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PARA ANDRÉA, COM AMOR

Alexander Calder, “Josephine Baker IV" - Georges Megueritchian, Calder Foundation, New York/Artists Rights Society (ARS), New York in The New York Times, 12/10/2008.
À minha querida filha, Andréa, uma química apaixonada.
Eu gosto de pensar em Calder como meu irmão, um ferreiro. Foi assim que ele homenageou para sempre a Josephine Baker. Ele conseguiu amá-la em cada linha que retorceu, em cada nó que traçou, em cada curva que preservou. Na arte de um ferreiro, há um amor pelo metal, há um amor em transformar esse metal em discurso, há um amor em usar o martelo, as tenazes, a bigorna, a fornalha, a água, o sal grosso, o óleo, há um amor em modificar a face do metal, em imprimir no metal um nome, uma forma, um rosto, uma saudade, uma história. Na arte de um ferreiro, as marcas ficam para sempre. É que ele pode adicionar carbono ao ferro, transformando-o em aço. O ferro, nas mãos de um ferreiro, é maleável. Através de um ferreiro, as marcas são de fogo, elas se inscrevem no real de um corpo de um modo que o tempo, por mais que tente, com a ferrugem, por mais que atente, com a corrosão, por mais que faça força contra, com a anemia, nada pode com o resto, com o elemento intacto, o ferro. Sem o ferro, o sangue enfraquece, o sangue se desmancha, o sangue já não transporta oxigênio. O ferro é vital, seminal, essencial. Com ele se pode dançar com Josephine Baker, com ele Josephine Baker pode suspirar, com ele esse amor entre Alexander Calder e Josephine Baker pode durar para sempre. Essa é a arte dos ferreiros. Essa é a nossa arte, minha filha querida. Fazer do ferro uma arte, a arte de amar, a arte de viver.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h50
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YES

Kate Moss por Hedi Slimane in Libération, 7/3/2008.
Dear Ferrari,
Do you remember? I was a Flower of the mountain yes when I put the rose in my hair like the Andalusian girls used or shall I wear a red yes and how he kissed me under the Moorish wall and I thought well as well him as another and then I asked him with my eyes to ask again yes and then he asked me would I yes to say yes my mountain flower and first I put my arms around him yes and drew him down Jo me so he could feel my breasts all perfume yes and his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes.
You have not given me the eternal sunshine of the spotless mind. I need your lovin’ like the sunshine. I love you. Yes, yes, yes.
Kate.
Escrito por Leonardo Ferrari às 10h31
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POR ENTRE

Kate Moss por Hedi Slimane in Libération, 7/3/2008.
“Lá fora está chovendo”. É verdade. Há muita chuva agora por lá. “Mas assim mesmo eu vou correndo / só pra ver o meu amor”. Como é lindo isso. Ir correndo assim mesmo, com medo de escorregar, com pavor de cair e, assim mesmo, ir. “Ela vem toda de branco / toda molhada e despenteada / que maravilha, que coisa linda que é o meu amor”. Toda molhada. Vai passar a vida tentando secar o que não é da chuva? Toda molhada. Vai fazer de conta que não vai acontecer mais? “Por entre bancários, automóveis, ruas e avenidas / milhões de buzinas tocando em harmonia sem cessar”. Como é lindo esse “por entre”. Há bancários entre nós, há automóveis entre nós, há ruas e avenidas entre nós. Mas, mesmo assim, lá estamos “por entre”. “E ela vem chegando de branco, meiga, pura, linda e muito tímida”. Muito tímida, muito medrosa, muito insegura, muito errante – mas toda molhada, todinha. E vem chegando. “Com a chuva molhando seu corpo lindo que eu vou abraçar, todo meu, todo meu”. A chuva também molha seu corpo. “E a gente no meio da rua no mundo, no meio da chuva, a girar, que maravilha”. Lindo, lindo, lindo. A gente no meio da rua no mundo. Quanta coragem, milhões de buzinas tocando, quanto risco, no meio da rua, quanto amor, toda molhada. Vamos girar.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h02
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SAIR DE CASA

