Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


ENQUANTO ISSO, EM MEU CONSULTÓRIO À BEIRA-MAR...

Fonte: Lan in O Globo, 27/9/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h24
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CURITIBA SE MOVE

“Com apoio local, grupo vinha de São Paulo assaltar bancos em Curitiba”

Primeira página da Gazeta do Povo, 25/9/2008.

 

Desde que eu cheguei em Curitiba pela primeira vez, os bandidos sempre vêm de São Paulo, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Rio de Janeiro ou do Paraguai.

Ontem, pela primeira vez, houve “apoio local”. Maravilhoso isso! Que progresso! Curitiba está mudando! Já há “apoio local” no crime! Fantástico isso!

Uma cidade só é grande quando tem bandidos grandes. E um país, então? Sem bandidos, nada feito. Veja, por exemplo, o que acontece na Itália e nos Estados Unidos nesse momento. Quando o maior bandido ocupa o cargo de primeiro-ministro ou de presidente da república, quem vai ter coragem de mandar para a cadeia um ladrão qualquer ou um reles assassino? São países em que o código penal pode deixar de ser aplicado. Vocês podem me retrucar perguntando, e o Fernando Collor de Mello no Brasil? Não, a comparação não procede. O que foi Fernando Collor de Mello perto de Sílvio Berlusconi e de George W. Bush? Não, senhoras e senhores, não procede a pergunta. Aguardo a próxima.

Curitiba vai chegar lá. Já há “apoio local”! Espetacular! Epifânico!!



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h16
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SORRY, PERIFERIA

Renée Fleming como Violetta. Fotografia de Ruby Washington in The New York Times, 24/9/2008.

            O que é que Nova Iorque tem? Tem torço de seda, tem! Tem brinco de ouro tem! Corrente de ouro tem! Tem pano-da-costa, tem! Tem graça como ninguém, como ela requebra bem!

         O Metropolitan Opera abriu sua temporada na noite de segunda-feira comemorando 125 anos de idade! E que abertura! E que noite! Ele colocou sua maior diva, a encantadora, a inesquecível, a mulher-maravilha Renée Fleming, que caiu por cima de mim como Violetta de Verdi, como Manon (ai, nome maldito, aquela desgraçada que retorna como um fantasma!!) de Massenet e como a Condessa de Capriccio de Strauss. Três mulheres em uma! Combo! E se não bastasse isso, lá veio ela com sandália enfeitada, lá veio ela vestida de Christian Lacroix para a Traviata, trocou para Karl Lagerfeld em Manon (toc, toc, toc) e depois foi de John Galliano para Capriccio.  Que bela!!!! Só vai para Nova Iorque quem tem.

A turma dos sem-ingresso, dos que não têm, dos descamisados, assistiu na Times Square. Fotografia de Jacob Silberberg in The New York Times, 24/9/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h17
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A GRANDE ARTE NO CORAÇÃO DAS TREVAS

“O Plano de Resgate”

Fonte: Clay Bennett in Chattanooga Times Free Press.

         Clay Bennett numa charge destruiu toda a propaganda montada pelo governo norte-americano e distribuída à mídia-capacho, representada no Brasil pela revista Veja, sobre o que significa a “ajuda” do Tesouro, da “mãe”, da “viúva” do Estado aos bancos e empresas quebradas. Isso é um artista. Sempre contra a maré, sempre desconfiado do poder, sempre acima da mediocridade, da babaquice e da mentira. Clay Bennett é um grande artista. Basta essa charge, basta essa obra. Epifânica charge, maravilhosa charge, iluminadora charge. Clay Bennett honra o que de melhor ainda existe nos Estados Unidos, o que de melhor sobrou desses oito anos de ruína do governo George W. Bush, desses oito anos pavorosos, assustadores, dessas trevas que cobriram os Estados Unidos da América. Clay Bennett é uma luz na escuridão. Minto. Clay Bennett é um holofote, é o farol que restou de pé. Parabéns, querido amigo, parabéns. Resistiremos!!!



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h37
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O QUE FAZER QUANDO NÃO HÁ SAÍDA

Otto Maria Carpeaux.

