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ARTE POÉTICA

Jorge Luis Borges em Palermo, Buenos Aires, 1984. Fotografia de Ferdinando Scianna, publicada in El País, 13/9/2008.
Arte Poética Mirar el río hecho de tiempo y agua Y recordar que el tiempo es otro río, Saber que nos perdemos como el río Y que los rostros pasan como el agua.
Sentir que la vigilia es otro sueño Que sueña no soñar y que la muerte Que teme nuestra carne es esa muerte De cada noche, que se llama sueño.
Ver en el día o en el año un símbolo De los días del hombre y de sus años, Convertir el ultraje de los años En una música, un rumor y un símbolo,
Ver en la muerte el sueño, en el ocaso Un triste oro, tal es la poesía Que es inmortal y pobre. La poesía Vuelve como la aurora y el ocaso.
A veces en las tardes una cara Nos mira desde el fondo de un espejo; El arte debe ser como ese espejo Que nos revela nuestra propia cara.
Cuentan que Ulises, harto de prodigios, Lloró de amor al divisar su Itaca Verde y humilde. El arte es esa Itaca De verde eternidad, no de prodigios.
También es como el río interminable Que pasa y queda y es cristal de un mismo Heráclito inconstante, que es el mismo Y es otro, como el río interminable.
Jorge Luis Borges, 1960
Fitar o rio feito de tempo e água
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
e que os rostos passam como a água.
Sentir que a vigília é outro sonho
que sonha não sonhar e que a morte
que teme nossa carne é essa morte
de cada noite, que se chama sonho.
No dia ou no ano perceber um símbolo
dos dias de um homem e ainda de seus anos,
transformar o ultraje desses anos
em música, em rumor e em símbolo,
na morte ver o sonho, ver no ocaso
um triste ouro, tal é a poesia,
que é imortal e pobre. A poesia
retorna como a aurora e o ocaso.
Às vezes pelas tardes certo rosto
contempla-nos do fundo de um espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela nosso próprio rosto.
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
chorou de amor ao divisar sua Ítaca
verde e humilde. A arte é essa Ítaca
de verde eternidade, sem prodígios.
Também é como o rio interminável
que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.
“Arte Poética” de Jorge Luis Borges in Antologia Pessoal. São Paulo: Cia. das Letras, 2008, pp. 229-230. Tradução de Josely Vianna Baptista.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h57
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AMANHECER

Mart’nália no Canecão, Rio de Janeiro, maio de 2007. Fotografia de Eryck Machado.
Querida Mart’nália,
Eu adorei ler que você adora a madrugada e que ama ver o dia amanhecer. Então eu queria te fazer um pedido. Nessa noitada, eu não consegui me acabar de rir, não consegui aprontar, não consegui sambar direitinho, miudinho, não consegui arrancar aquela saia. É verdade que eu sumi dos lugares, dos bares, prá ninguém me encontrar, prá não contar vantagem, com certeza prá me juntar – os cacos, sem descansar. Não, meu pedido não é o de beijos sem tréguas nem de sete mil léguas. Eu só quero que você cante prá mim aquela da Elizeth, daquele jeito que tanto me encanta, daquele jeito que me fascina, só para mim, eu quero que você me acalante, como uma mère, me fale desse mer que eu já avisto neste amanhecer. Eu só quero, nesse instante, uma meiga presença.
Quem ao meu lado esses passos caminhou? Este beijo em meu rosto, quem beijou?
A mão que afaga a minha mão, este sorriso que não vejo De onde vem? Quem foi que me voltou? Vem, de outro tempo bem longe que esqueci
A ternura que nunca mereci Quem foste tu presença e pranto? Eu nunca fui amada tanto Estás aqui, momento antigo Estás comigo! Se não te importa ser lembrado Se não te importa ser amado Amor amigo, fica ao meu lado sempre
(Meiga Presença de Paulo Valdez e Otávio de Moraes).
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h00
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SALTOS NO DESCONHECIDO

