Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


IMORTALIDADE

Vladimir Nabokov e sua esposa, Véra, para quem foi dedicado “Lolita”. Suíça, 1966. Fotografia de Philippe Halsman.

 

À Vladimir Nabokov

 

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.

         O que teria acontecido se você não tivesse ido embora? Quando hoje olho para trás...Ah, minha Lolita, tudo o que me restou para brincar foram as palavras! Você entrou na minha vida sem aviso prévio, foi aquela onda azul, ajoelhada, seminua em meio a uma poça de sol. Ali estava estendida sua natureza dupla, essa mistura de uma infantilidade terna e sonhadora com uma espécie de estranha vulgaridade. Hoje eu sei que o que eu possuíra apaixonadamente não tinha sido ela, e sim minha própria criação, uma outra Lolita, inventada, talvez mais real que a de carne e osso, que se sobrepunha a ela, envolvendo-a, flutuando entre mim e ela. Uma dádiva.

         Seria você agora a jogar comigo, e não a morte? Na verdade, a atração que a imaturidade exerce sobre mim talvez resida não tanto na limpidez da beleza pura e proibida de uma menina encantada, como na segurança de uma situação em que infinitas perfeições preenchem o abismo entre o pouco que é dado e o muito que é prometido – os picos cinzentos e rosados do inatingível. Mes fenêtres!

         Seria você a me falar de novo que o mais horrível quando se morre é que a gente está totalmente sozinho?

         Estou pensando em bisões extintos e anjos, no mistério dos pigmentos duradouros, nos sonetos proféticos, no refúgio da arte. Porque essa é a única imortalidade que você e eu podemos partilhar, minha Lolita.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h11
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PIRATAS

“Merda! Nada para sequestrar ali…”

Fonte: Patrick Corrigan, The Toronto Star, 19/11/2008.

 

         Os piratas da Somália renderam pelo menos três obras-primas do cartum. Patrick Corrigan brinca que, se a carga do navio fosse automóvel, ninguém ia querer. Nem os piratas! Patrick Chappatte mostra que um pirata decidido consegue parar, no grito e na ameaça, o que ele quiser. Chama a atenção a agilidade do barquinho contra a imensa tartaruga do super-petroleiro, bem como o efeito que poderia ter uma simples granada contra essa carga altamente inflamável cruzando o oceano. Sem falar no reduzido número de tripulantes do navio contra os milhares de piratas “excluídos” dessa super-modernidade ambulante. Não deixa de ser uma metáfora do nosso tempo. Já Cam Cardow extrapolou – ele propõe uma irônica comparação, genial: o que é o que é que os piratas, os banqueiros e os executivos têm em comum, além do desespero?

 

 

“Vocês estão cercados!”

Fonte: Patrick Chappatte, Le Temps, Suíça, 19/11/2008.

 

 

“Obviamente estão desesperados…eles parecem nossos banqueiros e executivos das montadoras de automóveis!!”

Fonte: Cam Cardow, The Ottawa Citizen, 18/11/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h46
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VALE A PENA VER DE NOVO


“Bill Clinton diz aceitar todas as condições da equipe de Obama – “O que eles quiserem” ”


Fonte: primeira página do The New York Times, 20/11/2008.


 


                O poder é um afrodisíaco impressionante. Eis aqui um ex-presidente que declara fazer qualquer coisa, peçam o que quiserem, por um carguinho no próximo governo. A atração pela teta pública está balançando o senhor Bill Clinton. Ele faz qualquer coisa pela teta...pública - essa é uma declaração forte, muito forte. Tirem as crianças da sala, por favor. Quem serão as estagiárias que Hillary contratará para a secretaria do Estado? Como? É Bill Clinton quem vai escolher? Faz sentido...



Escrito por Leonardo Ferrari às 10h29
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SUBLIME

Fonte: Charles M. Schulz in O Estado de São Paulo, 19/11/2008.

 

         Essa me lembrou o inesquecível Cocteau:

 

         “Uma vez que estes mistérios nos ultrapassam, finjamos ser os seus organizadores”

                                                                                                                                        Jean Cocteau



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h45
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O DIÁRIO DE UM GRANDE MENTIROSO

Federico Fellini e o seu diário. Fotografia Fondazione Fellini in Corriere della Sera, 19/11/2008.

 

         Um dia o analista de Fellini, Ernst Bernhard, lhe disse para escrever um diário através de desenhos. Então, entre os anos 1960 até 1990, Fellini “escreveu” essa obra-prima com mais de mil desenhos que ano passado a editora Rizzoli publicou com o magnífico nome de “Il libro dei sogni”, “O livro dos sonhos” – título inspirado em Freud, é claro.

