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O TEMPO DO AMOR

Fonte: O Globo, 15/11/2008.
Hoje tem Letícia Sabatella falando de amor à Bety Orsini nesse magnífico Ela. Trata-se do novo filme de Guel Arraes, “Romance” , em que Letícia representa Ana, uma mulher apaixonada, atravessada pelo amor, uma mulher que vive em outro tempo, o tempo do amor, uma mulher que percebe o amor como algo que não se pode capturar, não se pode prender, não se pode domesticar, uma mulher que vive o amor como o ar, vital, fluido, como o vento, que não dá para segurar. É Letícia Sabatella que fala tudo isso nessa entrevista. É Letícia Sabatella quem fala de alegria e transformação do amor. É Letícia Sabatella. Sou eu. Eu e Letícia Sabatella. Nós dois.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h35
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A ERA DOS BABACAS

Fonte: primeira página de O Globo, 14/11/2008.
Prezado senhor Barack Obama, presidente eleito dos Estados Unidos da América:
Agradeço imensamente o convite que me foi formulado para escolher um dos cargos disponíveis e a devida remuneração de 30 mil dólares por mês mais gratificações e vale-refeição. Lamento, senhor presidente, mas não posso aceitar. O senhor me faz um convite e depois quer que eu me submeta a um questionário ridículo com 63 perguntas sobre a minha vida? O senhor está com medo se ser embaraçado, senhor presidente? Desculpe, senhor presidente, mas isso é coisa de babaca. A sua assessoria inteira é babaca. E o seu governo, se o senhor não se cuidar, vai ser uma babaquice só. Eu já lhe dizia na fase da campanha para colocar mais pimenta em seus discursos, dar alguns murros, berrar, sair de si um pouco, não se controlar tanto, não se policiar desse modo tão violento. O senhor não quis acreditar. Venceu as eleições, é verdade, mas a que preço? E agora, quer me submeter a esse questionário? Questionário, senhor presidente? Eu prefiro aquele das meninas lá de Carazinho, que me faziam preencher um caderninho com minhas músicas preferidas, o perfume que eu gostava, a viagem dos meus sonhos, as atrizes da minha vida, o que eu ia fazer na sexta-feira à noite. Isso, senhor presidente, eu preenchia com gosto, eu respondia com vontade. Sabe por quê? Porque elas já sabiam que é impossível revelar tudo – o inconsciente escapa à revelação, escapa à estatística, o inconsciente é esse embaraço do qual o senhor teima em fugir, teima em se esconder, teima em não assumir. Revelar tudo? Bobagem, senhor presidente, que imensa bobagem. Só os babacas acreditam no sucesso, acreditam na perfeição, acreditam no não-embaraço. O bom da vida é o inesperado, é se surpreender com aquilo que te tira do rumo, que te deixa perdido, é aquilo que você não alcança, é o caminhar por aí, sem eira nem beira, sem lenço nem documento. Questionário de 63 perguntas? Não, senhor presidente, comigo não. Adeus.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h10
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ENCONTRO COM O COVEIRO

Um coveiro na Suécia. Fotografia de Sune Jonsson, prêmio Hasselblad de fotografia 1993, em exposição no Museu Reiss-Engelhorn, de Mannheim, Alemanha.
“Hamlet – De quem é essa cova, rapaz?
Primeiro coveiro – Minha, senhor (...).
Hamlet – Tua, claro. Estás todo encovado.
Primeiro coveiro – Sua é que não é. O senhor parece preocupado, e ela é pós-ocupada. Eu me ocupo da campa, logo estou acampado.
Hamlet – A cova que cavas é coisa de morto. Um vivo na tumba está só confinado.
Primeiro coveiro – Resposta bem viva, senhor; xeque-mortal!
Hamlet – Pra que homem está cavando o túmulo?
Primeiro coveiro – Pra homem nenhum, senhor.
Hamlet – Pra qual mulher, então?
Primeiro coveiro – Nenhuma, também.
Hamlet – Então o que é que você vai enterrar aí?
Primeiro coveiro – Alguém que foi mulher, senhor; mas, paz à sua alma, já morreu.
Hamlet – O patife é esperto! Devemos falar com precisão, ou ele nos envolve em ambigüidades. Por Deus, Horácio, há uns três anos venho notando isso: nosso tempo se tornou tão refinado que a ponta do pé do camponês já está no calcanhar do cortesão; até lhe machucando os calos. (Ao coveiro.) Há quanto tempo é coveiro?
