Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


O AMOR AOS LOUCOS

Fonte: O Globo, 18/10/2008.

 

            O caderno Ela que sai aos sábados no Globo é uma das coisas mais lindas do mundo. Aqui está o que eu amo de paixão nesse Rio de Janeiro tão lindo, tão querido, com essas cariocas maravilhosas. Vocês vão me dizer que a doutora Nise da Silveira, destaque de hoje desse caderno, não nasceu no Rio de Janeiro, mas sim em Maceió, Alagoas. Ora, quem um dia, basta um dia, pisou no Rio de Janeiro, é carioca para sempre. Isso aconteceu comigo. Não tem jeito. Pisou lá, enfeitiçou-se, entortou-se, saiu da linha reta para sempre. O que é que o Rio de Janeiro tem? Ai, pergunta perigosa, as associações começam a entrar em um terreno movediço, a maré começa a me puxar...mas o Rio tem essa Bety Orsini, indispensável, imprescindível, belíssima jornalista, que deixa a doutora Nise da Silveira falar nessa reportagem sensacional da edição de hoje. Bety apresenta aos leitores o livro “Nise, Arqueóloga dos Mares”, escrito por Bernardo Carneiro Horta (Edições do Autor). E dali, Bety seleciona algumas frases lapidares da doutora Nise. Algumas delas:

 

         “Há beleza em tudo. Há beleza na alegria e, mesmo na saudade, na tristeza, no sofrimento e até na partida. A vida é uma beleza.” (Nise da Silveira)

 

         Conta Bety que, quando presenteada por Di Cavalcanti com esse retrato maravilhoso reproduzido na capa do caderno, a doutora reclamou:

 

         “O quadro é belíssimo, está na sala da minha casa. (...) Mas não sei donde é que ele tirou aquele decote enorme...Nunca usei decote, sou tímida.” (Nise da Silveira)

 

         Outra frase selecionada por Bety:

 

         “Tanto remédio pra quê?! Remédio é ir dançar no carnaval. Um sedativo, vá lá – mas entupir uma pessoa com medicação por 30 anos?” “Rasguem os manuais de psiquiatria! Quem quiser aprender psicologia deve ler Machado de Assis e William Shakespeare.” (Nise da Silveira)

 

         Como não se apaixonar por uma mulher dessas? Vejam a ética dessa psiquiatra, essa paixão pelo ser humano, esse desejo imenso de escutar o diferente, dar espaço ao absurdo, abrir caminho ao inusitado!!

        

         Outra história deliciosa que Bety conta e que está no livro de Bernardo Horta:

 

         “Em meados dos anos 50, o sanitarista Mário Magalhães da Silveira ficou intrigado com o comportamento estranho de uma senhora que visitava sua mulher, Nise da Silveira. Ela parecia confusa, meio zonza, beirando o delírio. Mesmo acostumado a transitar entre os amigos da doutora, a maioria hippies, malucos-beleza e artistas, ele ficou preocupado quando viu a mulher levando a visitante para descansar em outro aposento do apartamento que moravam, no Flamengo. Um tempo depois, preocupado, Mário bateu na porta para saber o que estava acontecendo: “Não é nada demais. Ela comeu uns bolinhos de maconha e precisa descansar”, respondeu a doutora. Surpreso, ele argumentou: “Como? Bolinhos de maconha?!! Nise, que história é essa? Você só se mete com maluco”. Ela foi categórica: “Mário, por favor. Deixa: dos malucos, cuido eu.” (Bernardo Horta in “Nise, Arqueóloga dos Mares”)

 

         Epifânica história!! Linda, linda, linda!! “Dos malucos cuido eu”. E como cuidou, como protegeu, como escutou essa gente desvairada, essa gente perdida, essa gente expulsa, essa gente errante. A doutora Nise da Silveira os acolheu, lhes devolveu a palavra, lhes deu a sua vida inteira de dedicação à causa perdida da loucura.        

         Crítica ferrenha de Freud, apaixonada por Jung, não perdia a verve ao se denominar:

 

         “Eu não sou junguiana, freudiana, nem sicrana. Eu sou eu.”(Nise da Silveira)

 

         Louca maravilhosa. “Eu sou eu”. Louca, louca, louca.