O gigante Otto Maria Carpeaux deveria ser cartilha de alfabetização no Brasil. Otto foi o nosso maior intelectual e que, como tal, desconfiava da psicanálise. Se aproximava e se distanciava no mesmo passo. Católico fervoroso que era e um racionalista admirável, como poderia falar do inconsciente? Não pôde. Só fala do “subconsciente” em sua obra. A psicanálise traz um sério problema para os intelectuais. É o problema de exigir a livre associação. Ora, um intelectual, nem quando toma banho, nem quando vai na esquina comprar pão, abandona a razão. Quanto mais uma vez por semana! É impossível. Daí eles tentarem o impossível de “compreender” Freud sem fazer análise. Freud não é para ser compreendido. É para ser vivido! Por isso Otto não conseguia sequer pronunciar “inconsciente”. Mas, diante da grandeza desse pensador, diante da força poética de seus escritos, diante de sua busca incessante da psicanálise, eu tolero. Seus Ensaios Reunidos - o volume 1 encontra-se esgotado – comprei o meu a peso de ouro em um sebo, mas o volume 2 ainda está à venda, pela ed. UniverCidade e TopBooks - são sublimes. Ainda que eu não concorde com muitas de suas idéias, o jeito que esse homem escreve, o modo como ele sustenta seus argumentos, são admiráveis, são maravilhosos.  Nesse instante, a editora do Senado Federal - que espetáculo!! Uma “estatal” que funciona no Brasil!!!! Uma estatal capaz de uma idéia dessas!!! Essa é a única condição em que eu aceito pagar os dez mil companheiros de cada estatal: que produzam boas idéias!!! Como? Foi só nessa que aconteceu? Então que se fechem as demais! – acaba de reeditar a História da Literatura Ocidental de Otto. Olha, é obra para se ter na cabeceira da cama, aberta permanentemente, é para ser recitada às crianças antes delas irem para a escola, é obra para sarar os doentes nos hospitais, é obra para se ler naquelas horrorosas reuniões de diretoria, é obra para ser gritada naqueles caminhões de entrega de gás, é obra para virar cátedra obrigatória em todos os cursos “superiores” desse país, é obra para ser colada naquelas paredes e vitrines tristes dos shoppings.

         Por que eu pensei hoje no Otto? É que, lendo o magnífico ensaio que ele escreveu sobre Joseph Conrad, lá pelas tantas ele diz assim:

         “Se não há saída, precisa-se ir através.”

         Fonte: Otto Maria Carpeaux in O Mistério de Joseph Conrad – Ensaios Reunidos, v. I. Rio de Janeiro: UniverCidade e Topbooks, 1999, p. 189.

         Isso é tão bonito, é tão importante, é tão decisivo. “Se não há saída,  precisa-se ir através”. Já nem me interessa mais o que ele escreve depois. Isso já valeu todos os ensaios. Ir através. Isso é rosiano, isso é joyceano, isso é shakesperiano, isso é dineseniano, isso é lispectoriano, isso é puro Dante, isso é Lacan em sua essência. Belíssimo!!!!



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h48
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AS MÁSCARAS DO FASCISMO

Mauro Santayna é dos imprescindíveis. Seu artigo de hoje no Jornal do Brasil é para ser lido em todas as salas de aula desse país, inclusive naquelas onde o fascismo venceu e só se ensina “prática”. Essa é outra das máscaras do fascismo, não menos perigosa, não menos totalitária.

“As máscaras do fascismo, Mauro Santayana

Jornal do Brasil, 22/9/2008

O DISCURSO DA ORDEM É SEDUTOR, desde que a coação contra a desordem se faça sobre os outros. A retórica da xenofobia é da mesma forma atraente, quando não somos nós os estrangeiros em terra alheia. O estranho nos incomoda sempre, se não pela cor da pele, pela forma balbuciante com que fala a nossa língua. E se não houver, na voz e na face, os sinais de diferença, eles podem encontrar-se na abstração da fé. O nosso Deus é mais poderoso do que o dos outros e, como soldados a seu serviço, matamos em nome de uma divindade que só se identifica em nossa subjetividade. Para nós, Deus nunca é salvador do outro.

