Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


CONTRA OS NEUTROS

Fonte: O Estado de São Paulo, 22/8/2008.

 

“O candidato republicano à presidência dos EUA, John McCain, afirmou ontem que não sabe quantas residências possui. Surpreendido pela pergunta de um repórter do jornal The Politico, McCain tentou fugir da resposta.“Acho que...Bom,vou pedir para minha equipe te dizer.”A resposta chegou pouco depois à redação do jornal: são quatro casas em três Estados diferentes, Arizona, Califórnia e Virgínia.No entanto, a revista Newsweek afirmou que McCain e sua mulher, Cindy, têm pelo menos sete propriedades. O número exato de casas da família McCain, de fato, importa menos do que a polêmica criada em torno da declaração. Durante as últimas semanas, os republicanos vinham tentando colocar o rótulo de elitista no candidato democrata, Barack Obama, e as declarações do republicano foram interpretadas por analistas como as de um milionário que não sabe exatamente o tamanho de sua fortuna. A campanha de Obama usou apolêmica para atacar McCain.”

         Fonte: AP in O Estado de São Paulo, 22/8/2008.

 

 

            Eu adorei a resposta de John McCain. Por que ele deveria saber quantas mansões possui? Por que ele deveria satisfazer essa demanda-“pegadinha” idiota desse jornal? Não há nada mais chato do que o “politicamente correto” representado pelo senador Barack Obama. Tudo o que eu leio de Obama – seus discursos, suas respostas, seus planos de governo – me dá sono. É tão certinho, tão ecológico, tão de bem com todos, tão não ofensivo que é impossível acreditar num sujeito desses. Obama é a vitória dos neutros, daqueles que para Dante Aliguieri, não podem sequer entrar no Inferno – já que nem o Céu os quer. O neutro é aquele em cima do muro, aquele de bem com todos, aquele que não pretende brigar com ninguém, é aquele que acredita piamente que a neutralidade não é ideologia.  McCain é o grosso, é o estúpido, é o fanfarrão, é o ignorante em muitas coisas, é o militar ainda ferido pelo passado, mas McCain é humano, é gente e é o único dos dois candidatos que percebeu claramente o que significou a ocupação militar da Geórgia por parte da Rússia. Não é com discursos bonitos, sorrisos e apertos de mão que se resolve uma crise dessas. Eu torci para Hillary Clinton ganhar a nominação do Partido Democrata. Nela eu votaria. Ontem, McCain ganhou meu voto. É isso tudo o que eu espero de um candidato: que se atrapalhe, que fracasse muitas vezes, que não seja um sabonete. Eu voto McCain.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h53
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A FANTASIA DO UNIVERSO INTACTO DA INFÂNCIA

Agatha Christie na biblioteca de sua casa de campo, Greenway House, próxima de Brixham, em Devon, Inglaterra. Fotografia: apexnewspix.com.

         “Agatha Christie (...) passou a vida inteira lutando contra o caos. Quis ignorá-lo e recuperar aquele mundo anterior de ordem e de normas, o universo intacto de sua infância. Por isso, suas obras policiais (19 romances, 19 peças de teatro) são mundos circulares perfeitamente explicáveis.”

Rosa Montero in Histórias de Mulheres (Agir, 2008), citada por Patrícia Rocha in Zero Hora, 17/8/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h28
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MEDALHA DE PRATA

Fonte: Gabriel Manzano Filho in O Estado de São Paulo, 21/8/2008

O governador do Paraná se esforçou. Vai completar em breve oito anos de dedicação exclusiva e treinamento intensivo. Mas não deu. Ficou com a medalha de prata. Infelizmente. A tristeza é geral no Paraná. A rua XV de Novembro, conhecida internacionalmente como Boca Maldita, amanheceu calada. Nunca o Paraná sofreu tanto como agora. Medalha de prata? A frustração se abate sobre o Estado. A indignação tomou conta das ruas. Não deu, governador, não deu. Mas ainda há tempo. Quem sabe em breve? É minha única esperança neste momento. Ao ouro, senhor governador, ao ouro!! Minhas orações estão com o senhor!