        

         Bety termina a reportagem lembrando esse fato:

 

         “Certa vez, quando um jornalista lhe perguntou qual tinha sido a maior inspiração em sua vida e em seu trabalho, ela respondeu: “O amor àqueles que só conhecem a solidão, a doença mais devastadora de nossos dias. Lutar por um ideal, um sonho, sempre vale a pena. Quando me perguntam o que mais deu sentido à minha vida, eu respondo: o amor aos loucos.”



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h22
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O FOGO DE PROMETEU

         “Não há mais fogo nas pessoas, elas estão cansadas, apagadas, e não creio que essas mesmas pessoas, satisfeitas e medíocres, possam suscitar uma revolução. (...)

É possível lutar quando se está inspirado por um sonho, um sonho de beleza sobre-humana, de liberdade inacessível, tão somente inacessível! (...)

Lutar, então, lutarei no momento do levante por uma liberdade inacessível e por uma beleza que não é deste mundo. Não pelo povo, pela maioria, que é limitada, idiota e está sempre errada. (...)

Ir contra – esse é meu lema!(...)

Não existe nada de real pelo qual valha a pena lutar, pelo qual valha a pena morrer. A utilidade. Que coisa vulgar! O agradável, o útil, o pedantismo alemão, a comunhão com o povo...Que horror, que miséria, que nulidade! Morrer pela...constituição russa. Ha, ha, ha! Sim, isso soa grandioso. Que vá para o diabo a constituição, é ao fogo de Prometeu que eu aspiro!”      

 

         Carta de Marina Tsvetáieva, aos 15 anos, a Piotr Ivánovitch Iurkiévitch (Piétia), outono de 1908 in Marina Tsvetáieva, “Vivendo sob o Fogo”. São Paulo: Martins Fontes, 2008, pp. 92 e 93.

 

         “Um dia reparei que há em você uma centelha, Piétia, e eu gostaria que ela nunca se apagasse, por nada desse mundo.

Preserve-a! Todos aqueles que dela foram privados deixaram de viver.

Quem nunca a teve nunca viveu.(...)

Pois então, Piétia, eu queria transmitir, a você também, essa capacidade doce de se emocionar sempre.

Gostaria que você, graças a mim, tivesse a vivência de muitas coisas – e não as esquecesse nunca. (...)

Nenhuma pessoa que eu encontre deve ir embora de mãos vazias.

Eu tenho tamanha grandeza em tudo!”

 

         Carta de Marina Tsvetáieva, aos 17 anos, a Piotr Ivánovitch Iurkiévitch (Piétia), 8 de julho de 1910 in Marina Tsvetáieva, “Vivendo sob o Fogo”. São Paulo: Martins Fontes, 2008, pp. 96 e 97.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h10
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MAIS CAPITALISMO

Fonte: Paulo Caruso in Jornal do Brasil, 16/10/2008.

 

         A homenagem da Espanha ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, segunda-feira em Toledo, foi belíssima. Lula ganhou o prêmio Don Quixote pela decisão de transformar o castelhano em língua obrigatório nas escolas públicas do Brasil a partir de 2006. Curiosamente, enquanto o El País trouxe na terça-feira 4 páginas dedicadas à essa homenagem, inclusive com o discurso de Lula em Toledo, os jornais brasileiros amanheceram mudos e terminaram calados. Uma exceção: o Jornal do Brasil de hoje. Primeiro, o indispensável Paulo Caruso, com essa belíssima reflexão, fazendo pensar nas semelhanças entre Cervantes/Dom Quixote e Lula. Segundo, o imprescindível Mauro Santayana com o artigo abaixo que merece republicação integral. Eu não concordo com a conclusão de Santayana. Entrar com o pé direito em nosso lugar, para mim, significa diminuir o tamanho do Estado, significa privatizar mais estatais, significa estimular mais capitalismo e não menos, como é a praxe desse governo Lula. Só consegue defender o Estado quem nunca trabalhou em uma estatal. Não é o meu caso. Dezessete anos de desilusões foi a minha melhor formação contra qualquer discurso pró-Estado. Falácia das privatizações? Onde há Estado, não nasce a grama da iniciativa, a grama do risco, a grama da coragem, a grama da vontade de mudar, a grama da dedicação, a grama da inovação. Há exceções? Sempre. Mas tão pequenas, tão ínfimas, tão à margem, que não justificam a defesa desses mastodônticos brontossauros-rex que são as estatais, sejam elas brasileiras ou de qualquer outro país do mundo. Gastadoras, ineficientes, lerdas, mal geridas, mal organizadas, desequilibradas, saco de gatos de todos os partidos políticos, berço de privilégios indescritíveis. Contra isso, Dom Quixote também lutaria. Afinal de contas, ele não se levantou para corrigir os tortos do mundo? Há algo mais torto que uma estatal? Privatização nelas! Uma má privatização é melhor do que uma boa estatização. Sempre.

