Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


TENTAR

“Seduzione” com o Rio Tevere ao fundo, nessa Roma-Amor permanente – fotografia de Annie Leibovitz para a torrefadora italiana Lavazza, Calendário 2009.

 

         Acordei pensando em Roma, amor, rio e aí, no Globo, me deparo com essa frase de Paul Valéry magnífica, epifânica, síntese dessa bela aurora:

 

         “Enfastiado de ter razão, de fazer o que tem sucesso, da eficiência dos procedimentos, tentar outra coisa”.

 

         Paul Valéry em “Monsieur Teste”, ensaio de 1919, citado por José Castelo in O Globo, 8/11/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h15
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PELAS ONDAS DO RÁDIO

Fotografia de Matt Mendelsohn in The New York Times, 6/11/2008.

 

            O fotojornalista Matt Mendelsohn contou a história desta fotografia ontem no The New York Times. Belíssima história. Na noite de terça-feira, ele foi até o Lincoln Memorial em Washington com a expectativa de encontrar uma multidão e algo para noticiar. Porém, se deparou com uma cena inusitada. Lá estavam apenas 25 pessoas. Porém, elas estavam paradas, reunidas em torno de um rádio de pilha, escutando o resultado da eleição – algumas horas depois, já na madrugada de quarta-feira, Barack Obama faria o seu discurso em Chicago. Sensacional! Mendelsohn termina assim seu relato:

           

“The crowd standing in the shadow of Lincoln had the scoop, a profound event to themselves, of the people and by the people.”

 

“As pessoas sob a sombra de Lincoln ficaram tocadas, um evento especial para elas, pelo povo e para o povo [referência ao final do discurso de Lincoln, feito em 19 de novembro de 1863 no cemitério militar de Gettysburg, na Pensilvânia.].”

Fonte: Matt Mendelsohn in Memorial Day, The New York Times, 6/11/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h13
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NÁUFRAGOS

“Logo tudo isso será seu...”

Fonte: Tab in The Calgary Sun, 3/11/2008.

 

         O genial italiano Giulio Carlo Argan escreveu um livro daqueles indispensáveis, daqueles de ficar emoldurado como obra-prima nas paredes da casa. Eis sua análise da obra “A Jangada da Medusa” de Théodore Géricault:

 

         “A obra mais famosa de Géricault é A Jangada da Medusa, iniciada em 1818, dois anos após a trágica ocorrência do motim, do naufrágio, da longa odisséia dos sobreviventes de um fragata francesa ao largo da costa africana. É, portanto, um quadro de história contemporânea, construído sobre um fato de crônica que abalara profundamente a opinião pública; o pintor se faz intérprete do sentimento popular. Depois de tantos quadros que celebravam a epopéia napoleônica, este subverte de um golpe a própria concepção da história – não mais heroísmo e glória, e sim desespero e morte; não mais triunfo, e sim catástrofe (Géricault projetou também um grande quadro com a retirada do exército francês na Rússia). O historiador da revolução, Michelet, viu no quadro de Géricault uma alegoria da França à deriva depois da queda de Napoleão: ‘nesta jangada embarcou a França inteira, toda a nossa sociedade.’ ”

         Fonte: Giulio Carlo Argan in Arte Moderna. São Paulo: Cia. das Letras, 1992, p. 53.

        

         O artista Tab, do Canadá, reinterpreta Géricault, agora pensando nos Estados Unidos e nessa passagem do bastão de George W. Bush para Barack Obama. O problema todo reside no maniqueísmo de pensar que a causa da catástrofe esteja em Bush e que, agora, com Obama, tudo vai ser diferente. Essa idéia do mauzinho que sai e do bonzinho que entra não se sustenta – mas serviu para ganhar a eleição. Não servirá para governar. O problema da política está em como lidar com a diferença, pois nessa jangada há de tudo: há os esperançosos, que se agitam e tem certeza de que alguém vai responder os gritos de socorro, há os conformados, há os pensativos, há os que já desistiram, há os mortos-vivos, há os muito vivos, os espertos, há os com água batendo na bunda, há os mergulhados já no mar. Em seu belíssimo discurso de agradecimento no Grant Park, em Chicago, Barack Obama disse o seguinte:

 

“E a todos aqueles que nos acompanham nesta noite, para além das nossas fronteiras, em Parlamentos e palácios, àqueles que se reúnem ao redor de rádios, nas esquinas esquecidas do mundo, nossas histórias são únicas, mas nosso destino é partilhado, e uma nova aurora na liderança americana irá surgir.

