Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


CARTAS DE AMOR

Ingrid Bergman e Roberto Rossellini.

Teria começado neste telegrama de 1948?

            “Dear Mr. Rossellini, I saw your films “Open City” and “Paisan,” and I enjoyed them very much. If you need a Swedish actress who speaks English very well, who has not forgotten her German, who is not very understandable in French, and who in Italian knows only ‘ti amo,’ I am ready to come and make a film with you.
                                                            —Ingrid Bergman”

         “Prezado Sr. Rossellini, eu vi seus filmes “Roma Cidade Aberta” e “Paisan”, e gostei muito deles. Se você precisar de uma atriz sueca que fala inglês muito bem, que não esqueceu seu alemão, que não se comunica muito bem em francês, e que do italiano só sabe dizer “Eu te amo”, então eu estou pronta para fazer um filme com você.

         Ingrid Bergman”

            Ou teria iniciado quando ela viu pela primeira vez “Roma Cidade Aberta”? Quando é que começa uma história de amor? Esse telegrama é tão bonito! Uma atriz, de pai sueco e mãe alemã, admira um italiano e diz mais, diz que se ele não se importar dela só saber dizer “eu te amo” em italiano, ela está pronta para deixar seu casamento, deixar sua pátria, deixar sua terra, deixar suas línguas só por esse “ti amo”, só para viajar com ele, estar com ele, viver com esse estrangeiro que lhe capturou o olhar, lhe deu uma vida nova antes mesmo de qualquer resposta, antes de qualquer decisão, antes de qualquer abertura. Ou será que ela não viu nesses filmes uma carta de amor dirigida à ela, à sua história, à suas inquietações, à sua existência? “Eu estou pronta”, ela diz, “eu estou pronta”. “Se você precisar”, ela diz, “se você precisar”. “Eu te amo”, ela responde, “eu te amo”. Só isso.

 

                 

Ingrid Bergman no filme “Stromboli” de Roberto Rossellini.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h10
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A PIOR ARMA DE GUERRA

Fonte: Zero Hora, 11/7/2008.

É hora de invadir o Irã. Ontem ficou provado o que já se desconfiava. Os iranianos copiaram do Ocidente sua maior arma de guerra: o photoshop. Quem os iranianos pensam que são? Desse jeito, logo logo estarão ocupando países vizinhos. Um horror. É hora de invadir o Irã. Já dominam o photoshop? Invasão já!

Fonte: Slide 39 da apresentação do então Secretário da Defesa dos Estados Unidos, Sr. Colin Powell, perante o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) em 5/2/2003, para apresentar evidências sobre a existência de Armas de Destruição em Massa no Iraque – justificativa do governo norte-americano para ordenar a ocupação do país. Meses depois, Colin Powell iria considerar esta apresentação como uma das piores decisões de sua vida, pois o material apresentado era falso.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h36
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ESTRANGEIROS

Entrada da Finca Vigía, residência onde Ernest Hemingway viveu durante 21 anos, a 21 km. de Havana. Fotografia Getty Images/AFP.

         O filme é maravilhoso. Se chama “Memórias do Subdesenvolvimento”,  e foi dirigido por Tomás Gutiérrez Alea baseado no livro homônimo de Edmundo Desnoel, traduzido agora pelo Memorial da América Latina. Esse filme deveria passar vinte e quatro horas por dia em um telão no centro de todas as cidades brasileiras, todos os dias. Não preciso dizer que ele deveria virar cadeira em todas as universidades, em todos os anos: Memórias I, Memórias II e assim por diante. Uma obra-prima dever ser relida, revista, transcrita, repensada, todos os dias da vida. O que Tomás Gutiérrez Alea fez nesse filme se chama epifania. É de chorar de tão lindo, de tão emocionante, de tão revolucionário. E agora sai o livro em português! Mas é para se comemorar demais isso!!

         Hoje no Estado de São Paulo, o indispensável Luiz Zanin Oricchio escreveu uma das páginas mais belas da história da crítica literária. Termina assim essa memorável reflexão:

         Desnoes adota uma narrativa em primeira pessoa. Sergio é essa consciência encapsulada, que tenta entender o que lhe acontece - e ao mundo -, registrando seus pensamentos em um diário. E é assim que lemos Memórias do Subdesenvolvimento - como as páginas de um diário íntimo escritas por um desgarrado da existência. Essa sensação de estranhamento é a que acompanha o leitor da primeira à última página. Por isso, Sergio faz uma constatação curiosa ao visitar o Museu Hemingway, na Finca Vigía, perto de Havana, onde ele morou alguns anos.

Ter servido de residência ao Prêmio Nobel Hemingway é um dos orgulhos de Cuba. No entanto, ao visitar a velha casa do escritor, transformada em museu, Sergio constata a existência de toda uma série de objetos - troféus de caça, livros em inglês, fotos espanholas, cartazes de touradas, botas para caçar na África - para concluir: ''Cuba nunca interessou a Papa Hemingway.'' Estava lá sem estar. Em Hemingway, Sergio vê a si mesmo. Ele é um estrangeiro em seu próprio país.”