 

 “Descer a encosta, até o nosso lugar – Mauro Santayana in Jornal do Brasil, 16/10/2008.

Depois de correr o mundo, que se espichava pela planura da Mancha e outros lugares da Espanha, Sancho Pança e Dom Quixote chegam a um ponto elevado. Ao identificar sua aldeia abaixo, Sancho Pança se ajoelha e faz oração lúcida, que se contrapõe à proclamada (e ilusória) ignorância. Pede que sua pátria abra os olhos para recebê-lo, que se não vem muito rico, vem bem açoitado; e que, da mesma forma, receba seu amo que, se chega vencido de braços alheios, volta vencedor de si mesmo, a maior vitória que desejar se possa. Já próximo de se reconverter em Dom Alonso, o cavaleiro pede ao escudeiro que deixe de sandices: "Y vamos con pie derecho a entrar en nuestro lugar, donde daremos vado a nuestras imaginaciones, y la traza que en la pastoral vida pensamos ejercitar". Cervantes fecha o capítulo com bela e enigmática frase: "Con esto bajaran de la cuesta y se fueran a su pueblo".

Logo depois de receber o Prêmio Quixote, em Toledo, na segunda-feira passada, Lula olhou a paisagem da velha capital dos visigodos, e disse que ela se parecia à sertaneja Garanhuns. Pouco antes, no discurso de elogio ao presidente do Brasil, Juan Luis Cebrián comparou-o a Sancho Pança e a Dom Quixote juntos, o que vale dizer que o comparou ao sumo da alma cervantina, ao sumo da alma espanhola. O episódio sugere o retorno à velha e múltipla Ibéria, que foi, até a derrota da Invencível Armada, o cadinho do mundo ocidental. Ali se mesclaram todas as culturas e etnias do Mediterrâneo – grande lago africano. O ponto alto dessa amálgama foi o tempo de Felipe II. As circunstâncias e a natural arrogância do príncipe – no afã de poder – levaram à derrota de sua armada, diante da tormenta no mar inglês. A partir de então, iniciou-se o avanço anglo-saxão sobre o mundo.

O elogio de Cebrián não se faz apenas a Lula. Todos os homens são um pouco de Sancho, um pouco de Quixote. E todos os homens fazem da vida uma viagem, mesmo que não saiam de seu arraial. Viver à ventura é deixar-se conduzir pelo vento, mas usar de boas velas latinas, aquelas que o podem domar com a ajuda da mente e dos braços. Os felizes – salvo os renegados – são os que retornam à sua pátria, seja ela a mítica Itaca de Ulysses, seja aquele lugar da Mancha, que Cervantes não localiza, seja Garanhuns ou a própria consciência.

O presidente está agora diante de um desafio, a que só sua inteligência e coragem podem dar resposta. Diante da eventualidade de que nos atinja a crise provocada pelos ladrões de Wall Street, cabe-lhe saber a quem ouvir. Fará bem se começar pedindo que lhe traduzam o editorial de ontem do New York Times, Mr. Paulson’s Client. O jornal lembra que o secretário do Tesouro dos Estados Unidos quer que o Estado compre ações dos bancos em dificuldades, mas não interfira nos seus conselhos de administração, nem em suas diretorias executivas. O texto lembra que Paulson era, até ser nomeado para o cargo que exerce, banqueiro de investimentos, e recomenda ao Congresso que o faça compreender que seus clientes agora não são mais os banqueiros, mas, sim, os contribuintes norte-americanos.

O chefe do governo brasileiro, com sua visão política tem, com outras palavras, lembrado que os cidadãos perderam a confiança nos bancos e recuperaram a fé nos Estados. Sendo assim, a política a ser seguida deve pautar-se por essa evidência. As medidas internas dão a impressão de que tudo se faz para que as coisas continuem as mesmas. O Banco Central, a fim de favorecer a liquidez do sistema, renunciou ao recolhimento compulsório dos depósitos à vista. O objetivo era o de favorecer os empréstimos interbancários e o fomento às atividades produtivas, entre elas, a exportação. Mas, ao manter os juros altos, o Bancen estimulou os bancos a adquirir, com a sobra de caixa, títulos do governo, e em conseqüência o dinheiro não entrou em circulação. Talvez conviesse ao Estado aproveitar essa restabelecida confiança da cidadania a fim de emitir títulos do Tesouro, a serem vendidos diretamente ao público pelos bancos oficiais (o Banco do Brasil e a Caixa), a juros baixos. Com esse dinheiro seria possível fortalecer a musculatura do país, mediante o financiamento aos investimentos do PAC e à produção de bens reais. Depois da falácia das privatizações de Collor e Fernando Henrique, é hora de retornar à realidade nacional. Enfim, temos que entrar com o pé direito em nosso lugar.”



