o sol claro do dia. Soube que o tempo tinha cumprido a sua missão, e todas aquelas mulherzinhas fecundadas, a berçar no movimento de seus passos a gestação dos filhos, constituíam em seu gracioso desenho convexo uma maravilhosa afirmação de vida e um caminho positivo para o amor. Soube que o amor é uma missão a cumprir por nós, homens, e que é a nós de constantemente querer, zelar e defender essas que, tão frágeis, fazem a nossa força e miséria e cuja existência é um contínuo sofrer, se alegrar e se extinguir por nós. Soube que homem e mulher são, em sua constante atração e repúdio, a imagem mesma da vida em movimento, e que sua longa jornada de mãos juntas, a se afastar cada vez mais do Paraíso Perdido, tende a uma alfombra cada vez menos distante, onde se aninharão melhor e onde fecundarão seres cada vez mais próximos da Terra." 

             Vinicius de Moraes, "O amor que move o sol e outras estrelas..." in Para Viver um Grande Amor - Crônicas e Poesias. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2008 (Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros, v.9), pp. 123-124.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h04
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RIO GRANDE DO SUL

 

                Meu avô Mário, vó Angelina, tia Rigoleta, tio Valentino e tio Fermino. Provavelmente Passo Fundo, 1930. Vindo sozinho da Itália em 1926, aos 27 anos - só havia dinheiro para uma passagem e vovó estava grávida do segundo filho, Fermino. Nove meses depois, vovô conseguiu trazê-la junto com Rigoleta e Fermino. Seu projeto inicial era viver em Santos, no entanto, não se adaptou com o clima e decidiu viajar para o sul. Primeiro, Sarandi. Como não tinham onde ficar, foram morar no terreno onde se localizava a Igreja Católica. Ao perceber que havia um forno nos fundos da propriedade, Mário começou a fazer pão e sair vendendo num carrinho pelas ruas da cidade. Metade das vendas era dividida secretamente com o padre. Em Sarandi, vovó sentia muitas saudades da sua terra e da sua família. À noite, ouvia-se o rugir de onças. Angelina chorava muito, mas nunca na frente do marido. Aí mudaram-se para Passo Fundo, onde nasceu Valentino, o terceiro filho, e Rafael, logo depois, que morreu aos três meses. Dois anos depois nasceria meu pai, Carlos e, depois, Norma - quando mudaram-se então para Palmeira das Missões, onde morreu Norma, aos quatro anos. Retornam a Passo Fundo, onde nasceriam Aquiles, Mário, Branca, Maria Helena e Jorge Ferrari. Alguns anos depois, se mudariam definitivamente para Carazinho.  

       À memória de meu avô

          "- Eu tenho cruzado o nosso Estado em caprichoso ziguezague. Já senti a ardentia das areias desoladas do litoral; já me recreei nas encantadoras ilhas da Lagoa Mirim; fatiguei-me na extensão da coxilha de Santana; molhei as mãos no soberbo Uruguai, tive o estremecimento do medo nas ásperas penedias do Caverá; já colhi malmequeres nas planícies do Saicã, oscilei sobre as águas grandes do Ibicuí; palmilhei os quatro ângulos da derrocada fortaleza de Santa Tecla, pousei em S. Gabriel, a forja rebrilhante que tantas espadas valorosas temperou, e, arrastado no turbilhão das máquinas possantes, corri pelas paragens magníficas de Tupanciretã, o nome doce, que no lábio ingênuo dos caboclos quer dizer os campos onde repousou a mãe de Deus...

         - Saudei a graciosa Santa Maria, fagueira e tranqüila na encosta da serra, emergindo do verde-negro da montanha copada o casario, branco, como um fantástico algodoal em explosão de casulos.

         - Subi aos extremos do Passo Fundo, deambulei para os cumes da Lagoa Vermelha, retrovim para a merencória Soledade, flor do deserto, alma risonha no silêncio dos ecos do mundo; cortei um formigueiro humano na zona colonial.

         - Da digressão longa e demorada, feita em etapas de datas diferentes, estes olhos trazem ainda a impressão vivaz e maravilhosa da grandeza, da uberdade, da hospitalidade.

