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LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS

Primeira página do Globo, 20/9/2008.
É um dos textos mais belos da psicanálise. Chama-se “Sobre as Lembranças Encobridoras” e foi escrito por Freud em 1899 (encontra-se no v. III das Obras Completas). Nele, Freud demonstra que há lembranças da infância que encobrem, escondem, se ligam, se associam a fantasias, a outra cenas, a outras lembranças que, por causa de uma dor, por causa de um desprazer, por causa de uma tristeza, são substituídas por uma lembrança periférica, uma lembrança inofensiva, indolor, romanceada, digamos assim, sobre aquilo que supostamente teria acontecido. É como se a lembrança encobridora “traduzisse-traísse” a original, retirando-lhe as arestas difíceis, aparando-lhe as pontas. Mas a idéia de Freud é mais radical. Nunca houve “original”. Nós somos feitos de versões!! Todo “fato” que nos acontece é interpretado, é lido de um modo totalmente singular, particular, do jeito que o sujeito pode, e não como gostaria. Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, fala disso poeticamente:
“Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.”
João Guimarães Rosa in Grande Sertão: Veredas. Ficção Completa v. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, reimpressão da 1ª. ed., 1995, p. 121.
Isso é tão lindo. Basta falar que as coisas passadas começam a se mexer, a se remexer dos lugares, ou seja, a memória não é algo estático, algo parado, o “original” à espera do tradutor perfeito. Para Freud, a memória está para sempre ligada às fantasias, às versões, às interpretações que se mexem e se remexem sem que a gente se dê conta. O passado nunca passa!!! Ele retorna, ele volta - alterado, encoberto, tímido, desaforado, inquieto, chato, brilhante. Diz Freud:
“Talvez seja bastante improvável afirmar que possuímos lembranças conscientes da infância, quando, na verdade, temos algumas lembranças sobre a infância.”
Fonte: Sigmund Freud in Sobre as Lembranças Encobridoras (1899) in Obras Completas v. III. Buenos Aires: Amorrortu ed., 1989, p. 315.
Lembrei disso ao ler a maravilhosa reportagem de Paulo Carvalho no Globo sobre o amor brasileiro de John McCain. Trata-se de Maria Gracinda Teixeira de Jesus, linda, linda, ex-modelo e bailarina, que diz ser ela o amor brasileiro que McCain conta em seu livro de memórias “Fé dos meus pais”, publicado em 1999.
“Lá, McCain conta a história dos dois durante os oito dias em que esteve no Rio com um toque de conto de fadas à americana. Em vez do Cadilac, o carro de seu amor brasileiro era um Mercedes. O local do primeiro encontro também não seria o navio, mas uma badalada festa no Pão de Açúcar, com a alta sociedade.
“Nós dançamos no terraço admirando a paisagem da baía até 1h da manhã, quando eu senti que a sua bochecha estava úmida. Qual o problema?, perguntei. Nunca mais vou vê-lo novamente, ela retrucou. Eu disse a ela que estaria na cidade por mais oito dias e ficaria com ela o tempo que ela quisesse. Mas ela rejeitou, dizendo: não, eu não posso vê-lo nunca mais”, diz um trecho do livro.”
Fonte: Paulo Carvalho in O Globo, 20/9/2008.
Espetacular a memória seletiva de McCain. O que era Cadilac vira Mercedes, o que era navio se transforma em Pão de Açúcar, o que era uma despedida alegre vira uma bochecha úmida. Sensacional! É isso o humano, um tradutor-traidor de seu passado, muitas vezes trabalhando à revelia de sua vontade, contra seus próprios objetivos, se surpreendendo com aquilo que remexeu, com aquilo que fez balancê inesperadamente, dando à vida futura uma direção inusitada, não prevista, não planejada.
“Hoje, tem certeza de que as lembranças também estão vivas na memória do candidato republicano:
- Ele não me esqueceu, senão não teria contado nossa história num livro. Para ele marcou e para mim também, mas passou. Não posso viver tudo de novo. Torço para que ele ganhe. Se ele for eleito, o que eu posso fazer, se ele agora está casado? Nem me reconheceria. Deve estar feliz por lá. Mas vou mandar um telegrama assinado: “Seu grande amor do Brasil”.”
Fonte: Paulo Carvalho in O Globo, 20/9/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h15
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ARRIVEDERCI PARIS

