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AS DORES DA ALMA E A RESPOSTA DA MEDICINA
“No fim do inverno, os Tchierbátski tiveram uma conferência médica para decidir o que havia a fazer quanto à saúde de Kitty: a jovem sentia-se muito fraca e a aproximação da primavera pioraria as coisas. O médico assistente receitara-lhe óleo de fígado de bacalhau, depois ferro e finalmente nitrato de prata. Como, porém, nenhum destes remédios fizera efeito, aconselhara uma viagem ao exterior.”
Leon Nikolaievitch Tolstói in Ana Karênina, v. I. São Paulo: Abril Cultural, 1982, p. 116.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h57
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DESEJO
“O romance termina em um clima pastoril e no alvorecer de uma revelação. Trata-se, porém, somente de um alvorecer, pois as questões que Levin indaga a si mesmo enquanto encara as serenas profundezas da noite são precisamente aquelas para as quais nem ele nem Tolstói, àquela época, conheciam uma resposta adequada. Aqui, como no final do Fausto de Goethe, toda salvação está na busca.”
George Steiner sobre o final de Ana Karênina in Tolstói ou Dostoiévski: Um Ensaio sobre o Velho Criticismo. São Paulo: Perspectiva, 2006, p. 76.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h15
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LIÊVIN E KITTY
“Houve um silêncio. Ela continuava a riscar com o giz; os olhos brilhavam-lhe com muita suavidade. Sob a influência do seu estado de alma, Liêvin sentia, em todo o seu ser, que a felicidade o inundava cada vez mais forte.
- Oh, meu Deus, enchi a mesa de riscos – exclamou ela, pousando o giz e fazendo menção de se levantar.
“Como poderei eu ficar sem ela?”, pensou Liêvin com terror, e pegou no giz.
- Espere – disse-lhe ele, sentando-se ao pé da mesa. – Há muito que desejava perguntar-lhe uma coisa.
Liêvin olhava-a nos olhos carinhosos, mas assustados.
- Então pergunte.
- Olhe – disse Liêvin, e escreveu a giz as iniciais seguintes: Q,v,m,r,n,p,s,s,n,o,e. Aquelas letras queriam dizer: “Quando você me respondeu: ‘Não pode ser’, significava nunca ou então?”
Não havia probabilidade alguma de Kitty poder decifrar essa frase complicada. Liêvin olhou para ela como se a sua vida dependesse da compreensão daquelas palavras.
Kitty pousou nele os olhos com uma expressão grave; depois, apoiando na mão a testa, que franzira, principiou a decifrar as letras. De vez em quando olhava para Liêvin, como a perguntar-lhe como os olhos: “É o que eu julgo?”
- Compreendi – disse por fim, corando.
- Que palavra é essa? – perguntou ele, apontando n, a letra que indicava “nunca”.
- Significa “nunca” – respondeu ela. – Mas não é verdade!
Rapidamente Liêvin apagou o que estava escrito, entregou o giz a Kitty e levantou-se. Ela escreveu: “E,n,p,r,d,o,m”. (...)
De súbito, o rosto de Liêvin resplandeceu. Compreendera. Aquilo significava: “Então não pude responder de outra maneira”.
Olhou-a com uma expressão ao mesmo tempo interrogativa e tímida.
- Só então?
- Só – respondeu Kitty com um sorriso.
- E a...agora?
- Bom, leia o que vou escrever. Dir-lhe-ei o que desejaria, o que desejaria com toda a minha alma!
Kitty escreveu as iniciais seguintes: “Q,v,p,e,e,p,o,q,a”. O significado era: “Que você possa esquecer e perdoar o que aconteceu”.
Liêvin pegou no giz com os dedos rígidos e trêmulos e, partindo-o, logo em seguida escreveu as iniciais da seguinte frase: “Não tenho nada que perdoar nem que esquecer e nunca deixaria de te amar”.
Kitty fitou-o com um sorriso extático:
- Compreendi, disse num sussurro.”
Leon Nikolaievitch Tolstói in Ana Karênina v. I. São Paulo: Abril Cultural, 1982, pp. 370-371.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h56
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ENQUANTO ISSO, 108 ANOS DEPOIS DA INVENÇÃO DA PSICANÁLISE...

Fonte: Benedict Carey in The New York Times, 1/10/2008.
