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FELICIDADE

Fotografia de Черкасов Андрей (Rússia).
--“- Era o que eu estava agora mesmo a pensar: como pudeste sacrificar tudo por mim? Não me posso perdoar a mim mesmo que te sintas desgraçada.
- Desgraçada, eu? – exclamou Ana, aproximando-se dele, fitando-o com um sorriso de amor e exaltação. – Sinto-me como uma esfomeada a quem deram de comer. Talvez tenha frio, talvez esteja esfarrapada e sinta vergonha, mas desgraçada, não. Desgraçada, eu? Não, esta é a minha felicidade...”
Resposta de Ana Karênina a Vronski in “Ana Karênina – v. I”, Leon Nikolaievitch Tolstói. Tradução de João Gaspar Simões. São Paulo: Abril Cultural, 1982, p.181.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h29
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A FARSA RUIU

Fonte: Tab in The Calgary Sun, 7/8/2008.
O incrível julgamento do motorista de Osama Bin Laden, Salim Hamdan, terminado ontem na base militar-campo de concentração que os Estados Unidos ocupam em Guantánamo, Cuba, trouxe um veredicto inesperado para o governo dos Estados Unidos. A pena estipulada para o réu foi surpreendentemente muito pequena – cinco anos de prisão, o que provavelmente irá resultar na libertação de Hamdan daqui a seis meses no máximo. O governo americano esperava uma condenação de no mínimo trinta anos de prisão. O que isso quer dizer? Isso quer dizer que nem essa “justiça” militar, esse fantoche de justiça que não é justiça, esse falso tribunal nessa farsa horrorosa, nem esses paus mandados, esses militares subordinados ao “comandante-chefe” que é o presidente dos Estados Unidos, nem esses conseguiram se convencer da periculosidade de Salim Hamdan. É o fim de uma era das trevas nos Estados Unidos. Quando nem a “justiça militar” consegue acreditar no “C.E.O.” de plantão, então o fim chegou. Cai o pano.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h56
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EYES OF CONJUGAL ATTRACTION

Eva Herzigova fotografada por Vincent Peters in GQ Itália, agosto/2008.
Eu estava lendo as ótimas entrevistas da indispensável GQ de agosto quando, sem querer, fui levado, fui arrastado, fui atirado para este trecho de Milton:
“So spake our general Mother, and with eyes Of conjugal attraction unreprov'd, And meek surrender, half imbracing leand On our first Father, half her swelling Breast [ 495 ] Naked met his under the flowing Gold Of her loose tresses hid: he in delight Both of her Beauty and submissive Charms Smil'd with superior Love, as Jupiter On Juno smiles, when he impregns the Clouds [ 500 ] That shed May Flowers; and press'd her Matron lip With kisses pure: aside the Devil turnd For envie, yet with jealous leer maligne Ey'd them askance, and to himself thus plaind.”
John Milton in Paradise Lost (1674).
“Assim disse Eva: conjugal ternura Rutilando-lhe então nos olhos lindos, Ela se entrega a Adão e se lhe encosta, Com transporte submisso, puro e meigo, Ao peito nu que ternamente abraça Jaz reclinada ali; somente a cobrem Das soltas tranças as douradas ondas: De deleites num mar ele nadando, Cativado de tanta formosura, De tanta submissão, de afagos tantos, Com ar de superior está sorrindo, E uma vez e outra vez da esposa os lábios Com puros beijos docemente aperta (Assim com Juno está Júpiter quando Nuvens gera que em maio espalham flores).
Dali Satã de inveja o rosto vira: Mas com torcido olhar, ciumento, ervado, Vê de relance tão ditosa cena. Logo a si mesmo queixa-se dest’arte:”
John Milton in Paraíso Perdido (1674). São Paulo: Martin Claret, 2003, pp. 163-164. Tradução de Antônio José Lima Leitão.