O protesto dos empregados e imigrantes irregulares no La Tour d’Argent de Paris. Fotografia AP in Corriere della Sera, 18/9/2008.
Prezado Monsieur André Terrail,
Lhe escrevo para comunicar minha desistência da reserva permanente da mesa ao lado do Quai de la Tournelle, com vista para a catedral de Notre Dame. O senhor vai me retirar do Livro de Ouro dos Patos Célebres? Ora, senhor Terrail, só os não patos erram. Há que ser pato, senhor Terrail. Não há outra via. Agora, essa patuscada que o senhor aprontou ontem foi demais. Quer dizer que os imigrantes irregulares, ilegais, lavam os patos, digo, os pratos dessa Torre de Prata, e não ganham nem um bronze? À qualquer momento podem ser expulsos da França, Monsieur? Isso não está na minha fantasia, senhor Terrail. Eu nunca me importei em pagar 500 euros pelo jantar – pois eu acredito na máxima de seu falecido pai, Claude: “não há nada mais sério que o prazer”. Eu só acrescentaria que não há nada mais sério que a fantasia...e o prazer. Sem fantasia o prazer não acontece. É isso que eu comia aí, e não o canard à la presse regado por aquele molho espesso, perfumado, feito de vinho do porto e cognac, além do supra-sumo do sumo do próprio pato, extraído por aquela brilhante prensa de prata. E aquela entradinha de ovos mexidos com trufas, que nunca foi uma mera entradinha? Já era uma saída magistral da realidade, já era uma viagem pelo terreno do sonho, pelo país da imaginação. Uma querida amiga me disse certa vez, após mais 500 euros: “foi como morder um pedaço do sol”. Escutar isso após o jantar não é simplesmente inclassificável? O que me interessa que o pato número 328 tenha sido servido a Eduardo VII em 1890? O que me interessa que naquela noite bebemos Château Siran de 1865? Não, Monsieur Terrail, é a fantasia que me importa, é a fantasia que depois me acompanhou até o Ritz e lá permaneceu, lá amanheceu, lá me conduziu pelo rio...belle de jour? Belle vie.
Adeus, Monsieur Terrail.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h55
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HÁ MÉTODO NESSA LOUCURA

“- Por que vocês resgataram as empresas quebradas?
- Nos regemos por um princípio básico: quando há dinheiro em jogo, resgatamos...quando há gente, bombardeamos.”
Fonte: Daniel Paz e Rudy in Página 12, 18/9/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 12h38
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OLHA O VEXAME!

Fonte: Marco Aurélio in Zero Hora, 18/9/2008.
Moço, olha o vexame. O ambiente exige respeito. Pelos estatutos de nossa gafieira, dance a noite inteira, mas dance direito. Socorro federal a bancos? Socorro federal a seguradoras? Dinheiro do Tesouro, da “viúva”, para as empresas “grandes demais para quebrar”? Pelo estatuto 120, o distinto que fizer o seguinte, emprestar mais do que pode bancar, dançar de pé pro ar, assumir riscos absurdos, abusar da umbigada, aceitar em garantia ativos de risco, balançar demais o corpo, vai pra mão do delegado, quebra, se estrepa, tá fora, tá bem, moço? Olha o vexame, moço!
Observação: o distinto leitor pode escutar e ver uma pequena amostra, mínima, do que significa respeito e dançar direito clicando aqui.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h01
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HAY QUE ENDURECER PERO...

“O Camarada Bush – Em outra iniciativa de populismo estatizante, o governo norte-americano colocou 85 milhões de dólares para evitar a quebra da AIG, uma das maiores companhias de seguro do mundo. Com o objetivo de evitar um colapso financeiro global, Estados Unidos, Europa e Japão também aportaram mais de 200 milhões de dólares ao sistema bancário...”
Fonte: Página 12, 17/9/2008.
Pânico nas Business Schools brasileiras! Mudança urgente no currículo. Sai a disciplina “neoliberalismo”, entra “socialismo”. Milton Friedman deve estar se revirando no túmulo. Nunca antes na história dos Estados Unidos...
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h28
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O EPITÁFIO DE UM VAMPIRO