No dia 23 de outubro de 2001, o papa João Paulo II pediu cem vezes perdão pelos erros “históricos” cometidos pela Igreja Católica no passado. Ele pediu perdão pelas cruzadas, pelas ditaduras, pelas mulheres, pelos judeus, pelo processo a Galileu, pelas guerras, pelas guerras de religião, pela excomunhão de Lutero, Calvino, Hus e Zwingli, pelo tratamento aos negros e as violências cometidas contra os índios da América (fonte: Folha de São Paulo, 24/10/2001).
Pois hoje saiu no The New York Times um pedido de perdão inusitado. O The Journal of the American Medical Association, bíblia da ciência médica, pela primeira vez em sua vida, publicou um estudo que comprova os benefícios da psicanálise! Isso é inédito nessa publicação! Eu quase caí da cadeira. O estudo, envolvendo 1.053 pacientes, concluiu que a terapia psicanalítica é eficaz, funciona muito bem e, enfim, deve ser recomendada para certos tipos de pacientes. O repórter Benedict Carey brinca chamando a psicanálise de uma “espécie em extinção”, devido à nossa “nova era” dos tratamentos à base de “remédios”.
Ora, eu só tenho a agradecer a meus queridos analisantes que nunca se deixaram abater completamente pelo bombardeio diário de notícias anunciando a morte da psicanálise e persistiram, insistiram, vieram, falaram, choraram, gritaram e prosseguiram em suas análises, prosseguem nessa jornada da palavra, nessa travessia da linguagem e dos atos, à despeito de toda a propaganda que lhes quer empanturrar todo o tipo de medicamentos e outras “soluções”, a despeito de todo um discurso científico que quer sujeitar a psicanálise ao laboratório experimental, a despeito de uma cultura voltada à servidão que quer lhes obrigar a pensar de um único jeito, a se comportar de modo “competente” e a perseguir o “sucesso” a qualquer preço. Obrigado, queridos analisantes. Obrigado, The Journal of the American Medical Association. Eu aceito o pedido de desculpas.
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h51
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AS TRÊS FÉS DO NOVO DEUS

“- Nossa economia estava nas mãos da Al Qaeda?
- Não.
- Então, por que a destruímos?”
Fonte: Daniel Paz e Rudy in Página 12, 1/10/2008.
Chega da Alemanha, mais uma vez através desse imprescindível Gabor Steingart, correspondente da Der Spiegel em Washington, a melhor interpretação sobre a crise financeira. Belíssimo artigo. Alguns trechos:
“Estados Unidos da América: o país onde o fracasso é recompensado
Na atual crise financeira, o modelo de capitalismo dos Estados Unidos implodiu com um grande estrondo. Mas o governo Bush está tentando extinguir as chamas com mais combustível, em vez de água, e quer que os apostadores de Wall Street sejam recompensados pelo fracasso
Gabor Steingart
Em Washington (EUA), Der Spiegel in UOL, 1/10/2008.
Mais de cem anos atrás, o sociólogo alemão Georg Simmel criticou os bancos por ficarem cada vez maiores e mais poderosos do que as igrejas. A sua principal queixa - a de que o dinheiro é o novo deus dos nossos tempos - ainda é ouvida nos dias de hoje. Se Simmel estava certo, e há indicações de que de fato estava, a declaração teria que ser modificada para coadunar-se com as circunstâncias atuais: nem todo mundo reza para o mesmo deus.
Entre o grupo de adoradores de dinheiro, existem pelo menos três fés. A primeira é a dos Puritanos, que carregam pacientemente o dinheiro deles para as novas igrejas, esperando que ele se multiplique. O chinês típico, por exemplo, deposita 40% dos seus rendimentos em bancos. Que disciplina louvável! E há também os Pragmáticos. Estes poupam e emprestam, mas somente nesta ordem; a poupança é o fator que limita a ousadia deles. Esta linha é especialmente comum nos países germânicos, nos quais o banco de poupança é o templo religioso.
Finalmente, temos a comunidade religiosa dos Desinibidos, que é especialmente popular nos Estados Unidos. Os seus seguidores não se acanham em admitir a falta de cautela, o desperdício extravagante e a cobiça onipresente.
Eles chamam isto de "American way of life" ("estilo de vida americano"). Os seus membros vivem no aqui e no agora, sem fazer perguntas sobre o amanhã. Um empresta dinheiro ao outro, mesmo que o dinheiro não lhes pertença. Em vez disso, eles tomam quantias emprestadas com uma terceira pessoa, que prometeu conseguir o dinheiro com um quarto indivíduo - e assim por diante.