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h12
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ANÁLISE

Monica Bellucci.

 

Não sei mais o que fazer. Eu só penso nele o dia inteiro. Quando eu estudava Direito em Perúgia, foi ele quem me convenceu a fotografar como modelo. Ele me levou literalmente pela mão até o seu apartamento e só depois eu percebi que ele não era fotógrafo coisa nenhuma. Ferrari disgraziato. Ti amo tanto, tanto. Foi no verão tudo isso, e agora eu sei, no verão da minha vida. Ele me lembra tanto aquela maldita canção, sei piena di un amore che a passato, mas não passou, não passou. Será por isso que eu odio l’estate? Che hai creato il nostro amore? Eu não vou morrer de dor, não vou. Sabe, em cada filme que eu faço, não são os personagens que eu beijo, eu não me deito com nenhum deles. Todos são um - ele. Só dessa forma eu consigo representar quem não sou, desde que ele esteja lá. Eu tentei, fui até ele, ele até veio a Roma várias vezes, quis por que quis que passeássemos pela Firenze de Dante – foi quando eu pensei ser sua Beatriz - ficou comigo, foi muito, mas muito querido –  farabutto, que não fosse, que não fosse, não consigo ter raiva desse desgraçado - só me falava de um rio, só me falava da Outra, maledetta. O que ela tem que eu não tenho? O que ela faz que eu não faço? Quem é essa mulher para puxá-lo desse jeito, para arrastá-lo assim de mim? Eu queria tanto que ele fosse conhecer minha Città di Castelo, a casa onde nasci, meus pais – e ele dizia que não podia mais, tinha de partir. Eu não aceito isso. Tornera un altro inverno? Não me interessa. I baci che ho perduto não voltarão jamais. O quê? Continuamos na próxima sessão? Và a fancullo!!



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h09
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FAUSTO PÓS-MODERNO

“Nacionalizado”

- “Nós vendemos a nossa alma”

- “Mas por um bom preço!”

 

Fonte: Patrick Chappatte in Le Temps, Suíça, 13/10/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h31
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RIDI, PAGLIACCIO...

“O País vai se salvar – Cotaremos todos os magistrados na Bolsa”

Na sátira de Alexander Van Mol, o desejo do fascista em sua plenitude: acabar com o Judiciário.

 

            Giovanni Angeli, do Corriere della Sera, lançou um concurso sensacional para os leitores de seu blog. Como eles interpretariam a crise financeira nas capas de algumas das revistas mais lidas do mundo?

 

 

Capa de Luigi "Vadelfio" Alfieri. Para uma nova economia, um novo banco...

 

 

“Este homem traz consigo a calamidade” -  é a sátira-verdade de Marco Vuchic. Cada vez que esse desgraçado do Berlusconi volta ao governo, acontece uma crise planetária. Magnífica interpretação!



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h27
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RETRATOS DA ESPANHA

         Duas vozes da Espanha. A Espanha de Juan José Millás e de Almudena Grandes. Magníficas vozes. Segue abaixo o que esses dois andam fazendo nas páginas deste indispensável El País:

 

“Bancos e o Estado – Juan José Millás in El País, 10/10/2008.

         Quando os socialistas estavam a ponto de ganhar as eleições em 1982, a direita tinha medo de que eles nacionalizassem os bancos. Tanto foi assim que Felipe González teve que tranqüilizar esses setores garantindo que o triunfo da esquerda careceria de significado real. Só aspiravam que a Espanha funcionasse, ou seja, que as cartas chegassem a seus destinatários, que os trens saíssem nos horários e que as delegacias de polícia não fossem centros de tortura.  Passados alguns anos, há em todo o mundo capitalista um clamor para que os governos, seja lá a cor que ostentem, nacionalizem sua gestão, seu dinheiro, seus atos. Se os governos estão de acordo, é porque sem os bancos não existe Estado. Aqui pode quebrar o Ministério do Exército, e não acontece nada, pode quebrar o Ministério da Habitação, e não acontece nada, pode quebrar o Ministério da Cultura, e não acontece nada, pode quebrar o Ministério do Trabalho, e não acontece nada, e assim por diante. Mas, se quebrarem os bancos, então estamos todos fodidos. Apesar de não existir um Ministério dos Bancos, os bancos são a substância do Estado.

