Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


O FANÁTICO DO ERRO

Sábado, 11 de Octubre de 2008

Gabriel Báñez, ganador del Premio Internacional de Novela Letra Sur

“Yo soy un fanático del error”

Por Silvina Friera, desde Puerto Madryn in Página 12

 

Gabriel Báñez é um escritor argentino ainda não traduzido para o português. Ele acaba de ser premiado na Argentina por sua novela “La Cisura de Rolando” [“A Rachadura de Rolando” – nota de tradução: “cisura” tem também o sentido de ruptura ou abertura sutil que se faz em alguma coisa]. Um trecho da magnífica reportagem de Silvina Friera sobre ele no indispensável Página 12 de hoje:

 

         “ “La Cisura de Rolando” completa o rol de obsessões do escritor platense [Gabriel Báñez nasceu em La Plata, cidade que é a capital da província de Buenos Aires]. “Quase tudo o que escrevo tem a ver com o disfuncinal, está próximo disso ou o toca”, assegurou. “Cultura”, publicada em 2006 pela editora Mondadori, é o relato de um escritor e editor, Ibáñez, que é disfuncional. “Nesse sentido, porque reincidi nesse tema, eu suspeito que, mais ou menos, somos todos um pouco deformados. A versão que eu dou da cultura nesse livro, eu gostei de chamá-la “em miligramas”. Muitos dizem que é uma paródia da cultura oficial; pode ser na superfície, mas me parece que é aproximação à essa medicalização atual, à essa crueldade psiquiátrica que vivemos hoje”.

 

         O escritor platense não pretende fazer uma análise da dissociação. “Quando eu me aproximo do tema ou a disfunção se aproxima de mim, o “eu” está dentro dessa dissociação, dessa divisão. Eu não olho para esse tema com uma atitude analítica”. “La Cisura de Rolando” é narrada em dois momentos distintos. Rolando, um menino de dez anos, perde a fala, fica afásico. “Pode-se supor que a perda da fala seja uma incapacidade, mas para o personagem, é a coisa mais natural do mundo. Dissociados são aqueles que cercam Rolando, as pessoas próximas a ele”, sublinha Báñez. O segundo momento da novela trata do mesmo personagem, agora aos quarenta anos, quando sofre uma crise crucial. “Então, ele acode à terapia lacaniana, através da qual eu faço uma homenagem à linguagem, porque Lacan é linguagem e é ficção. Tanto a primeira parte, como a segunda, tem a ver com uma estrutura, há um ponto em comum, não só o mesmo personagem em dois momentos de sua vida, mas também uma estrutura técnica que os une, que eu chamo de “estrutura do coiote e do beep-beep [Papa-Léguas]”, fracasse, beep-beep, fracasse de novo, beep-beep, ou seja, tentar agarrar o que sempre vai escapar, aquilo que tentamos agarrar, foge, corre, não conseguimos”.”

 

         Fonte: Silvina Friera in Página 12, 11/10/2008.

 

 



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h59
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PRIMEIRO MUNDO

“Pesquisa Eleitoral 2008 – Presidência da República:

- Putos

- Nauseados

- Indecisos”

 

Fonte: Clay Bennett in Chattanooga Times Free Press, 10/10/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h57
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O AFRICANO

Jean-Marie Gustave Le Clézio, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. Fotografia de Daniel Mordzinski in El País, 10/10/2008. 

“Tenho coisas a dizer deste rosto que recebi em meu nascimento. Primeiro, foi preciso aceitá-lo. Afirmar que não me agradava seria dar-lhe uma importância que ele não tinha quando eu era criança. Eu não o odiava: ignorava-o, evitava-o. Não o olhava nos espelhos. Durante anos, creio que nunca o vi. Desviava os olhos das fotos, como se alguma outra pessoa tivesse se posto em meu lugar.

Aos oito anos de idade, mais ou menos, vivi na África ocidental, na Nigéria, numa região muito isolada onde não havia europeus, à exceção de meu pai e minha mãe, e onde a humanidade, para a criança que eu era, se constituía unicamente de iorubás e ibos. Na choupana em que nós morávamos (a palavra choupana tem algo de colonial que hoje em dia pode chocar, mas que descreve bem a residência funcional prevista pelo governo inglês para os médicos militares, uma laje de cimento por piso, quatro paredes de blocos sem emboço, um telhado de chapas onduladas recoberto de folhas, nenhuma decoração, redes penduradas nas paredes para servir de camas e, única concessão ao luxo, um chuveiro ligado por canos de ferro a uma caixa d'água no telhado, que esquentava ao sol), nessa choupana portanto não havia espelhos, nem quadros, nada que pudesse lembrar-nos do mundo em que tínhamos até então vivido. Um crucifixo que meu pai pendurara na parede, mas sem representação humana. Foi aí que eu aprendi a esquecer.”