Àqueles que querem destruir o nosso mundo: nós os derrotaremos. Àqueles que buscam paz e segurança: nós os apoiamos. E a todos que vêm se perguntando se o farol da América ainda brilha como antes: nesta noite nós provamos mais uma vez que a verdadeira força da nossa nação vem não da bravura das nossas armas ou do tamanho da nossa riqueza, mas do poder duradouro de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança.”

Fonte: discurso de agradecimento de Barack Obama em Chicago in Folha de São Paulo, 6/11/2008.

 

         O que fazer com a catástrofe, o que fazer diante do desespero? A resposta de Barack Obama dignifica a política e traz a esperança. É a resposta de um líder e é também a resposta de um remador.

         Quanto à deriva...à deriva estamos sempre – não é passageiro esse estado. Ela é a nossa condição. Não estamos náufragos, somos náufragos. A alegria que nos resta, como bem disse o inesquecível Ungaretti, é súbito retomar a viagem. É derivar mais uma vez. De preferência, sem Guantánamo, sem invasão a outros países, sem fascismo. Agora, das sete frotas eu não abro mão. Até para poder continuar escrevendo o que eu escrevo e para garantir que Barack Obama não seja engolido por um urso ou queimado por um dragão. À deriva, senhor presidente, à deriva. Conte comigo.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h45
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SUBLIME

Fonte: The New York Times, 5/11/2008.

 

O anúncio acima está hoje na página A22 da edição histórica do The New York Times. Genial! No dia da eleição do primeiro presidente negro do país, a HBO homenageia sua melhor série, sua aula-magna sobre os Estados Unidos, que é a melhor minissérie já feita na história da televisão, “Família Soprano”, já lançada em DVD no Brasil. Que anúncio maravilhoso. Ele afirma que entre Obama e McCain só há uma unanimidade nacional: os Sopranos! Excelente! Epifânico!



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h45
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GOD SAVE ENGLAND

Nicole Scherzinger, namorada de Lewis Hamilton e cantora, alma, coração, pernas e tudo o mais do conjunto Pussycat Dolls. Pussy? Sem comentários. Dolls? Nicole está mais para goddess do que para doll. Muito mais – fotografia Reuters in Corriere della Sera, 4/11/2008.

 

         O que está acontecendo com a Velha Albion? Depois que James Bond negou fogo à Olga Kurylenko e depois que Lewis Hamilton não bebeu na festa da McLaren logo após o Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, algo está profundamente errado com a Inglaterra. Lewis Hamilton não bebeu nada depois da conquista do campeonato mundial! Nada! Um inglês que não bebe! E o outro que nada faz com a Olga Kurylenko! Essa não é a Inglaterra de Churchill, essa não é a Inglaterra de Shakespeare! É verdade que Lewis Hamilton diz que está namorando a belíssima, a gatíssima Nicole Scherzinger. Se for mesmo verdade, então há esperança para a Inglaterra. Se for verdade. Porque pode muito bem ser daqueles namoros light, daqueles namoros sem cafeína, daqueles namoros sem colesterol, arranjados, chochos. Mas, talvez esse não seja só um problema da Inglaterra. Basta observar Barack Obama, o bom-moço, o bom-orador, o bom-escritor de autobiografias, o bom-correto em tudo o que faz, o bom-presidente eleito dos Estados Unidos. Não será Barack Obama a síntese desse “novo” homem que se anuncia? O homem bom-bom? De qualquer modo, hoje é o dia de dar parabéns a Obama. Parabéns. Mas, voltemos ao tema e vejamos aqui um belíssimo exemplo da antiga alma inglesa, dessa alma de Milton, dessa alma de Robin Hood, na resposta que um deputado da oposição deu à primeira-ministra Margaret Thatcher – conhecida na época, segundo meu querido amigo e colega professor Pedro Elói, como TINA, There Is No Alternative, Não Há Alternativa, slogan utilizado por ela contra os países que não se alinhavam às políticas neoliberais e ironicamente aplicado hoje à ajuda aos bancos quebrados nos Estados Unidos e Europa-, lá nas priscas eras:

 

                “Certa feita, ao afirmar que não se deveria dar ouvidos ao enganador canto das sereias dos trabalhistas, ela saiu-se com esta pérola: “Se Ulisses tivesse ouvido o canto das sereias, seus navios teriam naufragado e ele não teria conseguido chegar a seu destino” – o que deu ensejo a que um deputado de oposição fulminasse o discurso da Dama de Ferro: “Em primeiro lugar, Ulisses ouviu a voz das sereias. Em segundo lugar, seus navios naufragaram. Em terceiro lugar, assim mesmo ele conseguiu chegar a seu destino. Por último, proponho uma comissão de inquérito que avalie a decadência dos estudos clássicos em todo o Reino Unido”.”

         Fonte: Cláudio Moreno in Zero Hora, 4/11/2008.

 

         Esse deputado demonstra o que foi a verdadeira Inglaterra – e não aquele monstrengo colonialista-fascista que, segundo Neruda, só deixou garrafas vazias por onde passou na África. Na resposta deste deputado, eis uma Inglaterra vibrante, estimulante, culta, uma Inglaterra ao avesso desse Bro(nd)-chante em cartaz nos cinemas. Quanto à Lewis Hamilton, com a palavra sua senhora, essa maravilhosa Nicole Scherzinger. Cabe a ela me dizer agora: é prá valer mesmo? Da sua resposta depende o futuro da Inglaterra. Nada mais, nada menos! Como? Você quer que eu suba para conversarmos a respeito? Pois não, querida, pois não – deixa eu avisar a Rainha que me espera ansiosa no telefone...

 

 

Nicole Scherzinger, a dama de todas as alternativas das Pussycat Dolls. O que são as outras pussycats perto da Nicole? – fotografia Reuters in Corriere della Sera, 4/11/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h46
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INSCRIÇÃO PARA UM ANEL

Fotografia de Arina [Minona] Reizvih.

 

       “Se me ocorresse gravar um anel escolheria esta inscrição: “Nada passa”. Creio que nada passa sem deixar rastro e que até o menor dos nossos atos resulta importante para a vida do presente e do futuro.”

 

         Missail Poloznek, personagem de Anton Pavlovitch Tchekhov in Minha Vida. São Paulo: Nova Alexandria, 2004, capítulo XX (há uma tradução do conto em inglês, gratuita, aqui).

 

         Nada passa. E é por isso então que...

 

         “Tinham a impressão de que mais um pouco e encontrariam a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.”

 

         Anton Pavlovitch Tchekhov in A Dama do Cachorrinho. A Dama do Cachorrinho e Outros Contos. São Paulo: ed. 34, 1999, p., 333.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h03
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A TRAIDORA QUE VEIO DO FRIO

Olga Kurylenko – fotografia Reuters in El País, 3/11/2008.

            A realidade sempre supera qualquer ficção. A notícia veio de Patricia Tubella, correspondente do El País em Londres:

         “A traição de Olga Kurylenko

         Os encantos de Olga Kurylenko não conseguiram conquistar o Partido Comunista da russa São Petersburgo, cujo líder, Sergei Malinkovich, reprova a atriz e modelo ucraniana por causa de sua “traição aos ideais socialistas” por ela ter participado do novo filme de 007, Quantum of Solace. “Que esta mulher ucraniana tenha ido para cama com Bond significa que a Ucrânia se deita com o Ocidente. Onde está a sua consciência?”, arrematou o líder. O curioso é que, no filme, Kurylenko interpreta uma boliviana.”

         Fonte: Patricia Tubella in El País, 3/11/2008.