Esta comunidade religiosa é a mais fervorosa de todas. Há algum tempo, ela adotou a prática de tratar dinheiro antecipado como dinheiro real e de entender desejo como realidade. Atualmente ela não conta mais com nenhum fragmento de inibição.
Como todos sabiam que havia mais desejos do que dólares, o resultado inevitável foi uma certa lacuna de financiamento, ou déficit. Capitalismo sem capital - o núcleo audacioso desta inovação - não poderia funcionar. Não há salvação terrena - pelo menos esta foi uma conclusão quanto à qual o antigo Deus, aquele que carregou a cruz, e o novo deus, o que traz cifrões nos olhos, poderiam concordar.
E, assim, o inevitável ocorreu: o big bang. Três entre cada cinco bancos de investimento dos Estados Unidos perderam a independência, e os outros dois ainda estão afundando. Dois bancos de hipotecas e uma companhia de seguros encontram-se agora sob administração governamental.
O sistema financeiro global foi abalado, horrorizando os membros das outras duas fés. Pode haver três religiões, mas só há um céu. Se este cair, todos morrem. (...)
Em tempos melhores, alguém poderia ter chamado os banqueiros de empreendedores; atualmente, eles são chamados de irresponsáveis. Antes mesmo do surgimento da expressão banco de investimentos, Karl Marx sabia como as duas coisas estavam vinculadas: "O capital tem tanto horror à ausência de lucro ou de um lucro muito pequeno quanto a natureza tem horror ao vácuo. Com um lucro apropriado, o capital é despertado; com 10% de lucro, ele pode ser usado em qualquer lugar; com 20%, torna-se vivaz; com 50%, fica positivamente ousado; com 100%, ele esmagará com os pés todas as leis humanas; e com 300%, não existe crime que ele não se disponha a cometer, ainda que se arrisque a ir para a cadeia".(...)”
Fonte: UOL, 1/10/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h48
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INSTANTÂNEO DA FELICIDADE
Paul Newman e Elizabeth Taylor em “Cat in a hot tin roof” [“Gata em telhado de zinco quente”] (1958).
Ele conseguiu esse olhar de Elizabeth Taylor. Ele conseguiu esse abraço dela, esse abraço de desespero, de infinita paixão, esse abraço de depois do sexo, quando esse olhar tenta ocupar aquilo ausente, esse olhar tenta agarrar o que não está mais – o que nunca esteve. Ele conseguiu esse corpo de Elizabeth Taylor. Ele percorreu ele sem perder tempo em contar quanto, em contar quantas, em contar todas as vezes em que ela disse sim. Ele conseguiu essa dor de Elizabeth Taylor. A dor dessa saudade louca, uma dor que nunca vai embora, uma dor-exigência, uma dor-chefe, uma dor-rainha. Ele conseguiu o calor de Elizabeth Taylor. É um calor que fende, que racha, que divide o peito, abre vias inusitadas, dissolve toda a dureza da vida. É um calor doce, é um calor invasivo, é um calor lá do rio, lá da beira, lá do lugar mais distante e mais próximo, do lugar mais impossível e mais possível. É o calor de Helena, doce Helena, faze-me imortal...Ele conseguiu. Ele conseguiu Elizabeth Taylor. Ele levou-a para a cama, a despiu, ele fez com ela. Ele fez história, ele fez travessia, ele fez passagem, ele fez dela seu porto de chegada, ele fez dela seu destino, ele fez dela toda a sua esperança, todo o seu futuro, ele fez dela o nome da falta. Ele fez dela uma mulher. Há nessa fotografia um instantâneo dessa felicidade, tensa felicidade, tênue felicidade, bela felicidade. Há nessa fotografia nós dois. Para sempre.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h58
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O HOMEM COM A QUALIDADE DA CERTEZA

Fonte: The Economist, 25/9/2008.
Primeiro foi a esquerdista The Economist, na última quinta-feira, que amanheceu nas bancas com uma capa histórica. No lugar do tradicional Tio Sam precisando de você, eis agora o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, com uma pequena modificação na frase: “Eu quero o seu dinheiro”. Sensacional. Isso é que é capitalismo! O resto é socialismo. Na reportagem da capa, a revista apóia o plano do governo dos Estados Unidos, porém se pergunta no final: “vai funcionar?”.