As idéias e atos que tomaram, na Itália, o nome de fascismo, são mais antigas do que il fascio ­ denominação que Mussolini buscou nos feixes de vime que os lictores romanos portavam à frente dos magistrados, como símbolo do poder. Em cada época, seus adeptos usaram as máscaras da conveniência histórica. A idéia básica é totalitária: a coesão de todos sob um ditador. "Um povo, uma nação, um chefe", resumiram os nazistas. Intelectuais europeus consideraram essas idéias ridículas e sem perigo. Os dirigentes dos partidos de esquerda também: Thaelman, líder dos comunistas, desdenhou os baderneiros, dizendo que a Alemanha não era a Itália. Outros, como Heidegger, as saudaram.

 Hitler e seus conselheiros que, salvo Goebbels, eram tão primários quanto o frustrado pintor austríaco, construíram corpo ideológico ainda mais grotesco, posto que Mussolini tinha leituras que lhes faltavam. Mas, ao simplificar essas idéias, as tornaram mais atraentes para os angustiados compatriotas, fustigados pela derrota militar de 1918, e desesperados pela grande recessão econômica mundial dos anos 30.

O fascismo nunca foi totalmente vencido. A derrota não destruiu a vontade de domínio, fundada no sentimento de superioridade, que não só persiste entre a direita alemã, como anima os conservadores norte-americanos. Unamuno, quando exilado em Paris, durante a ditadura de Primo de Rivera ­ e antes da ascensão de Hitler ­ disse a um jornalista uruguaio que os norte-americanos eram sub-alemães, porque, se tinham os mesmos defeitos, faltava-lhes a metafísica.

O fascismo se mobiliza novamente na Europa. Os governos apóiam a decisão de Berlusconi de expulsar os ciganos. Segundo uma hipótese histórica, os ciganos são restos étnicos dos egípcios, que, depois da destruição de seu Estado por Alexandre, passaram a vagar pelo mundo. É mais provável que procedam do norte da Índia, mas é certo de que entraram na Europa no século 13, e pela Espanha, com o propósito de visitar Santiago de Compostella e converter-se ao cristianismo ­ e de lá nunca mais saíram. Devem sair agora se o apoio a Berlusconi for seguido por Madri. É inconcebível uma Espanha sem a cultura cigana, sem o flamenco e sem o cante jondo, que inspiraram muitos de seus poetas, e o maior deles, Federico García Lorca.

Uma das máscaras do fascismo é a do revisionismo histórico. Os criminosos se tornam vítimas, como no livro O sangue dos vencidos de Giampaolo Pansa, que narra a incontrolável desforra contra os fascistas, depois do fim da República de Salò, e foi filmado recentemente. Houve realmente o desatar da vingança contra os que haviam exercido o terror do Estado contra o povo e, nesse desatar, foi impossível impedir a infiltração de antigos fascistas que, com a exacerbação da violência, buscavam proteger-se durante a caçada, e os acertos de contas pessoais. O filme sobre o tema será exibido no Festival de Roma, que se negou a acolher a película W., de Oliver Stone, que narra a ascensão política do atual presidente dos Estados Unidos. Berlusconi vetou-a, por ser amigo de Bush.

Na Hungria ­ que foi fascista mesmo antes de Mussolini (a partir de 1920 e até 1944) com Miklos Horthy ­ grupos de novos fascistas realizaram violentas manifestações no fim de semana, contra o governo. Em Colônia, a extrema direita se organizou para impedir a construção de uma mesquita, provocando a mobilização de estudantes de esquerda. A Espanha estuda uma forma de financiar o retorno de imigrantes aos países de origem. Seriam coerentes se devolvessem também, com eles, o ouro dos maias e dos incas, a prata dos Andes e tudo o que levaram da África. Na Bolívia, os autonomistas assassinos portavam a suástica.

Como se vê, as máscaras do fascismo são tão horríveis quanto sua própria face.”

Fonte: Mauro Santayana in Jornal do Brasil, 22/9/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h45
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AS TIME GOES BY

            “ILSA: What about us?

 

            RICK: We'll always have Paris.”      

 



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h15
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