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h42
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DENGO

Fotografia de Mario De Biasi, Milão, 1954. 

         “Não sei de palavra tão bonita quanto ‘dengo’. Dengo...denguice...dengosa...Palavras que dizem muita coisa, que definem, por vezes, a personalidade de uma mulher. O sol do Nordeste, aquele calor das tardes pedindo rede e água de coco, pedindo cafuné e dando ao corpo certa moleza gostosa, produz o dengo, às vezes na modulação da voz terna, de súbito no gesto, como um convite. Não sei definir certas mulheres senão pelo dengo que possuem.”

         Dorival Caymmi in Cancioneiro da Bahia. São Paulo: Martins, 1967, p. 149. Citado por Francisco Bosco in Dorival Caymmi. São Paulo: Publifolha, 2006, p. 30.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h53
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O SONHO DE UM JORNALISTA ALEMÃO

             O grande jornalista alemão Gabor Steingart, da Der Spiegel, foi um dos primeiros a desconstruir o mito de Barack Obama nos Estados Unidos.  Em todos os seus artigos há uma lucidez, uma inteligência e uma ousadia raras de se ler. Hoje não foi diferente. Comparar Putin com Kennedy é desconcertante, atordoante e, por isso mesmo, essencial. Eu não concordo com essa idéia, mas ela é muito bem demonstrada por Steingart. Eu ainda penso que há muitas diferenças entre um fascista (Putin) e um não fascista (Bush). Uma delas se chama democracia – por mais capenga que seja, por mais débil que pareça, por mais manipulada que esteja. Bush deixa a presidência para não mais retornar agora no final do ano. Putin vai permanecer ad infinitum – talvez inspirado em Fidel Castro. É óbvio que a democracia não é um sistema perfeito – não existe perfeição – mas o fascismo de um único partido, o fascismo de um Estado onipresente, gigantesco e sufocante nunca foi alternativa – foi sim uma enorme ilusão-prisão a céu aberto. Putin, o Kennedy russo? Não. É o Stálin de volta. Sem disfarces.

“Putin é o Kennedy russo
Atualmente o primeiro-ministro russo Vladimir Putin é freqüentemente comparado -injustamente- com Stalin e Hitler. Na verdade, Putin é um Kennedy russo. E a Cuba de Putin se chama Geórgia.

Gabor Steingart, Der Spiegel, 20/8/2008 in UOL. Tradução de George El Khouri Andolfato.

A invasão da Geórgia pela Rússia fez ressurgir os fãs de comparações históricas. O ministro das Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt, por exemplo, comparou Vladimir Putin a Hitler. E o ex-conselheiro de segurança nacional dos Estados Unidos, Zbigniew Brzezinski, sentiu que lembrava o tratamento dado por Stalin à Finlândia. Mas estas analogias dizem mais sobre o sentimento do Ocidente do que sobre Putin. Apesar de poder soar ousado a princípio, e apesar de que os americanos não vão gostar de ouvi-lo, o Vladimir Putin que o mundo experimentou nos últimos dias tem uma maior semelhança com o ex-presidente americano John F. Kennedy nos anos 1961 e 1962.