Primeiro coveiro – Entre todos os dias do ano escolhi começar no dia em que o falecido rei Hamlet venceu Fortinbrás.
Hamlet – Há quanto tempo, isso?
Primeiro coveiro – O senhor não sabe? Qualquer idiota sabe. Foi no mesmo dia em que nasceu o príncipe Hamlet, o que ficou maluco e foi mandado pra Inglaterra.
Hamlet – Ó diabo, por que foi mandado pra Inglaterra?
Primeiro coveiro – Ué, porque ficou maluco. Diz que lá recupera o juízo; e, se não recuperar, lá não tem importância.
Hamlet – Por quê?
Primeiro coveiro – Na Inglaterra ninguém repara nele; aquilo lá é tudo doido.
Hamlet – Como é que ficou maluco?
Primeiro coveiro – Dizem que de maneira muito estranha.
Hamlet – Estranha como?
Primeiro coveiro – Parece que perdeu o juízo.
Hamlet – E qual foi a razão?
Primeiro coveiro – Achar que não tinha razão! Isso, na Dinamarca! (...)”
William Shakespeare in Hamlet. Tradução de Millôr Fernandes. Porto Alegre: L&PM, 1988, pp. 169-171.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h02
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DANTE ALIGHIERI

Fotografia de Liu Heung Shing.
Sì lungiamente m'ha tenuto Amore e costumato a la sua segnoria, che sì com'elli m'era forte in pria, così mi sta soave ora nel core.
Però quando mi tolle sì 'l valore, che li spiriti par che fuggan via, allor sente la frale anima mia tanta dolcezza, che 'l viso ne smore,
poi prende Amore in me tanta vertute, che fa li miei spiriti gir parlando, ed escon for chiamando
la donna mia, per darmi più salute.
Questo m'avvene ovunque ella mi vede, e sì è cosa umil, che nol si crede.
[Dante Alighieri, Vita Nuova XXVIII ]
Por tanto tempo o Amor me teve preso
sob o jugo de sua suserania,
que a dureza de sua companhia
hoje se transformou em leve peso.
Assim, quando me sinto indefeso,
e os espíritos largam a alma fria,
deixando a marca da doce agonia
que o rosto mostra em sua palidez,
o Amor me instila uma tal virtude,
que os espíritos cedem ao seu mando
e partem procurando
por minha salvação, minha saúde.
É isto o que se dá, se ela me vê:
coisa bem simples – mas ninguém o crê.
Dante Alighieri in Vida Nova. Dante, Shakespeare, Sheridan, Goethe – Retrato do Amor Quando Jovem. Projeto e tradução: Décio Pignatari. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pp. 62-63.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h40
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A INVASÃO DOS BÁRBAROS
Há algo de podre no ensino de Administração. Nesta semana, o jornal Gazeta do Povo está fazendo circular a seus leitores um suplemento chamado “Oito Hábitos”, baseado no livro do consultor norte-americano Stephen Covey. A “obra” é de um ridículo tão atroz, tão gritante, que é de se ficar pasmo como é que tanta gente “inteligente” embarca numa bobagem dessas. Trata-se de um conjunto de “conselhos” tão estúpidos, tão idiotas, sem nenhuma referência a nenhum outro autor, é impressionante isso, é como se essa “obra” tivesse nascido na cabeça desse “consultor” por si só ou com base unicamente nas “experiências” dele. Ridículo. Que isso faça “sucesso” já é sintoma alarmante de que nossa época está doente, muito doente. Mais ainda: que haja universidades e “centros de estudo” divulgando essa obra, ganhando dinheiro propagando essas asneiras – e outras pérolas, como “O Monge e o Executivo”, lixo abissal -, então eu me pergunto por que gente séria não denuncia isso, não age contra isso, não começa a se mexer contra essa imbecilização horrorosa em curso.
