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ANIVERSÁRIO

Marylin Monroe poucos segundos antes de cantar “Happy Birthday” para o presidente dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy, em 19 de maio de 1962, no Madison Square Garden em Nova Iorque.
Esse blog completa hoje três anos de idade! Três anos!!! Sensacional, magnífico, epifânico!! Três anos ininterruptos, três anos todos os dias, três anos de amor, paixão, romance, tesão, carinho, sexo, três anos de vida, muita vida, três anos de cartas de amor, três anos de palavras, de frases, de poesia, muita poesia, três anos de conversa fiada, três anos de repetições, muita, três anos de fracassos, e cada vez fracassos melhores, três anos de mal entendidos, três anos perdidos na tradução, três anos de desencontros, três anos de incompreensão, três anos de garrafas jogadas ao mar, três anos maravilhosos, três anos cronológicos, três anos para as mulheres da minha vida, Belkiss, é claro, Isabela, é claro, Manon, toc,toc, toc, Cyntia, que passeio, Elizabeth, que semana, Deyse, uma filha, Helena, fazia-me imortal, Monica, meus primeiros passos em italiano, Beatriz, meus primeiros passos mesmo, Graciê, quanto carinho, Sílvia, Fontana di Trevi, Cláudia, quanta entrega, Simone, quem eu nunca entendi, Rosângela, flor que me partiu em dois, Maria Luísa, as primeiras brincadeiras que me fizeram saber para sempre que um corpo não é só biológico, Silmara, a dor do ciúme, desgraçada, Andréia, que só pensava no outro quando comigo e só pensava em mim quando com ele, Rejane, o impossível mesmo, chata, Rosângela, o primeiro beijo, Estela, gauchinha bem querer, Otília, que me amou sem limites, Ruth, mamãe também, que me levou pela mão por um Rio de Janeiro para toda a minha vida, e para aquela que nunca me deu o nome, mas me ensinou que uma vitória régia pode não ser vitória nem régia e que, mesmo assim, vale a pena. Como vale.
Três anos para vocês, meus filhos queridos, Andréa, apaixonada por tudo o que faz, meiga, linda, linda, linda, Bernardo, que tanto me ensina com seu humor tão deslumbrante e seu jeito desajeitado, e que resolve tudo o que aparece pela frente, tudo mesmo, e Ricardo, querido demais, cada vez que entra na sala, me desequilibra, me enche de orgulho, cada vez que me pergunta o que vai ter de almoço já me mandando urgente ir comprar seus hossomakis de salmão, independente da minha resposta, e que vai à luta mesmo quando eu desaprovo, mesmo quando eu não entendo nada, mesmo quando eu não estou.
Três anos para vocês, meus irmãos, Carlos Eduardo, que trouxe o fogo desde meus primeiros passos, e Marcelo, meu aliado e companheiro pelos mistérios de uma casa aos pedaços.
Três anos para vocês, meus amigos do peito, Éder, sempre comigo, ao meu lado, Nilton, onde você estiver, Eveline, quantas portas me abriu, André, meu novo irmão, Sérgio, Rosely, Antonio, Alduísio, Sunilda, Ricardo, Christian, Pedro Elói, Hilton, Gilmar, Rodolfo, Vidal, Simone, Rafael, Carlos Alexandre, Marcelo, Adauto, Rubens, Tânia, Rejane, Regina, Maitê, tantos, tantos, tantos.
Três anos para todos os meus analisantes que suportam e já suportaram meus equívocos, meus enganos, meu não saber e que ainda assim me ensinam tanto sobre a vida, ainda assim confiam que juntos nós vamos resolver, nós vamos mudar, nós vamos caminhar, nós vamos continuar. Nós vamos.
Três anos para você, meu pai, que me ensinou a gostar de mulher e que me levava o Noticioso, a Zero Hora, o Correio do Povo, a Folha da Tarde e o Pasquim sem me dizer o que fazer com isso. Obrigado, papai, obrigado.
Três anos para todas as minhas leitoras, exigentes e para todos os meus leitores, fiéis, obrigado, muito obrigado.

Fonte: Google Analytics, consultado em 30/10/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h07
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FOI AÍ QUE EU PERDI

Estação ferroviária de Carazinho, por volta de 1920. Acervo da família de Álvaro Vargas.