Primeiro, o jovial Kennedy era visto como a personificação de uma nova América, assim como o rijo Putin representa a revitalização da Rússia. Kennedy era, e Putin é, profundamente popular entre seus cidadãos. Segundo, mesmo Kennedy traçou uma distinção entre Estados soberanos de primeira classe e de segunda classe. Ele presumia que os moradores da casa principal tinham o direito de dizer algo a respeito do seu quintal, como em Cuba, por exemplo. Putin compartilha a mesma visão, no caso da Geórgia, por exemplo. No caso dos Estados Unidos, nós chamamos este comportamento de dominante, no caso da Rússia de agressivo. Mas queremos dizer a mesma coisa. Terceiro, pensar em termos de esferas de influência tinha conseqüências militares para Kennedy, assim como para Putin. Em Cuba, Kennedy até mesmo foi além do que o primeiro-ministro russo fez em relação à Geórgia. Em abril de 1961, a Agência Central de Inteligência (CIA) americana apoiou o desembarque dos exilados cubanos na Playa Girón, na Baía dos Porcos de Cuba. Kennedy queria promover uma mudança de regime à força em Havana, algo que Putin não fez na Geórgia. Todavia, seu desejo de derrubar o presidente georgiano do governo era sem dúvida tão grande quanto o interesse de Kennedy em derrubar o ditador cubano Fidel Castro. O esforço para promover a mudança de regime em Havana fracassou, mas Kennedy se recusou a reconhecer a soberania de Cuba. Quando a União Soviética começou a posicionar ogivas nucleares em Cuba, o presidente americano ameaçou entrar em guerra. Em outubro de 1962, o mundo prendeu a respiração até que a Rússia reconheceu a reivindicação americana a seu próprio quintal e então o premiê Nikita Khruschov, no domingo, 28 de outubro, ordenou a retirada dos mísseis. Agora, a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, e seu presidente, George W. Bush, dizem que outras leis se aplicam atualmente do que no século 20. Soa plausível, mas não é verdade, como está claramente evidente no caso de Cuba. Os Estados Unidos ainda tratam a ilha caribenha, com seu comunismo da idade da pedra, como uma inimiga pública. Os cidadãos americanos não podem visitar Cuba, um país com um produto interno bruto que é uma fração do americano, nem podem fazer negócios com o país. Charutos cubanos são considerados contrabando e qualquer americano que fumá-los é considerado um inimigo do Estado.

Mas a mensagem confortadora para russos e americanos é esta: os dois países não são tão diferentes quanto gostariam de pensar. Eles pensam de forma semelhante, agem de forma semelhante e até mesmo falam a mesma língua -a da política do poder. A tarefa da Europa é impedir uma escalada da atual situação. No momento, a expansão da Otan para o quintal da frente da Rússia não aumenta a segurança -ela apenas serve para ampliar as tensões na Europa. A crise de Cuba foi seguida por outros 10 anos de Guerra Fria antes que uma política de détente prevalecesse. Talvez esta estrada possa ser encurtada desta vez. E o que acontece com a Geórgia? Respeitar os interesses da Rússia não significa trair a democracia. A integridade nacional da Geórgia não está aberta a debate, mas faria bem ao país baixar um pouco o tom de sua retórica pró-americana. Um olhar para o Caribe também pode ser confortador para o presidente georgiano. Kennedy está morto, mas o comunismo ainda vive.”



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h12
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O ATLETA DO SÉCULO

Na guerra ao terror, os “obstáculos” pelo caminho: habeas corpus, direitos humanos, liberdades civis e “general conventions” que, no Webster significa literalmente o “corpo legislativo de uma Igreja”. Mas, no contexto da charge, parece aludir aos acordos internacionais como as Convenções de Genebra contra a tortura e pelos direitos dos prisioneiros de guerra e assim por diante.

Fonte: Clay Bennett in Chattanooga Free Press, 19/8/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h32
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BIANCA CASTAFIORE

Quem mexeu no meu Tintim? Chega de Barcelona, através de Israel Punzano, o relato:

       “O intrépido Milu morreu, o capitão Haddock – mais chegado que nunca à garrafa – gastou toda sua fortuna em orgias e mesas de jogo; o maluco do professor Girassol passa seus dias em um hospital psiquiátrico enquanto que Tintim, obviamente, está deprimido. Para desembaraçar-se da tristeza, ele decide regressar ao jornalismo, mas tudo mudou desde sua última reportagem. Vários anos depois da morte de Hergé, o mundo não pede mais aventuras, mas sim crônicas sensacionalistas sobre celebridades e suas vidas íntimas” (fonte: Israel Punzano in El Tintín más 'pervertido' solivianta a la tribu Hergé, El País, 19/8/2008).