Felizmente, li ontem no jornal Valor Econômico uma entrevista sensacional do professor Henry Mintzberg denunciando os idealizados MBAs (mestrados de administração). E, em um dos trechos da entrevista, há uma referência ótima à “formação” do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush:
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“Valor: O ideal então seria sempre conciliar o trabalho e o estudo? |
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Mintzberg: Essa é uma parte da questão, mas não é tudo. O executive MBA (part-time que permite a conciliação com o trabalho) copia o mesmo modelo do MBA regular (período integral). O que eles dizem é que não podemos fazer nada para as pessoas com 15 anos de experiência como fazemos com aqueles que não têm nenhuma experiência. Isso é chocante. Você pega administradores e então desenvolve um treinamento envolvendo a sua própria experiência, eles aprendem com isso. O método de estudo de caso de Harvard ensina você a tomar decisões sobre coisas que você não conhece. Você lê 20 páginas sobre uma companhia e é forçado uma tomar decisão em classe. Se você diz para o professor que isto é uma loucura, é expulso da escola. George W. Bush foi treinado para tomar decisões sobre coisas que não entende e ele fez isso a vida toda.”
Fonte: entrevista de Henry Mintzberg a Stela Campos in Valor Econômico, 10/11/2008. |
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Ecce-homo! Treinado para tomar decisões sobre coisas que não entende! Mas não terá sido ele um dos leitores assíduos dos oito hábitos? Não terá sido ele um dos maiores admiradores do monge e o executivo? E não foi um sucesso? Não durou oito anos na administração dos Estados Unidos da América? Quem sabe agora ele vai ser professor nos MBAs ou então fazer consultoria. Em breve nos maiores jornais do Brasil! |
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h19
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O CHEIRO DO PARAÍSO

Claudia Cardinale como Angelica, vestida por Piero Tosi no maravilhoso O Leopardo de Luchino Visconti, 1963.
Foi ler o depoimento de Piero Tosi e me lembrar de Angelica. Angelica, Donnafugata – a mulher que foge, a mulher que escapa, donna mobile, mulher em movimento, como uma pluma ao vento, angélica?
“O par Angelica dom Fabrizio fez um figurão. Os pés enormes do príncipe moviam-se com delicadeza surpreendente e jamais os sapatinhos de cetim de sua dama correram o perigo de ser aflorados. A mãozorra apertava-lhe a cintura com vigorosa firmeza; o queixo, apoiava-o na onda noturna dos cabelos dela; do decote de Angelica subia um perfume de bouquet à la Maréchale e, sobretudo, um aroma de pele jovem e lisa. À memória do príncipe voltou uma frase de Tumeo: “Os seus lençóis devem ter o cheiro do paraíso”. Frase inconveniente, frase grosseira; porém exata. Aquele Tancredi...
Ela falava. A sua vaidade natural estava tão satisfeita quanto a sua ambição tenaz:
- Sou tão feliz, meu tio. Têm sido todos tão gentis, tão bons, Tancredi, então, é uma amor; e o senhor também, um amor. Tudo isto devo ao senhor, meu tio: eu e Tancredi. Porque se o senhor não tivesse querido, nós sabemos como tudo teria acabado.
- Eu nada fiz, minha filha; tudo isso só a ti o deves.
E era verdade: nenhum Tancredi teria sido capaz de resistir àquela beleza unida ao respectivo patrimônio. Tê-la-ia desposado atropelando tudo. Um espinho atravessou-lhe o coração: pensava nos olhos altivos mas vencidos de Concetta. Mas foi uma dor breve: a cada volta que dava, um ano caía-lhe dos ombros: em pouco tempo se achou como há vinte anos, quando naquela mesma sala dançava com Stella, quando ignorava ainda o que eram as desilusões e o tédio, o resto. Por um instante, naquela noite, a morte foi de novo a seus olhos “coisa para os outros”.”
Fonte: Giuseppe Tomasi, príncipe de Lampedusa in “O Leopardo”. São Paulo: Nova Cultural, 2003, pp. 264-265.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h11
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O HOMEM QUE VESTIA SONHOS

Sofia Loren, vestida por Tosi, aceitava os vestidos mas se rebelava contra os penteados discretos que ele lhe aconselhava.
Hugo Beccacece, do La Nación, foi até Roma se encontrar com Piero Tosi, o figurinista de Visconti, Fellini e Pasolini. A seguir dois trechos desse memorável encontro e belíssimo, magnífico depoimento de Tosi. Beccacece chamou essa epifania de “Vestir los sueños”, vestir os sonhos. Maravilhoso título! Na página do jornal, há um vídeo espetacular com uma pequena amostra dos trabalhos de Tosi.