Uma das lendas mais importantes da minha vida é a do Negrinho do Pastoreio. É que no final dela, está dito que, quem perder algo, deve acender uma vela e dizer três vezes: “Foi aí que eu perdi. Foi aí que eu perdi. Foi aí que eu perdi”. Há até uma linda musiquinha que eu escutava assim: “Negrinho do Pastoreio, acendo essa vela pra ti e peço que me devolvas a querência que perdi...”
Lendo hoje esse poeta chinês, Tao Yan-Ming, me lembrei do Negrinho. Ou será que foi pensando no Negrinho que eu cheguei até Tao? Ou será que foi depois de acender aquela vela?
Bêbado e sóbrio (tradução feita do espanhol)
Tao Yan-Ming, poeta chinês que viveu entre 372 e 427.
“Um hóspede mora em mim,
nossos interesses não são completamente os mesmos.
Um de nós está bêbado,
o outro está sempre acordado.
Acordado e sóbrio
rimos um do outro,
e não compreendemos o mundo do outro.
Propriedades e convenções,
que bobagem segui-las muito seriamente.
Seja orgulhoso, não seja tapado,
então te aproximarás da sabedoria.
Escuta tu, velho bêbado,
quando o dia morrer,
acenda uma vela”.
Fonte: La Nación, 17/10/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h24
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DESMEDIDA

Diana Krall em Ipanema - fotografia de Mônica Imbuzeiro in O Globo, 30/10/2008.
O Rio de Janeiro não era meu destino hoje. Mas aí, apareceu Diana Krall em Ipanema. Apareceu? Não. Fulgurou, iluminou, cintilou. E disse o seguinte, em Ipanema:
“Procuro dar um tratamento novo ao que pego para cantar. “I’ve got you under my skin”, na versão de Sinatra, é quase uma canção pop, ritmada; enquanto eu gravei de uma forma lenta, escura, triste. Tenho uma queda por esses climas soturnos.”
Fonte: entrevista de Diana Krall a Antônio Carlos Miguel in O Globo, 30/10/2008.
Como eu estava dizendo, Diana Krall em Ipanema, Diana Krall falando de “I’ve got you under my skin” em Ipanema, Diana Krall declarando sua queda pelo soturno em Ipanema. Então fui ouvir de novo, sob Ipanema:
“I’ve got you under my skin”, eu tenho você, para sempre, dentro do meu coração, não adianta eu fingir, não adianta você querer voltar para o Canadá, “I’ve got you deep in the heart of me”, porque você está no fundo e ao mesmo tempo em toda a minha superfície da pele, você está na cara e em tudo aquilo que é deep em minha vida, “so deep in my heart, that you’re really a part of me”, tão no fundo que já faz parte de mim – lindo isso, “I’ve tried so not to give in”, eu tentei não desistir, eu tentei, “I’ve said to myself this affair never will go so well”, eu disse para mim mesmo que esse caso – caso? Nunca. Affair? Nem pensar – nunca daria certo, mas esse never é muito pesado, é muito soturno, é a pior palavra da língua, never, eu não aceito never, eu tiro esse “n” da frente cada vez que você soletra de novo tentando me fazer entender – “But why should I try to resist, when baby will I know so well that I’ve got you under my skin”, pois é, por que resistir, por que lutar contra um saber que desafia tudo o que se conheceu até hoje, um saber insabido, um saber que é do contra, saber que você está dentro de mim – eu agora sou você, só assim I’ve got you! “I’d sacrifice anything come what might”, eu sacrificaria o que quer que fosse, por mais terrível que seja qualquer sacrifice, “for the sake of having you near”, para ter você perto de mim, em Ipanema, na Tijuca, em Vila Isabel, “in spite of a warning voice that comes in the night”, apesar daquela voz que me atormenta à noite, a voz do supereu? “And repeats, repeats in my ear”, e fica lá gritando, se agitando em meus ouvidos, “don’t you know you fool, you never can win”, será que você não sabe que nunca vai vencer, seu bobo, seu tolo, nunca vai ter de volta o que nunca teve, será que você não percebe que ela já embarcou para outro...lugar? – “use your mentality, wake up to reality”, em Ipanema? Com você, Diana, sussurrando isso prá mim? Usar a cabeça, acordar para a realidade? Não quero, não vou. É para a fantasia que eu sou acordado, é para a fantasia que vive em mim, é ela minha guia, meu coração – “but each time I do, just the thought of you”, e cada vez que eu tento, é a lembrança tua, doce lembrança, suave lembrança, bela lembrança, “makes me stop before I begin”, me faz parar antes de começar, “ ‘cause I’ve got you under my skin”, porque você está dentro de mim. Lenta, escura, triste, soturna? Não, Diana, nunca I’ve got you under my skin desse jeito. Por mais que você tente, por mais que você queira que assim seja, por mais que você resista. Mas ontem, foi aí na nossa praia, foi aí no nosso hotel, foi aí no nosso bairro que você fez questão de aparecer. Lânguida, brilhante, desejante. É esse nosso olhar que você decidiu cantar no Brasil. Você não quis acreditar, mas é a sua voz que agora retorna para falar desse doce sonho, desse doce encontro. Eu, você, nós dois, nesse terraço à beira-mar. I’ve got you.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h06
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DESMEDIDO

Fotografia de Gianni Berengo Gardin, Paris, 1954.