Eva Herzigova fotografada por Vincent Peters in GQ Itália, agosto/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h24
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O REVEZAMENTO DE RICHA E AS ORAÇÕES DE REQUIÃO
“Curitiba tem sido exemplo mundial em planejamento urbano e sistema de transporte coletivo. Teve bons administradores que privilegiaram o lado técnico e a excelência em gestão. É uma corrida de revezamento e cada um vai fazendo sua parte.”
Beto Richa em entrevista a Ana Paula de Carvalho in O Globo, 5/8/2008.
Curitiba apareceu bem na foto do Globo de ontem. Numa série de reportagens sobre “o que muda uma cidade”, depois da reforma do porto de Buenos Aires, das bicicletas de Paris, chegou a vez da Curitiba da “revolução no transporte”, segundo a manchete gigantesca.
Ora, a declaração do prefeito Beto Richa vai em duas direções diferentes. Uma delas, a de que Curitiba sempre teve bons administradores que privilegiaram o “lado técnico e a excelência em gestão”, é muito ruim. Há aqui uma busca em desqualificar a política, como se pudesse existir qualquer decisão técnica que não fosse política. Toda decisão é política. Eu não penso que Curitiba teve bons administradores, eu penso que Curitiba teve bons políticos. Dentre eles, o atual governador do Estado e ex-prefeito Roberto Requião.
Mas, Beto Richa diz também pensar seu trabalho como uma corrida de revezamento. E isso é muito bonito. É isso o que falta ao governador Roberto Requião. Em sua briga permanente contra a “herança” daquele nome que não pode ser pronunciado (para os leitores de outros estados, trata-se de Jaime Lerner), Requião tenta se apresentar como o deus-pai fundador de tudo o que acontece de bom no Estado. Dentro dessa fantasia delirante e maniqueísta, ele chegou ontem a pedir orações pelo rádio estadual para que possa continuar fazendo as denúncias que tem feito. Pedir orações, governador? É aqui que eu entendo melhor o “lado técnico” apregoado por Beto Richa. É que há um modo de fazer política que é o avesso da política. E não é um paradoxo que o homem “mais político” do Estado seja justamente aquele que mais trabalhe contra a política? Pedir orações é demagogia da pior espécie, é a negação da política, é fascismo.
Beto Richa percebe-se dentro de uma corrida, dentro de um revezamento, dentro de uma equipe. Isso é muito bom. Não se trata de demonizar o passado, nem tampouco de esquecê-lo. Trata-se de lidar com esse bastão – ou quem sabe, batata quente – que lhe é passado da melhor forma possível. É uma bela metáfora da política.
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h30
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ENQUANTO ISSO, EM NOVA IORQUE...

Fotografia de Nicole Bengiveno in The New York Times, 4/8/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h18
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COMO RECONHECER UM FASCISTA

Fotografia in Corriere della Sera, 3/8/2008.
Perseguir e criminalizar toda uma etnia, como os ciganos? Pode. Mudar a lei para não ser processado? Pode. Roubar, roubar e roubar? Pode. Seio à mostra em uma obra de Tiepolo? Não pode.
Aconteceu semana passada na Itália. A reprodução da obra-prima de Giambattista Tiepolo, “La Verità svelata dal Tempo” [“A Verdade desvelada pelo Tempo”], localizada atrás da mesa do primeiro ministro da Itália, o canalha e fascista Silvio Berlusconi, foi “retocada” para evitar a visão de um seio. O bisonho retoque já virou piada nacional: “Il Tempo svela, ma Palazzo Chigi vela” [“Enquanto o Tempo desvela, o Palácio Chigi vela”].
Vejam como os fascismos se parecem. Na China, a bunda de uma mulata estremece os pilares de um regime obeso de tanta repressão. Já na Itália, o problema é com os seios. É que os fascismos não lidam bem com a diferença. Não é por outra razão que o patético presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, quando de sua “palestra” na Universidade Columbia em Nova Iorque, declarou não existir homossexuais no Irã. Os fascistas têm pavor da diferença. Quer reconhecer um fascista? É muito fácil. Basta escutar frases como “vestir a mesma camisa”, “pensar igual”, “todos juntos numa mesma direção”, “se adaptar ao mercado”, “essa é a única solução”, “cumprir suas obrigações”, “não se atrasar”, “fazer tudo certinho”, “você tá demitido”. Os fascistas amam a uniformidade, têm orgasmos quando pintam o “chão da fábrica” para que ninguém pise fora da linha e adoram estabelecer padrões de comportamento. Cuidado com os fascistas. Eles estão no meio de nós.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h22
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POSSUÍDO

Claudia Cardinale no set de “8 e ½” de Fellini. Fotografia de Tazio Secchiaroli.
“Quando eu faço meu trabalho, quando sou cineasta, eu sou possuído. Um obscuro morador, que eu não conheço, toma as rédeas, dirige tudo em meu lugar. Eu coloco à sua disposição somente a minha voz, o sentido artesanal e o meu intento de sedução, de plágio ou de autoridade. Mas é o outro quem faz, de fato. O outro com quem convivo, que não conheço diretamente, só de ouvir falar.”
Federico Fellini no documentário de Damián Pettigrew, “Fellini: I’m a Born Liar” [“Fellini, sono un gran bugiardo”, “Fellini: eu sou um grande mentiroso”] (2002).
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h13
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