         Essa “continuação” de Tintim foi escrita por Antonio Altarriba no livro “Tintín y el loto rosa” [“Tintim e o loto cor de rosa” – alusão ao célebre álbum “Tintim e o loto azul”] e ilustrada por Ricard Castells e Javier Hernández Landazábal. Processado pela Fundação Moulinsart, que detêm os direitos da obra de Hergé, o livro não poderá nunca mais ser reeditado. A Fundação decretou que esta obra espanhola “pervertia a essência do cândido Tintim”. E isso porque, entre outras, o eterno adolescente Tintim finalmente perde sua virgindade nas mãos, nos lábios, nas pernas, na pele, no olhar de...Catherine Deneuve! Pois é, o “cândido” racismo de “Tintim na África”, pode. Sexo? Não pode. 

         Ridículo! Mas eu também não aceito a fantasia de Altarriba. Na minha imaginação, Tintim acaba na cama da Castafiore!! Que mulher!! Que cantora magnífica – ela que termina “As Jóias da Castafiore” indo cantar no La Scalla de Milão uma ópera de Rossini!! Maravilhosa! Então, como agradecimento a Tintim ela decide lhe ensinar aquilo que há de mais precioso no bel canto, aquilo que Isolda fez com Tristão, aquilo que Julieta ofereceu a Romeu, aquilo que Cloé retribuiu a Daphne, aquilo que Helena deu cinco mil vezes a Páris. Catherine Deneuve? Mas o que é Catherine Deneuve perto da Bianca Castafiore? Olhem só o nome dela: “Bianca”, branca, “casta”, virgem, “fiore”, flor. Esta é a flor de Tintim, é “a” loto, é a mega-sena de Tintim! Catherine Deneuve? É apenas mais uma bela da tarde...

             

Bianca Castafiore in “As Jóias da Castafiore”. Rio de Janeiro: Record, 1970.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h05
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KAMCHATKA

“- Tudo o que Bush sabe sobre o Leste Europeu e a Ásia Menor, ele aprendeu no T.E.G [É o WAR argentino].

- Se a Rússia invadir a Geórgia, então eu atacarei Kamchatka [um dos territórios do T.E.G.].

Fonte: Daniel Paz e Rudy in Página 12, 18/8/2008.

            A maravilhosa charge de Daniel Paz e Rudy no Página 12 de hoje remete também ao magnífico filme argentino chamado “Kamchatka” de Marcelo Piñeyro, feito em 2002. Não me sai da memória a cena em que o pai mostra ao filho o que se pode fazer quando se tem apenas um território – Kamchatka. O jogo T.E.G. (Plan Táctico y Estatégico de la Guerra) é o nosso querido WAR, versão do inglês RISK. O território de Kamchatka foi suprimido na versão do WAR e trocado por Vladivostok. Esse é um dos mistérios que atormentam minha existência. Por que Kamchatka não existe no WAR? Quem foi que decidiu a exclusão de Kamchatka? E por que Vladivostok entrou no lugar de Kamchatka? Aguardo respostas de meus fiéis leitores. Urgente!!



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h45
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DICRÓ E A ARTE DE NÃO RESPONDER À DEMANDA OU COMO SER LACANIANO NA POLÍTICA

O Grafo Completo do Desejo em “Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo” (1960) de Jacques Lacan in “Escritos”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 1998, p. 831.

“Foi em 2004, quando se candidatou a vereador pelo antigo Partido Liberal.

         - Deu um rolo desgraçado e acabou no maior desastre – conta. – Tudo porque em vez de fazer corpo a corpo, como todo político, eu fiz copo a copo. Perdi por causa de coisas como um comício na porta de um botequim na favela da Chatuba [Morro da Chatuba, no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro]. Trepei em cima de uma caixa de cerveja vazia e falei: “Povo da minha terra, vocês têm água aí?” E eles responderam: “Nãaoo”. “Tem escola para as crianças?” Repetiram: “Nãaoo”. “Tem policiamento?” “Nãaoo”. Aí, não aguentei: “Então, porque vocês não mudam dessa merda...” Eles ficaram na maior bronca.”

         Carlos Roberto Oliveira, o Dicró, 62 anos, a José Casado.

Fonte: José Casado in A política e a violência mudam o samba do Rio, O Globo, 17/8/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h19
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