“Tua boca fresca é um beijo desmedido”
Tua boca fresca é um beijo desmedido...
- E isto é tudo, e toda sou pedido.
Quem sou agora? – Uma? – Não, milhar!
Sou a conquista – não o conquistar!
É isso amor ou – mera admiração?
Vezo da pena ou – causa primeira?
Será tristeza por não ser um anjo?
Ou certo fingimento – por inclinação...
- Encanto dos olhos, alma sofrida,
Risco de pena –ah! – tanto faz, no entanto,
Como chamem esses lábios – enquanto
Tua boca fresca – um beijo desmedido!
Fim de novembro de 1918
Marina Tsvetáieva – tradução de Aurora F. Bernardini in “Indícios Flutuantes”. São Paulo: Martins, 2006, p.65.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h09
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MENSAGEM DO ROTO PARA O ESFARRAPADO

“O Banco Central dos Estados Unidos traz “o” especialista em gestão de crises
‘Em primeiro lugar, vocês precisam estabelecer um nível básico de estabilidade e tranqüilizar a vizinhança – só então vocês podem pensar em se retirar e em trazer o mercado de volta para o povo americano’.
Fonte: Sage Stossel in The Atlantic, 10/10/2008.
Sage Stossel fez uma divertida sátira ao Banco Central dos Estados Unidos (FED). Ela se inspirou na moda que a administração adora de trazer um “especialista” de outra área para dar conselhos e indicar caminhos aos perdidos e atentos “alunos”. Eis aí o general David Petraeus, que durante 19 meses foi o comandante das tropas norte-americanas no Iraque e que agora assumiu o cargo de comandante do Comando do Conjunto Central, a cargo de uma área que se estende do leste da África até o Afeganistão. E o que recomenda o general aos “gestores” do banco? A revogarem imediatamente a idéia de “livre mercado” e intervirem, como ele fez no Iraque, sem dó nem piedade, para estabelecer essa palavra mágica “stability”, para só depois pensar na famosa “retirada” – o que, no capitalismo, é muito engraçado, pois faz pensar que a tão sonhada “mão invisível” do mercado – o delírio supremo de Adam Smith – precisa da “mãozona/mãezona” do governo para funcionar. O que faz pensar que essa “retirada” nunca pode acontecer totalmente – daí o grande debate em uma democracia: quanto de governo temos que suportar para garantir essa estabilidade? Genial sátira dessa cartunista maravilhosa. Ela termina com a cereja no topo do bolo: esse “turning the market back” é muito irônico, pois se é necessário agir sobre o mercado para transformá-lo, para revirá-lo do avesso, para fazê-lo funcionar, é óbvio que, deixado livre e solto, ele desembesta, ele vira bicho, ele não funciona como deveria. Que um general tenha que ensinar isso ao governo, é mais uma preciosa ironia dessa maravilhosa Sage Stossel. Por outro lado, há que pensar também que se trata aqui de lições de um roto para um esfarrapado. Que o governo queira dar lições ao mercado é muito engraçado, pois o governo, qualquer que seja ele, só sabe conjugar um verbo na vida, desde que nasceu: gastar. Ele não sabe fazer outra coisa. Ainda mais essas “forças armadas”, necessárias sim, porém um sumidouro impressionante de verbas públicas. Esse é outro debate essencial em uma democracia: quando é que uma vitória militar passa a ser uma vitória de Pirro? Que tamanho deve ter esse “conjunto central” para a tranqüilidade da vizinhança?
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h10
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O MAPA DA PULSÃO

Fonte: The New York Times, 25/10/2008.