         - Vi a colmeia e o curral; vi o pomar e o rebanho, vi a seara e as manufaturas; vi a serra, os rios, a campina e as cidades; e dos rostos e das auroras, de pássaros e de crianças, dos sulcos do arado, das águas e de tudo, este olhos, pobres olhos condenados à morte, ao desaparecimento, guardarão na retina até o último milésimo de luz, a impressão da visão sublimada e consoladora: e o coração, quando faltar o ritmo, arfará num último esto para que a raça que se está formando aquilate, ame e glorifique os lugares e os homens dos nossos tempos heróicos, pela integração da Pátria comum, agora abençoada na paz."

          Blau Nunes apresentado por Simões Lopes Neto in Contos Gauchescos. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2ª. ed., 2000, pp. 33-34.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h37
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ZOBEIDE

  

Fotografia de Fabrice Robin.

"Di la', dopo sei giorni e sette notti, l'uomo arriva a Zobeide città bianca, ben esposta alla luna, con vie che girano su sé stesse come in un gomitolo. Questo si racconta della sua fondazione: uomini di nazioni diverse ebbero un sogno uguale, videro una donna correre di notte per una città sconosciuta, da dietro, coi capelli lunghi, ed era nuda. Sognarno d'inseguirla. Gira gira ognuno la perdette. Dopo il sogno andarono cercando quella città; non la trovarono ma si trovarono tra loro; decisero di costruire una città come nel sogno. Nella disposizione delle strade ognuno rifece il percorso del suo inseguimento; nel punto in cui aveva perso le tracce della fuggitiva ordinò diversamente che nel sogno gli spazi e le mura in modo che non gli potesse più scappare.
Questa fu la città di zobeide in cui si stabilirono aspettando che una notte si ripetesse quella scena. Nessuno di loro, né nel sonno né da sveglio, vide mai più la donna. Le vie della città erano quelle in cui essi andavano al lavoro tutti i giorni, senza più nessun rapporto con l'inseguimento sognato. Che del resto era già dimenticato da tempo.
Nuovi uomini arrivarono da altri paesi, avendo avuto un sogno come il loro, e nella città di Zobeide riconoscevano qualcosa delle vie del sogno, e cambiavano di posto a porticati e a scale perché somigliassero di più al cammino della donna inseguita e perche nel punto in cui era sparita non le restasse via di scampo.
I primi arrivati non capivano che cosa attraesse questa gente a Zobeide, in questa brutta città, in questa trappola."

 Italo Calvino in Le Città Invisibili. Oscar Mondadori, Milano, 1996. 

          "Naquela direção, após seis dias e sete noites, alcança-se Zobeide, cidade branca, bem exposta à luz, com ruas que giram em torno de si mesmas como um novelo. Eis o que se conta a respeito de sua fundação: homens de diferentes nações tiveram o mesmo sonho - viram uma mulher correr de noite numa cidade desconhecida, de costas, com longos cabelos e nua. Sonharam que a perseguiam. Corriam de um lado para o outro, mas ela os despistava. Após o sonho, partiram em busca daquela cidade; não a encontraram, mas encontraram uns aos outros; decidiram construir uma cidade como a do sonho. Na disposição das ruas, cada um refez o percurso de sua perseguição; no ponto em que havia perdido os traços da fugitiva, dispôs os espaços e a muralha diferentemente do que no sonho a fim de que desta vez ela não pudesse escapar.

         A cidade era Zobeide, onde se instalaram na esperança de que uma noite a cena se repetisse. Nenhum deles, nem durante o sono nem acordados, reviu a mulher. As ruas da cidade eram aquelas que os levavam para o trabalho todas as manhãs, sem qualquer relação com a perseguição do sonho. Que, por sua vez, tinha sido esquecido havia algum tempo.

         Chegaram novos homens de outros países, que haviam tido um sonho como o deles, e na cidade de Zobeide reconheciam algo das ruas do sonho, e mudavam de lugar pórticos e escadas para que o percurso ficasse mais parecido com o da mulher perseguida e para que no ponto em que ela desaparecera não lhe restasse escapatória.

         Os recém-chegados não compreendiam o que atraía essas pessoas a Zobeide, uma cidade feia, uma armadilha." 

         Ítalo Calvino in As Cidades Invisíveis. São Paulo: Cia. das Letras, 1999, 12ª. reimpressão, pp. 45-46. Tradução de Diogo Mainardi. 



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h49
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CURITIBA

Dalton Trevisan por Poty Lazzarotto na última página e orelha do livro “Em Busca de Curitiba Perdida” (Record, 2002).