         Para minhas leitoras queridas e para meus leitores, dois trechos da entrevista de Fellini no maravilhoso documentário de Damian Pettigrew, “Fellini: I’m a Born Liar” (2002):

        

         “Projetamos sobre a mulher esse sentimento de espera, como de uma revelação; a chegada de uma mensagem, um pouco como aquele personagem de Kafka que esperava a mensagem do imperador. A mulher pode ser a imperatriz que enviou há milhares de anos uma mensagem, e é muito bom que ela não tenha chegado ainda. Me parece que o gostoso da vida esteja na espera dessa mensagem, e não na própria mensagem”.

        

         “Minha inclinação natural foi inventar uma juventude, uma relação com a família, com as mulheres, com a vida. Creio que sempre inventei. Para mim, são mais certas as coisas que não aconteceram, as coisas que eu inventei. Assim aconteceu com a cidade onde nasci, onde passei minha juventude e estudei: ela foi se afastando de mim para dar lugar à outra Rimini, aquela dos filmes em que falei dela, I Vitelloni [Os Boas-Vidas], Amarcord. Hoje me parece que essas duas , que representam uma Rimini reconstruída, pertencem mais à minha vida do que a Rimini real, essa topograficamente comprovável como uma pequena cidade da costa adriática. Eu sou um grande mentiroso, essa é a conclusão”.

 

         Fonte: Federico Fellini no documentário de Damian Pettigrew, “Fellini: I’m a Born Liar”, 2002.

 

        

Fonte: Fondazione Fellini in Corriere della Sera, 19/11/2008.

 

 

Fonte: Fondazione Fellini in Corriere della Sera, 19/11/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h00
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DIANA E EU

Diane Lane.

 

Conta Ovídio que Acteão apareceu enquanto Diana se banhava, totalmente nua. Acteão, o caçador, agora não mais pensando na caçada. Conta Ovídio que Diana corou ao ser vista e que buscou suas flechas, mas não achou, só tinha a água à mão. Então encheu a mão em concha com água e jogou no rosto de Acteão e lhe disse: “Diga às pessoas que me viu, Diana, nua! Diga-lhes, se puder!”. E, então, na testa lisa de Acteão, pequenos chifres de veado começaram a brotar, o pescoço espichou, as orelhas cresceram pontiagudas, os braços viraram pernas, as mãos, pés, cascos, a pele se transformou num couro malhado, e o coração do caçador encheu-se de medo. Ele fugiu, correndo, mas logo foi alcançado por seus próprios cães que, farejando a caça, o mataram. Nas palavras de Ovídio, quando assim morreu, a ira de Diana foi finalmente satisfeita. Pergunta Ovídio: na história aparece a culpa de Acteão; mas responsabilize a sorte, não o crime: que crime há em errar?

         Ora, não foi bem assim. Diana me chamou, não foi a sorte. Ela me viu, ela me encontrou e aí se despiu. Ela corou? Não notei. Havia flechas e algumas me acertaram, doeram, sangraram. Mas não mataram. Ela me jogou no rosto muitos beijos, que me cobriram, que me transformaram, que me sararam. Outro homem agora sou – eis como ela está agora em nosso barco. Não ficou Diana mais bonita? Outra mulher agora ela é. Erramos agora nessas águas, para sempre. Ovídio não entendeu nada. A ira de Diana era saudade!



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h24
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A MULHER SANTA

Fonte: Babelia in El País, 15/11/2008. Fotografia de Ricardo Ceppi.

 

Lucrecia Martel é daquelas mulheres para se amar pelo resto da vida. Eu amo Lucrecia Martel. Seu filme “La niña santa” (2002), “A Menina Santa”é uma obra-prima sobre o desejo, inesquecível, poético, lindo, lindo, lindo. O que mais me incomoda no cinema brasileiro é o excesso de sentido que os diretores querem passar. É um cinema muito preso ao discurso universitário, querendo sempre “ensinar” uma direção. Insuportável. Lucrecia Martel caminha na contramão disso. Ela filma o inefável, o errático, o vagabundo desejo que flui, circula, repete, brilha, desencaminha. Não há “mensagens” nos filmes de Lucrecia Martel. Há o desejo. No indispensável Babelia dessa semana, Leila Guerriero homenageia Lucrecia Martel com um texto primoroso, onde está contido uma entrevista maravilhosa desta argentina espetacular. Alguns trechos dessa epifania:

 

         “Eu tive uma infância feliz, com um pai que era muito mãe e uma mãe sem nenhum senso comum, além de uma avó contadora de histórias de terror que eu amava (...) Há muitos anos, quando um de meus irmãos fez vinte e cinco anos, fui dormir na sua casa e vi que, para subir na cama, ele corria e saltava em cima. Fiz o mesmo e depois lhe perguntei: “Mas por que você faz assim?”. Ele me contou: “Sou um medroso. Ainda tenho medo da mão peluda”. A mão peluda era uma das história que minha avó nos contava, uma mão que saia debaixo da cama”.

