Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


PEDRA

Fotografia de Tomas Rucker.

 

Querido Leonardo,

 

         Eu quis te transformar naquilo que eu posso agarrar, com meu abraço, com meu corpo. Não te queria mais livre, solto, à deriva, por aí. Você sempre me pareceu único, o maior de todos, tão diferente de Perseu que só queria me cortar, me machucar, me ferir. Você não. Você se aproximou devagarinho, com jeito, doces palavras, quente no toque, língua viva. Me falou de seus caminhos, me contou seus medos, me cativou em cada abraço sem propósito outro que não ser o de fixar no tempo nosso encontro. E me marcou, como marcou, a ponto de me fazer desistir dos outros por você, para você. É por isso, meu amor, que eu quis te transformar. Agora eu te contenho em mim – para sempre. Eu viro agora o que tu já és, pedra minha, o que não morre mais.  



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h19
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GRAÇA

Obra-prima de Elliott Erwitt/Magnum Photos. Nova Iorque, parada do Dia de Ação de Graças da Macy’s, 1988.

 

         A parada do dia de Ação de Graças da Macy’s é uma das coisas mais lindas que existem nos Estados Unidos. Iniciada em 1924, ela acontece sempre na última quinta-feira de novembro e já virou tradição. É emocionante ver aqueles balões gigantescos e coloridos representando os heróis dos quadrinhos e dos filmes esvoaçar por entre aquele mar de arranha-céus cinzas, imóveis, parados. É poesia pura!! Uma curiosidade sensacional: Snoopy foi até hoje o personagem mais vezes homenageado, com seis desfiles. Ele merece! A fotografia-obra-prima desse gigante Elliott Erwitt captura esse instante mágico – e a criança não está olhando para ele!!! – em que passa pela janela do apartamento essa rara aparição do fantástico, do inusitado, do inesperado, do não-cotidiano, do maravilhoso – Snoopy! Magnífico!! Epifânico!!



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h35
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A CASA DA PALAVRA

            “Nosso trabalho é ouvir as pessoas que estão sofrendo”. As palavras de Sílvia Mayer Marinho, estudante de Psicologia em Blumenau, Santa Catarina e voluntária na tragédia que se abateu sobre o Estado, revelam que uma escuta é essencial contra a dor. A manchete da Zero Hora é precisa: “A eficiente máquina contra a destruição”. Então, eis aí a escuta contra a dor, contra o sofrimento, contra a destruição que o silêncio pode causar em uma vida. Ouvir as pessoas que estão sofrendo é retirá-las agora dos escombros do desalento, do soterramento da angústia, do frio da indiferença, da tragédia de um luto a ser feito. Ouvir as pessoas é convidar à casa da palavra – uma casa que se constrói e se modifica à medida em que se fala para alguém que escuta. Escutar significa aqui não oferecer uma casa pronta, igual para todos. Escutar significa ouvir a diferença radical de cada um diante de uma dor particular, singular e única - vivida por cada um a seu modo e de seu jeito. Escutar significa a construção de um lugar onde essa diferença se transforme de dor em trabalho - trabalho de luto. 

 

 

“27 de novembro de 2008, Zero Hora, CARLOS ETCHICHURY | Blumenau (SC)

 

EMERGÊNCIA EM SC

A eficiente máquina contra a destruição

Estudante do 6º semestre de Psicologia, Silvia Mayer Marinho, 40 anos, senta em um dos bancos do salão paroquial da Catedral São Paulo Apóstolo, no centro de Blumenau, transformado em um gigantesco abrigo, para contar a sua rotina:

– Hoje (ontem) uma senhora teve uma crise ao lembrar que levou nos braços um sobrinho de oito meses, morto por um deslizamento. Ontem, ouvi uma mulher contando que perdeu um vizinho soterrado ao voltar para casa para buscar um celular. Agorinha mesmo um senhor falou que na comunidade dele, no Morro do Baú, uma família inteira prefere morrer soterrada a deixar a casa ameaçada... As pessoas precisam falar de sua dor.

Silvia é um dos centenas de voluntários mobilizados para amenizar sofrimentos de vítimas da maior tragédia da história do Vale do Itajaí.

– Nosso trabalho é ouvir as pessoas que estão sofrendo – conta Silvia.

A participação de voluntários como Silvia é facilitada graças a uma azeitada máquina que envolve o município, o Estado e a sociedade civil organizada – numa das mais bem sucedidas articulações da Defesa Civil no país.(...)”

Fonte: Carlos Etchichury in Zero Hora, 27/11/2008



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h43
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ALÉM DA BABILÔNIA

Anúncio da exposição “Beyond Babylon” do Metropolitan Museum de Nova Iorque in The New York Times, 25/11/2008 – tampa de um estojo de maquiagem com a Deusa dos Animais, Idade do Bronze tardio, 13º. século a.C., Síria, tumba III, Minet el-Beidha. Pertence à coleção do Museu do Louvre, Département dês Antiquités Orientales, Paris. Fotografia: Réunion dês Musées Nationaux/Art Resource, NY.