       

 “Curitiba, que não tem pinheiros, esta Curitiba eu viajo. Curitiba, onde o céu azul não é azul, Curitiba que viajo. Não a Curitiba para inglês ver, Curitiba me viaja. Curitiba cedo chegam as carrocinhas com as polacas de lenço colorido na cabeça - galiii-nha-óóó-vos - não é a protofonia do Guarani? Um aluno de avental discursa para a estátua do Tiradentes.

Viajo Curitiba dos conquistadores de coco e bengalinha na esquina da Escola Normal; do Gigi, que é o maior pidão e nada não ganha (a mãe aflita suplica pelo jornal: Não dê dinheiro ao Gigi); com as filas de ônibus, às seis da tarde, ao crepúsculo você e eu somos dois rufiões de François Villon.

Curitiba, não a da Academia Paranaense de Letras, com seus trezentos milhões de imortais, mas a dos bailes no 14, que é a Sociedade Operária Internacional Beneficente O 14 De Janeiro; das meninas de subúrbio pálidas, pálidas que envelhecem de pé no balcão, mais gostariam de chupar bala Zequinha e bater palmas ao palhaço Chic-Chic; dos Chás de Engenharia, onde as donzelas aprendem de tudo, menos a tomar chá; das normalistas de gravatinha que nos verdes mares bravios são as naus Santa Maria, Pinta e Nina, viajo que me viaja.

Curitiba das ruas de barro com mil e uma janeleiras e seus gatinhos brancos de fita encarnada no pescoço; da zona da Estação em que à noite um povo ergue a pedra do túmulo, bebe amor no prostíbulo e se envenena com dor-de-cotovelo; a Curitiba dos cafetões - com seu rei Candinho - e da sociedade secreta dos Tulipas Negras eu viajo.

Não a do Museu Paranaense com o esqueleto do Pithecanthropus Erectus, mas do Templo das Musas, com os versos dourados de Pitágoras, desde o Sócrates II até os Sócrates III, IV e V; do expresso de Xangai que apita na estação, último trenzinho da Revolução de 30, Curitiba que me viaja.

Dos bailes familiares de várzea, o mestre-sala interrompe a marchinha se você dança aconchegado; do pavilhão Carlos Gomes onde será HOJE! SÓ HOJE! apresentado o maior drama de todos os tempos - A Ré Misteriosa; dos varredores na madrugada com longas vassouras de pó que nem os vira-latas da lua.

Curitiba em passinho floreado de tango que gira nos braços do grande Ney Traple e das pensões familiares de estudantes, ah! que se incendeie o resto de Curitiba porque uma pensão é maior que a República de Platão, eu viajo.

Curitiba da briosa bandinha do Tiro Rio Branco que desfila aos domingos na Rua 15, de volta da Guerra do Paraguai, esta Curitiba ao som da valsinha Sobre as Ondas do Iapó, do maestro Mossurunga, eu viajo.

Não viajo todas as Curitibas, a de Emiliano, onde o pinheiro é uma taça de luz; de Alberto de Oliveira do céu azulíssimo; a de Romário Martins em que o índio caraíba puro bate a matraca, barquilhas duas por um tostão; essa Curitiba não é a que viajo. Eu sou da outra, do relógio na Praça Osório que marca implacável seis horas em ponto; dos sinos da igreja dos Polacos, lá vem o crepúsculo nas asas de um morcego; do bebedouro na pracinha da Ordem, onde os cavalos de sonho dos piás vão beber água.

Viajo Curitiba das conferências positivistas, eles são onze em Curitiba há treze no mundo inteiro; do tocador de realejo que não roda a manivela desde que o macaquinho morreu; dos bravos soldados do fogo que passam chispando no carro vermelho atrás do incêndio que ninguém não viu, esta Curitiba e a do cachorro-quente com chope duplo no Buraco do Tatu eu viajo.

Curitiba, aquela do Burro Brabo, um cidadão misterioso morreu nos braços da Rosicler, quem foi? quem não foi? foi o reizinho do Sião; da Ponte Preta da estação, a única ponte da cidade, sem rio por baixo, esta Curitiba viajo.

Curitiba sem pinheiro ou céu azul pelo que vosmecê é - província, cárcere, lar - esta Curitiba, e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo.”