         Junto a essa iniciativa nacionalizante que agora percorre o mundo, se observa também uma corrente (subterrânea) dirigida a solicitar à Máfia que coloque em circulação o capital que tem retido em notas de 500 euros. Já se anunciam, de maneira mais ou menos sutis, vantagens fiscais para esse dinheiro negro tão importante em épocas de bonança, e indispensáveis em tempos de vacas magras. Isso quer dizer que a Máfia é o outro pilar de sustentação do Estado, do qual só nos damos conta nessas horas. Resta a Igreja, que afortunadamente goza de boa saúde, demonstrada por sua presença em todos os atos oficiais. Mas, caso passe por dificuldades, que não sofra Sua Santidade, a nacionalizaremos também (até que pare a tempestade), junto com a Máfia e os bancos.”

 

         “Cultura – Almudena Grandes in El País, 13/10/2008.

         Nesse mundo ao contrário, descrito brilhantemente por Millás em seu último artigo, os professores universitários já não estão seguros de receber no final do mês. A crise, que não impediu Aguirre [trata-se da governadora da região de Madri, Esperanza Aguirre, do Partido Popular, que baixou um decreto diminuindo a dotação orçamentária para as universidades da região] de gastar milhões de euros em espetáculos para inaugurar uma série de teatros, agora anuncia não haver dinheiro para as universidades, os hospitais e as escolas da região.

         Parece uma frivolidade, mas não é. Hoje em Madri, amanhã quem sabe onde. As conseqüências desse conceito aparentemente utilitário, mas em sua essência doentio, que os governos espanhóis têm da cultura, produz monstros. O sistemático desprezo pelas dotações orçamentárias para escolas de educação básica e que leva ao gasto em anúncios de promoção da leitura – dinheiro esse que não é gasto nas bibliotecas escolares -; o dinheiro gasto para produzir espetáculos com estrelas de Hollywood – dinheiro que não é investido na produção de curta-metragens; o dinheiro que é gasto para inaugurar museus que dão vergonha - dinheiro que não é investido na formação de artistas plásticos. Todo esse dinheiro mal gasto conseguiu criar uma sociedade de consumidores bobos, que engolem sem mastigar, com a boca aberta e vazia de críticas.

         A incultura é muito mais grave que o desconhecimento radical do último prêmio Nobel de Literatura, ao qual me incluo. Porque um país inculto não é um país de cidadãos, mas sim de auditórios, e os auditórios engolem tudo. Não é irônico que se pode privatizar os bens, que se pode entregar aos bancos todos os impostos, mas que esses mesmos impostos não podem financiar escolas, hospitais e universidades? A verdadeira liberdade não consiste em poder dizer o que se pensa, mas em poder pensar o que se diz, escreveu Antonio Machado, como se estivesse nos vendo agora. Nesse passo, a qualquer momento serão fechadas as universidades.”



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h18
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LE REGRET D’HÉRACLITE

Alessandra Negrini.

 

E um dia, eu o encontrei a me falar assim:

        

         “le regret d’héraclite

 

         Yo, que tantos hombres he sido, no he sido nunca

         aquel en cuyo amor desfallecía Matilde Urbach.

 

         (Gaspar Camerarius, en Deliciae poetarum borussiae, VII, 16.)

 

         le regret d’héraclite

        

         Eu, que tantos homens fui, jamais fui

         aquele em cujo abraço desfalecia Matilde Urbach.

 

         (Gaspar Camerarius, em Deliciae poetarum borussiae, VII, 16.)

 

         Jorge Luis Borges in O Fazedor. São Paulo: Cia. das Letras, 2008, pp. 164-165. Tradução de Josely Vianna Baptista.

 

         Só hoje eu posso lhe responder. Eu, que tantos homens fui, agora sim sou aquele em cujo abraço desfalece, treme, vibra, sua, geme, canta, grita, chora, escreve, sorri, suspira a bela Matilde Urbach.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h13
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