         Jean-Marie Gustave Le Clézio in L’africain (2004), "O Africano" (Cosac Naify, 112 págs., R$ 42).



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h27
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FONTE DA VIDA

        

         Vinho saindo pelas torneiras? Por favor, tendo em vista que o Paraná é próximo do Chile, que me mandem o cabernet Marquês de Casa Concha, da Concha y Toro. Como? Só pode vinho nacional? Então que me abasteçam a ex-caixa d’água com o Miolo Terranova, feito lá na Bahia. Ai, a Bahia, que saudade louca...Como? Só pode vinhos da região e vão me enviar da Vinícola Campo Largo? Muito obrigado. Eu fico com a boa água da SANEPAR mesmo. Obrigado...

 

“Erro faz vinho sair pelas torneiras em cidade italiana

 

Valquíria Rey
De Roma para a BBC Brasil, 9/10/2008.

 

Moradores da cidade italiana de Marino, na região central do país, foram surpreendidos com o que parecia ser um milagre: das torneiras de suas casas começou a jorrar vinho branco, em vez de água.

 

O inusitado incidente ocorreu no último domingo, durante a abertura da 84ª edição da Festa da Uva de Marino – a mais famosa festividade do estilo no país.

Tradicionalmente, para marcar o início da Festa, milhares de moradores fazem uma contagem regressiva ao redor da Fonte dei Quattro Mori, no centro da cidade, para ver a "transformação da água em vinho", quando a fonte passa a jorrar, ao invés de água, uma boa qualidade de vinho branco.

Todos os anos, a Fonte é abastecida com barris de três mil litros de vinho para garantir o sucesso das celebrações. No entanto, os responsáveis pelo abastecimento das fontes de água espalhadas pelas ruas da cidade giraram a alavanca errada no momento da abertura da Festa e, em vez de enviarem vinho para a Fonte, mandaram a bebida para casas da cidade.(...)”



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h40
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A VIDA NÃO FUNCIONA ASSIM

Manuela D’Ávila fotografada por Daniel Marenco in Zero Hora, 8/10/2008.

         A deputada federal Manuela D’Ávila (PC do B), candidata derrotada à prefeitura de Porto Alegre, ilumina hoje a Zero Hora em uma entrevista memorável a Marciele Brum. Não foi a minha Porto Alegre quem derrotou Manuela D’Ávila. Foi a Outra. Para todos aqueles que só vêem Manuela como um rosto (e tudo o mais) bonitinho, recomendo a leitura desta magnífica entrevista. Manuela D’Ávila é das raras, é das imprescindíveis. Só vou selecionar essa frase da sua entrevista. Uma só basta. Uma só representa o todo. Quem é capaz de fazer uma afirmação dessas merece a prefeitura, merece o governo do estado, merece a presidência da República.  

“Produzimos uma aliança nova que rompeu um espectro político construído sempre em torno de dois projetos, o a favor e o anti. Assim, funciona um computador. A vida não funciona assim.”

Fonte: entrevista de Manuela D’Ávila a Marciele Brum in Zero Hora, 8/10/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h14
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O SURFE E A SUPERFÍCIE-PROFUNDIDADE

Alessandro Baricco acaba de publicar na Itália seu novo livro, “I Barbari – Saggio sulla Mutazione” [“Os Bárbaros – Ensaio sobre a Mutação” (ed. Universale economica Feltrinelli). O jornal Corriere della Sera fez uma mesa redonda entre Baricco e Claudio Magris, também escritor. Enquanto Magris vai na direção de um certo saudosismo do passado, inclusive trazendo a metáfora do surfe como se isso fosse algo péssimo, Baricco vai em outra direção. Baricco aceita investigar o surfe, deslizar por aí e percebe, espantado, que a superfície dessa metáfora traz embutida também toda uma profundidade não aparente, não evidente e que merece também ser objeto de estudos.

Sobre essa falsa dicotomia superfície/profundidade, cabe lembrar a magnífica resposta de Lacan quando lhe perguntavam se o inconsciente era o “profundo”, e a consciência, a “superfície”. Lacan respondia que o inconsciente estava na cara/fala, ou seja, basta falar – e ilustrou isso com a Banda de Moebius, uma figura da topologia em que não há “dentro” nem “fora”. Tanto a superfície como o “profundo” fazem parte do mesmo percurso, do mesmo movimento.