Fonte: Marco Aurélio in Zero Hora, 23/10/2008.
O gênio Marco Aurélio me lembrou uma das cenas mais bonitas da história do cinema. Trata-se do maravilhoso “O Poderoso Chefão – parte 2” de Francis Ford Coppola. A cena ocorre quando o personagem Vito Corleone, que, aliás, teve seu sobrenome modificado arbitrariamente na chegada aos Estados Unidos, de Andolini para Corleone, nome de sua cidade – fato esse já de uma violência “legal”, “institucional” muito bem trabalhada no filme -, agora adulto, retorna com toda a sua família para sua cidade na Sicília. Um retorno motivado também pela vingança. Mas, é em uma mesa a céu aberto, com todos os seus parentes vivos reunidos, que ele pede ao seu filho que dê um presente à sua avó. Ela abre o embrulho e trata-se da miniatura da estátua da liberdade. Belíssima cena. Simbólica cena. Isso me levou até o gigante Elio Vittorini que, no inesquecível e leitura obrigatória de todos os dias “Conversa na Sicília”, abre assim a epifania:
“Eu, naquele inverno, estava tomado de furores abstratos. Não direi quais, não é isso que me proponho a contar. Mas é preciso dizer que eram abstratos, nada heróicos, nem vivos; de qualquer maneira, furores pelo gênero humano perdido. Vinha assim há muito tempo, e andava cabisbaixo. Via manchetes nos jornais sensacionalistas e abaixava a cabeça; estava com os amigos, uma hora, duas horas, e ficava com eles sem abrir a boca; abaixava a cabeça; e tinha uma moça ou uma mulher que me esperava, mas nem com ela eu trocava uma palavra, mesmo com ela eu abaixava a cabeça. Chovia o tempo todo, passavam-se os dias, os meses, e eu tinha os sapatos furados, a água me entrando nos sapatos, e não era mais nada que isso: chuva, carnificinas nas manchetes dos jornais, e água nos meus sapatos furados, amigos mudos, a vida em mim como um sonho surdo, a não-esperança, calmaria.”
Elio Vittorini in Conversa na Sicília. São Paulo: Cosac & Naify, 2002, p. 1. Tradução de Valêncio Xavier e Maria Helena Arrigucci.
E aí, lá vai esse homem de volta para a Sicília. Vittorini, e ainda bem, não é Homero. Não há Ítaca no final do percurso. Há caminhante! O livro termina de forma genial:
“E fui saindo de casa, na ponta dos pés.” (p. 275).
Magnífico! É isso a liberdade, é isso a esperança. Mesmo que na ponta dos pés, mesmo que tropeçando, mesmo com água nos sapatos furados, há que andar por aí, caminhar, prosseguir. Em frente? Pode ser. Mas pode ser também para trás, para os lados, nas diagonais, nas paralelas, para o alto, para baixo. Sair de casa significa deixar de ser estátua.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h50
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SINAIS

Fotografia de Vitor Shalom.
“Como te explicar: eis que de repente aquele mundo inteiro que eu era crispava-se de cansaço, eu não suportava mais carregar nos ombros – o quê? – e sucumbia a uma tensão que eu não sabia que sempre fora minha. Já estava havendo então, e eu ainda não sabia, os primeiros sinais em mim do desabamento de cavernas calcáreas subterrâneas, que ruíam sob o peso de camadas arqueológicas estratificadas – e o peso do primeiro desabamento abaixava os cantos de minha boca, me deixava de braços caídos. O que me acontecia? Nunca saberei entender mas há de haver quem entenda. E é em mim que tenho de criar esse alguém que entenderá.”
Clarice Lispector in A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 44.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h38
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UM REITOR PARA NOSSO TEMPO