“Em uma pequena sala de seu pequeno apartamento no centro histórico de Roma, Tosi relembra sua vida com a graça de um homem que sabe contar e que pode ser implacável ou sublime com um adjetivo. Nas paredes estão os retratos de atores e de amigos, muitos deles famosos, outros desconhecidos. Tosi foi o homem que vestiu Callas nas óperas Traviata e Tosca, e no filme Medéia de Pasolini; foi ele que criou a figura icônica de Tadzio, o efebo de Morte em Veneza, e também o vestuário, hoje de valor histórico, do filme O Leopardo. Entre aqueles que o conhecem, é célebre por sua timidez e humildade, mas também por sua ironia. Porém, jamais se escondeu em uma torre de marfim. Ele retomou a tradição da arte e do artesanato de Florença, a cidade onde nasceu há 81 anos, e transmitiu tudo o que aprendeu em contato com os criadores mais importantes do cinema e do teatro europeus a discípulos como Gabriella Pescucci e Milena Canonero, vencedoras do Oscar e a Maurizio Millenotti. Com um suspiro reflexivo, Tosi diz:
‘Na vida, tudo é uma questão de encontros e de sorte. Minha infância foi triste. Quando estalou a guerra, eu tinha apenas 12 anos. Minha família era pobre. Mas, ficamos ainda mais pobres porque os alemães nos obrigaram a abandonar nossa casa, que estava no caminho que ia de Florença a Bolonha, para minarem todo o caminho. Sempre tínhamos fome. Era muito difícil conseguir comida. Quando fiquei um pouco mais velho, chegou a felicidade, ou seja, a comida. Me mandaram trabalhar em uma sala de um hospital, onde eu via cenas horríveis, mas pelo menos podia comer”.
Um dos trechos mais saborosos da entrevista-depoimento de Tosi é quando ele recorda Fellini. Sensacional:
“A relação profissional com Fellini foi para Tosi uma tortura, além de qualquer satisfação artística: ‘Nós dois éramos indecisos. Ambos, quando tudo já estava pronto para começar a filmar, queríamos continuar mudando as coisas. Mas Federico era pior que eu. Quando já estava tudo planejado, decidido, ele, de repente, me dizia: ‘tenho uma idéia’. E Fellini tinha mil idéias o tempo todo! Com Visconti, quando terminava o dia, não se voltava a falar do assunto até o dia seguinte. Além disso, Visconti nunca tinha dúvidas. Lidar com ele era como tratar com um condottiero [capitão,líder] do Renascimento. Fellini, por sua vez, te consultava o tempo todo e não dava trégua. Tinha que ficar com ele de manhã até a noite falando sem parar do filme. Ele me levava para casa de carro, saia comigo do carro, entrava em minha casa e ia junto até o quarto de dormir. Eu tirava a roupa e ele não parava de falar. Aí eu entrava na cama, e ele me cobria com a coberta, como se eu fosse seu filho, me dava um beijo na testa e se despedia, ‘Ciao, Pierino’. Eu dormia esgotado e, às cinco e meia da manhã seguinte, lá estava ele a me despertar com sua voz aguda no jardim, quando tudo estava escuro, e eu escutava sua voz: ‘Te acordo, Pierino?’. A nossa relação foi como uma história de amor profissional. Ele me queria, mas não era correspondido. Apesar de toda a admiração e carinho que eu tinha por ele, eu o evitava. Éramos vizinhos e, quando Federico estava por rodar um filme, me buscava no centro de Roma e eu fugia dele...ele corria atrás de mim e gritava: ‘Pierino, me faz um par de sapatinhos?’. Eu até cheguei a circular disfarçado com peruca, óculos e com a gola levantada, para que ele não me reconhecesse. Em uma ocasião, eu lhe disse que só trabalharia com ele se não nos víssemos mais, se nos comunicássemos somente através de intermediários. Eu lhe pedi um escritório isolado. Ele me conseguiu então um lugar com uma vista muito bonita, mas eu notei, no primeiro dia de trabalho, que atrás de minha cadeira havia uma porta. A porta se abriu de repente e lá estava Federico. Dessa vez só consegui agüentar setenta e duas horas e aí, eu, que tinha saído da casa de minha mãe quando criança, voltei correndo para ela, desesperado, gritando: ‘mamãe, me ajude!’. Imagine a cena...”
Fonte: entrevista-depoimento de Piero Tosi a Hugo Beccacece in Vestir los sueños, La Nacíon, 9/11/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h33
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