         Traição aos ideais socialistas? Mas acontece de tudo no filme, menos ela ir para a cama com James Bond! Agora, e se ela tivesse ido? Qual o problema da Ucrânia ir para a cama com o Ocidente? Talvez o camarada Malinkovich deseje a Ucrânia só na cama da Rússia – aliás, cabe lembrar a estranhíssima e enigmática tentativa de envenenamento do atual presidente da Ucrânia, Víktor Yushenko, que deixou marcas irreversíveis em seu rosto. Será que a mão invisível da antiga companheira de cama teve algo a ver com isso? Agora, o que mais chamou minha atenção nas palavras do Grande Irmão Malinkovich foi a pergunta: “onde está a sua consciência?”. Vinda de quem vem, essa é a melhor explicação para o grande conceito lacaniano de que sempre recebemos nossa própria mensagem de modo invertido, ou seja, a pergunta que se faz para um outro, é dirigida para si mesmo. Onde está a sua consciência, camarada? De qualquer modo, entre a consciência de Olga Kurylenko e a consciência de Sergei Malinkovich, eu fico com Olga Kurylenko. Sempre. Entre os ideais socialistas e a traição de Olga Kurylenko, eu estou com a traidora.

         Para concluir: só falta agora o companheiro Evo Morales proibir o filme na Bolívia! Olga Kurylenko boliviana? Sensacional! Agora ficou obrigatório ver o filme!

O que é que a Ucrânia tem? Além de Olga Kurylenko, eis aqui a primeira-ministra, Yulia Timoshenko. Epifânica!!!!



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h47
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MATARAM JAMES BOND E ELE NADA SABE DISSO

Olga Kurylenko in Maxim, Reino Unido, maio de 2008. Fotografia de Michael Muller/Twentieth Century Fox.

 

Há três anos, quando esse blog começou, ainda havia James Bond. Hoje, não existe mais. James Bond morreu em Cassino Royale, na cena em que a belíssima e inesquecível Caterina Murino, jóia da Itália, tenta desesperadamente se entregar para essa anta do Daniel Craig, trai o marido por ele, se joga no chão por ele, faz tudo por ele e ele...nada. Sai correndo, parece um fóbico de mulher, apavorado, sai desesperado atrás...de um homem! Isso é o fim! Acabou! Ian Fleming não conseguiu ficar no caixão de tanto ódio. Que Bond é esse? Quem é que larga desse jeito Caterina Murino? Quem é que põe o dever acima do prazer assim? Castraram James Bond e ele nada sabe disso! Eu lembro de ter ido ao cinema com meu filho Bernardo e ter saído pasmo do cinema. Como explicar ao meu filho minha desolação? Ele, todo animado, me dizia: “filmão, pai”. E eu não agüentei. Falei: “meu filho, esse não é James Bond. Vou te mostrar os outros filmes para você ver quem era James Bond. Esse aí é um bocó, um tapado, esse deixou a Caterina Murino, meu filho. Isso não se faz, meu filho, isso não”.

E agora, quando se anuncia “Quantum of Solace”, que já começa perdido na tradução – alguns optam por “um pouco de consolo”, outros por “um lugar para descansar” -, o filme tem a audácia de trazer a maravilhosa Olga Kurylenko como bond girl em um roteiro em que James Bond não vai para a cama com ela! Uma bond girl que esperou o bonde, e o bond não compareceu! De novo! O túmulo de Ian Fleming está vazio! Para mim, chega. Com certeza o filme vai ser censura livre. Assassinatos? Pode. Torturas? Pode. Sexo de homem com mulher? Não pode.

Eu lembro a meus novos leitores, já que os velhos sabem disso, que no dia 9 de janeiro desse ano eu iniciei uma campanha aqui no blog para descobrir em Curitiba quem é o parente dessa magnífica ucraniana Olga Kurylenko. Ao menos um parente ela deve ter por aqui. A Ucrânia inteira mora em Curitiba. Ao menos um tem que ter! Temos que homenagear Olga Kurylenko em Curitiba. É urgente isso. Essa menina foi ultrajada nesse James Bond. É uma infâmia o que fizeram com essa mulher!

Que lugar para descansar é esse? Que consolo é esse? Ridículo. Bernardo acaba de me perguntar: pai, vamos na estréia? Minha resposta: ao DVD, meu filho, à Moscou contra 007, à Octopossy, à Viva e Deixe Morrer. Às mulheres, meu filho, às mulheres!



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h36
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