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A BROADWAY NÃO É AQUI

Reportagem de Carolina Isabel Novaes e fotografia de Custódio Coimbra in O Globo, 19/7/2008.
O caderno Ela do Globo, editado pela indispensável Ana Cristina Reis, fez algo muito lindo. Convidou a carnavalesca Rosa Magalhães para fazer um editorial sobre Machado de Assis. Acompanhada pela jornalista Carolina Isabel Novaes e pelo fotógrafo Custódio Coimbra, eles percorreram algumas ruas e bairros que fizeram a infância de Machado de Assis no Rio de Janeiro, como o Morro do Livramento, a Gamboa, a Saúde, o Santo Cristo, o Morro da Conceição. A edição está um primor de beleza, graça e saudade. Carolina conta que “a família de Machado de Assis morava agregada na chácara de dona Maria José Barroso Pereira, viúva do senador Bento Barroso Pereira, na Rua Nova do Livramento, 131. A chácara hoje virou favela das mais violentas da cidade e lá não existe placa do gênero “aqui nasceu Machado de Assis”, mas é só citar o nome do escritor que os habitantes das redondezas logo se orgulham de dizer: “É, ele nasceu aqui, neste morro””.
Em outro trecho da reportagem, Carolina conta que “José Mocdsi Filho, dono da loja Broadway (o letreiro sustenta um Broa, porque “roubaram as letras”), na Rua Camerino, lembra que seu pai, que fundou a loja em 1934, e o “pessoal das antigas” gostava de contar histórias daquele pedaço da cidade””(fonte: Carolina Isabel Novaes in O Globo, 19/7/2008).
Ora, é muito interessante pensar sobre esses dois trechos. No primeiro, o maior escritor brasileiro não tem direito a uma casa-museu como acontece, por exemplo, no país da Broadway, os Estados Unidos, sem falar na Europa. É aqui que sobressai a ironia do “roubo das letras” do nome da loja da Rua Camerino. É como se os ladrões, com muito senso de humor, dissessem em seu roubo: “aqui não é a Broadway” – tendo em vista que eles deixaram as iniciais “Broa”. O que será que eles fizeram com o “dway”? Neste roubo, eles aportuguesaram o nome da loja, pois “Broa” existe em português e significa também o pão de cada dia. Mas, porque deixaram o pão e levaram o “dway”? “Way” no inglês da Broadway também significa caminho, percurso. Talvez o “my way” dos ladrões, ou melhor “our way”, seja o de não se contentar só com o pão, mas também ter fome de outras coisas – eis aí o “d” do desejo em jogo!!
Bom, se aqui não é a Broadway, por outro lado o fato de não se ter essa placa não elimina o fato dos moradores fazerem do morro inteiro a casa de Machado. E isso é belíssimo. No meio da violência inenarrável, da pobreza mais absoluta, da ausência total do estado e do direito, lá está essa flor da identidade brasileira, essa flor de que, aqui, nesse morro, nasceu Machado de Assis. Há um livramento aí que Machado adoraria – ele que libertou para sempre o Brasil da Broadway.

Na fotografia do centro das páginas, a vista do Morro do Livramento a partir do Morro da Conceição. Modelo encarna uma lavadeira, como foi a mãe da Machado, uma portuguesa vinda dos Açores. Reportagem de Carolina Isabel Novaes e fotografia de Custódio Coimbra in O Globo, 19/7/2008.
Reportagem de Carolina Isabel Novaes e fotografia de Custódio Coimbra in O Globo, 19/7/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h26
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NEOLIBERALISMO

“- Eu gostaria de mudar de vida.”
“- Aproveite as liquidações.”
Fonte: Altan in L’espresso, 18/7/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h34
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VIDA

Fotografia de Evgeny Kornienko.
O mito pede para imaginar homens que estão em uma morada subterrânea, semelhante a uma furna, a uma caverna. Lá estão eles desde a infância, com grilhões nas pernas e no pescoço, imóveis e com o olhar fixo, já que os grilhões os impedem de virar a cabeça. De longe chega-lhes a luz de uma fogueira que arde num local mais alto, atrás deles, e, entre a fogueira e os prisioneiros, há um caminho em aclive ao longo do qual se ergue um pequeno muro semelhante ao tabique que os mágicos põem entre ele e os espectadores quando lhes apresentam suas habilidades.
O mito continua e pede para imaginar homens passando ao longo desse pequeno muro e levando toda espécie de objetos que ultrapassam a altura do muro e também estátuas de homens e de outros animais, feitas de pedra e de madeira, trabalhadas das mais diversas maneiras. Alguns dos que os carregam, como é natural, vão falando, e outros seguem em silêncio. O que vêem esses prisioneiros senão sombras projetadas pela fogueira diante deles na parede da caverna? Assim, declara o mito, homens em tal situação não julgariam verdade outra coisa que não as sombras de objetos fabricados.
O mito pergunta o que significaria para eles a libertação dos grilhões e a cura da ignorância. Se um deles, apenas um, fosse libertado dos grilhões e obrigado a pôr-se de pé de repente e virar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, sofrer agora sob essa luminosidade intensa? E se alguém, pergunta o mito, o arrastasse dali à força pela ladeira áspera e abrupta e não o largasse antes de conseguir arrastá-lo para fora e expô-lo à luz do sol?
O mito diz então que, ao lembrar-se de sua primeira morada, da sabedoria lá existente e de seus companheiros de prisão, ele se felicitaria pela mudança havida mas sentiria compaixão pelos outros, e voltaria para lá.
A verdade é que eu nunca mais voltei. Nunca mais. O contato com essa luz me fez esquecer o retorno, venceu minha compaixão, me libertou da infância para sempre. Luz do sol. Há vida, a vida, havida, ávida, vi.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h56
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IDEOLOGIA