Um trecho memorável do desencontro entre Magris e Baricco – para ler o debate na íntegra, clicar aqui:

 “Claudio Magris -  [Alessandro Baricco] se move no mundo dos bárbaros, como ele os chama, com a agilidade de um antílope em um território que não é propriamente o seu, mas no qual se encontra. Os bárbaros são aqueles que vivem numa civilização devastada de seus valores essenciais: a duração, a autenticidade, a profundidade, a continuidade, a procura do sentido da vida e da arte, a exigência do absoluto, a verdade, a grande forma épica, a lógica, qualquer hierarquia de importância entre os fenômenos. No lugar disso tudo, triunfa a superfície, o efêmero, o artificial, a espetacularização, o sucesso como único indicador de valor, o homem horizontal que procura a experiência. Viver se transforma em surfar, uma navegação veloz que pula de uma coisa para outra, como a própria navegação na internet. A experiência é uma trajetória de sensações onde Pulp Fiction e a Disneilândia valem a mesma coisa que Moby Dick e, inclusive, não dão tempo para ler Moby Dick.(...)

Alessandro Baricco – (...) Entender a mutação, aceitá-la, é o único modo de conservar uma possibilidade de julgá-la, de escolher aí. Se reconhecermos à nova civilização bárbara um estatuto de civilização, então se torna possível discutir seus elos mais frágeis, que são muitos.(...) Sabe, escrevendo “Os Bárbaros”, eu dediquei muito tempo a entender e a descrever a formidável reinvenção da superficialidade que essa mutação está realizando. E acho fantástico que estamos conseguindo fazer isso, resgatando uma categoria que oficialmente estava identificada como um mal, e restituindo-a assim às pessoas como um dos lugares reservados à consciência, ao sentido. Eu entendo que isso não significa demonizar, automaticamente, a profundidade. Tu falas de amizade, de amor, e se você olhar os jovens de hoje, quase todos tipos bárbaros, você vai encontrar o mesmo desejo de profundidade que nós um dia tivemos. Ou se pensar na demanda religiosa deles, encontramos aí uma ânsia de verticalidade que não casa muito bem com essa imagem da cultura do surfe. Sabe o que eu penso, no final das contas? Que essa mutação desmontou a dicotomia entre superfície e profundidade. Elas não são mais categorias antitéticas, mas sim são dois lados de um mesmo movimento. São dois nomes de uma mesma coisa. (...)

Fonte: La Civiltà dei Barbari, conversazione tra Claudio Magris e Alessandro Baricco in Corriere della Sera, 7/10/2008.

 

A Banda de Moebius.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h58
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CARTA AOS PAIS

Warren Buffett é um dos homens mais ricos do mundo. Na sexta-feira, o jornal Valor Econômico publicou a primeira parte de alguns extratos de sua nova biografia, escrita por Alice Schroeder, chamada “The Snowball: Warren Buffett and the Business of Life” (A Bola de Neve: Warren Buffett e o Negócio da Vida), editora Bloomsbury. O que me chamou a atenção foram os dois instantes essenciais de sua vida em que a resposta de seus pais foram decisivas. O primeiro, quando ele tinha dez anos, aconteceu quando ele e seu amigo foram vender bolas de golfe usadas e, após uma denúncia, a polícia os expulsou do campo de golfe e foi conversar com seus pais. A resposta dos pais de Warren foi a de que ele era muito ambicioso e deveria ser perdoado. O segundo, quando a família se muda de Omaha para Washington, e Warren subitamente vê sumir tudo aquilo que tinha – amigos, escoteiros, uma cidade conhecida. Aí, começa a piorar na escola, começa a se relacionar com “más companhias” e a fazer coisas que não deveria – como se tornar um ladrão na loja Sears. “Eu estava simplesmente me rebelando. Eu estava insatisfeito”, diz Warren Buffett. Seus pais também.

“Os Buffetts estavam aborrecidos. Warren era seu filho cheio de qualidades, mas no fim de 1944 ele tinha se convertido em péssimo aluno. "Minhas notas eram a quantificação de minha infelicidade. Em matemática, C. Em inglês, C, D e D. E X em autoconfiança, iniciativa e cortesia. Quanto menos eu interagia com professores, melhor era. Eles me puseram numa sala por algum tempo, e enfiavam minhas lições por baixo da porta, assim como se eu fosse um Hannibal Lecter". Quando veio o dia da formatura e os alunos foram orientados a comparecer de terno e gravata, Warren recusou-se. Isso, para o diretor Bertie Backus, foi a gota d'água. "Eles não me diplomaram com toda a classe, por que eu era indisciplinado e não usava as roupas adequadas. Foi grave. Foi desagradável. Eu estava realmente me rebelando. Alguns dos professores previam que eu seria um fracasso desastroso. Bati o recorde de anotações por mau comportamento. "Mas meu pai nunca desistiu de mim. Minha mãe também não. Nenhum dos dois. É ótimo ter pais que acreditam em você."”