Fonte: El País, 20/10/2008.
O reitor da Universidade de Nova Iorque, John Sexton, esteve ontem em Madri em visita ao campus desta universidade, privada, que tem campus também na Argentina, China, França, Gana, Reino Unido, Itália e República Tcheca. Na excelente entrevista que deu a J.A. Aunión, do El País, destaco a resposta que Sexton deu à sua filha sobre a escolha da profissão:
“Sua filha lhe enviou um email pedindo-lhe conselhos porque “no trabalho de seus sonhos” ela ganhava muito mal. “Mas não quero esse seus discurso de “siga tuas paixões”, eu quero um conselho de meu pai prático, objetivo” – ela escreveu. Sexton respondeu: “Este é o conselho de um pai prático: siga tuas paixões. Porque, se você vai atrás delas, é verdade que não vai saber muito bem onde elas te levarão, mas eu te asseguro que pelo menos será uma vida feliz, independente da riqueza ou da pobreza.”
Fonte: entrevista de John Sexton a J.A. Aunión in El País, 20/10/2008.
Sensacional!! Em outro trecho memorável da entrevista, Sexton declara:
“Houve uma mudança perniciosa no conceito de universidade. Ela passou de um bem público para um bem privado (...). A universidade precisa ser vista como um bem público, não um bem privado. Se fossem transportados para o setor privado as responsabilidades que uma universidade possui, eles não conseguiriam responder por isso. Na zona do Golfo Pérsico, há líderes que tentaram criar um sistema universitário como um modelo de negócios: eles investiram dinheiro e querem seus retornos quantificados. Isso está condenado ao fracasso, porque nenhuma universidade de primeira linha, nenhuma grande universidade pode ter êxito como um negócio. A Universidade de Nova Iorque é a maior universidade privada dos Estados Unidos, e somos um fracasso como negócio, perdemos dinheiro todos os anos.”
Fonte: entrevista de John Sexton a J.A. Aunión in El País, 20/10/2008.
Resta saber agora qual universidade privada brasileira vai convidar o reitor John Sexton para uma aula magna sobre o que uma grande universidade deve ser. Alguém interessado?
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h28
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PARTIR
NEBRASKA
Senador processa Deus
Nahum Sirotsky in Zero Hora, 20/10/2008.
A crise tem estranhas repercussões. O senador americano Ernie Chambers, de Nebraska, quis protestar pela situação. Decidiu que Deus tinha de ser punido pela crise e matanças e destruições, aterrorizar milhões e milhões de seres. Entrou na Justiça. Citou casos concretos de enchentes, terremotos, pragas, fome, genocídios, defeitos de nascença. Identificou o acusado também conhecido por inúmeros e diferentes nomes. E justificou que a Constituição garante a cada um o direito de processo. E que, por ser onipresente, ELE também está em Nebraska. O juiz julgou o processo inviável por ser impossível convocar o acusado por não ter endereço conhecido. O senador tem 30 dias para apelar da sentença.
Agora é só entre você e eu. Não mais advogados, não mais juízes, ninguém mais. Criador e criatura? Por que? Houve um dia em que eu acreditei que, pela existência dela, você existia. Se ela existe, então tinha que haver você. Durou pouco. Ela existe, mas não para mim. Destino? Houve um dia em que eu acreditei que, remando e remando, eu chegaria a Ítaca. Nunca vou chegar. Ítaca não há. Sorte? Houve um dia em que eu acreditei que só depois eu compreenderia. Depois do que? De lá, ninguém nunca retornou, viajante nenhum. Sina? Mas, houve um dia em que, pelas palavras, eu aprendi que poderia navegar por aí – Carazinho, Curitiba, Vignola, São Paulo, Florença, Rio de Janeiro, Roma, Barcelona, Porto Alegre, Nova Iorque, Buenos Aires. De cada uma delas, um pedaço há, uma vida está, a falta. Hoje, partir já não é desgraça, partir já não é o fim, partir é o nome mesmo dessa travessia. Agora é só. Amanhã, quem sabe?
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h28
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PARA ADULTOS

“E então, quando nas sessões seguintes eu aumentei o valor de $35 para $45, e depois, de $45 para $55, e ainda, de $55 para $65, você retornou de novo para a velha desculpa dos problemas financeiros.”
Fonte: Jules Feiffer in Explainers, Fantagraphics Books, 2008. Capa do The New York Times Book Review, 19/10/2008.
Reencontrar Jules Feiffer em um domingo de manhã é o que se chama de epifania. David Kamp faz uma belíssima resenha da nova antologia de cartuns e tiras de Feiffer para o Village Voice entre 1956 e 1966, publicada agora com o nome de “Explainers”, pela editora Fantagraphics Books, dando o título magnífico de “Cartoons for Grown-Ups”, “cartuns para adultos”.
“Você não percebe, meu querido, que quando você colocou suas mãos em mim, isso modificou totalmente nosso relacionamento? Eu não estou pronta para isso, Bernardo. Eu gostaria de estar, mas não estou!”
Fonte: Jules Feiffer in Explainers.
Um dos personagens típicos de Feiffer é Bernardo, o arquétipo do homem doce, querido e que, por causa disso, as mulheres não estão muito interessadas. Ele contrasta com o outro personagem típico de Feiffer, Huey, o arrogante, duro (de sem dinheiro e de machão), irresistível para as mulheres.
Fonte: David Kamp in Cartoons for Grown-Ups, The New York Times Book Review, 19/10/2008.

“- Sim? Vamos dar o fora daqui. Você tem algum dinheiro?
- Huey, por que eu sempre pago a conta?”
Fonte: Jules Feiffer in Explainers.

“Eu acredito que o senador Kennedy acredita naquilo que ele acredita sinceramente assim como eu acredito que eu acredito naquilo que acredito sinceramente.”
Richard Nixon in 6 de outubro de 1960 por Jules Feiffer in Explainers.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h33
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