Um empregado do Lehman Brothers abandona a sede do banco em Nova Iorque com seus objetos pessoais. Fotografia AFP in El País, 16/9/2008.
Enric González já foi correspondente do El País na Itália. Ele é a alma desse jornal maravilhoso. Hoje, ele escreveu o epitáfio do banco Lehman Brothers. Genial! Brilhante análise sobre o conceito de repetição de Freud. Uma crise só pode ensinar algo quando um sujeito decida modificar sua relação com o sintoma, ou seja, fazer análise. Como é que um banco vai fazer isso se ele vive, se ele chafurda no pântano desse gozo? Pedir a um banco que mude é o mesmo que pedir ao vampiro que administre melhor o banco de sangue!
“Bancos, Enric González in El País, 16/9/2008
Salvo pelo mesquinho, estéril e efêmero (mas muito gostoso) prazer de assistir à queda do banco Lehman Brothers, o resto só pode causar inquietação. Primeiro, porque fica demonstrado, mais uma vez, que os bancos não têm a menor idéia sobre o que fazem. A invenção dos subprime, um produto financeiro tão complexo e absurdo que ninguém pode saber com certeza se é bom, regular, mau ou ruinoso, dá uma indicação aproximada sobre o estado das coisas, e as previsíveis novas quebras. Segundo, porque quando acabar, um dia, todo esse desastre (não se sabe quando terminará no mundo, mas sim na Espanha: ano que vem, segundo o Governo), os bancos sobreviventes serão muito mais cruéis e soberbos do que são hoje.
As crises são cíclicas, e desde o estalo da primeira bolha (a especulação holandesa com os bulbos das tulipas), se escutam as mesmas frases: o sistema financeiro aprenderá, não repetirá os erros, ganhará em solidez. Pois eu lhes asseguro que nos próximos meses nós seremos entupidos com esses mantras consoladores. Não acreditem numa palavra disso. O efeito das crises é exatamente o contrário. Elas costumam melhorar os controles governamentais, os mecanismos de emergência dos bancos centrais e as garantias públicas, mas o sistema financeiro se torna mais irracional a cada desastre. Por quê? Porque as instituições sobreviventes se tornam maiores e mais rentáveis (alguém ficará com os ativos bons de Lehman Brothers), porque quando se recupera o crescimento, o dinheiro chega de novo, e porque seus dirigentes, passado o terremoto, se convencem da própria infalibilidade. Se ainda estamos vivos, dizem, é por causa de nosso talento. E voltam então a inventar derivativos ultracomplexos, a esquentar o mercado da bolsa com aquilo que Alan Greenspan chamou de “exuberância irracional”, voltam a apostar com dinheiro alheio (um idiota pode investir na Bolsa, escolhendo ao azar, com maior êxito do que os analistas de um banco: essa experiência já foi feita) e voltarão a exigir dos governos a não interferência em sua sagrada liberdade.
Eu lamento que milhares de pessoas percam seu emprego nesse instante, mas nunca sentirei falta do Lehman Brohters”.
Fonte: Enric Gonzáles in El País, 16/9/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h02
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PARTIGIANI