 

         “Eu liderava o grupinho dos meus irmãos. Brinquei com eles até os quinze anos, fazendo coisas que as de dez anos fazem. Além disso, eu lia. Comecei aos nove, quando minha avó me levou para comprar um presente e eu escolhi um revólver e um Quixote para crianças. Nunca mais deixei de ler.”

 

         “Eu tenho muitas coisas relacionadas com a medicina. Eu pensei que ia estudar alguma coisa relacionada com o mundo científico. Quando fiz quinze anos, papai me deu de presente um telescópio e a astronomia começou  a ser um plano possível. Nessa idade, deixei de acreditar em Deus. Um dia, rezando, logo olhei e falei: “Não, não há ninguém, eu estou rezando para ninguém”. Eu confessava aos padres o que tinha acontecido comigo e eles não davam nenhuma importância. Quando terminei o colégio, estava confusa. Queria estudar medicina forense, balística, astronomia, engenharia química, zootecnia. Papai tinha comprado para mim uma camerazinha e eu passava muitas horas do dia filmando minha família, mas o que me fascinava era o funcionamento da câmera. Não havia nada artístico ali. Não deixa de me intrigar como, durante esses anos, jamais me passou pela cabeça a idéia de que o cinema era uma possibilidade. Eu havia imaginado isso aos dez anos, mas depois, não.

         Leila Guerriero – E depois, o que aconteceu?

         Não sei. Talvez que existem coisas que pensamos que somente servem para a infância e mais tarde percebemos que isso, precisamente, é a vida adulta.”

 

         “Muita gente me falou que La ciénaga (“O Pântano”, 2001) é um filme sobre a decadência. Eu vejo com muito otimismo o decadente. Se estivéssemos em um mundo com um sistema de valores extraordinário, a decadência seria um perigo. Mas, em um mundo em que a injustiça e a pobreza fazem parte do sistema, a decadência é uma esperança”.

 

         “Nós adultos ficamos assustados pelo fato das crianças desejarem. Por isso a humanidade se sente mais tranqüila negando a sexualidade das crianças, como em outra época fez também com as mulheres e com os escravos”.

 

         “Eu sou fascinada pelos dentes. A boca é o lugar das palavras, é o lugar do mais evoluído do pensamento e lá dentro desse instrumento tão civilizado estão os dentes, que são tão brutais e tão selvagens. A boca me parece ser, realmente, o lugar onde reside a dupla natureza [humana]”.

 

          Fonte: entrevista de Lucrecia Martel a Leila Guerriero in El optimismo de la decadencia, Babelia, El País, 15/11/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h22
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MEU BRASIL

Fonte: primeira página do El País, 16/11/2008.

 

            Nelson Rodrigues um dia nos chamou de Narciso às avessas, de tanto mal que falamos de nossa pátria e de nós mesmos. No entanto, ao ver essa fotografia hoje nos jornais do mundo, sobre esse indescritível encontro dos “G-20”, dá um orgulho enorme ser brasileiro. Quando, numa mesma foto, aparece esse perigoso macaco em loja de louça do George W. Bush representando o pior dos Estados Unidos, esse bocó do Zapatero representando uma Espanha de dar dó – “socialista” com uma das políticas mais cruéis contra imigrantes da Europa, esse Narciso de almanaque do Sarkozy representando uma França que não é mais a França, esse títere rei Abdalá representando uma Arábia Saudita de mentira, e o fascista do Berlusconi envergonhando o que a Itália foi um dia, representando uma Itália xenófoba, triste e velhaca, então eu não tenho dúvidas de que dá gosto ser brasileiro e estar lá representado pelo senhor Luiz Inácio Lula da Silva. Nessa comparação, é o único decente, é o único não fascista, é o único que eu apertaria a mão. Lula revogou para sempre Nelson Rodrigues. Dá gosto ser brasileiro!



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h39
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