         Fonte: Luiz Zanin Oricchio in Um estrangeiro vivendo em seu próprio país, O Estado de São Paulo, 10/7/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h24
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DANÇA

“Darkness and Light”, Pilobolus no Joyce Theater, 175 Eighth Avenue, at 19th Street, Chelsea, Nova Iorque, até 26 de julho. Fotografia de Ruby Washington in The New York Times, 10/7/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h51
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SINAL DE VIDA NA CASA BRANCA

Fonte: O Globo, 9/7/2008.

                Há vida na Casa Branca. Depois de oito anos de devastação, oito anos de horror, oito anos de incompetência, oito anos de perversidade, oito anos de totalitarismo, oito anos de abolição de direitos humanos básicos, oito anos de estado de exceção, oito anos jogados fora, eis que o inconsciente está de pé, o inconsciente não é apagado com decreto, não é atingido por balas de canhão, o inconsciente escapa dos satélites, foge das amarras e censuras, o inconsciente é o pedaço de vida que restou na Casa Branca. Ainda. Podem pedir desculpas, podem voltar atrás, podem desmentir, podem estender o tapete vermelho, podem soltar mais dinheiro, podem prender e torturar mais gente inocente, podem dizer que foi sem querer. Há vida na Casa Branca.

 

“15 reféns libertados na Colômbia”

“250 reféns continuam presos em Guantánamo”

Fonte: Clay Bennett in Chattanooga Times Free Press, 8/7/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h32
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PODER

A frase é magnífica. O desabafo é espetacular. Eis aqui uma presidente às voltas com um ex-marido que já foi presidente. Será que Hillary não deveria ter feito isso em sua campanha? Será que Yeda Crusius no Rio Grande do Sul não deveria ter feito isso com seu marido? Será que Marta Suplicy não deveria...É uma frase divisora de águas, é uma daquelas frases que marcam a história de um país:

“¡La Presidenta soy yo, carajo!”

Agora, será uma frase verdadeira? Será que alguém que chega à presidência da república “vira” presidente por causa disso? Basta um nome para alguém se tornar aquilo que o nome diz?

“¡La Presidenta soy yo, carajo!”

Frase magnífica. Quem é que manda de verdade em um país, em um estado, quem é que manda no mundo? Aliás, essa foi a capa da excelente The Economist desta semana. Entre a capa da The Economist e a frase de Cristina Kirchner, eu fico com Cristina.

“¡La Presidenta soy yo, carajo!”

Magnífica frase! Magnífica!! O poder gira em torno dos que têm ou não têm...carajo!

 



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h20
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OSTRAS


“Dora et le Minotaure”, Pablo Picasso, 1936 – Musée Picasso, Paris – ©Succession Picasso 2001.


 “Uma mulher se detém diante de um quadro de Picasso, em uma mostra em Paris. Ela não consegue parar de admirá-lo. “Que tal, gostou?”, a surpreende o artista espanhol. “Sim, muito...mas não o entendo”, responde ela. Após um incômodo silêncio, Picasso continua:


         - Você gosta de ostras?


         - Sim, adoro.


         - E o que você sabe sobre a vida delas?


         “Sempre eu conto essa anedota, que, se não é verdadeira, deveria ser. Porque ela tem a ver com o problema da intelectualização da arte”, diz Pablo Temes.”


         Fonte: Celina Chatruc, Del sueño a la poesia in La Nacion, 5/7/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h58
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O ELOGIO DO DESCONTROLE

Fotografia de Walter Carvalho.

                Luciana Pessanha foi entrevistar o gigante Walter Carvalho. Em uma entrevista memorável, Walter dá uma aula magistral sobre fotografia, cinema e direção. Aula não. O que Walter faz nessa entrevista vale um curso inteiro de doutorado. Epifânico! De repente, Luciana pergunta, à queima roupa, o que é que faz um bom diretor de cinema. E aí, Walter fala com Luciana o seguinte, porque Walter não foi ali para responder nada, ele foi ali para conversar, para bater papo, para jogar conversa fora, para singrar pelos mares da palavra, à deriva, remando por aí, erguendo as velas por aqui:

                “Eu tô procurando saber. O que o Bergman fazia para fazer tantos filmes bons? O Godard? Por que o Glauber era tão bom? É uma incógnita. Um mistério que se dá à medida que várias coisas convergem para um só ponto e você não controla. Porque, se controlar, não faz. A coisa boa vem também do descontrole. Do ímpeto. O diretor não é só o senhor da situação, o ímpeto e o descontrole trazem uma carga grande de criatividade. E cinema é muita camisa suada. Tem que suar muito para impor a sua visão”

         Fonte: entrevista de Walter Carvalho a Luciana Pessanha in Revista O Globo, 6/7/2008.  



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h34
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