João Marcos Coelho escreveu no Estado de São Paulo de domingo sobre a pianista argentina Martha Argerich. É uma das coisas mais lindas que eu já li. Não é só sobre música clássica, não é só sobre essa mulher magnífica, não é só sobre o DVD Conversas Noturnas (que nome belíssimo!! “Conversas noturnas”, que ressonância há nesse “noturnas”, que simbólico isso!!) recém lançado (Medici Arts), não é só pelo que Martha conta neste DVD, não é só pelo que Martha fala neste DVD. Há algo em Martha muito raro, muito difícil de encontrar. Há em Martha essa força estranha, há em Martha esse fogo que não apaga, há em Martha essa entrega total, há em Martha esse desejo que se espalha à flor da pele. O trecho que mais me emocionou no artigo é este:
“Pianista-prodígio em Buenos Aires, Martha define como “choque elétrico” o que sentiu ao assistir Claudio Arrau tocando o quarto concerto de Beethoven. “Tinha 6 anos, e o segundo movimento, um Andante com moto, me deixou toda arrepiada. Foi a primeira grande emoção musical da minha vida.” Até hoje ela não toca este concerto. “Tenho medo. É muito importante para mim.”
A pianista firmou-se instantaneamente como um dos grandes nomes do piano no século 20– ao lado de Glenn Gould, Arturo Benedetti Michelangeli e Friedrich Gulda. Estes três não foram escolhidos ao acaso. Como o canadense, que sequer é citado no documentário, ela tem uma preferência especial pelo repertório que vai de Bach a Mozart e ao Beethoven jovem, e depois pula para os russos no começo do século 20, como Prokofiev e Shostakovich. Por causa de Friedrich Gulda, Martha mudou-se para Viena aos 13 anos, e com ele estudou por um ano e meio. “Foi a pessoa que mais me influenciou musicalmente. Eu era loucamente fascinada por ele.” Gachot pergunta-lhe baixinho: “Ele era um irmão pra você?” “Não, de jeito nenhum. Era outra coisa. A diferença de idade era pequena, eu com 13, ele com 24 anos”, responde Martha com um meio-sorriso maroto e começa a enrolar o cabelo com o dedo.“Nunca conheci outra pessoa tão talentosa na minha vida.”
O que a fascinou tanto em Gulda? O gosto pelo risco, os repetidos saltos no desconhecido.“Nos entendíamos por osmose. Eu sabia o que ele queria só de olhar. Eu entendia tudo. Ele me fazia ouvir muito. Sempre me gravava. E eu tinha que criticar depois. Era uma autocrítica que eu fazia na hora. Ele me conhecia. Era extraordinário.”
Fonte: João Marcos Coelho in Noites com Martha, O Estado de São Paulo, 7/9/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h38
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VELHO DIÁLOGO
“Brás Cubas .............................................?
Virgília .................................
Brás Cubas ................................................
...............................................................................
Virgília .................................................................!
Brás Cubas ............................................
Virgília .................................
.................? ....................................................
..............
Brás Cubas ..................................................
....................................... .!.........................
..................................................!
Virgília ...............................................................?
Brás Cubas ......................................!
Virgília .............................................!”
Machado de Assis in Memórias Póstumas de Brás Cubas. Capítulo LV – O Velho Diálogo de Adão e Eva. Obra Completa v. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 570.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h39
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WAGNER