Chris Harris e Stephanie Chen fizeram sábado no The New York Times a melhor homenagem que uma democracia merece. Em um “mapa eleitoral” genial, eles dividiram os Estados Unidos não mais por uma reunião de estados, mas sim pela pulsão, ou seja, por aquilo que nos diferencia radicalmente uns dos outros – a tesão singular de cada um. Uma das sacadas mais geniais de Freud foi perceber que o objeto da pulsão não existe – existem “os”, ou seja, o plural, o variado, sendo que nenhum consegue totalmente satisfazer – e por isso, os prazeres são sempre parciais e a insatisfação é de estrutura, e não fruto de uma crise específica ou da “desatualização” do objeto. Em outras palavras, nós somos a crise – não estamos em uma. Nessa “zona” do mapa, há de tudo. Até eleitores.
Em uma tradução rápida, a partir da coluna da esquerda, de cima para baixo:
“Solidamente apoiando McCain” [uma das áreas do mapa é o atual Texas], “solidamente apoiando Obama”, “algumas vezes se inclinando para McCain”, “talvez se inclinando para Obama”, “solidamente afastados pelo cabelo esquisito do Joe Biden [vice de Obama]”, “tendendo a se afastar devido ao cabelo esquisito de Joe Biden”, “exatamente em cima do muro”, “não tem certeza sobre quem apoiar, mas desgostoso de ambas as táticas”, “adoram Coldplay[banda de rock]”, “enjoados de ouvir a mesma piada dos garçons: ‘ei, você deve ter odiado isso, não?’ “, “isso é desagradável, mas nós esquecemos de fazer pesquisa nesse estado. Desculpem, nossa falha”, “seriamente dedicados à dieta, só que no último final de semana não deu para segurar”, “Senhor, eu estou voltando para casa para te encontrar” [é o estado do Alabama], “parados na frente da bomba de gasolina”, “preocupados pela derrota na Guerra dos Que Não Querem Desligar seus Iphones”, “apenas recentemente compreenderam que o “L” da marca “Staples” [cadeia de lojas de material de escritório] significa um clipe “, “quem está preocupado com o que nós pensamos? Ohio vai decidir isso”, “intimamente preocupados em jogar garrafas recicláveis no lixo que não é lixo”, “área dissolvida na última crise financeira, os votos foram comprados pelo banco JP Morgan”, “a favor da emenda constitucional que bane as caminhonetes (SUVs) de espaços restritos”, “de saco cheio com a confusão total, mudaram-se para o Canadá”, “honestamente, bem felizes por terem pela primeira vez na vida alguma atenção”.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h16
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O CORPO DO AMOR

“Vive-se uma só vez”, Fritz Lang, 1937. Existe em DVD no Brasil pela Aurora.
Há muito tempo que eu não me emocionava tanto ao ler um artigo. O que Gustavo Martín Garzo escreveu hoje se chama obra de arte, obra-prima, epifania. É uma das homenagens mais lindas já feitas ao cinema, à vida, ao amor. Há uma poesia nessas linhas, há uma vida pulsando aqui, há uma paixão tão intensa, tão humana, tão querida. É dos artigos para serem recitados em voz alta antes do amor, durante e depois. É para ser lavrado na pedra, transformado naquelas placas de bronze, inscrito em vidros, colado nos postes de todas as ruas das cidades. Que bela canção há aqui, que belas palavras. É um artigo para virar cátedra nas universidades, cartilha de alfabetização, divisor de águas entre civilização e barbárie. A cena aqui relembrada do filme de Fritz Lang é de chorar de tão linda.
Alguns trechos memoráveis, inesquecíveis, tocantes:
“Eu não posso precisar qual foi o primeiro filme que vi, mas tenho certeza que foi nos braços de minha mãe, pois nessa época existia o costume de levar as crianças de colo ao cinema. Era um tempo em que não existiam muitos entretenimentos e no qual a paixão pelo cinema era compartilhada entre adultos e crianças. (...)
