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TRÊS MINUTOS

“- O tango é uma história de amor que dura três minutos. Isso que é lindo.
- O que é lindo? Que seja uma história de amor ou que dure três minutos?
- As duas coisas.”
Fonte: entrevista de Jenny, colombiana de Medellín, a Martín Caparrós durante o Concurso Mundial de Tango de Buenos Aires in El País, 29/8/2008. Fotografia AFP.
Querida Jenny,
Você só não contou o nosso segredo. Para chegar nesses três minutos, é como fazer amor. Fica muito bom depois de vinte anos de passos para a frente, passos para o lado, passos para trás, cruzado, gancho, ocho, milonga, tempo, postura, pivot, desacelerar, agora mais rápido, não tanto, suspirar, pernas abertas, entrega, paixão, desigualdade total, diferença absoluta, girar devagarinho, sem pressa, escutar a letra de nossos gemidos, o não dito de nossas bocas, movimento contínuo da tesão, contratempo. Aí sim, três minutos. Lindo, querida Jenny.

Jenny com outro par em Buenos Aires. Não deu certo. Faltou pegada do rapaz. Eu te perdôo, Jenny. Nossos próximos três minutos precisam de mais vinte anos. Até amanhã, querida, até amanhã. Fotografia de Axel Alexander in El País, 29/8/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h41
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MUDANÇA?

Fonte: Matthew Ericson in The New York Times, 29/8/2008.
O The New York Times comparou os discursos realizados na Convenção do Partido Democrata de 2008 (candidato Barack Obama) com a anterior de 2004 (candidato John Kerry). Há muitas coisas interessantes aqui, porém chama a atenção a diminuição do significante “guerra” e a inflação do “mudança”. Curioso é o crescimento de “mãe/mães” e a ausência do “pai/pais fundadores”, que é um dos mitos da democracia norte-americana. A enorme presença de “McCain” nos discursos revela a grande preocupação do partido. O que era para ser um passeio de Obama começa a se revelar um pesadelo. O Brasil e a América Latina, mais uma vez, não estão presentes nos discursos. É uma pena. Sem o Brasil, I can’t.
Escrito por Leonardo Ferrari às 10h34
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TODA A BELEZA DA POLÍTICA

Fonte: Marília Martins in O Globo, 29/8/2008.
Quando da morte da ex-primeira-dama Ruth Cardoso, mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, nós assistimos ao abraço pessoal do presidente Luís Inácio Lula da Silva em Fernando Henrique Cardoso. Muito bonito. Lula levou grande parte de seu ministério para cumprimentar o ex-presidente, em um gesto simbólico de grande beleza. Ontem foi a vez de John McCain fazer isso nos Estados Unidos. Após meses de ataques incessantes a Barack Obama, houve uma pausa também muito simbólica. Houve um aperto de mãos. Belíssimo. E, ainda ontem, fotografaram o celular do ministro Nelson Jobim, onde está escrito um encontro com o “ministro” José Dirceu. Eu também gostei disso. Não é porque todo mundo diz que José Dirceu é o culpado de tudo que Nelson Jobim tenha que seguir todo mundo. Não. Em seu espaço privado, íntimo, pessoal, Jobim não segue todo mundo, Jobim vai contra a corrente, Jobim segue o caminho da fantasia. Bonito isso. Percebam o encontro seguinte a Dirceu: “Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social”. Pura fantasia. Belíssimo!

Fonte: Luiza Damé e Roberto Stuckert Filho in O Globo, 29/8/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h29
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ENQUANTO ISSO EM DENVER...

“Repórter - O senhor sabe como vai reagir a essa descarada invasão de uma ex-superpotência a seu antigo território?
Barack Obama - Eu não tive escolha a não ser ceder a eles o palco para duas noites na Convenção do Partido Democrata.”
Fonte: Matt Davies in The Journal News, 17/8/2008.
A pergunta era sobre a Geórgia, porém toda a brincadeira do genial Matt Davies versa sobre o mal-entendido estrutural do significante. O que é a invasão da Geórgia quando você se depara com o super poderoso casal Clinton, “descarados”, invadindo seu antigo território, o Partido Democrata? A resposta do candidato Barack Obama é um resumo do personagem: ceder, abrir mão, não brigar. Ecce Homo!
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h41
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É UM RIO QUE PASSA NA MINHA VIDA