 

Fonte: Dalton Trevisan. Em Busca de Curitiba Perdida (Mistérios de Curitiba, 1968) in Em Busca de Curitiba Perdida. Rio de Janeiro: Record, 2002, 7ª. ed., pp. 7-9.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h36
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FLORENÇA

Fotografia de Chris Warde-Jones in The New York Times, 30/11/2008.

 

        “Fiorenza mia, ben puoi esser contenta
di questa digression che non ti tocca,
mercé del popol tuo che si argomenta.

        Molti han giustizia in cuore, e tardi scocca
per non venir sanza consiglio a l'arco;
ma il popol tuo l' ha in sommo de la bocca.

        Or ti fa lieta, ché tu hai ben onde:
tu ricca, tu con pace e tu con senno!
S'io dico 'l ver, l'effetto nol nasconde.

        Atene e Lacedemona, che fenno
l'antiche leggi e furon sì civili,
fecero al viver bene un picciol cenno

        verso di te, che fai tanto sottili
provedimenti, ch'a mezzo novembre
non giugne quel che tu d'ottobre fili.

        Quante volte, del tempo che rimembre,
legge, moneta, officio e costume
hai tu mutato, e rinovate membre!

        E se ben ti ricordi e vedi lume,
vedrai te somigliante a quella inferma
che non può trovar posa in su le piume,

        ma con dar volta suo dolore scherma.”

Dante Aliguieri, Commedia, Purgatorio, Canto VI.

 

      “Florença, exulta, que esta digressão

decerto não te atinge nem te abala,

e teu povo é afinal quem tem razão.

      Há quem preze a justiça e tarda em dá-la,

por não agir precipitadamente;

mas entre os teus ela na boca estala.

      Há quem recuse o múnus, simplesmente;

mas entre os teus de pronto te responde,

e até antes da oferta: “A mim, somente!”

     Podes, pois, orgulhar-te, e sabes aonde:

em tua paz, fortuna e gentileza

- de brilho tanto, que a ninguém se esconde.

     Esparta e Atenas que, com profundeza,

leis nos legaram sábias e elevadas,

não competem contigo em sutileza,

     pois que as criaste tão apropriadas,

que não alcançam de novembro os idos

as que em outubro foram promulgadas.

     E quantas vezes vimos abolidos

teus usos, normas, moeda e instituição,

e os magistrados teus substituídos!

     Se manténs inda nítida a visão,

verás que te assemelhas a uma doente,

que, sem achar repouso em seu colchão,

     nele fica a girar, continuamente.” 

          Dante Aliguieri in A Divina Comédia v. 2 – Purgatório, Canto VI. Belo Horizonte: Itatiaia, 1979; São Paulo: ed. Universidade de São Paulo, 1979,  p. 62. Tradução de Cristiano Martins.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h53
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TEU NOME

Fotografia de Stefan Beutler.

         “A matéria convencional existe em quatro estados: sólido, líquido, gasoso e plasma. Eles diferem com respeito à energia das partículas da matéria (moléculas, átomos e íons) e à liberdade de movimento das partículas. Substâncias podem sofrer transições de um estado a outro, por exemplo, ao perder e ganhar energia. Os constituintes de um sólido estão presos por fortes ligações e mal podem se mover, enquanto em líquido, estão conectados apenas por ligações fracas e têm liberdade de movimento. Em um gás, as partículas são ligadas muito fracamente e se movem com grande liberdade, ocasionalmente colidindo. Um gás se torna um plasma quando é tão quente que colisões começam a remover elétrons dos átomos. Um plasma, portanto, consiste de íons e elétrons movendo-se com extrema energia. Como as estrelas são feitas de plasma, ele é o estado da matéria convencional mais comum no Universo seguido pelo estado gasoso”.

         Martin Rees in Um Mergulho no Cosmos. São Paulo: Duetto, 2008, p. 32. 


         Como você não é nada convencional, definitivamente não é matéria convencional, como suas partículas, após demorado exame,  não parecem se enquadrar em moléculas, átomos e íons e que, por isso mesmo, há fortes ligações com grande liberdade de movimento, ou seja, nem é sólida totalmente, nem é líquida o tempo todo, e que, se há colisões e muito calor, não vi nenhum elétron sendo removido dos átomos, logo não se trata de gás nem de plasma, então meu amor você só pode ser o quinto estado da matéria. Ele se chamará a partir de hoje teu nome.  



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h50
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