A então governadora do Alaska, Sarah Palin, antes de ser escolhida vice-presidente de McCain, com seu marido, Todd Palin. Fotografia Al Grillo/Associated Press in The New York Times, 14/9/2008.
Again. Eu tento fugir, mas lá está ela. Não me incomoda o hambúrguer de alce, não me incomoda sua religião, não me incomoda sua fobia dos russos. Não. O insuportável está nessa sandália. Cada vez que eu me deparo com elas – são várias similares!! – meu sangue italiano urra de dor, meus antepassados se reviram no túmulo. As sandálias de Sarah Palin são pré-Idade das Cavernas, são pré-pré-qualquer coisa que se imagine em estética, em arte, em fineza, em cultura. Essas sandálias-wall mart são o que existe de pior nos Estados Unidos. Eu nunca vi na minha vida nada tão feio, nada tão anti-italiano, nada tão acintosamente prepotente. E pensar que essa mulher vai mover da primeira à sexta frota para empanturrar o mundo dessas sandálias! Não. Até aqui eu fui. Agora chega. Essa sandália é a razão pela qual vale a pena erguer armas e resistir. Com Armani, Valentino, Ferragamo, Ferré, Cucinelli, Versace, Marani, Rossetti, Prada, Dolce & Gabbana e todos os Ferrari, resistiremos! Parto agora para o exílio em Vignola, pertinho de Módena, vizinho à Bologna. Queridos primos e primas, minha doce amiga de Firenze, chego amanhã. Resistiremos!!!!
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h45
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AS PRIMEIRAS CARTAS
“Caro Professor,
Desde que assisti ao Congresso de Weimar no último outono, o estudo da psicanálise tem continuado a preocupar-me, e torno-me mais absorvida quanto mais penetro no assunto. Estou prestes a realizar agora o meu desejo de passar alguns meses em Viena. E o senhor permitirá que eu me aproxime de si, que assista às suas conferências e, ainda, que seja admitida às suas Noites de Quarta-Feira? O único objetivo de minha visita a Viena é dedicar-me mais profundamente a todos os aspectos dessa matéria.
Atenciosamente,
Lou Andreas-Salomé, 27 de setembro de 1912.”
“Cara Senhora Andreas,
Quando a senhora vier a Viena faremos todo o possível para introduzi-la ao pouco de psicanálise que pode ser demonstrado e comunicado. Já interpretei sua freqüência ao Congresso de Weimar como um augúrio favorável.
Atenciosamente,
Sigmund Freud, 1º de outubro de 1912.”
Citadas por Luzilá Gonçalves Ferreira in Humana, Demasiado Humana. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, pp. 202-203.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h30
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HUMANA

Lou Andreas-Salomé.
De Hélène Klingberg sobre Lou Andreas-Salomé:
“O sol se levantava quando ela entrava numa sala.”
Citada por Luzilá Gonçalves Ferreira in Humana, Demasiado Humana. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, p. 11.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h05
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PARA SEMPRE

Lou Andreas-Salomé.
De Rainer Maria Rilke para Lou Andreas-Salomé:
“Apague-me os olhos e eu continuarei te vendo, tape meus ouvidos, e eu seguirei te escutando, sem pés eu te seguirei, sem boca, eu continuarei te invocando”.
Rainer Maria Rilke citado por Manuel Vicent in Rainer Maria Rilke: hasta el fondo de las rosas, El País, 13/9/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h53
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ELA VEM CHEGANDO

Fonte: O Globo, 14/9/2008.
Eu tento sair do Rio de Janeiro neste blog, mas o problema é que o Rio me puxa, o Rio pisca para mim, o Rio me dá a mão, o Rio dá risada de meus passeios por Nova Iorque, minhas escapadas em Barcelona, minhas saudades de Carazinho, minha vida em Curitiba, minha pátria de Vignola, minha loucura por Buenos Aires. O Rio é essa coisa mais linda, mais cheia de graça, é esse doce balanço que me faz retornar, que me vira a cabeça, que me convida sem muito esperar. Hoje eu tinha pensado em sair pelo mundo, em sair por aí, andar, caminhar, vagar, como de praxe por aqui, e, no entanto, não vai dar. Foi só bater os olhos na primeira página do Globo, para lá reencontrar esse corpo dourado que faz de mim o que bem quer. Lá está essa manchete formidável sobre a cidade: “Da cratera ao vulcão”. Há um humor aqui tão carioca, tão de bem com a vida, tão querido, tão leve, que eu vou rir hoje o dia inteiro disso. Porém, logo abaixo, aparece esse gênio chamado Chico Caruso que, sozinho, é uma instituição. O que fazer com um gênio desses senão reproduzi-lo mundo afora como nosso maior produto de exportação? Chico Caruso não é commodity, Chico Caruso não é telefonezinho, Chico Caruso não é automóvel. Chico Caruso é essa gente brasileira que com um olhar, com um rápido comentário, faz o que se chama epifania. Vejam essa charge de hoje. É a segunda melhor crítica já feita a essa inacreditável candidata à vice-presidente nos Estados Unidos, Sarah Palin - a primeira melhor crítica saiu aqui neste blog, a não modéstia obriga a relatar. O Rio não deixa eu mudar de assunto, o Rio não deixa eu me afastar, o Rio me quer pertinho, o Rio é esse lugar em que, quando lá fora está chovendo, lá vou eu correndo, no meio da rua, do mundo, no meio da chuva, que coisa linda é o meu amor.

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 14/9/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h29
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