“Estamos desenvolvendo máquinas inteligentes feito homens para homens estúpidos feito máquinas”
Fonte: El Roto in El País, 16/7/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h28
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ENSAIO SOBRE A DIFERENÇA SEXUAL

Epifania de Elliott Erwitt.
“Ela não é uma coisinha doce, um apelo submisso e receptivo à fantasia masculina como quase todos os nus do século XVIII que se possam mencionar. Mesmo sem as roupas (ou, talvez, especialmente sem elas), ela é uma verdadeira maja, forte, atenta, impossível de intimidar. O historiador de arte Fred Licht tinha razão ao observar que olhar para ela evoca uma frase cantada por Marlene Dietrich: Ich kann halt lieben nur und sonst gar nichts – “Só sei amar, nada mais”. Com efeito, acrescenta Licht, “a maja de Goya é o protótipo perfeito de uma mulher peculiarmente moderna que, mais de um século depois, será representada pela protagonista de O Anjo Azul. Goya divorcia sexualidade de amor”.”
Robert Hughes in Goya. São Paulo: Cia. das Letras, 2007, p. 288.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h08
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CONTRA O MAR GELADO

Ao redor de Sigmund Freud, no sentido dos ponteiros do relógio, iniciando em cima, à esquerda: Isabelle Adjani, Fernando Arrabal, Erik Orsenna, Juan José Saer, Lolita Bosch, Catherine Clément e Tahar Bem Jelloun. Arte de Sciammarella in El País, 14/7/2008.
Como responder à violência, à prepotência e ao fascismo? Em 2005 foi publicado na França o livro mais imbecil e nojento já escrito contra a psicanálise, “O Livro Negro da Psicanálise”. É um calhamaço que reuniu mais de quarenta “especialistas” (imagine o que isso quer dizer) que ao longo das páginas destilam seu ódio virulento e pestilento à psicanálise. Ainda não foi publicado no Brasil, mas logo será com a devida reportagem de capa da Veja ou sua irmã mais nova, a Superinteressante. É para breve. Ora, não é fácil lidar com um lixo desses. Pois bem, Bernard-Henri Lévy e Jacques-Alain Miller resolveram reunir em um contra-livro os comentários de artistas, escritores, psicanalistas e intelectuais sobre a sua relação teórico e prática com a psicanálise. O livro se chama “A Regra do Jogo. Testemunhos de Encontros com a Psicanálise”, e acaba de ser editado em espanhol pela Gredos. Hoje, no El País, José Andrés Rojo trouxe alguns desses depoimentos.
“Eu iniciei uma análise em 1972, porque depois de ter visitado Auschwitz, cemitério sem tumbas onde estão meus avós maternos, voltei sem fala”, relembra a filósofa Catherine Clément, que logo esclarece que no divã encontrou o riso, “que me era alheio”, e a maneira de criar seus filhos e superar o Holocausto.(...)
Outros depoimentos, contudo, são mais breves e contundentes. Como o do cineasta Josée Dayan, que se limita a dizer: “Não sou psicanalista, mas, ainda que a psicanálise só tivesse servido para nos dar Woody Allen, eu a bendizeria”. (...)
Ricardo Piglia, um argentino, comenta que a psicanálise é atrativa “porque todos nós desejamos uma vida intensa” e que “em meio a vidas secularizadas e triviais, nos seduz admitir que em algum lugar secreto experimentamos ou estamos experimentando grandes dramas”. E acrescenta: “a psicanálise é, de certo modo, uma arte de natação, uma arte de se manter flutuando no mar da linguagem, quando o que mais tentamos fazer é nos afundar nele”.
Juan José Saer, outro escritor argentino, sublinha que aquilo que Freud fez foi prestar uma homenagem sincera e profunda à poesia, e o fez “porque a análise é uma atividade essencialmente verbal” e porque “a palavra é o único instrumento terapêutico com que conta”.
São muitos os testemunhos de escritores que reconhecem que suas obras têm uma profunda dívida com a psicanálise. Juan José Millás, que não está incluído no livro, escreve em “El Mundo” (ed. Planeta), sua última novela: “Os cinqüenta minutos de sessão significavam cinqüenta minutos de visão. Não era raro que, após abandonar a sessão, eu tivesse que passear uma ou duas horas para digerir o que tinha visto no divã”.
Lolita Bosch, que está incluída no livro, considera que a psicanálise “tem uma capacidade que a literatura quase nunca consegue: deter o tempo e buscar o anterior, o anterior, o anterior”.
Eric Orsenna conta que ele não se deitou no divã, mas se sentou nele: “E chorei, falei, fiz silêncio, balbuciei, retrocedi, caminhei...”. O escritor francês havia buscado um psicanalista porque não tinha um machado. “Eu tinha, tenho, como todo mundo, um mar gelado em mim”, explica Orsenna, e cita Kafka: “O que é um livro? É um machado que mata o mar gelado em nós?”. É a psicanálise esse machado? Ela pode terminar com esse mar gelado?”
Fonte: José Andrés Rojo in El diván como potencia literaria, El País, 14/7/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h47
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O RESUMO DA ÓPERA

Fonte: Marco Aurélio in Zero Hora, 13/7/2008.
E como já dizia aquele esquecido, aquele morto, aquele enterrado, aquele não mais lido, aquele não mais representado, aquele fora de circulação, aquele desatualizado, aquele decadente, aquele que não vai cair na prova, aquele destrambelhado, aquele repetitivo, aquele chato do Bertolt Brecht:
“Melhor que roubar um banco, é fundar um”.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h35
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