 

Eu estava quieto, calmo, tranqüilo, leve, insustentavelmente leve, quando, folheando o jornal, me deparei com ela. Caí da cadeira. Eu não queria isso. Não agora, não nesse momento, não nessa hora da minha vida. Levei um susto. Potnia Theron, a senhora das bestas. A grande senhora da floresta, intocada, virgem, sinistra, a própria Natureza. Protetora das noivas, ninfas e senhora do nascimento. Senhora também dos sacrifícios, da agonia, por isso Homero a odeia. Eu não. Os seios de Artémis sempre me pareceram promissores. Há um encanto que emana deles, há um convite irrecusável ali, há um chamado para viver esse além...do princípio do prazer, ai, mas aí é o gozo, muitas vezes trágico, muitas vezes doloroso, muitas vezes mortal. O que ela fez com Calisto é prova disso. Transformou a pobrezinha em urso – tudo porque ela ousou perder a virgindade com o deus. Artémis arde nesse desejo, quer um amor assim delicado, foge dele como caçadora, volta atrás como desbravadora, sonha com a fertilização, teme o parto. Os seios de Artémis, virgens, intocados, desejam o além do toque, o além do contato, os seios de Artémis desejam vida nova. Sim, deusa, sim.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h40
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A MORADA DO AMOR

Fonte: João Pimentel in O Globo, 25/11/2008.

 

“Um bom samba não envelhece”. Lindo isso.  João Pimentel se refere à obra-prima “A lenda das sereias e os mistérios do mar” de 1976, de Vicente Matto, Dinoel e Arlindo Velloso para o inesquecível desfile da Império Serrano. É aquele poema que fala do mistério que vem do horizonte, berço das sereias, os madriguais que vão despertar, a morada do amor, a transformação do mar em flor. Não é maravilhoso isso? Imediatamente fui levado a Vinícius. A minha sereia tem que ter qualquer coisa além da beleza, qualquer coisa que sofre, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade, um molejo de amor machucado, uma tristeza que vem da beleza de se saber mulher – e não mais sereia. Antes de mim, era só sereia. Agora, é mulher. Isso não é mais Vinícius. Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor, e para ser só perdão. Mulher. Aí vem Candeia e o testamento de partideiro. Cada vez que eu escuto, choro. É demais. O sujeito está morrendo – quem não? – e, mesmo nessa hora derradeira, é capaz de dizer o indizível, é capaz de deixar para a mulher amor, sentimento, para os filhos, um bom exemplo – que lindo isso!!! – para os amigos, ele deixa o pandeiro – magnífico bem!! – e aí Candeia descompleta: o sambista não precisa ser membro da academia, ao ser natural em sua poesia, o povo lhe faz imortal. Sensacional! Eu sonho com uma academia cheia de sambistas. Como isso arejaria as universidades! Porque fazer samba não é contar piada, todo sambista sabe, o bom samba é uma forma de oração. Porque o samba é tristeza que balança, e a tristeza tem sempre uma esperança, de um dia não ser mais triste não – e isso é Vinícius. E se houver tristeza, que seja bonita – lindo isso, uma tristeza bonita!! Mesmo quando a viola perguntar e não ter resposta, mesmo quando o choro acontecer em versos, mesmo quando o canto da sereia exigir travessia, exigir movimento. Ulisses não suportou isso e pediu para ser amarrado.  Medo da sereia ou medo da mulher? Medo do samba. A querida sereia Leci Brandão fez melhor: desculpe Candeia, mas ainda é cedo para nosso inventário! Magnífico! Ainda é cedo...ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida...



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h42
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PARAÍSO

 

 “Você sabe por que é lindo esse mundo aqui?”

“Porque é uma maquete. O original é um desastre!”

Fotografia de Fernando Massobrio in La Nación, 22/11/2008.

 

Buenos Aires é Buenos Aires. O metrô da cidade decidiu homenagear Joaquín Lavado, conhecido mundialmente como Quino, o pai de Mafalda. Na passagem que conecta a estação Peru, da linha A, com a estação Catedral, da linha D, lá está um mural de azulejos de 15 metros de largura com a querida e inesquecível Mafalda falando sobre o mundo e seus desastres! Eu escolheria outra tira de Mafalda, mas, enfim, quiseram essa, vale. De qualquer modo, Mafalda me fez pensar em Zéfiro. Não seria lindo preencher as paredes do metrô de São Paulo com as mulheres de Zéfiro? E as estações tubo de Curitiba (hum? Tubo?)...Do Rio nem vou falar hoje – o Rio é o Rio, não precisa. Já pensou reencontrar Maria, a retirante, que na história inicia encostada numa pilastra na estação de Monte Azul, o olhar perdido distante – quanta poesia, quanta poesia!! E a Teresinha, que chega do interior de Minas Gerais. Ai, essas moças do interior de Minas Gerais – revê-las na direção Paraíso não é a própria definição de pleonasmo? E a Nísia, esperando a condução – na época o metrô não havia-, não é a própria Solange de Nelson Rodrigues? A Nísia me fez pensar na Nilza, que intitula – ai minhas associações...- a história “Desvario” – não é lindo isso? E a prima Rosana, virgem... e esperta ainda por cima? E a Ingrid, mulher casada – sempre há uma casada nessas histórias, sempre... E a Alice, já pensou rever a Alice indo para o Portão? Não é puro Lewis Carroll? São Paulo e Curitiba precisam responder à Buenos Aires. Com Zéfiro o mundo nunca será um desastre!