“Wagner” (1942), ilustração de Arthur Szyk em exposição no Deutsches Historisches Museum, Berlim in The New York Times, 8/9/2008. Fotografia de Roger Low.
Michael Kimmelman contou ontem no The New York Times sobre a exposição da obra do caricaturista judeu Arthur Szyk no Deutsches Historisches Museum de Berlim. O jornal reproduziu essa caricatura impressionante do compositor Richard Wagner extraindo música em meio ao horror nazista. O que eu posso comentar disso? Nada. A não ser que Wagner era um canalha, mas era um gênio. Não há dia da minha vida que não escute Tristão e Isolda, e chore. Aquilo não é mais música. É outra coisa. Porém, eu tenho um amigo para me ajudar nessa hora. Ele se chama André Tezza e tem um dos blogs mais belos que já vi. É um dos maiores estudiosos de música, de comunicação, de ética e, o que me basta, é meu amigo. Não adianta ele dizer que parou de escrever, porque cada vez que volto lá, aquilo revive, aquilo remexe, aquilo continua a abrir debate. Então, passo-lhe a palavra, querido amigo. O que eu te peço é pouco. O que pensas dessa relação entre Wagner e o nazismo, o que notastes sobre o que Nietzsche percebeu disso, enfim, querido amigo, algumas palavras suas. Eu estou com saudades de escutá-lo. Eu sei que você esteve sumido por uma semana, parece que à trabalho, não sei bem – há boatos divergentes -, em um lugar absolutamente paradisíaco. Eu sei que você já retornou. Como? Ainda não? Cadê você, meu amigo???
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h50
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COERÊNCIA
Às vezes reclamam que sou muito duro com o governo italiano. Pois agora chegou a hora do aplauso. Chegou ontem da Itália a notícia de que o ministro da Justiça, Angelino Alfano, apresentou um plano para libertar das prisões 7.400 presos estrangeiros e 4.100 italianos. É o primeiro ato do governo Berlusconi coerente e justo. Quando o maior delinqüente do país ocupa o cargo de primeiro-ministro, é hora de revogar essa instituição chamada prisão. Que se libertem todos! Bravo!
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h46
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À VIDA

João Gilberto no show de sábado em Salvador, citado por Ancelmo Gois in O Globo, 8/9/2008.
Querida vida,
Sabe aquele ensaio que você está me exigindo? Pois eu já vim ensaiado do Rio Grande do Sul, minha querida, e também do Paraná. Vamos direto, querida vida, vamos torto, vamos reto, quando der, vamos curvo, quando puder, vamos, querida vida, vamos. Ensaio? Mas para quê, minha querida? Não se trata de preguiça. É outra coisa. Carazinho me ensaiou na arte de amar intensamente, amar o impossível, cada vez que eu saía de casa e olhava aquele pampa infinito, aquele horizonte aberto me fazendo um convite: vem? Curitiba me ensaiou na arte de amar sempre, amar com força, amar cada vez que eu saía de minha análise outro que não eu, outro que me doía, que me abria com um não a fundação de todos os outros sims. Papai, mamãe, vovôs, vovós, meus filhos, todas as mulheres, que me ensinaram, um pouco de cada vez, um pouco a cada dia. E se desafinar? E se o carnaval cair em abril? E se a platéia debandar? E se o sertão virar mar? Aí, querida vida, eu conto com você para aprender de novo, para aprender o novo, junto de você.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h17
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INDEPENDÊNCIA
“Hervê sentou-se ao piano e Carmen começou.
No meio da primeira música, alguém abriu a porta do estúdio, esticou o pescoço pondo a cabeça para dentro e disse tibiamente: “Com licença?”. Foram suas últimas palavras. Era o cantor Carlos Galhardo, ainda pouco conhecido apesar de ter lançado pela Victor, no ano anterior, o que seria depois a maior canção natalina brasileira de todos os tempos: “Boas festas”, de Assis Valente.
O americano não quis saber se ele era Carlos Galhardo ou o próprio Papai Noel. Esbanjando grossura, esbravejou e soltou-lhe os cachorros em espanhol por causa da involuntária interrupção. Galhardo fez gulp, recolheu o pescoço e nunca mais foi visto – pelo menos naquele dia.
Carmen, que assistiu à cena estupefata, deu um tapa no piano e ordenou:
“Hervê, fecha o piano. Eu não canto mais para esse filho-da-puta. Não canto para gringos que tratam mal meus patrícios.”
E, virando-se para o americano:
“Eu sou brasileira, ele é brasileiro, e o senhor tem que nos respeitar.”
Deu uma rabanada na saia e, toda pimpona e digna, saiu marchando do estúdio.”
Ruy Castro in Carmen. São Paulo: Cia. das Letras, 2005, p. 120.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h44
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