Fonte: Valor Econômico, 4/10/2008.

É curioso que no instante que vai às livrarias essa nova biografia, também chega dos Estados Unidos a notícia abaixo, “Pais exaustos usam brecha na lei para abandonar adolescentes nos Estados Unidos”. Ora, que essa nova biografia de Warren Buffett tenha então um sentido inesperado. O de inspirar aqueles pais cansados, exaustos de não encontrarem em seus filhos a perfeição tão desejada, de não encontrarem em seus filhos a vontade de estudar, em não encontrarem em seus filhos nenhum esforço, nenhuma dedicação, em perceber que seus filhos são tortos, são feios, são sujos, são mal-educados, são distraídos demais, bagunceiros demais, são aleijados, são alienados, são vagabundos, são doentes, são paralíticos, são drogados, são prostituídos, são ladrões, são assassinos, são idiotas, são loucos, pois, ainda assim, são seus filhos. Ainda assim, eles vão surpreender. Ainda assim eles serão para sempre eternos – mesmo quando não estiverem por aqui (referência ao livro magnífico de Cristóvão Tezza, “O Filho Eterno”). É isso um pai: aquele que nunca desiste de um filho, aquele que nunca deixa de acreditar que seu filho deve caminhar – mesmo preso, mesmo acorrentado, mesmo travado, mesmo distante. Não há um único caminho na vida, mesmo porque ninguém “chega lá”. E, muitas vezes, há que dar a mão a eles, há que descer junto nos infernos da vida e ser um pouco Virgílio, ser um pouco Beatriz, para puxá-los de lá, para tirá-los de si mesmos, para fazê-los andar por aí. Não é a chegada o mais importante. A maior riqueza de Warren Buffett é seus pais nunca terem desistido dele.

“Pais exaustos usam brecha na lei para abandonar adolescentes nos EUA

DO "NEW YORK TIMES" in Folha de São Paulo, 3/10/2008.

Os abandonos começaram em 1º de setembro, quando uma mãe deixou o filho de 14 anos em um posto policial. Cinco outros adolescentes, entre 11 e 15 anos, foram largados em hospitais. A maior surpresa ocorreu na semana passada, quando um pai entregou 9 dos 10 filhos, entre 1 e 17 anos, dizendo que a mulher tinha morrido e não suportava o fardo de criá-los. As autoridades do Estado americano de Nebraska vêem nos abandonos um abuso de uma nova lei, feita para evitar que recém-nascidos sejam deixados em locais de risco. Em vez disso, a lei vem sendo usada para entregar adolescentes incontroláveis ou, no caso do pai de dez filhos, para escapar do desespero financeiro e pessoal. Em julho, Nebraska aprovou a criação dos chamados "santuários", onde mães podem abandonar seus bebês sem medo de punições. Leis similares existem na maioria dos Estados americanos, mas a de Nebraska tem um alcance mais amplo, protegendo jovens de até 19 anos. Autor do projeto de lei, Arnie Stuthman, do Senado estadual, defende uma revisão para conter abusos. Mark Courtney, especialista em assistência à infância da Universidade de Washington, afirma que o que aconteceu em Nebraska "aconteceria em qualquer Estado". "Há um imenso vácuo de serviços para ajudar famílias desamparadas", diz. Quando crianças sofrem abusos, podem entrar no sistema de assistência. Quando cometem crimes, entram no sistema penal juvenil. Mas, quando não se enquadram nessas categorias, com freqüência não têm apoio. "Consegui deixar meus filhos em local seguro antes que ficassem sem teto", disse o viúvo pai de dez filhos. "Espero que o futuro deles seja melhor sem mim por perto."” 



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h09
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A ESPERANÇA E A PROMESSA DO AMOR

         “- Disseram-me que tinha abatido um urso – interveio Kitty, procurando, debalde, espetar um cogumelo recalcitrante; o garfo escorregava, Kitty impacientava-se, afastava para trás as rendas da manga do vestido, descobrindo um pouco o bonito braço. – Há, realmente, ursos na sua propriedade? – acrescentou, voltando para ele um rosto sorridente.

         Aparentemente não havia nada de extraordinário no que Kitty dissera, no entanto que inexplicável significado tinha para ele cada som e cada movimento dos seus lábios, dos seus olhos, das suas mãos! O que isso não dizia! Havia neles um pedido de perdão, confiança em Liêvin, uma carícia meiga e tímida tal como uma esperança e uma promessa de amor, coisas que ele, Liêvin, não podia deixar de querer e que o inundavam de felicidade.”

         Leon Nikolaievitch Tolstói in Ana Karênina v. I. São Paulo: Abril Cultural, 1982, p. 359.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h25
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