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h56
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ONDAS

Fonte: Revista Domingo, Jornal do Brasil, 23/11/2008.

           

Em busca da onda perdida. Que lindo isso. O título é de Priscila Tanure e a fotografia é de Eduardo Monteiro. A reportagem é sobre o fato de cada vez mais cariocas realizarem o sonho de surfar mesmo depois dos 30 anos. Adorei isso.  Por um lado, me lembrou Proust, em busca do tempo perdido. Por outro lado, nesta mesma revista, Cynthia Garcia entrevista Liv Ullmann.  Maravilhosa entrevista. Um trecho:

 

         “Cynthia – Como se sente por estar sempre relacionada a Bergman?

         Liv - Houve um tempo em que isso me incomodava muito, eu era mais jovem, queria que soubessem como sou e não ser vista sempre ligada a ele. Hoje me sinto muito feliz, vejo que muitas coisas em relação ao meu trabalho e à minha vida teriam sido diferentes sem ele e que ele também não teria feito alguns de seus filmes sem mim. Há uns três anos falei para ele: aonde vou sempre perguntam de você. E brinquei: mas também você é um gênio, e eu sou o que sou. Ele riu e me fez o maior elogio do mundo: "Liv, você é meu Stradivarius". Agora que ele se foi continuo a falar sobre ele como se estivesse vivo, é uma sensação boa.”

 

         “Você é meu Stradivarius”. Espetacular isso! Ele procurou nela a onda perdida! E ela também buscou nele a onda perdida!

 

         “Cynthia – Como foi filmar com ele?

         Liv - Eu era muito tímida e introspectiva, tinha uns 25 anos. Só disse uma palavra o filme todo: "nada". Se tivesse mais falas, não teria dado certo, porque eu não entendia o filme, sentia algo dentro de mim mas não sabia o quê. Só fui entender aos 40 anos. Aí vi que meu papel simbolizava Ingmar quando jovem. Ele era muito fechado. Também tive uma fase em que só queria ficar sozinha.

Cynthia - Foi amor à primeira vista?

Liv - Da minha parte foi. Ele era fascinante, estávamos filmando numa ilha. À noite fazíamos, eu, a Bibi e o Sven (Sven Nyvkist, diretor de fotografia de Bergman) a brincadeira do copo, dos espíritos (risos), e as mensagens eram sempre: "Ingmar e Liv", "Ingmar seja bom para Liv". Não entendi o que significava, mas no final da filmagem estávamos os dois andando na praia, sentamos sobre uma pedra e ele me disse: "Esta noite tive um sonho, que eu e você estamos unidos pela dor". Alguns anos mais tarde ele construiu a casa dele naquele exato lugar... Se você é jovem, está num lugar daqueles e alguém lhe diz que estamos ligados pela dor, você se apaixona. E ele também se apaixonou, construiu a casa e nos mudamos um ano depois.

Cynthia - Foi a casa em que ele faleceu?

Liv - Foi. Ele viveu lá até o final. Morei lá cinco anos, mas ele nunca mudou nada. No escritório dele havia uma porta, onde na parte interna pintamos uma lágrima, uma flor, uma cruz, uns anéis, símbolos do que fomos um para o outro naquele dia, e a porta permanecera assim. Não foi fácil (viver com ele), ele gostava de ficar sozinho, mas houve momentos de muita beleza.

Cynthia - E quando ele faleceu?

Liv - Eu estava na Noruega, senti algo estranho, nunca tinha alugado um avião, mas senti que tinha de ir para lá o mais rápido possível. Quando cheguei, ele já estava inconsciente e fiquei sentada ao lado dele. No filme Saraband (de Ingmar Bergman, sobre um casal que se separa e torna a se rever), que eu havia feito uns anos antes, o ex-marido de minha personagem me pergunta porque havia ido até a casa dele, e respondo: "Porque você me chamou...". Quando peguei a mão de Ingmar, disse: Obrigada por tudo. Ele ficou em silêncio e apertou minha mão suavemente. Voltei para minha casa, nessa noite ele morreu sozinho, sem ninguém. Mas fico feliz por ele ter me chamado...”

Fonte: entrevista de Liv Ullmann a Cynthia Garcia in Revista Domingo, Jornal do Brasil, 23/11/2008.

 

A onda perdida é esta que, mesmo estando perdida para sempre, vale a pena procurar, pois é esta procura mesma aquilo que se chama vida. Haverá ondas.

 

 

Liv Ullmann. Fotografia de Fernando Martinho in Revista Domingo, Jornal do Brasil, 23/11/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h31
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