Há em “Vive-se uma só vez” [“You Only Live Once”, 1937], o maravilhoso e desolador filme de Fritz Lang, uma cena inesquecível. O filme trata de um homem que sai da cadeia depois de cumprir sua sentença. Fora do presídio, sua noiva o espera para tentarem o início de uma nova vida. Mas, a fatalidade lhe impede de seguir um caminho correto, e, após ser demitido do trabalho, lhe acusam de um homicídio que não cometeu. Começa então uma fuga de conseqüências fatais, em que ambos fogem para a fronteira mexicana, onde a polícia montou uma armadilha. Disparam contra eles, obrigando-os a se refugiar em um bosque. Quando já pensam ter conseguido escapar, ela cai ferida por um tiro. O homem prossegue o caminho levando-a nos braços, até que, esgotado, se detém debaixo de uma árvore. É uma noite muito bonita, com o céu cheio de estrelas, e a mulher, que está morrendo, lhe diz que voltaria a fazer tudo de novo, se esse é o preço que tem de pagar para estar a seu lado.
Eu vi esse filme quando adolescente, na época de minha vida em que essas histórias de amores românticos e desgraçados eram as minhas prediletas. Eu amava essa obstinação dos amantes, capazes de arriscar tudo para não renunciar ao que amavam. E o cinema resumia para mim essa frase que ela diz a seu amado, e que só depois eu fui entender: “Eu faria tudo de novo”. Ela era declarada por todos os amantes do mundo, seres vulneráveis que se empenhavam em fazer algo que quase sempre superava suas forças, pouco se importando com o fracasso, pois sabiam que fizeram o que deviam fazer, ainda que isso lhes custasse a vida.
Eu ia ao cinema, sobretudo, para aproximar-me do coração das mulheres e escutar-lhes dizer essas frases. O cinema me permitia entrar em seus quartos, ler suas cartas mais íntimas e penetrar em seus pensamentos. E, em conseqüência, ver seus rostos e surpreendê-las no instante de se desnudar, como Acteão fez com Ártemis no bosque. Um dos contos de minha vida tem a ver com uma princesa das Mil e Uma Noites que possuía o poder de iluminar trilhas, jardins e casas, com a luz que se desprendia de seu corpo por causa do amor que sentia por um misterioso estrangeiro. O cinema foi sempre o lugar perfeito para ver esse corpo cheio de luz. Há uma cena de um dos filmes de Tarzan que fala disso. Tarzan está ferido na cabeça e Jane utiliza, para estancar o sangramento, um pedaço de seu vestido. Mas, como Tarzan não pára quieto e o tempo todo retira a bandagem, Jane é obrigada a continuar tirando mais tiras até ficar quase nua. Isso das mulheres irem perdendo partes de suas roupas foi um recurso maravilhoso desses filmes antigos. Vê-las cada vez mais desnudas, mostrando suas pernas e seios, quanto maiores fossem os perigos, rodeadas de vulcões de lava, nadando em rios cheios de crocodilos ou deitadas na cama sob o olhar de Drácula, seus corpos mostravam-se mais lindos do que nunca. E esse era o descobrimento: a verdadeira aventura era a de se aproximar desse corpo cheio de promessas e perigos, que é o corpo do amor. Em nenhum outro lugar se mostrou melhor esse corpo do que no cinema, talvez porque em suas salas, com sua estranha escuridão, se situa no meio do caminho entre a realidade e o sonho, entra a ficção e a vida.
No cinema Capitol, um cinema que não existe mais em minha cidade, havia um cartaz junto à bilheteria que dizia: “Todos los niños que no sean de pecho pagan localidad” [“Todas as crianças que não mamem no peito, pagam ingresso”]. Eu já disse que era tão grande o amor pelo cinema que, quando as mães entravam com seus bebês e se, no meio do filme, eles começassem a chorar, elas lhe davam o peito ali mesmo. Agora eu imagino esse bebê, olhando alternadamente o rosto de sua mãe e a tela do cinema, e unindo para sempre em seu pensamento essa justaposição. Bertolucci fez um filme, La Luna, em que uma mãe passeia com seu filho de bicicleta. O menino a olha, de baixo para cima, e vê seu rosto ao lado da lua que há no céu. Uma noite, o menino acorda e, ao ver a mesma lua na janela de seu quarto, acredita que é sua mãe fazendo a vigília de seu sono. Eu creio que a fascinação que o cinema exerce sobre a criança tem a ver com esse momento inicial. A penumbra do cinema não é diferente daquele que reinava em seu quarto, e os rostos enormes que essa criança vê na tela do cinema pertence à mesma ordem da realidade que àquela gigante que aparecia em seu berço para olhá-lo. (...)”
Fonte: Gustavo Martín Garzo in Sólo los niños de pecho no pagan entrada, El País, 26/10/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h03
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