Primeira página de O Globo, 27/8/2008.
A cidade do Rio de Janeiro fez bonito de novo. Eis aí a mais nova rua da cidade: rua Dorival Caymmi. Magnífica homenagem. Que isso seja um divisor de águas a partir de agora. Há cidades no mundo que têm uma rua Dorival Caymmi e há cidades no mundo que não têm uma rua Dorival Caymmi. Só isso. Por enquanto, há uma. E se chama Rio de Janeiro. Ao menos uma, uminha, minha. Rua Dorival Caymmi. Espetacular! Sensacional! Epifânica!! Que as outras imitem o Rio pelo menos nisso. Mas, as outras não gostam do Rio. As outras esnobam o Rio, xingam o Rio, invejam o Rio, riem do Rio, falam mal do Rio. Enquanto isso, o Rio inaugura a rua Dorival Caymmi. Ai, que saudades eu tenho do Rio de Janeiro. Que saudades! Pobre de quem acredita nas outras ruas para ser feliz. Há uma agora no mundo. E ela se chama Dorival Caymmi. No Rio de Janeiro. Quem quiser vatapá, quem quiser um bocadinho mais da vida, um temperinho qualquer, uma nêga ô, que saiba mexer, eis aí o lugar, eis aí a topia onde o “u” faz parte do nome. Rua Dorival Caymmi. Que seja bem-vinda, que seja amada, que seja vivida, que seja cantada, que seja o que for. Existe no mundo um lugar chamado Dorival Caymmi. Talvez eu fique por lá.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h32
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SUBLIME

“Almanaque Armorial” de Ariano Suassuna. Seleção e organização de Carlos Newton Júnior. Editora José Olympio, 2008.
“A gente não cultua as cinzas do antepassado, mas a sua chama.”
Ariano Suassuna em entrevista a Antonio Gonçalves Filho sobre seu livro “Almanaque Armorial” in O Estado de São Paulo, 24/8/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h14
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LUCEVAN LI OCCHI SUOI

Fotografia de График, Rússia.
Querida Anna,
Когда я ночью жду ее прихода,
Жизнь, кажется, висит на волоске.
Что' почести, что' юность, что' свобода
Пред милой гостьей с дудочкой в руке.
И вот вошла. Откинув покрывало,
Внимательно взглянула на меня.
Ей говорю: "Ты ль Данту диктовала
Страницы Ада?" Отвечает: "Я".
Isso é para ti. Panos negros, olhos negros, selva oscura, o que se passou? Fluem nossas lágrimas – прощальное – é tudo o que eu não posso dizer. Se agora a vida me parece suspensa por um fio, por um fiapo, por um nada, é você quem vem me tocar, me erguer, me declarar Да. Somos estrangeiros, hóspede querida, eu também estou de passagem. Quantos círculos até a pedra branca?
À MUSA
Anna Akhmátova, 1924. Tradução de Lauro Machado Coelho in “Anna Akhmátova – Poesia: 1921-1964”. Porto Alegre: L&PM, 1991.
Quanto, à noite, espero a tua chegada,
a vida me parece suspensa por um fio.
Que importam juventude, glória, liberdade,
quando enfim aparece a hóspede querida
trazendo nas mãos a sua rústica flauta?
Ei-la que vem. Soergue o seu véu,
olha para mim atentamente.
E lhe pergunto: "Foste tu quem a Dante
ditou as páginas do Inferno?". E ela: "Sim, fui eu".
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h13
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FIRE

Woody Allen in “Excerpts From the Spanish Diary”, The New York Times, 24/8/2008.
Ele voltou. “Vicky Cristina Barcelona” é o nome do retorno. Dos excertos de seu diário publicado hoje no The New York Times, eis seu encontro com Penélope Cruz, em tradução simultânea: “she’s ravishing”, “ela é encantadora, charmosa, querida, maravilhosa, espetacular, magnífica, epifânica”, “and more sexual than I had imagined”, “e muito mais sensual, mais cativante, mais poderosa, mais perigosa, mais sexual, mais erótica do que a minha pobre, a minha mendiga, a minha frágil imaginação poderia conceber”. “During interview”, “durante meu encontro, meu choque com ela, minha entrevista com essa deusa, com essa diva”, “my pants caught fire”, “minhas calças, minhas..., meu..., aquilo..., isso pegou fogo, agitou-se, agigantou-se, é fogo, ardeu, brotou, labaredas se esparramaram pelo que restou de mim”. Ele voltou.

Woody Allen com Javier Bardem, Penélope Cruz e Scarlett Johansson em “Vicky Cristina Barcelona”. Fotografia de Victor Bello/The Weinstein Company in The New York Times, 24/8/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h58
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