Aí, o ultra-esquerdista The New York Times, decidiu chutar o pau da barraca. No sábado, dia 27, lá veio o quinta-colunista Paul Krugman, perigosíssimo, defender que a atitude adulta é fazer algo para salvar o sistema financeiro, mas, porém, ele acrescentou a seguinte pergunta em seu artigo: “existe algum adulto por perto?”. Não bastasse isso, esse jornal suspeitíssimo, veio ontem, domingo (tenha dó!), na capa de seu caderno “Sunday Business”, com a seguinte manchete espalhafatosa: “Wall Street R.I.P.”. Um horror. Esse R.I.P., para meus leitores não entendidos em latim, vem de “Requiescat in pace”, traduzido para o bom inglês como “Rest in peace”, ou seja, “Descanse em paz” – palavras utilizadas em um funeral, para homenagear um morto!!!!
Não bastasse tudo isso, hoje o terrorista Financial Times amanheceu nas bancas com a seguinte manchete: “Plano de resgate a Wall Street pode envenenar o livre mercado”, assinada pelo subversivo Alan Beattie.
Diante desses fatos, eu declaro a meus leitores que voltei a assinar a Veja. Nela eu encontro paz e conforto. Nela eu encontro a salvação da certeza. Nela eu encontro Diogo Mainardi. O que diz Mainardi? Com o magnífico título “Os americanos sempre ganham”, ele é o único a remar contra essa maré de pessimismo e esquerdismo tolo, ao afirmar: “Disseminou-se a idéia de que os contribuintes americanos saíram perdendo com o pacote de ajuda às empresas quebradas. Na realidade, Ben Bernanke e Henry Paulson preparam-se para realizar um grande negócio para os cofres públicos”. Sensacional! Continua Mainardi: “Em um ou dois anos, assim que o mercado se acalmar, o investimento feito pelo governo terá dobrado de valor”! Excelente! Por que este homem não escreve no The New York Times? Por que a The Economist não contrata esse rapaz? Por que o Financial Times não reproduz a coluna desse gênio? Obrigado, Mainardi. Obrigado.
Fonte: The New York Times, 28/9/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h52
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PARA DESCOMPLETAR A VIDA

A indispensável Revista Domingo do Jornal do Brasil, que é uma das coisas mais lindas do mundo, veio hoje com uma reportagem/entrevista sobre Domingos Oliveira. Espetacular. Quem ainda não associou o nome à epifania, eu sugiro que assista somente três filmes de Domingos Oliveira: comece pelo inesquecível “Todas as Mulheres do Mundo” de 1966, uma ode maravilhosa à Leila Diniz, “A” mulher que não existe toda, mas que existiu linda, leve e solta – que filme, que poesia!!! Depois, “Separações”, de 2003. Magnífico filme sobre o desespero e a esperança, sobre a vida e a morte de uma relação, belíssimo, e, para descompletar, veja e reveja “Carreiras”, de 2006, um mergulho na neurose feminina, tão belo filme, tão querido – a cena dessa magnífica Priscilla Rozenbaum fazendo análise com o porteiro do prédio é inesquecível, é antológica!!! Domingos Oliveira é o Woody Allen brasileiro? Não. Woody Allen é o Domingos Oliveira nova-iorquino!!!
Dois trechos da entrevista de Domingos:
"Você tem de decidir se quer viver ou morrer. A arte é a propaganda da vida. Eu sou funcionário da vida e trabalho no departamento de propaganda. Meu espírito é jovem. Ainda tenho os mesmos dilemas e problemas que tinha quando era garoto. A única diferença é que não consigo mais jogar basquete como antes."
Fonte: Domingos Oliveira em entrevista a Julio Calmon in Revista Domingo, Jornal do Brasil, 28/9/2008.
“Mas o que tem mais incomodado Domingos é a repressão, o que pode parecer estranho, para quem viveu sob os anos difíceis da ditadura. O dramaturgo sente falta do bate-papo das esquinas e diz que os jovens de hoje estão cada vez mais retraídos. Para ele, a vida está se tornando chata. Tudo culpa do politicamente correto. "O mundo maravilhoso é um mundo sem polícia. Hoje em dia, a polícia aparece até para saber se você tomou um copo de vinho. Vivemos dias de repressão, principalmente sexual. Não se pode mais fumar. Vivemos num autoritarismo em nome de boas causas. Mas não deixa de ser um autoritarismo."
Fonte: Julio Calmon in Revista Domingo, Jornal do Brasil, 28/9/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h07
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